“Milhões” tem flexão de gênero?

Bom dia, Prof. Aldo! Tenho ouvido várias vezes no rádio e na TV jornalistas dizerem “duzentas milhões de pessoas”, “quinhentas milhões de vacinas”, etc. Essa concordância está correta? É que soa mal aos meus ouvidos. Obrigado.
Raul Teixeira de Mello

Caro Raul, também soa mal aos meus ouvidos. Mas a questão não deve ser se essa concordância soa bem ou mal e sim se ela tem justificativa gramatical ou não. Quando algo soa mal aos nossos ouvidos, isso pode ser indício de que, de fato, há um erro gramatical. No entanto, uma força tão poderosa quanto a escola e seu ensino de gramática normativa são os modismos linguísticos.

De fato, de algum tempo para cá pessoas andam fazendo essa concordância estranha entre numeral e substantivo. E como a evolução linguística começa sempre com uma inovação feita por um único falante que vai pouco a pouco contagiando os demais até tornar-se onipresente, não dá para prever se essa nova maneira de concordar se generalizará e virará norma ou se será apenas mais um modismo passageiro como tantos que já tivemos.

O fato é que alguns numerais em português admitem flexão de gênero e por isso concordam com o substantivo que quantificam. É o caso de “um/uma”, “dois/duas”, “duzentos/duzentas”, “trezentos/trezentas”… até “novecentos/novecentas”. Também os milhares admitem essa flexão, já que um milhar é formado por um numeral entre “um” e “novecentos e noventa e nove” seguido da palavra “mil”. Temos então “dois mil/duas mil”, “duzentos mil/duzentas mil”, e assim por diante.

No entanto, até o momento nenhuma gramática admite o mesmo tipo de flexão quando se trata de “milhão/milhões”, “bilhão/bilhões”, etc. É por isso que não dizemos “uma milhão de pessoas”, ou seja, o cardinal entre “um” e “novecentos e noventa e nove” deve concordar com a palavra “milhão/milhões” e não com o substantivo subsequente.

Ora, se é errado dizer “uma milhão”, é igualmente errado dizer “duas milhões” ou “duzentas milhões”. Afinal, “duas” ou “duzentas” neste caso quantifica “milhões” e não “pessoas” ou “vacinas”.

No entanto, é bem provável que esse modismo se espalhe, ainda mais que está sendo impulsionado por formadores de opinião como os jornalistas, e qualquer dia desses venha a ser abonado por algum gramático. É que muitos gramáticos normativos não entendem que a norma-padrão da língua, por ser uma variedade artificialmente construída apenas para uso formal (ou, dito de outro modo, ninguém fala no dia a dia conforme essa gramática), esta deveria primar pela simplicidade, racionalidade, uniformidade e generalidade das regras, evitando exceções desnecessárias. Em vez disso, tais gramáticos acabam abonando certos usos injustificáveis segundo a lógica apenas porque se tornaram difundidos.

Felizes são os falantes de línguas como, por exemplo, o inglês, o francês, o italiano e o alemão, que não admitem flexão de gênero em numerais exceto para “um/uma” (em inglês nem isso).

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