O pronome inventado

É possível inventar um pronome? Certas categorias de palavras são inventários fechadíssimos, cujas unidades, herdadas de uma língua ancestral, estão lá desde sempre, e nos quais nenhuma nova unidade pode entrar. Dentre essas categorias estão os numerais (pelo menos os de um a três), os nomes das partes do corpo e os pronomes, principalmente os demonstrativos e os pessoais.

Por isso, pesquisas filogenéticas, que tentam reconstituir as árvores genealógicas das línguas, costumam usar essas palavras para determinar com segurança o parentesco entre dois idiomas. Sendo quase nula a possibilidade de esses termos passarem de uma língua a outra por empréstimo, se duas línguas apresentam formas aparentadas dessas palavras, provavelmente pertencem à mesma família.

Alguns pronomes até podem surgir ao longo da história da língua. Na verdade, eles evoluem a partir de outros pronomes. É o caso de “você”, que proveio do antigo pronome de tratamento “vossa mercê”. Mas não se trata de empréstimo, muito menos de invenção.

Apesar disso, o sueco ganhou na década de 1960 um novo pronome pessoal: trata-se do hen, proposto por linguistas com o objetivo de neutralizar a oposição masculino/feminino numa época dominada pelos movimentos feministas e de direitos civis, em que o uso do gênero masculino em expressões como “ser humano” era malvisto. (Reflexos disso se encontram até hoje em expressões como “brasileiras e brasileiros”.)

Em sueco, há quatro gêneros gramaticais – e consequentemente quatro pronomes pessoais: masculino (pronome reto han), feminino (hon), comum (den) e neutro (det). Praticamente todas as palavras dessa língua pertencem ao gênero comum (chamado de realgenus em sueco); o masculino e o feminino são reservados a seres animados, especialmente humanos, cujo sexo está determinado (portanto, “pessoa”, “animal”, “vítima”, etc., são do gênero comum). As palavras neutras formam uma pequena classe de substantivos abstratos ou inanimados que, por razões históricas, não foram incorporados ao realgenus.

Porém, em qualquer língua em que haja distinção de gênero, há casos em que é preciso falar de alguém cujo sexo não se sabe, mas que seria deselegante tratar por um pronome neutro. Em inglês, por exemplo, seria absurdo usar o pronome it para referir-se a uma pessoa que se desconhece se é homem ou mulher. Por isso, as línguas tentam contornar essa dificuldade inventando formas gráficas que camuflem a distinção.

Em português, inúmeras cartas se iniciam por um “Prezado(a) Senhor(a)”. (Um modismo idiota vem utilizando, sobretudo na internet, o sinal “@” para desfazer a oposição de gênero: “querid@s amig@s”.) Pior ainda é o uso de “x”, que torna as palavras impronunciáveis: “queridxs amigxs”.

No inglês, é comum empregar he or she (“ele ou ela”) para expressar o chamado gênero complexo (isto é, ao mesmo tempo masculino e feminino, abarcando homens e mulheres). Uma versão piorada desse estratagema é a grafia (s)he. Em textos informais, usa-se atualmente they (“eles” ou “elas”) para neutralizar a oposição de gênero, mesmo que o referente seja singular.

Outra estratégia do inglês foi adotar o termo chairperson para designar o cargo de presidente, já que o tradicional chairman contém o elemento man, “homem”, remontando aos tempos em que todos os dirigentes eram homens. (O nosso “Presidenta” vai na direção oposta.)

O próprio sueco já adotava grafias estranhas para neutralizar han e hon: h*n, h?n, h_n, haon, hoan, todas reprovadas pela gramática. E a maioria delas impossível de pronunciar. O fato é que não se faz uma mudança na língua “de cima para baixo”, a partir de uma criação de laboratório, sem provocar estranheza nos falantes – e, acima de tudo, muita polêmica. O resultado prático é que o hen acabou abandonado pouco após sua criação, até que, em 1994, o linguista Hans Karlgren o propôs novamente como um pronome neutralizador de gênero para determinadas situações de escrita. Em 2009, hen aparece na Enciclopédia Nacional Sueca descrito como pronome pessoal neutro a ser usado em lugar de han e hon. E em 2012 Jesper Lundqvist lançou o livro infantil Kivi och Monsterhund (“Kivi e o cachorro-monstro”, sem tradução para o português), em que utiliza hen para falar às crianças sem discriminá-las entre meninos e meninas.

Segundo Susanna Karlsson, chefe do Språkrådet (Conselho da Língua), o polêmico pronome serve para disseminar a ideia de igualdade. Não só a igualdade entre homens e mulheres, mas também a de pessoas transgênero. No que é contestada por seu colega Mikael Parkvall, para quem a ideia de que a língua determine o pensamento, embora popular, é bastante questionável em termos científicos. “O laço entre o idioma e o pensamento não é especialmente forte e não se torna mais paritário só porque se utiliza um pronome neutro”, diz.

Para Sven-Göran Malmgren, redator do dicionário da Academia Sueca, “não há um único exemplo no mundo em que um pronome tenha sido inventado e depois imposto”. A própria inclusão da palavra nas próximas edições do mais prestigioso dicionário do idioma depende da adesão popular ao termo. O que, até o momento, parece não estar acontecendo. Segundo pesquisa realizada pelo jornal Aftonbladet, 96% das pessoas entrevistadas não utilizam hen nem acreditam que se possa construir uma sociedade igualitária pela simples invenção de palavras.

Jacaré fêmeo e cobra macha

Em 2013, quando eu mantinha um blog no portal da extinta revista Língua Portuguesa, o leitor Jota Paschoal me enviou a seguinte pergunta: “Se o adjetivo segue o gênero do substantivo (menina bonita, rapaz malvado), então é correto dizermos ‘jacaré fêmeo’ e ‘cobra macha’?”. Como outro leitor, Patrick Medeiros, me pede agora para republicar a resposta, aqui vai.

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Como na canção Macha, Fêmeo, de Arnaldo Antunes, os adjetivos “macho” e “fêmeo” admitem flexão de gênero e número. No dicionário Houaiss, “macho” é definido como “relativo ou próprio do sexo masculino”, e “fêmeo” (assim mesmo, no masculino, como costuma ser a entrada de todos os adjetivos no dicionário) define-se como “relativo a fêmea ou a mulher” e também “diz-se de qualquer objeto que se ajusta a outro, que nele penetra (o macho)” e exemplifica com “tomada fêmea” (mas poderíamos ter também “plugue fêmeo”).

A estranheza se dá pela confusão que por vezes se faz entre gênero gramatical e sexo biológico. É o caso do adjetivo “grávido”, que parece incoerente com o fato de que somente fêmeas engravidam. No entanto, nesse caso é possível pensar em machos grávidos (por exemplo, o cavalo-marinho é uma espécie de peixe em que é o macho quem gesta as ovas) ou empregar o termo em sentido metafórico: muitos maridos se dizem grávidos enquanto suas esposas é que esperam o bebê. Há até uma peça teatral em cartaz atualmente com esse título. Grávido também é o nome de uma canção que Gonzaguinha compôs durante a gestação de sua mulher.

Mas voltando à questão levantada pelo amigo Jota Paschoal, por que dizemos “jacaré-fêmea” e “cobra-macho”? Como se sabe, os nomes de alguns animais são substantivos epicenos ou comuns de dois gêneros (embora algumas pessoas erradamente façam o feminino de “jacaré” como “jacaroa”), o que torna necessário lançar mão de um expediente morfológico para distinguir os gêneros. Esse expediente consiste em formar uma palavra composta com os substantivos “macho” e “fêmea”. E aí está a explicação de por que não se diz “jacaré fêmeo” ou “cobra macha”: é que “macho” e “fêmea” neste caso são substantivos e não adjetivos. É por isso também que tais palavras se escrevem com hífen.

Ou seja, “jacaré-fêmea” é a fêmea do jacaré; “cobra-macho” é o macho da cobra, e assim por diante. Entretanto, não está errado dizer “este jacaré é fêmeo” ou “esta cobra é macha”. Só que, dado o conflito entre gênero e sexo acima mencionado, prefere-se dizer “este jacaré é (uma) fêmea” e “esta cobra é (um) macho”. Em outras palavras, prefere-se empregar o substantivo no lugar do adjetivo. Isso se aplica até a “mulher-macho”, como na canção eternizada por Luiz Gonzaga.

Questão de gênero

Atualmente, usam-se cada vez mais expressões como “questão de gênero” quando se debatem problemas relativos à discriminação e aos direitos das mulheres, dos homossexuais e dos transexuais (já correntemente chamados de “transgêneros”). Já que não se trata de questão linguística, mas de diferença e discriminação entre os seres humanos quanto a seu sexo, é apropriado o uso da palavra “gênero” nesse caso?

Nota-se, de algum tempo para cá, a tendência a empregar a palavra “gênero”, antes reservada ao discurso da gramática, no sentido de “sexo” (masculino ou feminino). Existe uma óbvia diferença entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Afinal, alguns idiomas atribuem gênero masculino ou feminino a substantivos inanimados ou assexuados, enquanto outros atribuem gênero neutro a esses substantivos ou então prescindem completamente da noção de gênero. Mesmo em línguas que fazem essa distinção, o gênero gramatical não necessariamente coincide com o sexo biológico: em alemão, por exemplo, Mädchen (“menina”) é do gênero neutro.

De onde veio, então, essa tendência a usar “gênero” em lugar de “sexo”? Vários fatores concorreram para isso.

Em primeiro lugar, a ambiguidade da palavra “sexo”, que tanto pode se referir à distinção masculino/feminino quanto ao ato sexual. (Há até algumas anedotas brincando com essa ambiguidade, como a do sujeito que, ao preencher um formulário, respondeu: nome – José da Silva; idade – 38 anos; sexo – 7 vezes por semana.)

Em segundo lugar, há uma pitada de “politicamente correto” nessa história, já que “gênero” seria, supostamente, uma palavra mais “neutra”, sem conotações sexistas.

Em terceiro lugar, temos a influência do jargão acadêmico, já que esse emprego surge primeiramente em textos de sociologia e antropologia, sobretudo em inglês. Aliás, é cada vez mais comum nos países de língua inglesa o uso de gender em lugar de sex em formulários e cadastros, tanto que o biólogo britânico Richard Dawkins, o maior evolucionista da atualidade, se levanta contra esse uso no livro Desvendando o arco-íris, até porque “gênero” em biologia designa outro conceito, o de subgrupo que reúne várias espécies de uma mesma família (por exemplo, o gênero Homo, ou gênero humano).

Ou seja, se um cientista do porte de Dawkins considera equivocado esse emprego, é algo a ser seriamente considerado. Outro dado a ser levado em conta é que a maioria dos dicionários ainda não abonou o emprego de “gênero” nessa acepção, exceto no discurso das ciências sociais. Daí porque, do meu ponto de vista, a acepção de “gênero” como “sexo” ainda está restrita ao jargão sociológico. Só que é cada vez mais comum que termos técnicos escapem do universo estritamente acadêmico para invadir até os bate-papos de boteco. Foi assim que “neurose” e “esquizofrênico” deixaram há muito de ser termos exclusivos do ambiente médico.

Em resumo, quando se emprega numa conversa ou em matéria jornalística a expressão “questão de gênero”, faz-se óbvia referência ao discurso sociológico. Não dá para dizer que esse uso está errado; no entanto, em hipótese alguma se pode afirmar que o emprego de “questão de sexo” esteja. Qualquer objeção nesse sentido não passa de patrulhamento ideológico.