A norma culta do futuro

Que a língua ela evolui todo mundo sabe. E que a gramática normativa, mais cedo ou mais tarde, ela acaba mudando também pra acompanhá a evolução da língua todo mundo também já sabe. Então por que que a gente não começa desde já a escrevê na norma culta do futuro, aquela que vai sê usada daqui uns cem, duzentos ano?

Cê pode achá esse meu exercício de futurologia meio esquisito, mas eu aposto de que é assim que as gerações futura vão redigi textos culto. Não vai mais tê tempo futuro sintético, só o analítico, não vai mais tê o verbo “haver” e talvez nem tenha mais concordância verbal e nominal, ou seja, as palavra não vai mais precisá sê flexionada no singular e no plural, a não sê a primeira palavra da oração.

Em compensação, vai tê concordância de numeral (duas milhões de vacina), e os infinitivos pessoal vão concordarem sempre com os sujeito. Os verbo vão sê facílimo de conjugá: eu sô, cê é, ele é, a gente é, cês são (ou é), eles são (ou é). Cês viram que moleza vai sê?

Os sujeito eles vão sê sempre duplo, que nem nessa mesma frase. Aliás, os demonstrativo “este”, “esta”, “estes”, “estas” eles vão sê puro arcaísmo. Ninguém mais vai escrevê como o Machado de Assis, o José de Alencar, ou mesmo o Jorge Amado e a Raquel de Queiroz. Escrevê que nem o Rui Barbosa, nem pensá!

Cê deve tá achando esse meu artigo bem provocativo, e é essa mesmo a intenção dele. Afinal, a língua da gente, isto é, a língua portuguesa do Brasil, que até lá ela já vai sê língua brasileira, divorciada do idioma de Portugal, já tá hoje mesmo dando sinais de como ela vai sê no futuro, e não só na fala, mas também na escrita. Afinal, o Brasil ele é e sempre vai sê o país do futuro, como disse certa vez o Stefan Zweig, e por isso a língua dele também tem que caminhá sempre pro futuro e não se apegá no passado. Pra onde a língua tá indo, e em que lugar a gente vai chegá eu não sei, mas eu preciso falá pra vocês de que não adianta nada nadá contra a corrente, porque o trem da história e da evolução passa e atropela quem se pôr na frente dele.

A minha hipótese é de que um dia todes vão falá e escrevê assim. Pelo menos tem vários linguista atualmente que eles pensam que nem eu. Pra gente escrevê bem e com correção textos culto e formal, a gente vai tê que aprendê a dominá a norma-padrão e, consequentemente, a gramática normativa. Que eu acho que vai sê mais ou menos assim como eu tô escrevendo nesse momento.

Eu e você a gente pode até não concordá com isso hoje em dia, mas o que que se pode fazê? A língua ela muda inexoravelmente (será que essa palavra ela ainda vai existi?). E quem que vai sabê dizê se daqui um ou dois século não vai sê essa a forma mais correta e elegante de se expressá? Até porque, se a norma culta for assim, é porque a norma coloquial vai sê ainda mais futurista. Cês não acha?

“Milhões” tem flexão de gênero?

Bom dia, Prof. Aldo! Tenho ouvido várias vezes no rádio e na TV jornalistas dizerem “duzentas milhões de pessoas”, “quinhentas milhões de vacinas”, etc. Essa concordância está correta? É que soa mal aos meus ouvidos. Obrigado.
Raul Teixeira de Mello

Caro Raul, também soa mal aos meus ouvidos. Mas a questão não deve ser se essa concordância soa bem ou mal e sim se ela tem justificativa gramatical ou não. Quando algo soa mal aos nossos ouvidos, isso pode ser indício de que, de fato, há um erro gramatical. No entanto, uma força tão poderosa quanto a escola e seu ensino de gramática normativa são os modismos linguísticos.

De fato, de algum tempo para cá pessoas andam fazendo essa concordância estranha entre numeral e substantivo. E como a evolução linguística começa sempre com uma inovação feita por um único falante que vai pouco a pouco contagiando os demais até tornar-se onipresente, não dá para prever se essa nova maneira de concordar se generalizará e virará norma ou se será apenas mais um modismo passageiro como tantos que já tivemos.

O fato é que alguns numerais em português admitem flexão de gênero e por isso concordam com o substantivo que quantificam. É o caso de “um/uma”, “dois/duas”, “duzentos/duzentas”, “trezentos/trezentas”… até “novecentos/novecentas”. Também os milhares admitem essa flexão, já que um milhar é formado por um numeral entre “um” e “novecentos e noventa e nove” seguido da palavra “mil”. Temos então “dois mil/duas mil”, “duzentos mil/duzentas mil”, e assim por diante.

No entanto, até o momento nenhuma gramática admite o mesmo tipo de flexão quando se trata de “milhão/milhões”, “bilhão/bilhões”, etc. É por isso que não dizemos “uma milhão de pessoas”, ou seja, o cardinal entre “um” e “novecentos e noventa e nove” deve concordar com a palavra “milhão/milhões” e não com o substantivo subsequente.

Ora, se é errado dizer “uma milhão”, é igualmente errado dizer “duas milhões” ou “duzentas milhões”. Afinal, “duas” ou “duzentas” neste caso quantifica “milhões” e não “pessoas” ou “vacinas”.

No entanto, é bem provável que esse modismo se espalhe, ainda mais que está sendo impulsionado por formadores de opinião como os jornalistas, e qualquer dia desses venha a ser abonado por algum gramático. É que muitos gramáticos normativos não entendem que a norma-padrão da língua, por ser uma variedade artificialmente construída apenas para uso formal (ou, dito de outro modo, ninguém fala no dia a dia conforme essa gramática), esta deveria primar pela simplicidade, racionalidade, uniformidade e generalidade das regras, evitando exceções desnecessárias. Em vez disso, tais gramáticos acabam abonando certos usos injustificáveis segundo a lógica apenas porque se tornaram difundidos.

Felizes são os falantes de línguas como, por exemplo, o inglês, o francês, o italiano e o alemão, que não admitem flexão de gênero em numerais exceto para “um/uma” (em inglês nem isso).

Extremismos na língua e o “caminho do meio”

Como todos sabemos e sentimos, o Brasil atravessa uma excruciante polarização política entre extremos. Cada uma de seu lado, esquerda e direita se digladiam em defesa de suas ideologias enquanto a maioria silenciosa, adepta da moderação e do equilíbrio, permanece tal, silenciosa – ou melhor, silenciada pela grita histérica que se eleva das extremidades do espectro político.

Pois a mesmíssima coisa está ocorrendo neste momento no âmbito da língua. Temos de um lado uma esquerda radical, com sua neutralização de gênero, seu “todos, todas, todes e todxs”, sua defesa incondicional do “se deu pra intendê, tá tudo certo” e outras bandeirolas ideológicas; de outro, temos os guardiães da tradição, que veem a norma-padrão do idioma como entidade metafísica, sacrossanta, impoluta e inquestionável, e que advoga a normatização gramatical com base na tradição pré-científica que remonta à Grécia antiga e no uso da arte literária em lugar da ciência como parâmetro para essa normatização.

O grande “muso” da extrema esquerda, o super-herói defensor dos fracos e oprimidos da língua é Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, que, embora o negue, é o paladino do vale-tudo linguístico, o salvador das variedades estigmatizadas, vítimas do preconceito linguístico (conceito que ele mesmo criou), um sujeito que diz coisas como “o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado” ou “toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo”, ou ainda “a norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe! Saber falar o ‘bom português’ nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia”.

No outro extremo, cujo pontífice é o finado Napoleão Mendes de Almeida, temos os gramáticos normativos tradicionalistas, cujo método de descrição gramatical remonta a Dionísio, o Trácio (séculos II-I a.C.) e sua Tekhné Grammatiké (“Arte Gramatical”), e cujo corpus de onde extraem os modelos de “língua exemplar” são as obras dos grandes literatos, especialmente os clássicos.

Para esses gramáticos puristas, a palavra de ordem é tradição; ou seja, devemos falar e escrever como nossos antepassados o fizeram e como o fazem os mais ilustres prosadores de nosso idioma, especialmente os ficcionistas, aqueles que levam a língua ao “estado mais puro de arte” e fazem malabarismos linguísticos como “fá-lo”, “fê-lo”, “fi-lo”, “pô-lo”, “pu-lo” ou mesmo “qué-lo” (outra variante seria “quere-o”), sem falar nas mesóclises do tipo “dar-lho-ás” e “dir-no-los-ia”.

Enquanto isso, os pobres mortais que apenas desejam – ou pior, têm por obrigação – redigir textos formais e para os quais a norma-padrão tem valor meramente operacional, isto é, como ferramenta de trabalho e não de criação artística, se veem diante de um emaranhado pouco lógico de regras e exceções, de definições francamente falhas porque não científicas (“sujeito é aquele de quem se declara algo” ou “é o autor da ação”; “os termos essenciais da oração são sujeito e predicado” – só que existem orações sem sujeito, e por aí vai).

Ou seja, para uma maioria “de centro”, tanto política quanto linguisticamente, nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem a abolição total da norma-padrão e sua substituição pelo “cada um fala como pode e como qué” nem a idolatria de uma norma anacrônica, pedante mesmo, vista como sagrada.

O fato é que as línguas mudam com o tempo (a isso se chama evolução), e a norma-padrão também precisa ser atualizada periodicamente. Como instrumento de comunicação formal que deve ser, sobretudo, funcional, ela tem de ser estabelecida com base no conhecimento científico e não nos arroubos estéticos de escritores que, por mais prestigiados que sejam, também erram (José de Alencar, por exemplo, costumava separar sujeito e predicado por vírgula). Ela deve ter como norte a simplicidade, regularidade e racionalidade. Nesse sentido, gramáticos que abonam certas construções que tornam a regra mais complexa e criam exceções de difícil explicação apenas porque um grande literato as usou prestam um grande desserviço à língua e seus usuários.

Da mesma forma, linguistas “progressistas” que defendem a incorporação à norma de certos usos populares que irregularizam o que até então era regular apenas porque tais usos são isso mesmo, “populares” – e é preciso valorizar a fala do povo para ser um verdadeiro democrata, não é mesmo? – igualmente mais atrapalham do que ajudam.

A realidade é que nossa norma-padrão precisa, sim, ser atualizada, racionalizada e simplificada, da mesma maneira como o fizeram nos últimos cem anos outras línguas neolatinas, notadamente o espanhol e o italiano. Precisamos, sim, de gramáticas normativas que incorporem o método científico e substituam definições, categorias e terminologias ultrapassadas por outras, sustentadas por dados e modelos fornecidos pela ciência.

Mas também é fato que precisamos da norma-padrão, pois nenhuma língua de cultura existe sem ela, e é ela que garante a intercomunicação dos variados grupos que constituem a sociedade sem que haja mal-entendidos, seja em nível profissional, acadêmico ou mesmo prático, como num manual de instruções, por exemplo. É ela que nos dá acesso a direitos e à cidadania; é ela que permite ascensão social a quem não sabe jogar futebol nem cantar pagode; é ela que nos possibilita ler e entender o que lemos; é ela que nos permite redigir e ser compreendidos.

Por via de consequência, a posição “centrista”, de bom senso, livre de extremismos demagógicos, é a que defende ambos os movimentos: de um lado, através da educação, a aproximação dos falantes à gramática normativa; de outro, por meio da reforma desta, a aproximação da gramática aos falantes. É pena que, nesse ambiente radicalizado em que vivemos, a voz da sensatez e da razoabilidade não esteja sendo ouvida.

Mitos e verdades sobre a linguística – e os linguistas

A linguística já tem 200 anos de existência, mas ainda é uma ciência pouco conhecida da maioria das pessoas. De fato, muitas delas acreditam que a única disciplina que se ocupa da língua é a gramática, já que é a única que se estuda no ensino básico.

Consequentemente, nós linguistas somos muitas vezes confundidos com gramáticos ou professores de português. Não raro, quando digo que sou linguista, a pessoa fica imediatamente constrangida e diz: “Puxa, então a partir de agora eu preciso me policiar para não falar errado na sua frente”. Na coluna Pergunte ao Linguista deste blog, a maioria das perguntas que recebo diz respeito à famosa dicotomia certo x errado ou traz dúvidas de gramática normativa. Até aí, tudo bem: se sei a resposta, respondo; se não sei, pesquiso; se está totalmente fora da minha área de atuação profissional, me desculpo, e pronto.

Mas, mesmo aqueles que têm alguma noção do que venha a ser a linguística revelam por vezes certas crenças equivocadas que lhes foram inculcadas ou por professores de português mal (in)formados ou por divulgadores da linguística pouco preparados (e, sim, há muitos divulgadores científicos na área da linguística, mas a maioria são estudantes de graduação ou pós-graduação, portanto profissionais ainda não totalmente formados, com pouca experiência profissional e sobretudo com pouca maturidade).

Decorrência disso é que há muitos mitos cercando a nossa profissão. Por isso, resolvi aqui discutir alguns deles e tentar esclarecer o que há de verdade e o que há de fantasia em cada um.

Primeiro mito: a linguística só estuda a língua falada, especialmente no registro coloquial; a língua escrita formal é território exclusivo da gramática normativa. Na verdade, durante todo o século XIX, em que a pesquisa linguística foi basicamente histórica, os linguistas se debruçaram sobre os únicos registros existentes de estados passados das línguas, e estes eram todos documentos escritos. Foi só no início do século XX, a partir da obra de Ferdinand de Saussure, que a linguística se voltou mais à língua falada, até porque 96% das línguas do mundo não têm expressão escrita (são as chamadas línguas ágrafas). Em outros dois artigos (A importância da escrita na pesquisa linguística e Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?), no entanto, já expliquei que a modalidade escrita da língua é objeto legítimo da linguística tanto quanto a língua oral. Isso continua valendo para os estudos históricos, mas também para a análise do modo como as pessoas escrevem hoje em dia. E isso tem implicações no ensino da língua. Aliás, a linguística pode contribuir muito com os gramáticos normativos, ortógrafos e educadores, fornecendo-lhes subsídios científicos para guiar suas tarefas técnicas.

Segundo mito: a linguística é contra a gramática normativa e defende que cada um deve se expressar como quiser, qualquer que seja a situação de discurso. Nada mais falso! É bem verdade que há alguns colegas falsamente progressistas, inclusive professores de prestigiosas universidades públicas, que, influenciados por uma leitura enviesada da sociolinguística, defendem que a inclusão social passa pela legitimação em todas as esferas da sociedade do modo de falar dos menos escolarizados. Mas o que a própria sociolinguística ajudou a demonstrar é que a língua varia não só de uma classe social a outra como também de uma situação de comunicação a outra. Isso significa que há situações, principalmente profissionais, em que é legítimo exigir o uso da norma-padrão, aquela regulamentada pela gramática normativa. O que linguistas verdadeiramente progressistas entendem como inclusão social é o ensino dessa norma-padrão a todos os cidadãos, para que todos tenham acesso a melhores posições sociais e profissionais e, por conseguinte, acedam a uma vida melhor. Tanto não é verdade que a linguística defenda o vale-tudo na língua ou que deseje demolir a norma-padrão que os próprios linguistas pseudoprogressistas se expressam nessa norma nos artigos em que advogam a abolição da dita-cuja. Ou seja, esse combate à norma é posição absolutamente minoritária entre os linguistas e não passa de hipocrisia com viés ideológico e político-partidário.

Terceiro mito: todo linguista é poliglota. Não, não necessariamente. Aliás, a maioria dos linguistas que conheço fala no máximo duas línguas: português e inglês. No entanto, é natural que as pessoas vocacionadas a trabalhar com o objeto língua amem as línguas e se interessem por várias delas. Ou seja, muitos linguistas (inclusive este cronista) são, de fato, poliglotas. Eu particularmente acredito que um linguista poliglota seja melhor profissional do que um monoglota. E explico: quando só falamos a nossa própria língua, ou no máximo mais uma muito próxima da nossa, como é o caso do inglês ou do espanhol, tendemos a não perceber certos fenômenos e certas relações que transcendem o nosso idioma; corremos, além disso, o risco de tomar por gerais fatos que são particulares da língua que falamos/estudamos ou, ao contrário, de considerar como particularidades da nossa língua fatos que são gerais ou, pelo menos, comuns a muitos idiomas.

O que ocorre é que grande parte dos nossos linguistas se formou em Letras com especialização em um único idioma, geralmente o próprio português, e só foi trabalhar efetivamente com a ciência da linguagem na pós-graduação, acabando por dedicar-se ao estudo da língua em que se especializou. Contudo, enquanto no Brasil a maior parte dos linguistas se dedica ao estudo da língua portuguesa, e mais especificamente ao português brasileiro, em países do Primeiro Mundo estuda-se de tudo, desde a própria língua pátria até idiomas muito exóticos e mesmo línguas mortas. O que sabemos sobre a antiga língua egípcia, por exemplo, se deve muito mais a linguistas franceses, britânicos e norte-americanos do que aos próprios egípcios.

Daqui decorre o quarto mito, o de que o linguista deve necessariamente estudar sua própria língua e, mais, o ensino dessa língua. Como disse, se esta é a tendência no Brasil, não é uma regra geral. Aliás, as grandes teorias linguísticas nasceram de pesquisadores que não só estudaram muitas línguas diferentes como também analisaram a linguagem humana de maneira abstrata, como sistema universal ligado aos processos cognitivos da mente. Nesse sentido, fazemos aqui no Brasil, com raras e louváveis exceções, o que chamo de a pequena ciência, enquanto nos países mais desenvolvidos se faz a grande ciência.

Quanto a dedicar-se a pesquisas sobre o ensino de língua, trata-se de tarefa da chamada linguística aplicada. É evidentemente uma tarefa muito digna e muito importante, sobremaneira num país com um déficit educacional tão grande como o nosso. Mas trata-se apenas de uma dentre dezenas, talvez centenas, de aplicações possíveis dessa ciência. Logo, nem todo linguista entende de ensino de línguas; tudo depende da área em que ele é especialista.

Bem, acho que por ora é suficiente. Meu conselho aos leitores é que não acreditem em tudo o que se diz sobre a linguística: há muita fake news e muita manipulação ideológica a respeito.