O crime do padeiro

Anos atrás, o mundo ficou chocado com a história do campeão paraolímpico (ou paralímpico, se preferirem) Oscar Pistorius, acusado pelo assassinato da própria esposa, a modelo Reeva Steenkamp. Dentre as perguntas que esse caso suscitou, havia uma de natureza linguística: se Pistorius é sul-africano, assim como Reeva, por que o seu sobrenome é uma palavra latina que significa “padeiro”?

Para responder, temos de retroceder até a Renascença, época em que a Europa foi fortemente influenciada pela redescoberta da cultura greco-romana. Naquele período, era comum latinizar sobrenomes, especialmente o de pessoas célebres, pois, como grande parte dos livros ainda era escrita em latim, procurava-se harmonizar os nomes próprios com as demais palavras do idioma. Assim, Paris se grafava “Parisii”, Florença “Florentia”, etc. Pela mesma razão, Martin Luther se tornou Martinus Lutherus (que deu Martinho Lutero em português), Mikolaj Kopernik virou Nicolaus Copernicus (Copérnico), Thomas More converteu-se em Thomas Morus, Komensky em Comenius, e assim por diante. Da mesma forma, sobrenomes mais comuns, como os italianos D’Amico, Di Lorenzo e Sanzi, passaram respectivamente a De Amicis, De Laurentiis e De Sanctis.

Já na Alemanha e países nórdicos, o costume era não só latinizar, mas também verter para o latim sobrenomes germânicos. Foi assim que Bauer se transformou em Agricola, Kauffmann e Kremer em Mercator (nome de um famoso cartógrafo flamengo, criador da projeção que leva seu nome), Fischer em Piscator, Schmidt em Faber (é daí que vem o nome dos lápis Johann Faber), Richter em Praetorius e Becker em… Pistorius. Ou seja, os antepassados holandeses ou alemães do atleta suspeito de homicídio provavelmente tinham como nome de família o designativo da profissão do patriarca da linhagem, um padeiro.

Mais raramente, nomes vulgares também eram vertidos para o grego. Por exemplo, o reformador religioso alemão Philipp Schwarzerdt, cujo sobrenome quer dizer “terra preta”, passou à história como Melanchthon, que tem o mesmo significado em grego.

O mais famoso caso de sobrenome português latinizado (mas não nos países de língua portuguesa) é o do navegador Fernão de Magalhães, no Renascimento conhecido como Ferdinandus Magellanus e atualmente chamado na língua inglesa de Ferdinand Magellan. Por sinal, Magellan é o nome de uma sonda espacial americana, homenagem da Nasa ao primeiro homem a circunavegar a Terra.

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