A (nada nobre) origem dos sobrenomes

Na semana passada, mostrei que, originalmente, o sobrenome do ex-atleta paraolímpico Oscar Pistorius designava a profissão de padeiro. Esse fato não é incomum: muitos sobrenomes se originam de profissões, apelidos (incluindo referências a características físicas ou morais), nomes geográficos, aumentativos ou diminutivos de prenomes, etc. Mas por que isso é assim?

Primitivamente, as pessoas não tinham sobrenomes, apenas um nome que as diferenciava das demais. É fácil imaginar que, numa comunidade de no máximo uma centena de pessoas, como uma tribo de índios, os nomes não teriam por que se repetir. No entanto, à medida que as próprias tribos cresciam, começou a ser necessário utilizar nomes compostos. Por isso, agora já não bastava nomear uma menina como Lua, era preciso especificar: Lua Branca, Lua Azul, Lua Crescente…

Sabe-se que os chineses usam sobrenomes (antepostos aos nomes) desde a mais remota antiguidade. Já os povos pré-romanos da Europa, com exceção talvez dos etruscos, não os usavam, mas seus nomes eram compostos (por exemplo, o grego Demócrito, “escolhido do povo”, Filipe, “o amante dos cavalos”, e por aí vai). Mesmo assim, chegou um momento em que certos epítetos tiveram de ser acrescidos a esses nomes, sobretudo para diferenciar pessoas célebres, como Dionísio de Trácia e Dionísio de Halicarnasso. Esses epítetos geralmente remetiam ao local de origem do portador do nome.

A partir do século I a.C., os romanos adotaram um sistema de três nomes, ou tria nomina: praenomen (nome próprio), nomen (gentílico) e cognomen.

Na Idade Média, voltou-se ao costume, também usado no Oriente Médio, de portar um nome triplo, formado pelo nome de batismo (por exemplo, João) seguido de um patronímico (Fernandes, isto é, filho de Fernando) e de um toponímico (de Guimarães, nome de uma cidade de Portugal). Esse sistema, com poucas modificações, é usado até hoje na Islândia. Gunnar Eriksson significa “Gunnar, filho de Erik”; seu filho, de nome Olaf, será Olaf Gunnarsson, e assim por diante. As mulheres têm sobrenomes terminados em dóttir (filha) no lugar de son (filho).

Com o tempo, esses epítetos passaram a ser transmitidos hereditariamente. Quem primeiro fez isso foram os nobres, cujos sobrenomes se referiam à denominação das terras que possuíam (Monte-Branco, Villa Verde, Gouveia, etc.). Depois, os plebeus também passaram a herdar nomes de família. Como a origem desses nomes era por vezes uma alcunha, surgiram sobrenomes decorrentes de profissões (João dos Santos, o que fabrica imagens sacras; Antônio Pimentel, o que planta pimentas; Taylor, “alfaiate”, Schuhmacher, “sapateiro”, Boulanger, “padeiro”, Fabbri, “ferreiro”, etc.), cidades (Lisboa, Barcelos, Cintra), diminutivos (Andreotti, “Andrezinho”), aumentativos (Andreoni, “Andrezão”), características físicas (Branco, Longo, Torto, Velho, Calvo) ou morais (Bom, Feliz), além de referências religiosas, como Nascimento, Cruz e Natal, dentre outros. Por sinal, os próprios epítetos dos santos passaram a funcionar como sobrenomes em Portugal: Assis (Francisco de Assis), Batista (João Batista), Paula (Francisco de Paula), das Graças (Maria das Graças). Em Portugal, também se tornaram comuns sobrenomes de animais (Pombo, Coelho, Lobo, Leão, Carneiro) ou plantas (Arruda, Rosa, Pereira, Oliveira, Carvalho). É que seus portadores originais deviam ter alguma característica desses seres vivos — ou então trabalhar com eles. Quando os judeus da Península Ibérica foram obrigados a converter-se ao cristianismo, adotaram sobrenomes que os pudessem identificar como cristãos-novos; muitos deles eram traduções de nomes hebraicos, enquanto outros recorriam aos padrões animal ou vegetal. Os judeus ricos podiam comprar sobrenomes mais distintos (como ouro ou prata, o que explica por que tantos sobrenomes alemães de origem judaica contêm Gold ou Silber), ao passo que os muito pobres tinham de contentar-se às vezes com nomes vexatórios (por exemplo, Schmutzig quer dizer “sujo” em alemão).

Como revelam esses exemplos, a maioria dos sobrenomes que carregamos hoje em dia tem uma origem não muito nobre. Felizmente, boa parte deles teve essa origem obscurecida pelo tempo. Mas a ciência chamada Onomástica pode, por meio de pesquisa histórica e etimológica, desvendar quem eram e o que faziam nossos antepassados.

O crime do padeiro

Anos atrás, o mundo ficou chocado com a história do campeão paraolímpico (ou paralímpico, se preferirem) Oscar Pistorius, acusado pelo assassinato da própria esposa, a modelo Reeva Steenkamp. Dentre as perguntas que esse caso suscitou, havia uma de natureza linguística: se Pistorius é sul-africano, assim como Reeva, por que o seu sobrenome é uma palavra latina que significa “padeiro”?

Para responder, temos de retroceder até a Renascença, época em que a Europa foi fortemente influenciada pela redescoberta da cultura greco-romana. Naquele período, era comum latinizar sobrenomes, especialmente o de pessoas célebres, pois, como grande parte dos livros ainda era escrita em latim, procurava-se harmonizar os nomes próprios com as demais palavras do idioma. Assim, Paris se grafava “Parisii”, Florença “Florentia”, etc. Pela mesma razão, Martin Luther se tornou Martinus Lutherus (que deu Martinho Lutero em português), Mikolaj Kopernik virou Nicolaus Copernicus (Copérnico), Thomas More converteu-se em Thomas Morus, Komensky em Comenius, e assim por diante. Da mesma forma, sobrenomes mais comuns, como os italianos D’Amico, Di Lorenzo e Sanzi, passaram respectivamente a De Amicis, De Laurentiis e De Sanctis.

Já na Alemanha e países nórdicos, o costume era não só latinizar, mas também verter para o latim sobrenomes germânicos. Foi assim que Bauer se transformou em Agricola, Kauffmann e Kremer em Mercator (nome de um famoso cartógrafo flamengo, criador da projeção que leva seu nome), Fischer em Piscator, Schmidt em Faber (é daí que vem o nome dos lápis Johann Faber), Richter em Praetorius e Becker em… Pistorius. Ou seja, os antepassados holandeses ou alemães do atleta suspeito de homicídio provavelmente tinham como nome de família o designativo da profissão do patriarca da linhagem, um padeiro.

Mais raramente, nomes vulgares também eram vertidos para o grego. Por exemplo, o reformador religioso alemão Philipp Schwarzerdt, cujo sobrenome quer dizer “terra preta”, passou à história como Melanchthon, que tem o mesmo significado em grego.

O mais famoso caso de sobrenome português latinizado (mas não nos países de língua portuguesa) é o do navegador Fernão de Magalhães, no Renascimento conhecido como Ferdinandus Magellanus e atualmente chamado na língua inglesa de Ferdinand Magellan. Por sinal, Magellan é o nome de uma sonda espacial americana, homenagem da Nasa ao primeiro homem a circunavegar a Terra.

Riberrô? Vierrá?

Outro dia ouvi num intervalo comercial de uma TV pública que uma certa cantora lírica francesa, cujo nome me parece que era Catherine Ribeiro (ou Marguerite, ou Jacqueline…), viria se apresentar no Brasil. O curioso – e, para mim, principalmente irritante – é que o locutor pronunciava o seu sobrenome como “riberrô”. Tudo bem que os franceses pronunciem nomes estrangeiros à moda deles, afinal nós também fazemos isso. Aliás, todos os povos fazem isso. É por essa razão que eles pronunciam os sobrenomes do falecido antropólogo Lévi-Strauss (de origem alemã) e do eterno craque do futebol Platini (do italiano) como “levistrrôss” e “platiní”, respectivamente. Como esses sobrenomes são estrangeiros também para nós, tanto faz dizê-los à maneira dos franceses, dos alemães ou dos italianos. Optamos então por pronunciá-los como os próprios donos dos sobrenomes os pronunciam. Pela mesma razão, o linguista Noam Chomsky é conhecido como “tchómski” tanto aqui quanto nos EUA, sua terra natal, embora a pronúncia original do sobrenome, de origem judeu-russa, seja “khómski”.

Agora, pronunciar à moda estrangeira nomes que são legitimamente portugueses já é demais! Lembro que nas Copas do Mundo de futebol de 1998 e 2002 tivemos que aguentar os narradores esportivos brasileiros chamando os jogadores franceses Vieira, Pires e Fernandez de “vierrá”, “pirrés” e “fernandês”. (Na contramão dessa tendência, esses mesmos narradores chamam o futebolista colombiano James Rodríguez de “rames”, à moda espanhola, quando os próprios colombianos – e o próprio detentor do nome – o chamam de “djeims”, tal como o fazem os ingleses, criadores do nome.)

Mas será que os franceses são tão zelosos assim com nossa pronúncia quando se referem a brasileiros com nomes de origem francesa, como o infeliz eletricista-confundido-com-terrorista Jean Charles de Menezes, morto pela polícia londrina em 2005? Há no Brasil uns poucos sobrenomes franceses, como Bittencourt e Fleury, que pronunciamos erradamente como “bitencur” e “fleurí” quando o certo seria “bitãcur” e “flörrí”. E também pronunciamos Jean como “jiã” e não “jã”, e Charles como “xarles” e não “xarl”. Também temos inúmeros brasileirinhos chamados Rian (ou Ryan), nome inglês que virou moda nas classes mais baixas, onde são chamados de “riã” e não de “ráian”. E “riã” (isto é, rien) quer dizer “nada” em francês. Se for mesmo verdade que um nome pode determinar o futuro de uma pessoa…

Mas voltando ao ponto: será que franceses e ingleses pronunciam Jean, Charles, Rian, Bittencourt e Fleury à moda brasileira quando os donos de tais nomes são nossos patrícios? Certa vez ouvi numa emissora de rádio em Buenos Aires o locutor mencionar um filósofo suíço de nome Rota Punto Rota Punto Ru-ce-au e só após alguns segundos de perplexidade compreendi tratar-se de J. J. Rousseau (ou melhor, Jean-Jacques Rousseau), que muitos no Brasil, inclusive na universidade, tratam na intimidade por “jiã-jaques”.