A morte das palavras

Palavras são como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Umas de morte morrida, tão velhas ficaram como as coisas que designavam. Quem hoje penteia suas madeixas ou anda de tílburi? Quem hoje compra rapé ou usa pince-nez?

Outras morrem de morte matada: são substituídas por palavras mais modernas, mais “antenadas” com nosso tempo. Quem hoje chamaria o goleiro de quíper ou o médio-volante de centeralfo? Quem chamaria “locutor” de speaker? Quem ainda datilografa o próprio nome ou disca um número no telefone? Evidentemente, as palavras são o espelho da realidade e mudam com o mesmo dinamismo com que muda a realidade. Logo, não é de causar pesar a morte de certas palavras, embora outras, de tão belo uso em tempos passados na boca ou na pena de nossos grandes escritores, tenham sido sentenciadas de morte em tribunal de legitimidade duvidosa, como favela, aleijão, prenhez

Mas o espantoso é que até palavras gramaticais, aquelas que não espelham a realidade, apenas fazem a língua funcionar, também morram – por vezes, assassinadas pelos próprios falantes. É o caso de cujo, pronome relativo possessivo, muito útil no passado, mas que, talvez por obrigar a uma inversão sintática da oração, começou a causar embaraço aos usuários menos destros do vernáculo. Especialmente quando está em jogo outra pedra no sapato dos falantes egressos de nosso ensino público: a concordância. E assim até falantes supostamente cultos (pelo menos, portadores de diploma universitário) fazem certos malabarismos verbais para evitar o emprego de um cujo que, mal colocado, é uma verdadeira casca de banana à espera do transeunte incauto. E dá-lhe “a pessoa que o nome dela eu não lembro agora” ou “o sujeito que o filho é médico”. Às vezes, ocorre o oposto: querendo parecer letrado, o gaiato sapeca um cujo o qual: “troquei a lâmpada cuja a qual estava queimada”.

Por razões que desconheço, onde, antigo advérbio de lugar, assumiu o posto do falecido cujo em frases como “o candidato onde as propostas são melhores” e coisas do tipo. Talvez a origem desse uso tenha um dia sido de fato locativa: “a cidade cujos habitantes têm a maior renda” passou a alternar com “a cidade onde os habitantes têm a maior renda”. Só que daí a onde virar palavra passe-par-tout foi um pulo.

E tampouco, quem ainda usa? Algum trocadilhista poderia objetar que essa palavra hoje se usa tão pouco… Mas o fato é que renunciamos a um vocábulo legitimamente pertencente a nosso sistema gramatical, já que é antônimo de também, para em seu lugar empregarmos o insípido e menos econômico também não: “Eu não fui à festa, e João também não”. Claro que construções mais literárias como “Mas não estou triste, tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, não vou gritar, não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo” (Martha Medeiros) ficariam empobrecidas se tascássemos um também não no lugar de tampouco: “Mas não estou triste, também não alegre…”.

Vejam que não estou falando de palavras rebuscadas, índice de erudição pedante, como obséquio ou contradança; estou falando de palavras que têm equivalentes em outras línguas perfeitamente vivos e vigorosos: qualquer um que aprenda inglês ou espanhol terá de saber usar whose, either, neither, cuyo, asimismo, tampoco.

A realidade é que certas palavras e expressões como outrossim, sobremaneira, deveras, com efeito, debalde, dar azo se perderam nas brumas do passado, e outras não nasceram para substituí-las. Ou seja, o idioma apenas se empobreceu de recursos expressivos, na mesma medida talvez em que se encheu de termos técnicos. Para um amante das palavras, para um cultor do estilo, para um admirador da língua, esse passamento dos vocábulos pode ser melancólico e suscitar nostalgia de um tempo quiçá mais poético. Mas, como disse Drummond na crônica Antigamente, “tudo isso era antigamente, isto é, outrora”.

10 comentários sobre “A morte das palavras

  1. Prezado Aldo,

    A bem da verdade, cujo morreu até na boca dos cultos, não só no Brasil, mas também em Portugal. O que diferencia o inculto do culto é a estratégia usada: o primeiro tende a empregar “o sujeito que o filho dele é médico”, e o segundo, “o sujeito que o filho é médico”.

    Por um acaso, eu uso cujo, inclusive quando falo, mas o meu modo de falar é reflexo de um esforço consciente e contínuo de falar com muita correção, com tanta que chego a visualizar sublinhados os erros que percebo ter cometido.

    Isto não me impede de reconhecer a extrema artificialidade de muitos dos meus usos, o de cujo entre eles. Nunca ouvi alguém que o utilizasse naturalmente, sem que se percebesse algum traço de ênfase, de esforço consciente.

    Cujo morreu no português falado, inculto ou culto, brasileiro ou europeu.

    Assim como haver morreu no português brasileiro falado, culto ou inculto. Alguns brasileiros cultos, ou metidos a cultos (armados em cultos, como diriam os nossos “irmãos” portugueses), sobrecompensam a ausência de haver na fala com o abuso de haver na escrita, usando-o como auxiliar, muito embora uma das marcas distintivas da evolução do português em relação ao espanhol seja a substituição de haver por ter nos tempos verbais compostos.

    Um abraço,
    Rodrigo.

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  2. Se me permitem citar novamente o poeta gaúcho:

    – Cujas Canções

    É costume cada um colocar sua profissão ou títulos nos cartões de visitas. No tempo das guerras cisplatinas até ficou famoso alguém que assim se apresentava: “José Maria da Conceição — tenente dos Colorados”. Ora, quem escreve estas linhas já recebeu alguns títulos da generosidade de seus conterrâneos. Se pusesse todos eles, seria pedante; escolher um só seria indelicadeza para com os outros proponentes. Quanto a mim, sempre fui de opinião que bastava o nome da pessoa, sem a vaidade de títulos secundários. Mas eis que a minha camareira fez-me cair em tentação. Dá-se o caso que saiu a edição do meu livro Canções, ilustrado por Noêmia e que, ao ser noticiado por Nilo Tapecoara no Bric-à-brac da vida, este o publicou com o meu retrato em duas colunas e, abaixo do mesmo, uma notícia que assim principiava, com a primeira linha impressa em letras maiúsculas: MÁRIO QUINTANA, CUJAS CANÇÕES etc. etc…
    Ora, na manhã daquele dia, ao servir-me o café na cama, sia Benedita não podia ocultar o orgulho que lhe causava o seu hóspede e repetia: “Cujas canções, hein, cujas canções!”
    O seu maior respeito era devido, sem dúvida, à misteriosa palavra “cujas”.

    [ Mario Quintana, in Porta Giratória ]

    – Cântaro

    Na linguagem corrente não se encontra a palavra ‘cântaro’. Mas é uma palavra que jamais poderá sair dos
    poemas. Há palavras assim. São como esses nobres animais heráldicos, que só existem nos
    brasões.

    [ Mario Quintana, in Caderno H ]

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  3. Prezado Aldo,

    Um estudante perguntou, recentemente, ao Ciberdúvidas se se dirá, “em português correto”, “espera-o vir”, “estamos esperando-o chegar” ou “estamos a esperá-lo chegar” , em vez dos costumeiros (no Brasil) “espera ele vir” e “estamos esperando ele chegar”, mas recebeu uma resposta que, provavelmente, deve tê-lo surpreendido (digo isto porque, a julgar pela natureza das suas perguntas frequentes ao Ciberdúvidas, ou ele é português, ou é brasileiro admirador dos usos portugueses):

    “‘Do ponto de vista da norma-padrão, as orações ‘espera-o vir’, ‘estamos esperando-o chegar’ e ‘estamos a esperá-lo chegar” são agramaticais. As formas corretas são, respetivamente, “espero que ele venha”, “estamos esperando que ele chegue” e “estamos a esperar que ele chegue”, tanto em Portugal como no Brasil como noutros países de língua portuguesa.

    Em casos em que o verbo em questão seleciona uma oração subordinada substantiva completiva, o verbo da subordinada ocorre no conjuntivo (subjuntivo no Brasil), sempre que tem valor referencial diferente do do sujeito de esperar, como se comprova em 1 e 2:

    1. “espera que ele venha”;

    2. “estamos esperando que ele chegue”.

    Em 1, o sujeito de “espera” não é o mesmo de “venha”, e o mesmo acontece em 2, com “estamos esperando” e “ele chegue”.

    No entanto, o verbo em dúvida pode ser seguido de uma oração subordinada de infinitivo, quando o sujeito que lhe está associado e o sujeito da oração subordinante tiverem a mesma referência (i. e., dizem respeito à mesma pessoa):

    3. Espero vir/chegar ainda hoje.

    Em 3, o sujeito subentendido de esperar é eu, e o de vir/chegar também, coincidência que legitima a oração de infinitivo.

    As construções “espera ele vir” e “estamos esperando ele chegar” podem atestar-se, por exemplo, no Corpus do Português (Mark Davies), e trata-se de usos coloquiais que as fontes gramaticais consultadas não referem.

    Menos legítima se torna ainda uma construção como “espera-o vir”, que não encontra qualquer atestação. O caso de ver, compatível com a construção com -o e infinitivo (“vejo-o chegar”, que se aceita sem estranheza) está circunscrito aos verbos de perceção (ver, sentir, ouvir) e causativos (mandar, por exemplo: “mandei-o estudar”), e não é generalizável a verbos como lamentar e esperar, que mostram o contraste existente nos exemplos 1/2 e 3, de acordo com a anterior descriçao. Assim como se diz corretamente “lamento que ele venha” (e não *«”lamento-o vir”), também se formulam frases como “espero que ele venha” (e não *”espero-o vir”).”

    in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-verbo-esperar-seguido-de-oracao-completiva/36538 [consultado em 01-10-2021]

    Assim como o estudante, eu supunha que fossem corretas construções como “espere-o vir”, “espere-o chegar” e, ainda, que se encontrassem exemplos frequentes na linguagem escrita culta do Brasil, mas uma rápida pesquisa no Google (corpus improvisado dos não-linguistas) não retornou tantos resultados quanto eu esperava.

    Entendi a explicação do Ciberdúvidas de que esperar não é verbo de percepção nem causativo, embora confesse que mais ilustrativa foi a comparação com o verbo lamentar.

    Considerando que o estudante e eu não seremos os únicos brasileiros a sentir como cultas as construções que o Ciberdúvidas considerou gramaticais, que ocorreu neste caso: reinterpretamos esperar como causativo?

    Enfim, não faço ideia, nem sequer para formular melhor a pergunta; sou um diletante, e o domínio dos conceitos e do vocabulário técnico faz falta nestas horas, mas acho que você me entendeu bem.

    Um abraço,
    Rodrigo.

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    1. Onde se lê:

      “Considerando que o estudante e eu não seremos os únicos brasileiros a sentir como cultas as construções que o Ciberdúvidas considerou GRAMATICAIS, que ocorreu neste caso: reinterpretamos esperar como causativo?”;

      leia-se:

      “Considerando que o estudante e eu não seremos os únicos brasileiros a sentir como cultas as construções que o Ciberdúvidas considerou AGRAMATICAIS, que ocorreu neste caso: reinterpretamos esperar como causativo?”.

      Desculpe-me a caixa alta: não sei negritar neste espaço de comentários.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Rodrigo, o português herdou do latim a possibilidade de transformar uma oração subordinada num infinitivo verbal. Nesse caso, o sujeito da subordinada se transforma em objeto direto do verbo da principal. Por exemplo: “Credo eum felix esse” significa literalmente “Creio-o estar feliz”, ou seja, “Creio que ele esteja feliz”. Essa é a base de construções como “Deixe-o entrar”, que equivale a “Deixe que ele entre”. Portanto, do ponto de vista estritamente estrutural da língua, não haveria nada de errado em construções como “Espero-o vir” e, por extensão (e rebuscamento literário) “Lamento-o vir”. Ocorre, a meu ver, que os gramáticos muitas vezes estabelecem regras com base mais estilística do que linguística. O fato de sentirmos uma construção mais aceitável do que outra tem a ver com nossos próprios hábitos linguísticos. Assim, “Espero-o vir” soa mais familiar do que “Lamento-o vir” por uma simples questão de uso. Pelo menos, é assim que eu vejo. Em todo caso, faço o alerta de que não sou sintaxista, portanto essa mecânica sintática não é minha especialidade.

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      2. Obrigado pela resposta, Aldo. Era isto mesmo que eu queria saber: se tinha mais que ver com os nossos hábitos ou se tinha alguma razão de fundo (sintática, por exemplo) que explicava a diferença.

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      1. Caro Aldo,

        Na verdade, do ponto de vista da norma, eu já entendi por que não seria “legítimo” escrever “espero-o vir”. Eu queria mesmo saber é por que não sentimos como incorreta “espero-o vir”, mas acusamos prontamente o erro em “lamento-o vir”, já que a estrutura é a mesma: verbo da oração principal conjugado, seguido de objeto que, por sua vez, é também sujeito da oração subordinada reduzida de infinitivo.

        Interessa-me mais a operação mental que fazemos naturalmente e que justifica, a nossos olhos, “espero-o vir”, mas que não justifica “lamento-o vir”.

        Um abraço,
        Rodrigo.

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