Palavras que morrem sem deixar herdeiros

Boa tarde, Aldo. Estou lendo uma novela policial de Henning Mankell (A quinta mulher, Companhia das Letras, edição de 2002, tradução de Luciano Vieira Machado, formato epub). O que me chamou a atenção foi o uso de certos verbos que já foram muito comuns em traduções antigas, mas que caíram em desuso já há algumas décadas, tais como: redarguiu, retorquiu, anuiu. Você poderia dar sua visão sobre isso?
Marcus Frederico Ferreira Lopes

Caro Marcus, na minha visão (que não é só minha), está havendo um progressivo empobrecimento vocabular da população devido à decadência da educação, fruto do descaso do poder público e de uma campanha de certos grupos políticos que tentam (e, por sinal, estão conseguindo) deslegitimar o conhecimento do vernáculo, da norma-padrão, da gramática, tidos por eles como elitistas e opressores — como se a ignorância fosse libertadora! Com isso, verbos como os que você citou, que eram muito comuns em textos literários e mesmo jornalísticos do passado, vêm sendo proscritos, e quase ninguém mais os usa ou mesmo sabe o que significam.

Na verdade, muitas palavras têm caído em desuso, e não porque novas palavras de significado equivalente ou até mais preciso estejam nascendo para substituí-las, mas simplesmente porque as pessoas, sobretudo os mais jovens, não tendo mais contato íntimo com a leitura, especialmente de boas obras, sequer chegam a conhecer tais vocábulos. A partir disso ocorrem duas coisas: ou o falante busca um termo mais corriqueiro para expressar aquela ideia (por vezes até uma gíria), termo este que quase nunca exprime tão bem o conceito em questão quanto a palavra que se perdeu, ou o falante sequer concebe a ideia que aquela palavra expressava. Em outras palavras, pobreza de linguagem é pobreza de pensamento. Que se reflete em pobreza material e espiritual. Como disse Esaias Tegnér Jr., “o que é confusamente dito é confusamente pensado”.

Li recentemente uma pesquisa que procurava compreender por que no Brasil a taxa de alfabetização das crianças em idade escolar é tão baixa, mesmo comparada a outros países em desenvolvimento — ou, como se costuma dizer hoje em dia, do Sul Global. Pois o resultado foi que, além da má qualidade da nossa educação, as crianças das camadas mais baixas da população não veem sentido na escrita: há um abismo entre o mundo letrado e a realidade em que vivem. De fato, crianças filhas de pais com pouca ou nenhuma instrução, que pouco falam com elas e, quando o fazem, é somente sobre assuntos de pouca relevância e complexidade, que não leem para elas (nem para si próprios, diga-se) e, com isso, não cultivam nelas o hábito de ler, percebem a leitura e a escrita como algo inútil e enfadonho, que nada tem a ver com seu dia a dia e sua perspectiva de futuro, se é que têm alguma.

E, como disse acima, há grupos de intelectuais e acadêmicos que procuram legitimar essa situação porque é mais fácil e cômodo dar o pão do que ensinar a pescar e porque precisam da massa de manobra que essas pessoas vulneráveis representam para sustentar seu projeto político.

Infelizmente, é assim que eu vejo.

Mais algumas palavras que se usam numa única expressão

Duas semanas atrás, publiquei uma lista de palavras da língua portuguesa que só ocorrem numa única expressão, isto é, estão fossilizadas numa fórmula pronta e jamais ocorrem fora dessa fórmula. Só que alguns leitores reclamaram da falta de certas expressões; por isso, estou elencando mais algumas. São elas “a esmo”, “às avessas”, “sem eira nem beira”, “ao deus-dará”, “de chofre”, “de enfiada” e “ao bel-prazer”.

“A esmo”, que significa “ao acaso” e é expressão equivalente à anteriormente citada “à toa”, contém o termo esmo, “cálculo aproximado, estimativa grosseira”, derivado de esmar, do latim aestimare, “estimar”. E aestimare contém o elemento aes, que quer dizer “bronze, metal precioso” e, consequentemente, “dinheiro”. Logo, estimar era primeiramente avaliar o preço de uma mercadoria.

“Às avessas” contém a palavra avessas, a qual tem a ver com avesso, do latim adversus, que também nos deu por via culta adverso. A ideia por trás dessa expressão é bem transparente: “às avessas” significa “de forma contrária ao usual ou ao que recomenda o bom senso”.

“Não ter eira nem beira”, como se sabe, é o mesmo que “não ter um tostão furado” ou “não ter onde cair morto”. Beira hoje em dia é apenas a beirada ou borda de uma superfície, mas no passado significava algo que tem a ver com o desusado eira. É que, até o século XIX, eira e beira eram os nomes do térreo e do primeiro andar dos sobrados. Os ricos moravam em casas de dois andares; os pobres, em casas térreas. Logo, quem não tivesse eira nem beira simplesmente não tinha onde morar, era morador de rua ou indigente.

“Viver ao deus-dará” é viver sem recursos, sujeito às vicissitudes da sorte, abandonado ao próprio destino. É que antigamente, diante de tantas adversidades, os desvalidos, geralmente muito religiosos, costumavam dizer num tom misto de conformismo e esperança que na hora do aperto Deus lhes proveria. Perguntados como iriam se virar, respondiam: “Deus dará”.

“De chofre” e “de enfiada” são expressões um tanto antiquadas, mas cuja menção vale a pena. Chofre, palavra onomatopaica, quer dizer “choque repentino” e também “tiro ao pombo”, prática abjeta que alguns idiotas chamam de esporte, além de “tacada de bilhar”. Portanto, “de chofre” significa “repentinamente”.

Enfiada é uma fileira de coisas, especialmente objetos atravessados por uma mesma linha, como as contas de um colar. Logo, “de enfiada” remete a uma grande quantidade de coisas entrouxadas de uma só vez, como um amontoado de informações que se dá a alguém sem que haja tempo de o cérebro processá-las. Antigamente se dizia, por exemplo, que fulano havia dito uma enfiada de disparates.

Finalmente, “fazer algo ao seu bel-prazer” contém a palavra composta bel-prazer, junção de bel, forma apocopada de belo, e prazer, cujo significado é “arbítrio, vontade própria”.

Não é curioso como certas palavras, que já foram bastante vivas na língua, hoje sobrevivem numas poucas expressões cujo significado é desconhecido da maioria dos falantes?

A morte das palavras

Palavras são como as pessoas: nascem, vivem e morrem. Umas de morte morrida, tão velhas ficaram como as coisas que designavam. Quem hoje penteia suas madeixas ou anda de tílburi? Quem hoje compra rapé ou usa pince-nez?

Outras morrem de morte matada: são substituídas por palavras mais modernas, mais “antenadas” com nosso tempo. Quem hoje chamaria o goleiro de quíper ou o médio-volante de centeralfo? Quem chamaria “locutor” de speaker? Quem ainda datilografa o próprio nome ou disca um número no telefone? Evidentemente, as palavras são o espelho da realidade e mudam com o mesmo dinamismo com que muda a realidade. Logo, não é de causar pesar a morte de certas palavras, embora outras, de tão belo uso em tempos passados na boca ou na pena de nossos grandes escritores, tenham sido sentenciadas de morte em tribunal de legitimidade duvidosa, como favela, aleijão, prenhez

Mas o espantoso é que até palavras gramaticais, aquelas que não espelham a realidade, apenas fazem a língua funcionar, também morram – por vezes, assassinadas pelos próprios falantes. É o caso de cujo, pronome relativo possessivo, muito útil no passado, mas que, talvez por obrigar a uma inversão sintática da oração, começou a causar embaraço aos usuários menos destros do vernáculo. Especialmente quando está em jogo outra pedra no sapato dos falantes egressos de nosso ensino público: a concordância. E assim até falantes supostamente cultos (pelo menos, portadores de diploma universitário) fazem certos malabarismos verbais para evitar o emprego de um cujo que, mal colocado, é uma verdadeira casca de banana à espera do transeunte incauto. E dá-lhe “a pessoa que o nome dela eu não lembro agora” ou “o sujeito que o filho é médico”. Às vezes, ocorre o oposto: querendo parecer letrado, o gaiato sapeca um cujo o qual: “troquei a lâmpada cuja a qual estava queimada”.

Por razões que desconheço, onde, antigo advérbio de lugar, assumiu o posto do falecido cujo em frases como “o candidato onde as propostas são melhores” e coisas do tipo. Talvez a origem desse uso tenha um dia sido de fato locativa: “a cidade cujos habitantes têm a maior renda” passou a alternar com “a cidade onde os habitantes têm a maior renda”. Só que daí a onde virar palavra passe-par-tout foi um pulo.

E tampouco, quem ainda usa? Algum trocadilhista poderia objetar que essa palavra hoje se usa tão pouco… Mas o fato é que renunciamos a um vocábulo legitimamente pertencente a nosso sistema gramatical, já que é antônimo de também, para em seu lugar empregarmos o insípido e menos econômico também não: “Eu não fui à festa, e João também não”. Claro que construções mais literárias como “Mas não estou triste, tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, não vou gritar, não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo” (Martha Medeiros) ficariam empobrecidas se tascássemos um também não no lugar de tampouco: “Mas não estou triste, também não alegre…”.

Vejam que não estou falando de palavras rebuscadas, índice de erudição pedante, como obséquio ou contradança; estou falando de palavras que têm equivalentes em outras línguas perfeitamente vivos e vigorosos: qualquer um que aprenda inglês ou espanhol terá de saber usar whose, either, neither, cuyo, asimismo, tampoco.

A realidade é que certas palavras e expressões como outrossim, sobremaneira, deveras, com efeito, debalde, dar azo se perderam nas brumas do passado, e outras não nasceram para substituí-las. Ou seja, o idioma apenas se empobreceu de recursos expressivos, na mesma medida talvez em que se encheu de termos técnicos. Para um amante das palavras, para um cultor do estilo, para um admirador da língua, esse passamento dos vocábulos pode ser melancólico e suscitar nostalgia de um tempo quiçá mais poético. Mas, como disse Drummond na crônica Antigamente, “tudo isso era antigamente, isto é, outrora”.