O teste e a testa

A etimologia é uma ciência fascinante porque, volta e meia, nos pega de surpresa, revelando relações insuspeitas entre palavras que à primeira vista não teriam qualquer parentesco. Apesar da semelhança fonética, o que poderia haver de comum entre a testa, parte frontal da nossa cabeça, e o teste, isto é, o ensaio, a prova, o exame? Pois essas duas palavras têm muito em comum.

Para entendermos isso, é preciso recuar até o latim testa e testu, respectivamente “vaso de barro cozido” e “tampa do vaso”. Esta última palavra, que também se encontra na forma testum, significa igualmente o vaso e o próprio barro de que é feito, ambos por metonímia. Temos, aliás, em português o desusado testo, com o significado de vaso de barro e de tampa de vaso.

Mas como essas palavras latinas deram testa e teste em nossa língua? É que, como pote ou vaso de barro, testa passou desde logo a ser uma gíria para “cabeça” no latim popular (assim como capitia, “capuz”, que deu cabeça em português, também). Por essa razão, “cabeça” se diz testa em italiano e tête em francês.

Ao mesmo tempo, testu deu o já citado testo em português e têt (antigamente grafado test) em francês, este com os sentidos de pote, vaso e crânio. Acontece que nos domínios da alquimia, test não era um vaso qualquer, mas uma espécie de tubo de ensaio, ou seja, recipiente onde os alquimistas faziam seus experimentos, misturando substâncias (que às vezes explodiam) na busca de remédios miraculosos ou da transubstanciação de metais sem valor em ouro.

Por nova metonímia, test passou a ser não só o tubo de ensaio, mas o próprio ensaio, a prova, o experimento… numa palavra, o teste. Foi com esse sentido que a palavra ganhou o inglês e daí se espalhou pelo mundo (o próprio francês tem hoje a palavra test como empréstimo do inglês, ao passo que têt caiu em desuso).

Em português, o que ocorreu foi que testa, apelido de cabeça, se especializou designando apenas a parte frontal do crânio, enquanto teste nos chegou por via inglesa e, tal qual na língua de origem, sofreu um alargamento semântico, denominando não só testes científicos, mas qualquer tipo de prova, inclusive escolar.

Nesta última acepção, por sinal, teste sofreu um estreitamento semântico, tornando-se a redução da expressão teste de múltipla escolha. Por isso, de certa maneira, quando algum professor diz que aplicará uma prova teste (por oposição à prova dissertativa), está inconscientemente cometendo um pleonasmo, já que teste é em sua origem sinônimo de prova.

Uma advertência: o latim testari não significa “testar” e sim “testemunhar”, sendo derivado de testis, “testemunha”, que é de outra origem e nada tem a ver com vasos ou tampas de vasos, muito menos com cabeça.

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