Por favor, curta esta postagem!

Em tempos de Facebook, a onda é “curtir”. Seja foto, vídeo, piada, frase de efeito, convocação para passeata ou mesmo as informações mais inúteis (basta uma celebridade postar na web que adora sushi e pronto: milhares de “curtidas” dos fãs). Essa ferramenta aparentemente tola das redes sociais se tornou tão crucial às pessoas conectadas que, para muitas delas, ser curtível, isto é, receber muitos likes, é questão de vida ou morte. E já que ser curtido tornou-se objetivo de vida, não me admira que os profissionais de marketing tenham criado uma espécie de “Índice de Curtibilidade” que afere o grau de popularidade das nossas postagens – com possibilidade de ganharmos algum dinheiro em verbas de publicidade.

O curioso é que a palavra inglesa para “curtir” – em seu uso virtual, bem entendido – é o insípido like, literalmente “gostar”. Se pensarmos que “curtir”, no brasileiríssimo sentido de “aproveitar, adorar, deliciar-se”, se diz divertirse em espanhol, have fun ou have a good time em inglês e avoir le bon temps em francês, veremos que essa palavra, originalmente negativa (afinal curtir é deixar a carne ou a pele de um animal ao sol durante dias para que fique bem ressequida), tem conotações em português que escapam aos outros idiomas. “Curtir de montão” é bem diferente de “gostar muito” ou “aproveitar intensamente”. E curtir uma pessoa, é apenas gostar dela? Ou é sentir um prazer único em sua presença, rir com suas tiradas, admirar sua perspicácia? Portanto, ao traduzir like como “curtir”, o Facebook brasileiro conseguiu ser mais criativo que o original americano.

E tudo começou com a expressão “curtir uma dor” (ou “curtir uma fossa”, como se dizia lá pelos anos setenta), que veio substituir o tradicional “carpir a dor”. Por exemplo, o clássico do cancioneiro nacional Lábios que beijei, de J. Cascata e Leonel Azevedo, imortalizado na voz de Orlando Silva, diz a certa altura: “Passo os dias soluçando com meu pinho / Carpindo a minha dor, sozinho / Sem esperanças de vê-la jamais”. É o mesmo sentido do lema latino carpe diem (curta o dia de hoje). Mas por que curtir a dor? Talvez a ideia seja a de sofrer por muito tempo (às vezes meses ou anos) como o couro curtindo ao sol ao longo de dias. E assim como o couro seca e se torna rígido e impermeável, o coração de quem sofre se torna insensível, indiferente à dor.

Seja como for, nos dias de hoje, o cantor das multidões não carpiria, mas curtiria a sua dor. E não com seu pinho, isto é, seu violão, mas talvez com uma guitarra elétrica.

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