Interrogações nucleares e conexionais: você já ouviu falar disso?

Tempos atrás, numa outra postagem neste espaço, falei sobre a sintaxe translativa de Tesnière, da qual sou fã por sua simplicidade e lógica. Acredito mesmo que sua adoção nas aulas de análise sintática descomplicaria muito o seu ensino. A sintaxe de Tesnière introduz, dentre outros conceitos, os de interrogação nuclear e interrogação conexional. Você certamente ainda não ouviu falar disso, mas usa ambos os tipos de interrogação todos os dias.

A interrogação nuclear, que nas aulas de inglês é chamada de Wh- question pelo fato de geralmente começar com pronomes ou advérbios interrogativos como who, what, when, where, etc., é aquela em que pedimos que se preencha com informação um núcleo (sujeito, objeto direto, adjunto adnominal, adjunto adverbial, e assim por diante): Qual é o seu livro? Quem é o dono deste livro? Onde está o meu livro?

A resposta é sempre uma informação que preenche a lacuna deixada pelos interrogativos qual, quem, onde, etc.: ([O meu livro] é) este. ([O dono do livro] sou) eu. ([O seu livro] está) sobre a mesa.

Já a interrogação conexional (em inglês, Yes/No question, pergunta cuja resposta é sim ou não), é aquela que não pede que um núcleo seja preenchido com informação e sim que se diga se há ou não conexão entre dois núcleos: O seu livro é este? Você é o dono deste livro? O meu livro está sobre a mesa?

O que se quer saber agora não é de qual livro se trata, quem é seu dono ou onde ele está e sim se há conexão semântica entre o livro e você ou entre o livro e a mesa.

A resposta a esse tipo de interrogação é sempre um sim ou um não (ou, eventualmente, um não sei): Sim([, o meu livro] é este). Não([, não sou] o dono desse livro), Sim([, o seu livro] está sobre a mesa).

Curiosamente, a interrogação nuclear e a interrogação conexional podem misturar-se numa mesma pergunta: O seu livro é este ou aquele? Perceba que a estrutura e a entonação da pergunta se assemelham a uma interrogação conexional, mas essa indagação corresponde a uma pergunta nuclear: Qual é o seu livro? ou Qual é o seu livro: este ou aquele? E a resposta é igualmente nuclear: ([O meu livro] é) este.

Podemos ainda unir uma interrogação nuclear e uma conexional na mesma frase: Você faz esse procedimento e quanto custa? (Ela é ao mesmo tempo uma Yes/No e uma Wh- question). Sua resposta é igualmente mista: Sim, faço, custa 300 reais.

Vários outros fenômenos sintático-semânticos podem ser explorados a partir desses dois conceitos; conhecer as estruturas gramaticais, sobretudo a partir de um modelo teórico e de uma metalinguagem poderosos, nos abre uma infinidade de possibilidades de formulação de nosso pensamento — e de estudo das diferenças culturais entre as línguas. Por exemplo, em mandarim não se pergunta como em português Este livro é seu?, mas algo como Este livro é ou não é seu? Ou então Você vai/não vai ao cinema? E, enquanto “sim” em chinês é shì, “não” é bùshì, sendo a partícula negativa. Assim, as respostas em chinês a perguntas conexionais são “sim” e “não-sim”.

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