Pois sim, pois não

Existe um dito jocoso afirmando que a língua portuguesa é contraditória porque “pois não” quer dizer sim e “pois sim” quer dizer não. Mas desconfio de que hoje em dia muita gente não ache graça nesse chiste simplesmente porque não o compreende bem. E não compreende porque a expressão “pois sim” aparentemente caiu em desuso há muito tempo. É claro que esta minha afirmação carece de dados estatísticos que a comprovem (não quero agir como certos linguistas brasileiros que advogam que certas palavras ou expressões não se usam mais sem apresentar provas empíricas disso). Portanto, minha afirmação baseia-se única e exclusivamente na minha percepção pessoal. É que, mesmo em casa, lembro de meus pais e minha tia usando tal expressão para indicar que não concordavam com o que o outro havia dito. “A corrupção no Brasil vem diminuindo nos últimos anos”, dizia um sujeito à mesa de um bar enquanto degustava uma cachacinha, ao que o interlocutor, com um cigarro entre os dedos, retrucava: “Pois sim!”. Isso significava que, na visão deste último, a corrupção não só não está diminuindo como está aumentando.

Por sinal, a expressão “pois sim” vinha sempre acompanhada de uma fisionomia de desdém, como se o outro tivesse dito um grande disparate. Pois é, hoje em dia não ouço ninguém proferir “pois sim” em sinal de desaprovação à fala alheia. Mais comum atualmente é um “qual é, cara?” ou “tás de brincadeira!” ou ainda “qual é, mano, tá me tirando?”. Um equivalente de “pois sim” que também caiu de moda é “só se for na Cochinchina!”: “A corrupção diminuiu?! Só se for na Cochinchina!”. Acontece que a dita Cochinchina não existe mais (era uma região ao sul do Vietnã, então colônia da França). Não é que a região não exista mais, apenas mudou de nome. Só que ninguém diz “só se for no sul do Vietnã!”. É que Cochinchina é um nome engraçado (pelo menos eu acho), o que dava um colorido a mais ao desdém da resposta a uma afirmação tida como absurda ou equivocada.

É, a língua muda, e certas expressões que ainda encontramos em obras literárias ou filmes antigos perdem a referência. Mas, quando revisitadas, conservam certo ar de nostalgia, pois não?

2 comentários sobre “Pois sim, pois não

  1. Li uma vez que o nome Cochinchina (que costumávamos pronunciar “Conchinchina”, acrescentando complicação ao que já era complicado) provém de um erro de interpretação. O fato era comum naqueles tempos de grandes navegações e de relatos de fabulosas viagens ao Oriente. Cada um que contava o mesmo conto, é claro, aumentava-lhe um ponto.

    A história começa com a chegada de Vasco da Gama ao atual estado de Querala, na ponta sul da Índia. A maior cidade da região, na língua local, se chamava Kochi. Os ouvidos portugueses acreditaram ouvir um som nasal no final e batizaram-na Cochim.

    Em pouco tempo, a notícia chegou à Europa. Conversa vai, conversa vem, espalhou-se a crença de que Cochin não era apenas nome de uma cidade, mas de uma vasta região que englobava todo o sudeste asiático.

    Com o tempo, surgiram variantes como Indochina e Cochinchina, pra diferenciar entre zonas de uma região maior.

    Com o tempo, as imprecisões geográficas foram esclarecidas, mas os nomes se fixaram por séculos.

    Nota: Estou vendendo o peixe pelo preço que paguei, sem garantia de frescor.

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