O (extenso) espectro das cores em português

Praticamente todas as línguas do mundo têm nomes para cores. Algumas línguas de povos tribais, como o bassa, da Libéria, ou o pirahã, do Brasil, têm apenas dois nomes. Em bassa há um nome de cor que resume o que chamamos de “cores quentes” do espectro luminoso (do vermelho ao amarelo) e outro para as “cores frias” (do verde ao violeta). Em pirahã, só há termos para “claro” e “escuro”.

Mas a maioria das línguas de povos “civilizados”, isto é, que vivem em cidades e não em tribos, têm seis ou sete cores básicas: as famosas sete cores do arco-íris. Só que a civilização moderna nos obrigou a nomear uma série de outros matizes para os quais não havia nomes herdados quer do latim quer do germânico, nossas duas principais fontes de étimos para colorações.

Além das cores básicas e mais comuns (branco, preto, azul, vermelho, verde, amarelo), tivemos de arranjar nomes para outros tons comuns e fomos buscá-los nos nomes de coisas que tinham tal tonalidade. Assim surgiu o laranja (uma fruta), o rosa (uma flor), o marrom (“castanha” em francês), o cinza (da cinza das fogueiras), o violeta (outra flor), o anil (nome de planta em árabe), o bege (provavelmente do italiano bambagia, “algodão”, pelo francês), o creme (um alimento), o esmeralda (um mineral) e assim por diante.

Então veio a indústria de tecidos e seu corolário, a indústria da moda, com uma gama muito mais específica de cores. Surgiram então nomes como grená, ocre, cáqui, solferino… Só para se ter um exemplo, o que um simples mortal chama de marrom um estilista pode denominar castanho, terra, camurça, café com leite, tabaco, chocolate e mais uma enormidade de matizes indistinguível aos olhos do leigo. Isso sem falar nos adjetivos apostos ao nome da cor que lhe dão uma especificidade quase infinita: azul petróleo, azul-marinho, azul-celeste, azul jacinto… (Não me perguntem por que alguns desses nomes levam hífen e outros não!)

Por incrível que pareça, até o branco e o preto admitem nuances: branco gelo, branco neve, preto absoluto, preto azulado. Basta ver o catálogo de cores das agências de automóveis para constatar que, mesmo numa mesma marca, o vermelho capri de um ano é substituído pelo vermelho carrara do ano seguinte, o verde montana pelo verde amazônia, o azul polara pelo azul flash – ufa, haja criatividade para bolar nomes!

Por essa e por outras, certo está um primo meu que foi a uma concessionária comprar um carro. Ao que o vendedor lhe perguntou “Que cor o senhor prefere?”, meu primo respondeu: “Qualquer uma, eu vou andar dentro do carro e não fora”.

3 comentários sobre “O (extenso) espectro das cores em português

  1. É curioso que só chamemos castanhos aos olhos e aos cabelos, mas marrons a todas as demais coisas que tenham a mesma cor. Os portugueses chamem castanho a tudo. Eu não sou nenhum nacionalista à Aldo (Rebelo, não Bizzocchi, rs), mas acho que se evitaria a introdução desnecessária de estrangeirismos se, logo no início, antes da fixação de um termo, se propusesse uma boa tradução ou adaptação ao português.

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  2. Realmente são muitas as cores e poucos os nomes para designá-las. Aprendi isso com Bechara. Eu tenho um livro em que pelo menos um dos artigos fala sobre isso, mas não está comigo agora. O artigo é do prof. Said Ali e faz parte do livro “Investigações Filológicas”.

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