Índio ou indígena?

O presidente Jair Bolsonaro recentemente vetou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que propunha alterar o nome do Dia do Índio para Dia dos Povos Indígenas. Essa atitude reacendeu uma polêmica que já dura algum tempo e que põe em xeque a palavra índio como designativa dos povos de origem asiática que já habitavam as Américas antes da chegada dos europeus, bem como de seus atuais descendentes. Nesse embalo, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz chegou a postar um vídeo no YouTube de reprimenda ao presidente com o título É indígena, sr. Presidente!.

Como todos devem saber, a palavra índio tem a ver com a Índia, e a primeira das acepções desse vocábulo nos dicionários é justamente “o mesmo que indiano” (em espanhol, até hoje, os indianos, habitantes da Índia, são chamados de indios, e em inglês Indian significa indistintamente “indiano” e “índio”). É que, segundo consta, ao chegar ao continente americano, Cristóvão Colombo acreditava ter chegado às Índias. E naquele tempo, Índias era a designação que os europeus davam não só à Índia propriamente dita, mas a todo o sudeste asiático, daí o termo no plural.

Desse modo, Colombo chamou os aborígines americanos de índios, e esse nome ficou consagrado por séculos. Como esses aborígines tinham características físicas peculiares (pele moreno-avermelhada, cabelos pretos e lisos, olhos negros ligeiramente amendoados, nariz discretamente achatado), os antropólogos do século XIX decidiram chamar de índia essa suposta raça humana por oposição aos brancos, negros e amarelos (na verdade, os orientais, que de amarelo não têm nada). Uma classificação antropológica mais moderna denomina os brancos de europoides ou caucasianos, os negros de negroides e os amarelos de mongoloides (não confundir com os portadores da síndrome de Down). Quanto aos índios, são atualmente classificados entre os mongoloides, isto é, são um subgrupo dos humanos que habitam o Extremo Oriente e que um dia, há cerca de 30 mil anos, cruzaram o estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, num tempo em que a calota polar o permitia, e povoaram a América.

Hoje em dia se questiona muito o conceito de raça, visto que, do ponto de vista genético e graças à análise do DNA, se sabe que os humanos têm entre si muito mais semelhanças do que diferenças. Mesmo assim, ainda costumamos dividir a humanidade em raças com base nas características físicas de cada povo. Isso é tão verdade que hoje, mais do que nunca, os negros procuram afirmar-se como tal em sua luta contra o racismo e pela preservação de seus valores culturais.

Quanto a indígena, esse termo que normalmente usamos para nos referir aos ameríndios (e olhe a palavra índio aí de novo, disfarçada!) nada tem a ver etimologicamente com os índios. A palavra vem do latim, portanto já existia bem antes de os europeus terem chegado à América, e significa simplesmente “natural da terra, nativo”, do latim indu-, “dentro”, e geno, “nascer”. Ou seja, indígena é quem nasceu dentro (do país). A semelhança fonética fortuita entre índio e indígena foi um prato cheio para estabelecer-se a confusão e passar-se a achar que só os habitantes originários do Novo Continente são indígenas.

Mas a polêmica, alimentada pelo famigerado movimento politicamente correto, está na crença, trajada de fake news, de que o termo índio é pejorativo e de que põe no mesmo balaio povos de etnias muito diferentes. Em primeiro lugar, ninguém ignora hoje em dia que um txucarramãe é etnicamente muito distinto de um ianomâmi; no entanto, chamá-los todos de índios não é muito diferente de chamar povos tão distintos quanto portugueses e húngaros de europeus. Em segundo lugar, qual a evidência científica de que o termo índio tem conotação pejorativa? Há alguma estatística de uso da palavra que comprove que, na maioria das vezes, é empregada em tom depreciativo? Como homem de ciência, me apego aos fatos e não a opiniões ou crenças, e fatos são comprováveis por dados observáveis. Sem eles, o que há é mera especulação, por vezes a serviço de certas agendas ideológicas. O “cancelamento” de palavras legitimamente vernáculas e sem nenhum cunho preconceituoso como gordo, cego, surdo, vesgo, paralítico, careca, etc., e sua substituição por paráfrases longas e pouco práticas de ser pronunciadas como pessoa portadora de deficiência ou pessoa não vidente (até a expressão deficiente visual vem sendo evitada ultimamente) procura criar uma espécie de novilíngua à moda daquela descrita por George Orwell em seu romance distópico 1984, na qual determinadas palavras ou acepções são banidas com o objetivo de restringir a amplitude do pensamento. Assim, se algo não pode ser dito, não pode ser pensado, logo não existe. O que o politicamente correto faz é justamente isso: em vez de procurar mudar a realidade para melhor, ele a mascara, dando nomes bonitos a coisas feias para que elas pareçam mais bonitas – ou menos feias.

A vítima mais recente da orwellização da língua portuguesa é a palavra escravo, sistematicamente substituída por escravizado – como se pessoas escravizadas não fossem escravas. Por essa lógica, não podemos mais nos referir à Abolição da Escravatura, mas devemos em vez disso aludir à Abolição da Escravização.

O pior de tudo é que essa proscrição de palavras feita pela linguagem politicamente correta não tem embasamento nas ciências da linguagem e é feita por pessoas, em geral militantes ideológicos de cultura rasa, sem nenhum cabedal de conhecimento etimológico ou de história da língua. Recentemente, uma deputada federal propôs banir o vocábulo travestido por afirmar erroneamente que seria uma alusão depreciativa aos travestis.

O fato é que muitos jornalistas, intelectuais e ativistas políticos têm evitado até referir-se aos nativos brasileiros como indígenas e empregado em seu lugar a expressão povos originários. Ou seja, já fizeram o revisionismo do próprio revisionismo linguístico.

A graça do indulto

Desde que o presidente Jair Bolsonaro concedeu ao seu aliado político, o deputado Daniel Silveira, o indulto individual à pena a que fora condenado pelo Supremo Tribunal Federal, indulto esse chamado tecnicamente de graça, essa palavra veio à baila e ao noticiário nesse sentido em que quase ninguém, a não ser os juristas, a conhecia. Vamos então falar sobre esse vocábulo, um dos mais polissêmicos (isto é, que têm mais significados) da língua portuguesa.

Em primeiro lugar, graça quer dizer favor, mercê. Mas também pode ser benevolência, estima, amizade. Pode ainda, segundo a teologia, ser a participação do homem na vida divina, antes do pecado, assim como um socorro espiritual concedido por Deus. E também perdão, indulgência, indulto (aqui temos o sentido do ato de Bolsonaro). Pode ser algum atrativo pessoal, físico ou moral, um certo charme ou elegância. Pode ser um chiste, uma pilhéria. E ainda o nome de uma pessoa (Qual é a sua graça?). Isso sem falar que há mulheres cujo nome é Graça. Como nome próprio, é também o designativo de três deusas gregas, as três Graças. E de graça quer dizer “grátis”. Pode-se ainda cair nas graças de alguém ou estar em estado de graça. E, até que, no século XVI, o rei de França Francisco I instituísse o tratamento de “majestade” para reis, os súditos se dirigiam ao soberano pelo pronome de tratamento Vossa Graça. Finalmente, é graças à graça presidencial (desculpem o trocadilho) que trato hoje deste assunto aqui no blog.

O que há de comum entre as palavras graça, grato, gratidão, agradecer, agradar, desgraça, desgraçado, engraçado, grátis, gratificar, congratular, agraciar, congraçar, e destas com favor, mercê e obrigado? Na primeira série de palavras fica clara a presença de um radical graç‑, graci‑, grat‑ ou grad‑, que remete à raiz latina grat‑, de gratus, “grato, agradecido”. Portanto, o latim gratia, qualidade de gratus, e que deu o nosso graça, era não só a gratidão de quem recebe um favor, mas também o próprio favor (e está aí a relação com a palavra favor, da qual falarei mais adiante). É que havia entre os antigos a obrigação da reciprocidade, isto é, quem recebe um favor fica em débito, portanto está obrigado a retribuir ao seu donatário (será que hoje essa reciprocidade ainda existe?). E assim temos a explicação de por que dizemos obrigado ao agradecer um favor.

É que favores ou graças são algo que não se tem nenhuma obrigação de prestar, mas se faz por mera generosidade, isto é, “de graça” ou “grátis”. Por isso, em espanhol se diz gracias, em italiano grazie e em francês merci (que quer dizer “mercê”, ou seja, “favor”) em lugar do nosso obrigado. Por isso também, a Virgem Maria é “cheia de graça”, de generosidade. E a exclamação “Graças a Deus!” é uma expressão de agradecimento por uma graça alcançada.

Logo, agradar significa “tornar grato, receptivo, simpático”. E como se granjeia a simpatia de alguém? Sendo alegre, descontraído, bem-humorado, “engraçado”. Daí que graça também passou a significar “alegria, jovialidade” (por exemplo, a graça da mulher brasileira) e, por extensão, “hilaridade, comédia”. Como resultado, o bom humor evoluiu para o senso de humor e o humorismo.

Outra maneira de agradar alguém é gratificando-o – financeiramente, de preferência. Mas há muitas atividades que, mesmo não remuneradas, são gratificantes. E quando alguém faz algo gratificante, para si ou para a coletividade, nós nos congratulamos com ele.

Mas, se a pessoa perde a confiança de seu benfeitor, cai em desgraça. Na Idade Média, o fiel que supostamente caíra em desgraça em relação a Deus se tornava um desgraçado. Esse adjetivo, que inicialmente significava apenas “infeliz”, assumiu uma forte conotação pejorativa, tendo sido até algumas décadas atrás um dos insultos mais contundentes de que dispúnhamos. Hoje em dia, parece estar caindo em desuso, substituído por xingamentos de mais baixo calão.

Voltando ao caso Silveira, é possível dizer que ele foi “agraciado” com o perdão presidencial.

Finalmente, favor, que não tem relação etimológica com graça, mas é seu sinônimo em muitos contextos, também nos deu, através do italiano, favorito, que quer dizer “favorecido”. Assim, quando dizemos que numa licitação pública houve favorecimento a um dos concorrentes, o que estamos dizendo é que a empresa vencedora era favorita desde o início, portanto sua vitória já estava decidida previamente. Fato corriqueiro, mas nem um pouco engraçado, no nosso país. Da mesma forma que anistiar por razões políticas ou pessoais quem é condenado pela justiça não tem a menor graça.

O peso das palavras

A linguagem é a mais maravilhosa invenção humana, aquilo que de fato nos tornou humanos e nos distinguiu para sempre dos outros animais, para o bem e para o mal – embora o linguista israelense Guy Deutscher faça a ressalva de que a linguagem nunca foi realmente inventada, já que é, ao que tudo indica, um instinto natural. De todo modo, poder fazer os outros compreenderem o que estamos pensando, transplantar para eles o nosso pensamento e os nossos sentimentos por meio da fala ou da escrita é verdadeiramente sensacional.

Mas a linguagem também tem sido ao longo dos tempos a principal fonte de discórdias e mesmo de conflitos sangrentos. Por isso, é preciso sempre dosar as palavras que empregamos, pois elas têm um peso que às vezes não somos capazes de avaliar. E palavra dita não volta atrás. Além disso, o que importa na comunicação não é o que dizemos, mas o que o outro entende daquilo que dizemos.

Nessa guerra da Ucrânia, estamos tendo vários exemplos de como as palavras são manipuladas para produzir certos efeitos de sentido. Em primeiro lugar, a própria guerra está sendo chamada pelo governo Putin de “operação militar especial” e a invasão de um país soberano, de “libertação”. E quem na Rússia utilizar os termos “guerra” ou “invasão” pode pegar até 15 anos de cadeia. Aliás, a própria censura imposta por Putin à imprensa e à internet mostra como os poderosos, especialmente os autocratas, têm medo das palavras e da informação que elas portam.

A resolução votada e aprovada pela ONU semana passada substituiu o termo “condena” por “lamenta” em relação à invasão da Ucrânia pela Rússia por receio de irritar ainda mais um indivíduo que já provou não estar na plenitude de sua sanidade mental e tem o dedo no botão vermelho das armas nucleares.

Enquanto isso, o chanceler brasileiro Carlos França substitui a palavra “neutralidade”, usada por Bolsonaro, por “equilíbrio”, tentando dar um ar positivo à indiferença pelos mortos, feridos, desabrigados e exilados, pois o que importa são nossos interesses comerciais – leia-se fertilizantes –, mesmo sabendo que nossa neutralidade, ou melhor, equilíbrio, não vai permitir a importação desses insumos de que éramos autossuficientes décadas atrás, já que o comércio com a Rússia está internacionalmente bloqueado.

Por outro lado, é também com palavras que o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, insufla em seu povo a coragem e o patriotismo para lutar contra os invasores. Zelensky, inicialmente desacreditado por ser um comediante que chegou ao poder na onda da antipolítica, revela-se com sua retórica poderosa um grande estadista, um verdadeiro líder, cuja maior arma, na falta de material bélico efetivo, são suas palavras. E que, com elas, conseguiu a proeza de unir o Ocidente e fazê-lo tomar medidas corajosas que, de outro modo, jamais seriam tomadas contra uma potência como a Rússia.

Neste grave momento da História, é preciso mais do que nunca saber usar bem as palavras, seja para aplacar ditadores, seja para enfrentá-los. Só o que não se pode é ficar calado.

A importância do sufixo “‑ismo” na política brasileira

Vivemos numa democracia. Pelo menos, é o que dizem por aí. Nesse nosso regime de governo, o presidencialismo, mais especificamente chamado de presidencialismo de coalizão, em que, para conseguir governar, o presidente precisa fazer alianças até com inimigos para ter apoio no Congresso, abundam termos terminados em ‑ismo para denominar as mais diversas nuances de nossa peculiar vida política.

No Brasil, não temos apenas esquerda, centro e direita: temos esquerdismo, centrismo e direitismo, com direito a extremismo e tudo! Já vivemos a época do getulismo, do carlismo (de Antônio Carlos Magalhães), do brisolismo, do lulismo, também conhecido por lulopetismo (que pode voltar em 2023), e hoje atravessamos a era do bolsonarismo. Esta última “filosofia” política cresceu por meio do alarmismo de que nossa frágil sociedade estava na iminência de cair nas mãos do comunismo. No entanto, para nos livrar da ameaça do socialismo – ou marxismo-leninismo, se preferirem – acabamos nos entregando a um governo que flerta com o fascismo e que já teve até um secretário de cultura plagiando uma fala do nazismo.

No meio político tupiniquim, é costume um governo desfazer tudo o que seu antecessor fez, sendo essa atitude logo tachada de revanchismo. Quando a oposição aponta desmandos e descalabros dos governantes no trato da coisa pública, é logo acusada de denuncismo vazio. Porém, como nossos políticos são adeptos do patrimonialismo, logo que se instala um novo governo, seja de que ideologia for, diversos parlamentares dotados de cinismo fazem do adesismo e do arrivismo a ordem do dia, configurando assim o famigerado fisiologismo.

Outra prática muito comum a nossos políticos é o casuísmo, como quando, para impedir que Jango governasse, instituíram o parlamentarismo. Na época, a esquerda brasileira reclamou de conspiracionismo das forças conservadoras contra os apoiadores do progressismo.

Atualmente, quando nosso presidente se sente encurralado pela imprensa ou pelo Poder Judiciário por causa de algum dos muitos absurdos que comete, apela logo ao diversionismo, isto é, à chamada “cortina de fumaça”, como fazer ameaça de golpe institucional ou disparar uma fake news bem cabeluda, recheada de negacionismo.

O fato é que, mesmo quando nossos ilustres homens públicos são pegos com a boca na botija – ou melhor, com a mão na mala de dinheiro –, dificilmente são punidos graças ao garantismo de nossos juízes e dos ministros das cortes superiores. Antes assim, pois, do contrário, poderíamos ser acusados de punitivismo, e, no Brasil, como se sabe, todo cidadão deve ser considerado inocente até que se prove a sua culpa no trânsito em julgado, isto é, na centésima instância do Judiciário.

Mas, atenção, leitores, não quero com esta crônica provocar nenhum divisionismo entre vocês, afinal já basta o radicalismo que estamos vivenciando por causa da recente onda mundial de populismo. Quero apenas chamar a atenção para o uso abusivo desse sufixo, que beira o pedantismo.

Bolsonaro foi a Canossa

Um dos fatos históricos mais marcantes da Idade Média foi a chamada Questão das Investiduras, ou Querela das Investiduras. Trata-se de um conflito ocorrido de 1075 a 1122 entre o papa e o imperador germânico no qual se disputava a primazia na nomeação de bispos. Ocorria que o imperador Henrique IV desejava escolher ele mesmo os bispos a serem investidos dentro dos territórios do Império. Por outro lado, o papa não abria mão de seu poder sobre cardeais, bispos, abades e párocos. Assim, Henrique declarou guerra ao papado e, por causa disso, acabou excomungado pelo papa Gregório VII. Isso fez com que os barões alemães esboçassem a intenção de emancipar-se do jugo do imperador. Temendo a fragmentação de seu império, Henrique pediu ao papa que revogasse sua excomunhão.

Gregório VII exigiu então que o imperador viajasse de Speyer, na Alemanha, a Canossa, na Itália, e que permanecesse três dias e três noites ajoelhado às portas do castelo, sob frio e neve, descalço e trajando apenas uma túnica de lã. Cumprida essa penitência, o papa o recebeu e revogou sua excomunhão sob certas condições, que Henrique viria a violar pouco tempo depois.

Desse episódio histórico surgiram as expressões “penitência de Canossa” e “ir a Canossa” para designar um ato humilhante que alguém tem de praticar para conseguir o perdão por um malfeito.

Foi exatamente o que Bolsonaro foi obrigado a fazer ontem ao publicar uma carta à nação assinada por ele, mas redigida pelo ex-presidente Michel Temer, em que afirma não ter querido dizer aquilo que dissera em 7 de setembro sobre o STF e o ministro Alexandre de Moraes.

O fato de o presidente não ter redigido a carta com suas próprias palavras já põe em dúvida a sinceridade de seu conteúdo. Mas, como o que vale é a assinatura, para todos os efeitos – e para decepção de seus militantes – Bolsonaro fez um vexatório recuo estratégico. Ou seja, foi a Canossa.

Melhor para o Brasil, que já não tem poucos problemas a resolver. No entanto, o ceticismo é geral, não só dos ministros do Supremo, mas até mesmo dos próprios aliados políticos do presidente. Conhecendo o temperamento do capitão, estamos todos aguardando que ele, como Henrique IV, logo viole as promessas de bom comportamento que acabou de fazer. Como não é a primeira vez que ele morde e depois assopra, fica difícil acreditar nessa nova versão “Bolsonarinho paz e amor”.

As metáforas da crise política

Desde que a crise política entre os Poderes do Estado se instalou, ou melhor, foi artificialmente criada em nosso país, tem pululado na imprensa e entre os agentes políticos uma série de metáforas para descrever a situação. Desde que Bolsonaro começou a ensaiar o golpe que nunca dará, passamos a ouvir expressões como “jogar fora das quatro linhas da Constituição”, “esticar a corda”, “avançar o sinal”, “cruzar o Rubicão”, “enquadrar o STF”, “panela de pressão prestes a explodir”, “queimar as pontes entre o Executivo e o Judiciário”, “jogar para a plateia”, “fazer cortina de fumaça” e algumas outras.

“Jogar fora das quatro linhas da Constituição” faz referência a uma partida de futebol, em que só são válidas as jogadas que ocorrem dentro de campo; portanto, fora das quatro linhas, temos o desrespeito à Constituição e, consequentemente, o arbítrio.

Também do futebol vem a expressão “jogar para a plateia”, em que o jogador está mais preocupado em fazer jogadas bonitas do que eficientes, logo em encantar o público e não em ganhar o jogo. Nesse sentido, ao fazer suas bravatas, o Presidente insufla sua torcida, isto é, seus apoiadores, mas não rompe de fato com o estado de direito.

Já “esticar a corda” remete ao cabo de guerra, esporte em que cada grupo de competidores puxa uma das extremidades de uma corda, vencendo aquele que conseguir derrubar o grupo adversário. Muito praticado pelos militares, e por isso mesmo relacionado ao universo de Bolsonaro, é um exercício de medição de forças. Ou seja, ele e o Supremo Tribunal Federal estariam disputando para ver que é o mais forte. Depois de suas declarações de ontem em Brasília e em São Paulo por ocasião do Sete de Setembro, o capitão Bolsonaro teria, segundo analistas, não apenas esticado, mas rompido a corda, num processo sem volta.

Também do vocabulário militar vêm as expressões “fazer cortina de fumaça” e “queimar as pontes”. A cortina de fumaça é uma fogueira que as tropas fazem para que, encobertas pela fumaça, o inimigo não possa vê-las. Assim, a própria crise entre os Poderes seria uma tática diversionista para desviar a atenção da opinião pública dos reais problemas do país: má gestão da pandemia, com quase 600 mil mortes; má gestão da crise hídrica, em grande parte causada pelo próprio descaso do governo com a destruição da Amazônia (sim, amigos, o desmatamento é o principal responsável pela falta de chuvas no Sudeste e Centro-Oeste); alta do dólar; alta dos combustíveis; alta da inflação; desemprego em massa; fome; corrupção no governo; reformas ruins e que, mesmo assim, não andam no Congresso (agora devem andar menos ainda), y otras cositas más.

Por outro lado, quando uma tropa atravessa um rio, ela queima a ponte por onde passou para que o inimigo não possa alcançá-la. Por isso, “queimar as pontes” é ao mesmo tempo romper a comunicação e destruir qualquer possibilidade de retorno. É exatamente o que faz o Presidente.

“Avançar o sinal” é evidente metáfora do trânsito, em que ultrapassar o sinal vermelho é infração gravíssima, assim como desrespeitar ou tentar destruir a ordem democrática.

“Cruzar o Rubicão” alude ao episódio da história de Roma em que, tendo conquistado a Gália, Júlio César atravessou um rio chamado Rubicão, que separava a Gália Cisalpina da Itália, marchou com seu exército sobre Roma, o que era proibido pela lei romana, e declarou guerra ao Senado. Nessa ocasião, proclamou: alea jacta est, “a sorte está lançada”. A partir de então, “cruzar o Rubicão” passou a significar “tomar uma decisão arriscada e irreversível”.

A “panela de pressão prestes a explodir” é uma óbvia analogia a situações de grande tensão emocional das quais qualquer ato explosivo pode repentinamente surgir, como a ruptura institucional, por exemplo.

Por fim, “enquadrar o STF” ou “enquadrar o ministro Alexandre de Moraes” remete a colocar a pessoa ou instituição dentro de uma moldura, como um quadro, de modo que ela não possa sair e fique confinada a esse espaço. No caso em questão, trata-se de limitar o poder de ação do(s) ministro(s) do Supremo, especialmente em ações que possam atingir Bolsonaro ou seus apoiadores.

O recurso à metáfora é uma das estratégias comunicativas mais antigas que existem. Eu arriscaria dizer que ela surgiu praticamente junto com a própria aptidão linguística do ser humano. Prova disso é que grande parte das palavras que usamos são metáforas desgastadas das quais já não nos damos mais conta. Tanto que acabei de empregar uma: desgastar uma metáfora é empregá-la com tal frequência que ela deixa de ser sentida como figura de linguagem, do mesmo modo como se desgasta uma ferramenta de tanto usá-la até que ela perca sua funcionalidade. Infelizmente, o cenário atual nos tem brindado com mais metáforas do que com saídas para a crise.

*-*-*

Agora uma consideração política: apoiar Bolsonaro neste momento é, a meu ver, trabalhar para eleger Lula no próximo ano. Se o capitão sofrer impeachment, o segundo turno da eleição de 2022 será disputado entre Lula e o candidato da terceira via, seja ele quem for. E esse candidato, seja ele quem for, terá grandes chances de derrotar Lula, dada a grande rejeição que o petista e seu partido têm no eleitorado brasileiro. Já uma disputa de segundo turno entre Lula e Bolsonaro evidentemente favorece o primeiro. Portanto, os bolsonaristas podem estar involuntariamente fazendo campanha para seu arqui-inimigo. Ou, para usar mais uma metáfora, dando um tiro no próprio pé.

A palavra é… narrativa!

Desde o início do governo Bolsonaro, vem-se tornando cada vez mais frequente no discurso político e também no jornalismo o uso da palavra narrativa com um novo significado: o de versão falsa de um fato político com o objetivo de encobrir a responsabilidade de seus protagonistas. Ou seja, diante de eventos de impacto, como a interferência do Presidente na Polícia Federal, a não resposta do Ministério da Saúde aos e-mails da Pfizer ou a possível intenção de compra superfaturada da Covaxin, governo e oposição apresentam diferentes narrativas, isto é, uma distinta cronologia dos fatos, bem como uma diversa justificativa para eles.

A prática da camuflagem do incômodo político por meio de versões fantasiosas não é nova; na verdade, é velha como o mundo: os gregos desenvolveram uma técnica chamada retórica justamente para fazer prevalecerem os interesses e pontos de vista do orador sobre os do oponente por meio do discurso. Mais do que a arte do convencimento, a retórica tem sempre sido usada como a arte da ocultação da verdade.

E, diante da guerra de narrativas, turbinada nos dias atuais pela manipulação de dados estatísticos, documentos e declarações de autoridades, inclusive com o uso da alta tecnologia, a opinião pública fica confusa, sem saber em quem acreditar, afinal, como demonstra Akira Kurosawa em seu famoso filme de 1950 Rashomon, a verdade não existe, o que existe são versões. Ou, se preferirem, narrativas.

“Impeachment” é o mesmo que impedimento?

Nestes dias em que, diante de todas as ações e omissões de Bolsonaro que representam o contrário de como um governante deveria agir, já há mais de 60 pedidos de impeachment do Presidente da República sobre a mesa de Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, alguns jornalistas têm empregado o termo vernáculo “impedimento” em substituição ao anglicismo impeachment, o que faz ressurgir a dúvida: impeachment e impedimento são a mesma coisa? Em outras palavras, é lícito traduzir o termo inglês pelo português? Mais ainda, é aconselhável fazer isso?

O impeachment é a figura jurídica surgida no mundo anglo-saxônico que permite ao parlamento cassar o mandato do chefe do Executivo diante de acusações comprovadas de improbidade no exercício do cargo. O substantivo inglês impeachment, assim como o verbo impeach, provêm do antigo francês empêcher, “impedir”, e empêchement, “impedimento”, por sua vez originários do baixo latim impedicare, derivado de pedica, “ferros que se prendem aos pés do prisioneiro para impedir seu movimento”. Daí talvez a tendência de traduzir impeachment como “impedimento”. No entanto, o próprio inglês distingue impeach, “fazer acusações contra, acusar de improbidade no exercício de mandato”, de impede, “impedir, obstruir, impossibilitar”. E a Constituição brasileira prevê o impedimento, temporário ou permanente, de um mandatário como justificativa para que seu suplente ocupe o cargo. Ou seja, uma doença ou viagem ao Exterior são motivos de impedimento do presidente, quando então o vice assume o posto. Esses impedimentos por razões corriqueiras nada têm a ver com o impeachment, que só se aplica em caso de acusação grave, que desautorize moralmente o presidente de permanecer no cargo. Nesse sentido, seria melhor traduzir impeachment por “cassação” do que por “impedimento”.

Logo, a tradução de impeachment por “impedimento” é inadequada, embora favorecida por uma certa semelhança sonora e parentesco etimológico. Evidentemente, o presidente cassado por impeachment fica definitivamente impedido de exercer seu mandato, mas, se o impeachment é um caso particular de impedimento, a recíproca não é verdadeira: nem todo impedimento se dá por impeachment.

A origem da palavra “maricas”

Prof. Aldo, boa tarde. Qual é a origem da palavra “maricas”, que o Presidente Bolsonaro empregou? Obrigado.
Wanderson Simões dos Santos, Cuiabá, MT

Caro Wanderson, a palavra maricas, que significa “homem efeminado”, “homossexual masculino”, “fofoqueiro” e também “indivíduo medroso”, é um diminutivo de Maria, portanto é o mesmo que Mariazinha. Aliás, no passado era comum que mulheres jovens chamadas Maria tivessem como apelido Maricas, Maricota ou Mariquinhas. Esse xingamento, muito popular décadas atrás, hoje em dia anda meio fora de moda, substituído por termos mais fortes, como bicha, veado, etc. A ideia é comparar um homem a uma menininha e, assim, pôr em dúvida ao mesmo tempo a sua masculinidade e a sua maturidade.

Entre as crianças, é – ou era, sei lá – atributo geralmente aplicado ao garoto tido pelo grupo como muito medroso, não necessariamente efeminado ou homossexual. Em tempos de politicamente correto, esse insulto tem carga fortemente homofóbica.

Curiosamente, tal ofensa também existe em espanhol, de onde provavelmente importamos a palavra. Na língua de Cervantes, temos Marica e maricón, o primeiro datando de 1599, e o segundo, de 1517, o que parece estranho se pensarmos que maricón é aumentativo, e portanto derivado, de Marica. Mas é que a data do primeiro registro escrito de uma palavra (a que nós etimologistas damos o nome de terminus a quo) não corresponde necessariamente ao próprio nascimento da palavra. Por isso, é provável que Marica tenha nascido antes de maricón. Este último ainda se usa aqui na América espanhola com o significado original de “maricas, homossexual”; já na Espanha o sentido evoluiu para “sodomita”.

Uma advertência: existe em português o substantivo marica com o significado de “fina faixa de carne sob a pele do ventre”, que, nos mais gordinhos (ou melhor, nas pessoas portadoras de excesso de tecido adiposo), é popularmente conhecido como “pneuzinho”. No entanto, esse substantivo não tem nenhuma relação com o injurioso maricas, de que estamos tratando aqui.

Brasil il il il il!!!

________________________________________________________________
DISCLAIMER:

Atenção, haters, este artigo contém altas doses de ironia. (Caso você não saiba o que é ironia, consulte um dicionário; caso você não saiba o que é um dicionário, nem se dê ao trabalho de ler o texto abaixo – se é que você consegue.
________________________________________________________________

Talvez por causa de nosso complexo de vira-latas, nós brasileiros temos a mania de querer ser os melhores do mundo em tudo. E assim vamos criando nossa mitologia: melhor futebol do mundo, maior carnaval do planeta, o povo mais simpático, acolhedor e cordial de todos, a melhor música popular, a modelo mais famosa, o maior campeão mundial de fórmula um…

Pois bem, em matéria de covid também estamos mostrando a que viemos. Começamos timidamente e, “comendo pelas beiradas”, chegamos ao segundo lugar no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos (mas aí também é covardia, afinal o país mais rico e poderoso tinha de ser o primeiro; os EUA são hors-concours, ainda mais com Trump à frente). Portanto, diante dessa superpotência, nosso segundo lugar tem gosto de primeiro, ou, como diria o técnico da seleção de 1978 Cláudio Coutinho, somos os “campeões morais” dessa competição.

E não é que, de repente, sem aviso, na semana passada a Índia nos ultrapassou em número de casos? Também, com uma população de mais de um bilhão de habitantes, fica difícil concorrer. Mesmo assim, o valente povo brasileiro não se dá por vencido. Tanto que ainda detemos o segundo lugar em número de mortes, e este os indianos não vão nos roubar, ah não vão mesmo!

Foi com toda essa determinação que, mesmo com regras rígidas de isolamento e até lockdown, nossos patrióticos cidadãos saíram às ruas, lotaram bares, restaurantes, shoppings e praias, sem máscara e sem distanciamento social, mostrando que, em matéria de disseminação de epidemias, não somos nem um pouco amadores.

Também contribuíram muito para nosso sucesso os diligentes prefeitos, que, atendendo ao clamor popular – especialmente em ano de eleição –, flexibilizaram o distanciamento de maneira precoce e descoordenada. Afinal, quem é que pode viver sem ir ao shopping? E assim, sensíveis a essa necessidade básica e premente da população, liberaram o comércio de rua, os barzinhos, os parques, as praias e relaxaram a fiscalização para que esta não importunasse os beberrões e os boêmios.

Por falar em descoordenação, não podemos deixar de louvar nosso valoroso Presidente da República, que, com seu exemplo de não usar máscara em público, provocar aglomerações, rodear-se de criancinhas, passar a mão no nariz e em seguida cumprimentar apoiadores, de demitir ministros técnicos e substituí-los por militares e ainda de recomendar o uso de um medicamento sem qualquer eficácia contra a doença, contribuiu muito para insuflar nos brasileiros esse sentimento de que, se depender de nós, ganhar a corrida da covid será uma barbada.

Mas que fique claro que não fazemos tudo isso apenas pelo espírito de competição com outras nações do mundo, especialmente a do Tio Sam, mas porque temos a plena consciência de que precisamos a todo custo salvar as empresas e os empregos mesmo que isso custe algumas centenas de milhares de vidas. Afinal, a maioria dos mortos não é mais produtiva mesmo, já que se trata de idosos aposentados. Aliás, isso até aliviará as contas da Previdência – ou seja, matamos (literalmente) dois coelhos com uma só cajadada.

É bem verdade que sempre haverá os derrotistas e estraga-prazeres a dizer que vidas são mais importantes do que a economia, que nosso brilhante primeiro-mandatário se eximiu de responsabilidade em coordenar esforços contra a pandemia, culpando o STF e os governadores e prefeitos pelo nosso quadro atual, mas não liguem: essas pessoas são antipatriotas e torcem pelo nosso fracasso. Mesmo assim, tenho certeza de que essa momentânea reação indiana não nos desanimará: continuaremos dando nosso melhor, frequentando lojas, templos e baladas, fazendo festas clandestinas, dando carteirada nos fiscais chatos que insistem em cercear nossa liberdade civil e nosso direito democrático de sair à ruas sem máscara e disseminar a doença porque, afinal, somos brasileiros, e brasileiro não desiste nunca.

Ei, americanos, aguardem-nos que estamos chegando, e a corrida ainda não terminou!