O ortoepista

Germano estava em uma loja informando seus dados pessoais ao atendente do setor de crediário. Nome: Germano Fontes. Data de nascimento: tanto de tanto de mil novecentos e tanto. Profissão: ortoepista. Ao dizer isso, o rapaz do cadastro lançou-lhe um olhar de perplexidade: orto o quê?! “Ortoepista”, respondeu Germano.

— O senhor é médico? Trata de fraturas, né?

— Não, não, eu sou gramático, especialista em ortoépia — ou ortoepia.

— E, desculpa perguntar, o que faz um orto, orto…?

— Ortoepista. É o profissional que estuda e ensina a correta pronúncia das palavras.

— Ah, que interessante! O senhor podia dar um exemplo?

— Claro, o próprio nome da minha profissão é um exemplo. Você pode pronunciar ortoépia ou ortoepia, ambas as formas estão corretas.

— Puxa, mas essa profissão existe mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar.

— Claro que existe, tanto que eu sou filiado ao Sindicado Nacional dos Ortoepistas e das Ortoepistas, membro da Sociedade Brasileira de Ortoépia — ou Ortoepia — e credenciado junto ao Conselho Federal de Ortoépia — ou Ortoepia.

— Nossa, agora eu fiquei pasmo! Pra ser sincero com o senhor, eu num intindi nada. Pra mim isso é uma compreta novidade.

— Então, só para lhe mostrar como um profissional como eu é útil, a pronúncia correta é “não entendi” e não “num intindi”. E o certo é “completa” e não “compreta”.

— Ah, doutor, mas o senhor tem estudo, né, eu não. Quer dizer então que o orto, orto… enfim, isso aí que o senhor falou, é a pessoa que correge os ignorantes?

— Olha, não é bem isso, meu trabalho não é humilhar ninguém, mas, já que você tocou no assunto, o certo é “corrige” e não “correge”.

— Legal, aprendi um monte de coisa com o senhor agora, vou voltar mais inteligente pra casa. O senhor pode assinar aqui embaixo? Pode ser só uma rúbrica.

— Rubrica, meu amigo, rubrica.

O país do golpe

De vez em quando, eu e minha esposa gostamos de visitar uma loja de produtos japoneses chamada Daiso (atenção: isto não é um merchandising da loja, ok?). Para quem não conhece, trata-se de um comércio de utilidades fabricadas no Japão que vão desde artigos de escritório até brinquedos para pets, passando por utensílios de cozinha, organizadores para roupas, louças e até salgadinhos e sorvetes. Eu e ela costumamos ficar maravilhados com a criatividade infinita dos japoneses, que apresentam soluções para problemas que nem sabíamos que tínhamos. São produtos comuns, nada tecnológicos, mas que fazem toda a diferença no dia a dia das famílias, tornando nossa vida mais prática.

A criatividade japonesa é tanta que, não à toa, até algumas décadas atrás o Japão tinha a segunda economia do mundo, sobretudo graças aos seus insuperáveis produtos eletrônicos. Hoje esse posto é ocupado pela China, imbatível em matéria de tecnologia de ponta a preço módico. Mas também outros países desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Itália se destacam por uma indústria pujante e criativa, com ênfase em eletroeletrônicos, automóveis e aviões.

Enquanto isso, corre uma lenda de que o brasileiro é um povo muito criativo. É bem verdade que, durante muito tempo, nossa criatividade se restringiu às fantasias do Carnaval e a gambiarras (o “jeitinho” brasileiro) como empregar um cabo de vassoura para substituir um pé de mesa quebrado. Mas sobretudo a partir do advento da era digital, a criatividade brasileira foi canalizada para outra “tecnologia”: os golpes, cujo nome técnico é estelionato.

Todo dia, abundam novos golpes aplicados com mensagens de e-mail e Whatsapp, sites falsos, maquininhas de cartão, falsas entregas, falsos encontros amorosos, e assim por diante. Não que essa onda tenha surgido com a internet: nas décadas de 1930 e ’40, o malandro carioca já vendia o Cristo Redentor ao caipira recém-chegado ao Rio, que também comprava o bilhete de loteria premiado.

Além disso, nossa tecnologia aplicada à elaboração de esquemas de desvio de dinheiro público, agora turbinadas pelas emendas parlamentares, sempre foi insuperável. Nossas mutretas e maracutaias no setor financeiro, lesando correntistas, investidores, aposentados e pensionistas não ficam nada atrás — Daniel Vorcaro que o diga! E ainda temos a propaganda enganosa, os produtos milagrosos que curam desde impotência sexual até câncer, anunciados na TV nos famosos comerciais do tipo “ligue já”, e os inumeráveis ardis que comerciantes inventam para lucrar mais vendendo menos, como bombas de combustível adulteradas ou o “litro” de azeite de 900 ml.

De fato, o brasileiro é muito criativo… para o que não presta. Usássemos nossa frutífera imaginação para coisas úteis, como fazem os japoneses e os chineses, e não para lesar nossos próprios compatriotas, seríamos sem dúvida uma potência mundial. Mas, como gritaram os atletas brasileiros na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão, “aqui é Brasil!”.

O maior país do mundo

Até sexta-feira passada, a imprensa nacional se referia ao jovem norueguês Lucas Braathen, filho de brasileira e que fala mal português, como a grande esperança do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano. Sábado, dia 14 de fevereiro, o rapaz de 24 anos ganhou a medalha de ouro no slalom gigante. A imprensa logo estampou: “Lucas Pinheiro é ouro para o Brasil!”. O até então norueguês Lucas Braathen é agora o brasileiríssimo Lucas Pinheiro!

Acontece que o medalhista nasceu e passou quase a vida toda na Noruega. Sobretudo treinou a vida toda na Noruega, apoiado pela forte infraestrutura esportiva norueguesa. Só passou a defender as cores verde-amarelo no ano passado e por desentendimento com a federação norueguesa de esqui.

No pódio, Braathen chorou de emoção, decerto por sua conquista pessoal, pelo esforço que dedicou durante anos ao esporte e pelo apoio que recebeu do país nórdico para sua conquista, não pelo Brasil. Mas o protocolo manda demonstrar patriotismo ao ouvir o hino nacional e ver o hasteamento da bandeira, mesmo que seja de sua pátria de conveniência. De todo modo, a vitória de Braathen acalenta o chauvinismo de um país tão carente de heróis.

Apenas a título de informação, a outra grande esperança do Brasil nesses jogos é o italiano Giovanni Ongaro, igualmente treinado a vida toda nas neves da Itália e da Europa.

Mas a vitória do brasilo-norueguês Pinheiro Braathen reforça o mito muito cultivado por estas plagas de que o Brasil é o maior país do mundo em tudo. Na verdade, o Brasil já foi o maior país do mundo no futebol; foi, não é mais. Temos o maior rio e a maior floresta, mas o mérito não é nosso e sim da natureza. Temos o maior Carnaval, sem dúvida. E temos talvez a maior desigualdade social, a maior corrupção e a maior impunidade do mundo, e isso sim é mérito cem por cento nosso. Ou demérito.

Eu te amo

Uma das expressões mais universais que existem é a declaração de amor, o famoso “eu te amo”. Tanto que, outro dia, me deparei com uma publicação na internet listando como se diz “eu te amo” em 40 línguas diferentes. Algumas dessas formas são famosíssimas, como o inglês I love you e o francês je t’aime, tantas vezes presentes em filmes e canções românticas. Mas outras formas, como o espanhol te quiero e o italiano io ti amo (e também ti voglio bene), são igualmente difundidas.

Em português, a forma mais conhecida é o manjado eu te amo, mas, curiosamente, a nossa língua apresenta diferentes formas de dizer isso conforme a variedade geográfica e também histórica. Por exemplo, se a atual dublagem brasileira de filmes estrangeiros sapeca invariavelmente eu te amo, dublagens mais antigas (dos anos ’60, por exemplo) traziam os formais eu o amo e eu a amo, conforme a pessoa amada fosse homem ou mulher. Em Portugal, o comum é dizer amo-te ou ainda eu amo-te, e em alguns lugares do Nordeste o que se ouve é eu lhe amo. É curioso como a profusão de variedades do português afeta até uma expressão universal e que na maioria das línguas tem uma forma única, não?

A política do ódio

Todo extremismo tende a aceitar, ou até mesmo defender, a violência como método. Vemos isso no Irã dos aiatolás, na Venezuela de Maduro, no Brasil da ditadura militar (e de ambos os lados, tanto o do regime quanto o dos militantes socialistas). Mas percebo uma diferença crucial entre a extrema-esquerda e a extrema-direita: embora ambas achem legítimo o uso da força para impor sua visão de mundo, os radicais de esquerda parecem ser movidos por um fanatismo quase religioso, em que se sentem detentores do monopólio da Verdade (aquilo a que chamam “estar do lado certo da História”) e por isso acham justos assaltos a bancos, atentados terroristas, etc., em nome de sua causa, ao passo que os extremistas de direita são movidos por muito ódio — ódio à democracia, ódio às liberdades individuais (exceto as suas, é claro), ódio às minorias, ao meio ambiente, aos animais…

Noto um traço comum a todos os direitistas radicais, como Jair Bolsonaro (que, diante de milhares de mortos pela covid-19, disse “e daí, não sou coveiro”), seu filho Eduardo, os ex-deputados Daniel Silveira, Roberto Jefferson e Carla Zambelli (a qual responde a uma gozação com uma arma em punho), Donald Trump, J. D. Vance, Pete Hegseth, Kristi Noem (a xerifa do ICE, que executou a tiros seu próprio cachorro), e muitos outros: o amor que esses indivíduos têm às armas (as portadas por cidadãos comuns e as usadas nas guerras, que eles adoram promover) tem o mesmo tamanho do desprezo que eles têm pelos mais pobres e desprotegidos, por todos aqueles que para eles são losers (“perdedores”, em inglês), incluindo animais indefesos como o cãozinho Orelha. Para eles, só o dinheiro e o poder importam, e tudo o que atrapalhe o seu projeto político deve ser eliminado, inclusive pessoas. Para isso, não hesitam em lançar mão de mentiras e de apontar para um suposto inimigo (os judeus na Alemanha nazista, os imigrantes na América de hoje, os intelectuais, os artistas, as mulheres, os gays, e assim por diante). E, para combatê-los, não bastam as medidas legais, é preciso acrescentar muita truculência. O radicalismo que se esconde sob o eufemismo de “conservadores” é turbinado por pura maldade.

A extrema-direita é basicamente composta por pessoas más, perversas, cruéis, sádicas. Pessoas que não apenas querem prender ou banir seus alegados inimigos, mas querem antes humilhá-los e torturá-los, como o latrocida que não se contenta em roubar, mas precisa matar, mesmo depois de já ter obtido o que desejava.

Não que todas as pessoas desalmadas e sem empatia sejam de extrema-direita, mas penso que todos os militantes e simpatizantes dessa ala são abjetos, desalmados, pérfidos. O extremo direito do espectro político é o lugar ideal para brigões, encrenqueiros, grosseirões e também para sociopatas de toda ordem. O crescimento dessa corrente no mundo inteiro acende um alerta: pessoas comuns, que não têm necessariamente perfil antissocial, estão aderindo a essa facção por ignorância, falta de cultura política — e geral — e crença ingênua em falsos profetas que prometem soluções milagrosas, o que as torna mera massa de manobra nas mãos de canalhas. Pior do que quem pratica o mal é quem nele consente.

O senhor, a senhora

Não gosto de ser tratado por senhor. Nunca gostei. Mas, depois de uma certa idade, tenho gostado menos ainda. Quando criança, aprendi que deveríamos tratar os mais velhos por senhor ou senhora em sinal de respeito. Quando se é criança, mais velhos são todos os adultos, inclusive os de 18, 19 anos. E o respeito aos mais velhos é um princípio basilar da civilização. Afinal, o primeiro fundamento de uma sociedade organizada é o respeito à autoridade, começando pelos próprios pais. Portanto, não respeitamos nossos pais por serem mais velhos que nós, mas por serem hierarquicamente superiores. Embora a palavra senhor provenha do latim senior, que significa “mais velho”, a ideia é que senhor é aquele que tem poder: senhor de si mesmo, senhor de escravos, senhor feudal, assenhorear-se… No entanto, sempre tratei meus pais por você e nunca faltei ao respeito com eles. Em contrapartida, parlamentares se tratam por Vossa Excelência mesmo quando se xingam e se acusam de corruptos.

É por essa razão que tratamos por senhor aqueles que têm autoridade política, administrativa ou intelectual: delegados de polícia, médicos, advogados, professores, nosso chefe, o diretor da empresa, e assim por diante. Também tratamos por senhor ou senhora pessoas desconhecidas, com quem não temos proximidade, desde que não sejam mais jovens que nós.

Assim, depois que passei dos 40 anos comecei a ser tratado por senhor por balconistas, manobristas, atendentes e todo tipo de prestadores de serviço, o que significa que esse tratamento tem a ver com idade, mas também com posição social. Aliás, hoje em dia, a etiqueta empresarial recomenda que todo cliente seja tratado por senhor mesmo que seja jovem. Também sou tratado por senhor por muitos de meus alunos, embora eu nunca tenha feito questão disso e, desde o primeiro dia de aula, os deixe à vontade para dirigir-se a mim como quiserem, desde que com respeito.

Mas a questão é que o uso dos pronomes de tratamento o senhor e a senhora encobre um certo etarismo. Afinal, somos quem somos desde que nascemos e até quando morrermos. Por que deveríamos ser tratados pelas pessoas de modo diferente só porque envelhecemos? Chamar alguém de senhor sem que haja um desnível hierárquico é uma maneira sutil de dizer “você é velho”. E por que deveríamos tratar os velhos de maneira diferenciada? Nas sociedades tribais e ágrafas, os velhos são os detentores do conhecimento ancestral, que passa de geração a geração; portanto, merecem respeito porque são a própria salvaguarda da continuidade da tribo e de sua cultura. Além disso, são os detentores do poder na tribo. Mas, na nossa sociedade “civilizada”, o velho é geralmente visto como alguém não produtivo, desatualizado, frágil, dependente, sem autonomia, “bananeira que já deu cacho” — enfim, numa palavra, alguém inútil, quando não um fardo que a sociedade tem de carregar. E numa sociedade que exalta a juventude, a vitalidade e a produtividade, o velho é a antítese de tudo isso.

É por essa razão que não gosto de ser chamado de senhor. Porque, mesmo já não tão jovem, sou ativo, produtivo, antenado com as novas tendências, e porque, como disse, o tratamento mais formal não necessariamente indica respeito e sim um preconceito disfarçado. É por isso também que não pretendo ser velho: quero ser vintage.

O bom e o belo

“O homem é a medida de todas as coisas.” A famosa frase do filósofo grego Protágoras (c. 490 a.C. – c. 415 a.C.) foi completada à época do Renascimento: “O homem é a medida de todas as coisas; é a medida do bom, do belo e do justo”. A ideia de que o bom e o belo andam juntos é bem antiga (na língua grega, kalós significa tanto “bom” quanto “belo”). E em latim também há essa relação. Nossa palavra bom veio do latim bonus, cuja forma arcaica era duenos; já belo vem de bellus, cuja forma primitiva era duenolos, diminutivo de duenos, do mesmo modo como bonito provém do espanhol, em que é um diminutivo de bueno. Portanto, o belo é o “bonzinho”, forma carinhosa de descrever algo bom.

De fato, como se sabe desde o advento da estética, ramo da filosofia que tem por objeto de estudo o fenômeno da beleza, belo é aquilo que é bom para os sentidos, especialmente a visão e a audição (o que é bom para o olfato é cheiroso, o bom para o paladar é saboroso, e para o tato é macio).

Portanto, há muito tempo o homem se pergunta o que torna belo um objeto, especialmente uma obra de arte. Mas não só ela: por que algumas pessoas são belas, outras são feias, outras não cheiram nem fedem? E por que achamos belos certos lugares e não outros? Por que até uma simples pedra pode ter uma forma bela, ainda que produzida casualmente pela natureza? Em outros termos, por que achamos belo algo que não foi criado para esse propósito?

Se o belo é o bom para os sentidos, aquilo que nos dá prazer, a noção de beleza se reduz à de qualidade. E qualidade não tem nada a ver com gosto, como pensam muitos. A qualidade é objetiva: qualquer um sabe distinguir perfeitamente um produto ou serviço de qualidade de um ruim. Nesse sentido, Beethoven, Tom Jobim ou Beatles são objetivamente melhores que Tati Quebra-Barraco ou Ana Castela. Já o gosto é subjetivo  e decorre sobretudo da influência do meio: uma pessoa nascida e criada num ambiente pobre e exposta desde a infância ao funk e ao forró certamente gosta desses gêneros, até porque não conhece ou não compreende outros. A pressão social faz com que cada um molde seu gosto ao ambiente a que pertence e ao qual procura adequar-se. Isso significa que uma coisa é não gostar da música de Chico Buarque, outra é afirmar que sua música é ruim.

No artigo A ciência do gosto, ilustrei como experimentos científicos demonstraram que o senso estético tem uma natureza biológica; ainda que certas preferências sejam condicionadas por fatores culturais, há uma tendência convergente em todos os seres humanos de reconhecer o belo de modo objetivo. E a beleza normalmente obedece a certos padrões que têm a ver com simetria, harmonia e originalidade.

Receita para viver melhor (nos dias de hoje)

Hoje em dia, fala-se muito em qualidade de vida, mas o fato é que nossa qualidade de vida nunca foi tão ruim. Sem dúvida, há muitos fatores que deterioram ou mesmo podem dar cabo de nossa estadia neste planeta e são inevitáveis: poluição atmosférica (a menos que você viva no meio do mato), mudança climática, guerra nuclear, pandemias, criminalidade, domínio total dos seres humanos pela inteligência artificial… Mas há também muita coisa que podemos fazer para ter uma vida melhor, e não estou me referindo a ter uma alimentação saudável ou praticar exercícios físicos, o que, com certeza, também é muito importante. Refiro-me a certas atitudes que, nos dias atuais, são essenciais para preservar sobretudo nossa sanidade mental.

Primeiro, se você é uma pessoa seletiva, que gosta de ter conversas inteligentes sobre temas relevantes, afaste-se das pessoas tóxicas e sem conteúdo, que nada lhe acrescentam. Tenha um pequeno e seleto grupo de amigos (lembre-se, o importante é qualidade, não quantidade), de preferência com o mesmo nível cultural que você (mais um adendo: nível cultural é diferente de grau de escolaridade, hein!), que curtam as mesmas coisas que você curte e que sejam leais e sinceros, não “amigos da onça”. Quando você precisar, e também quando não precisar, eles estarão lá. E um lembrete: os amigos são a família que escolhemos ter. Vizinhos, parentes e colegas de trabalho não são necessariamente amigos; as mais das vezes, são ameaças.

Em segundo lugar, ouça boa música. Pagode, sertanejo, funk, forró, esqueça! Anitta, Marília Mendonça, Luísa Sonza, Pablo Vittar, MC Não Sei O Quê…, se você já ouviu falar, finja que nunca ouviu. Use uma plataforma de streaming para selecionar uma playlist que valha a pena ser ouvida. Ou, melhor ainda, compre um aparelho de som tudo em um e visite regularmente sebos de discos; há excelentes CDs e LPs por preço módico.

Tenha uma TV por assinatura (TV aberta, nem pensar!) e só assista a canais que veiculem cultura: filmes (de preferência mais antigos) que não sejam blockbusters, séries que não sejam pastelão ou bubble gum, música que não seja rap ou hip hop, viagens, culinária, ciência, história, literatura, debates de alto nível sobre temas da atualidade. Se bem que vai ser difícil achar canais assim, mesmo na TV a cabo. Mas tente.

Ainda falando sobre televisão, no intervalo comercial, tire o som ou mude de canal. Além de os anúncios estarem ficando cada vez mais irritantes, com trilha sonora de funk e locutores berrando, lembre-se: a publicidade visa aos interesses do anunciante e não aos seus.

Além disso, leia bons livros, tanto de ficção quanto de não ficção. Obviamente, Harold Robbins, Dan Brown, Paulo Coelho e best sellers em geral estão fora. Autoajuda e esoterismo idem.

Tenha nos seus telefones (fixo e celular) sistemas de bloqueio de chamadas; autorize apenas chamadas dos seus entes queridos. Pode bloquear o resto sem pena: o resto, no caso, é telemarketing ou golpes.

Por falar em celular, use-o o mínimo possível. Mantenha-o ligado apenas em horário comercial, das 9 às 18 horas; depois disso, esqueça que ele existe. Com as redes sociais, faça o seguinte (eu faço isso): no Facebook, só poste quando tiver algo realmente relevante para postar (o prato que você vai comer no restaurante não está incluído nesse quesito) e nunca veja o que os outros postam; com certeza é só bobagem. No Instagram, siga apenas quem é realmente importante para você e ignore os perfis patrocinados e as recomendações da plataforma; eles só fazem você perder tempo. Do TikTok, X e similares, passe longe. No YouTube, busque conteúdo semelhante ao que recomendei em relação à TV fechada.

Se for possível optar entre tecnologia digital e o bom e velho método analógico, escolha o segundo. No menu eletrônico, vá o mais depressa possível (e nem sempre é possível) para a opção “falar com atendente”; por mais ignorante que seja o rapaz ou moça do call center, pelo menos são humanos, portanto dotados de uma inteligência que nenhum robô, menu eletrônico, bot ou IA possui.

Se você mora em cidade grande, evite ao máximo sair de casa; o delivery existe para isso. Trânsito caótico, motoboys enfurecidos, fumaça de óleo diesel, buzinas, pra quê? Se precisar mesmo sair, chame um táxi ou uber; pelo menos, não será o seu retrovisor que o entregador por aplicativo vai destruir.

Outra coisa: não assista a telejornais nem leia sites de notícias: eles só o(a) deixarão deprimido(a). Visto que você não pode mudar o mundo, tomar conhecimento de suas mazelas só vai lhe fazer mal. Evite especialmente o noticiário de política, afinal já bastam os golpes que malandros comuns tentam lhe aplicar, que dizer dos malandros de colarinho branco?

Por falar em política, não assista à propaganda política na TV nem tome conhecimento dos candidatos. Vote nulo em todas as eleições. Mesmo que você decida votar num candidato honesto e com boas ideias, lembre-se: bons políticos são uma ínfima minoria e, mesmo quando eleitos, pouco ou nada podem fazer. Aliás, duvido que haja um número suficiente de bons políticos para preencher as 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e as 81 do Senado. Portanto, os pilantras sempre serão maioria.

Ah, e se você é uma pessoa sociável, que gosta de puxar conversa com estranhos ou que é receptivo quando estranhos puxam conversa com você, fique atento: jamais discuta assuntos polêmicos, como religião ou Lula x Bolsonaro. Se o assunto descambar para tais temas, peça licença, finja que vai ao banheiro e desapareça.

Enfim, estes são alguns conselhos que eu dou de graça e princípios que eu mesmo pratico. Talvez eles não tornem sua vida melhor, mas pelo menos podem torná-la mais suportável. Boas festas!

Palavras que inexplicavelmente sofreram evolução irregular em português

Quem estuda a formação histórica da língua portuguesa nos cursos de Letras (eu estudei isso ainda no ensino médio, que então se chamava segundo grau ou colegial) aprende que as consoantes surdas intervocálicas do latim se tornam sonoras em português e que as sonoras do latim desaparecem na nossa língua, com exceção do b, que vira v, e do m, que se mantém. (Surdas são as consoantes que não fazem vibrar as cordas vocais, como /p/, /t/, /k/, /f/ e /s/; sonoras são as que fazem vibrar, como /b/, /d/, /g/, /v/, /z/, /l/, /m/, /n/ e /r/.)

Assim, o latim crudus deu primeiramente cruu e depois cru, gelare deu gear, granum deu grão, lana passou a lãa e então a , persona evoluiu para pessõa e a seguir para pessoa.

No entanto — e isso é algo que intriga os historiadores da língua —, algumas palavras não sofreram esse processo, tendo mantido intactas consoantes sonoras intervocálicas que deveriam ter caído e que, por sinal, caíram em línguas irmãs do português. Foi assim que o latim valere deveria ter dado *vaer, mas deu valer. Do mesmo modo, pilus daria *peo e depois *peio, mas deu pelo; minus e minor resultaram em menos e menor (há indícios de que houve na Idade Média a forma mẽos, que teria evoluído para *meios, gerando confusão com a já existente palavra meios, do latim medios, o que explicaria o empréstimo da forma espanhola menos — em espanhol, o n entre vogais não caía).

Igualmente, o g se conservou em pago, pagão (habitante do pago), praga, chaga, estragar, negar, regar, sugar, fugir, fugidio, frigir e negro, respectivamente do latim pagus, paganus, plaga, *stragare, negare, rigare, sugare, fugere, fugitivus, frigere e niger. Nesse ponto, o espanhol também foi conservador em certas palavras: o latim plaga, paganus, negare, niger, gradus, nodus, nudus e nidus deram respectivamente llaga, pagano, negar, negro, grado, nudo, desnudo e nido. Nesses quatro últimos casos, o português eliminou a consoante: grau, , nu, ninho (< nĩo).

Algumas explicações têm sido aventadas para a não ocorrência da síncope (queda) de certas consoantes. Nos casos de pagão, praga e chaga, os falantes teriam evitado um encontro aa desagradável de pronunciar: *paão, *praa e *chaa, que naturalmente evoluiriam para pão, prá e chá. Em outros casos, também a possível convergência formal com outras palavras já existentes, gerando homonímia, teria sido a causa de os falantes pronunciarem essas palavras com mais cuidado, evitando o emudecimento da consoante, ou mesmo de terem reintroduzido na língua as formas latinas ou introduzido as espanholas depois que a homonímia já havia ocorrido — e causado confusão. Mas há ainda muitos casos sem uma explicação plausível, o que dá ensejo a muitas futuras pesquisas.

Palavras injustiçadas

Como você se sente quando toma conhecimento de que uma pessoa inocente foi condenada e encarcerada por um crime que não cometeu? Você fica indignado, não? Pois é isso o que anda acontecendo com muitas palavras e expressões da nossa língua, cujo exemplo mais recente publiquei aqui mesmo na semana passada.

Palavras e expressões que nunca tiveram qualquer caráter discriminatório ou ofensivo, ou que o tiveram séculos atrás e o perderam, de modo que ninguém mais tem consciência disso, vêm sendo constantemente “canceladas”, inclusive por órgãos oficiais, sem direito a defesa, com base apenas em pseudoetimologias, as mais das vezes criadas por agentes do movimento woke, ou na alegação de que alguém se sentiu ofendido por elas.

Tenho criticado muito essa atitude de autoridades, como tribunais de justiça, associações de classe, sindicatos, universidades e até ministérios, que se deixam levar por alegações sem prova ou por provas manipuladas apenas porque quem as apresenta tem força política ou usa da estratégia da vitimização (que eu chamo de “mimimização”) para fazer valer a sua versão dos fatos, inclusive calando vozes discordantes sob o argumento autoritário de que elas não têm “lugar de fala”. Mas hoje quero destrinçar melhor essa questão e mostrar por que tais atitudes são obscurantistas, já que se baseiam em pseudociência, e antidemocráticas.

Há quatro tipos de palavras ou expressões: as que não são nem nunca foram discriminatórias ou preconceituosas (por exemplo, caderno, azul, caminhar, fazer as contas, salvo melhor juízo), as que são e sempre foram ofensivas (calhorda, serviço de preto, vá para o Inferno), as que um dia foram pejorativas, mas deixaram de sê-lo, e as que não o eram, mas passaram a sê-lo. É destes dois últimos tipos que quero falar, pois são eles o alvo principal da discussão.

Muitos termos que hoje usamos para insultar pessoas nasceram no âmbito da medicina e eram meros termos técnicos que designavam doenças. Por exemplo, idiota, imbecil e retardado eram termos psiquiátricos hoje abandonados por pressão social sobre os médicos a partir do momento em que se popularizaram e se tornaram xingamentos. Tais termos foram substituídos por outros, o que não impede que estes também caiam no uso popular e ofensivo. Há hoje em dia quem se incomode com a palavra neurótico, por exemplo. Às vezes, um termo é substituído por outro tão anódino quanto o primeiro. É o caso de criança excepcional, que deu lugar a criança especial (qual a diferença entre excepcional e especial, duas palavras, por sinal, que também se usam para elogiar: um cantor excepcional, uma data especial?).

A palavra cretino, hoje um xingamento, tem uma origem particularmente interessante: veio de um dialeto francês medieval em que crétin significava “cristão”. Era assim que as pessoas se referiam a crianças abandonadas ou enjeitadas que eram acolhidas pela Igreja. Portanto, uma palavra piedosa que encobria a situação de vulnerabilidade social — para usar um termo da moda — da pobre criança. Era assim que as crianças de orfanato eram chamadas, sem nenhum preconceito ou sugestão deploratória. Com o tempo, o vocábulo francês crétin passou a ser usado pelos médicos para referir-se não só a órfãos, mas também a adultos recolhidos em manicômios. Mesmo assim, cretino era originalmente o indivíduo acometido de cretinismo, isto é, falha no desenvolvimento mental e cognitivo. É daí que surge o uso insultuoso da palavra. Evidentemente, ninguém que hoje se refira a um desafeto como cretino pode alegar em sua defesa que estava apenas fazendo um diagnóstico médico, sem nenhuma conotação depreciativa.

Pois se isso é assim em relação a palavras positivas ou neutras que se tornaram negativas, o mesmo deveria valer para palavras negativas que se tornaram neutras ou até positivas. Em sua origem, sofisticado significava “cheio de sofismas, de falácias, de mentiras”; um argumento sofisticado era um argumento falacioso, tipicamente utilizado pelos antigos sofistas para vencer uma discussão. Hoje sofisticado é algo bem elaborado, requintado, chique. Já formidável significava “terrivelmente cruel, implacável”; hoje é algo sensacional. Aliás, bárbaro era alguém desprovido de civilização (ainda hoje se fala em crime bárbaro), mas também chamamos (ou chamávamos, nos anos 1960) de bárbaro àquilo que nos causa admiração pela beleza ou qualidade.

Uma palavra como boçal, recentemente proscrita pela Advocacia-Geral da União por ser supostamente racista, como relatei semana passada, é um caso interessante. Há três possíveis etimologias para boçal, e nenhuma delas tem conotação racista. A primeira diz que proviria do latim vulgar *buccealis, jamais documentado e derivado de bucca, “boca”. Seria um artefato para ser usado na boca ou focinho dos animais. Como nunca foi atestada, essa origem é bem pouco provável, até porque não derivaria diretamente de bucca e sim de um adjetivo *bucceus, “bucal”, que igualmente nunca foi registrado.

A segunda hipótese é que provenha do italiano bozza, pedra grosseiramente talhada, de formato irregular; portanto, boçal é algo tosco, rude. O fato é que o adjetivo *bozzale, do qual proviria o português, nunca existiu. E a palavra portuguesa boça significa “cabo, corda”, logo nada a ver com o sentido italiano do termo. Aliás, a primeira acepção de bozza é “calombo”, que deu o português bossa, “corcunda”, e na gíria, “talento, aptidão, tino”, depois especializado em “aptidão para a música e a dança, gingado” (daí a Bossa Nova).

A terceira teoria aponta para o espanhol bozal, de boza, “buço”. O bozal era uma espécie de cabresto que se prendia ao focinho (buço) dos animais. Como buço é uma característica dos adolescentes, bozal referia-se a alguém inexperiente e, por conseguinte, desajeitado. Esta é a etimologia mais provável e aceita pelos estudiosos.

De fato, no período escravagista, boçal era o termo que denominava escravos recém-chegados às Américas, que ainda não sabiam falar a língua do colonizador. Portanto, referia-se a um escravo (ou, se preferirem, escravizado) novato. Só que o termo já era utilizado para brancos inexperientes bem antes do período da escravidão. Então, boçal é de fato ofensivo, mas não necessariamente racista. O mesmo se dá com gringo, denominação pejorativa de qualquer estrangeiro, que até o momento não foi censurada pelo simples fato de que os gringos que visitam nosso país ou para cá imigram em geral não são negros. Além disso, quem atualmente xinga o outro de boçal — mesmo que o outro, no caso, seja negro — não tem nenhuma intenção racista simplesmente porque ignora que um dia essa palavra foi aplicada a escravos negros — assim como você, leitor, aposto, também não sabia.

Mas, quando suas pseudoetimologias são desmontadas, os defensores do identitarismo se refugiam em argumentos do tipo “mesmo que a palavra em questão não seja intrinsecamente ofensiva, se eu me sinto ofendido com ela, é quanto basta para censurá-la ou processar você”. Esse argumento é perigosíssimo por dois motivos. Primeiro, porque coloca a opinião pessoal acima dos fatos. Nesse sentido, se eu acredito que a Terra é plana ou que vacinas provocam autismo, tenho o direito de punir quem acha — ou melhor, sabe — que a Terra é redonda, bem como alastrar pânico na população que antes se vacinava, causando epidemias e levando a saúde pública ao colapso. Segundo, porque qualquer pessoa pode alegar sentir-se ofendida por qualquer palavra ou expressão. Se eu inocentemente digo que fulano é um touro, referindo-me ao seu vigor físico, ou que sicrano é um leão graças à sua coragem, o dito-cujo pode alegar que ser comparado a um animal é indigno. E aí fica a critério de um juiz, de cuja cabeça, assim como do bumbum de um bebê, nunca se sabe o que vai sair, e que não entende nada de linguística, decidir a questão. E os juízes sempre tendem a dar razão ao queixoso, não ao réu. Em resumo, seria a subversão total do princípio do Direito, em que sempre cabe o contraditório e em que a prova técnica sempre se sobrepõe às alegações de uma ou outra parte.

Mas o fato mais escandaloso é que há na academia pseudoespecialistas em língua que endossam falsas etimologias porque militam a favor da agenda woke — e as universidades brasileiras estão repletas deles. Se um desses maus cientistas for convocado para testemunhar a favor de um “oprimido linguístico”, certamente despejará sobre o magistrado um amontoado de fake news identitaristas sob o argumento de autoridade, afinal, como estudioso do assunto, é ele que tem a última palavra.

O fato de que essa pregação mentirosa esteja fazendo a cabeça de autoridades dos três Poderes da República, da imprensa, de estudantes e do público incauto em geral é o que é verdadeiramente alarmante.