Dobrando as palavras

Boa tarde, não sei se a pergunta chega valer um artigo em seu blog, mas aí vai: queria saber qual o significado da raiz “plic” (ou ao menos me parece ser uma só raiz). Percebo que tem um monte de verbos com essa raiz, mas não consigo discernir um conceito comum entre eles. Só agora de cabeça, lembro de: aplicar, complicar, explicar, replicar, suplicar, implicar. Lembro também dos baseados em números, como duplicar e triplicar, mas imagino que estes não sejam da mesma raiz, pois vêm de adjetivos como duplo e triplo, a não ser que os adjetivos é que venham dos verbos…
Um abraço,
Cleverson

Caro Cleverson, sua pergunta vale sim um artigo! E aqui vai ele.

Todos os verbos que você menciona vêm do latim e são derivados de plicare, que significa “dobrar”. É desse verbo que saiu o português prega (de vestido), que é uma dobra no tecido.

Além dos verbos applicare, complicare, explicare, replicare, supplicare, implicare, duplicare, triplicare, etc., também temos em latim os adjetivos formados a partir do elemento de composição ‑plex, ‑plicis, como, por exemplo, simplex, “simples”, duplex, “dúplice”, triplex, “tríplice”, e assim por diante. Ou seja, adjetivos com o sentido de “dobrado uma, duas, três, etc. vezes”.

A par desse elemento ‑plex, há também o elemento ‑plus de simplus, duplus, triplus, que deu em nossa língua duplo, triplo, etc. E ambos os elementos radicam no indo-europeu *‑pel, “dobrar”. Esse radical também aparece no grego haplós, dyplós, etc., que igualmente significa “simples, duplo” e que aparece em português em palavras como haplologia, haploide e diploide.

Agora algumas curiosidades: os apartamentos duplex e triplex (inclusive o do Guarujá) na verdade deveriam chamar-se dúplex e tríplex, mantendo, portanto, a acentuação latina. (Na verdade, é assim que eles se chamam segundo a gramática normativa, que nenhum corretor de imóveis segue.)

E mais, “dobrar” é plegar em espanhol, plier em francês e piegare em italiano, todos provenientes do latim plicare. E também o inglês fold, o alemão falten e o sueco fålla, “dobrar”, são parentes distantes de plicare, já que também provieram do indo-europeu *‑pel.

O nosso verbo chegar também veio de plicare. Mas o que chegar tem a ver com dobrar? É que na Roma antiga a expressão plicare vela significava “dobrar as velas do navio ao atracar no cais”. Com o tempo, plicare passou a significar “chegar ao cais” e, por extensão, “chegar” (a qualquer lugar).

Curiosamente, em romeno, outra língua neolatina, o verbo a pleca quer dizer exatamente o oposto, ou seja, “partir”. É que no latim dos soldados romanos plicare tentorium era “dobrar a tenda” e plicare sarcinam, “dobrar (isto é, fechar) a mochila”, duas atitudes de quem desmonta o acampamento para ir embora.

Ralando na etimologia

Hoje vou falar de um verbo latino que deu muitas palavras em português e também em outras línguas. Trata-se de radere, que significa “raspar, ralar”. Em primeiro lugar, saíram os vocábulos latinos radula, “ralador”, que deu em português rádula, nome da língua do peixe-espada (por ser áspera como um ralador), e rallum, “ralo”, que tanto é o ralador de calosidades ou de legumes quanto o ralo da pia, mas que não se confunde com o adjetivo ralo, do latim rallus, de *rarulus, diminutivo de rarus, que se opõe a spissus, “espesso”. Ou seja, quem tem cabelo ralo na verdade tem pouco cabelo, logo seu cabelo é raro.

A partir de ralo proveniente de rallum temos o verbo ralar e os substantivos ralador e ralação, este último uma gíria significando “trabalho duro”.

Em segundo lugar, a partir de rasus, particípio passado de radere, temos em português raso, isto é, pouco profundo (como um couro cabeludo raspado); rasura, “marca deixada no papel quando raspado com borracha; arrasar, “tornar raso, cortar pela raiz, destruir”; rasante, e outros mais.

De radere também saiu o derivado rastrum, “rastelo, instrumento de jardinagem” que deu em nosso idioma rasto (e daí arrastar, rasteiro e rastejar) por herança vernácula e rastro por via culta. Aliás, como o rastelo deixa sulcos na terra, por metonímia, rastrum passou a significar também o rastro, a marca deixada no chão pela passagem de alguém. E o próprio rastelo veio do latim rastellus, diminutivo de rastrum. E ainda temos rastilho, do espanhol rastillo, diminutivo de rasto, já que se costuma deixar um rastro de pólvora na terra para provocar uma explosão à distância.

De rasus também proveio o francês raser, “raspar a barba, barbear”, e daí rasoir, “navalha”, que passou ao inglês razor. Por falar em inglês, erase, “apagar” e eraser, “apagador”, também se originam de ­rasus, já que, como disse acima, apaga-se o escrito raspando o papel ou o pergaminho.

Por fim, o latim vulgar rasicare, derivado de rasus, nos deu rascar, rascante e rasqueado. E, para encerrar, “apagar” em alemão é radieren.

De fato, é preciso ralar muito para fazer etimologia!

Os estranhos nomes da MPB

A música popular brasileira atual tem sido marcada por um fenômeno incomum em outras épocas, bem como em outros países: a modificação dos sobrenomes dos artistas. Às vezes, o erro pode ser do próprio tabelião, e por isso um sobrenome italiano como Calcagnotto se torna Calcanhoto. Mas o mais frequente é que os próprios artistas simplifiquem seus nomes para facilitar a venda de discos, num claro reconhecimento de que o público tem dificuldade de soletrar nomes estrangeiros. Aí Vercillo vira Vercilo, Cañas vira Canhas, e assim por diante.

Curiosamente, isso ocorre com artistas, digamos, mais elitizados. Os mais populares têm feito o movimento inverso, duplicando consoantes para dar um ar sofisticado a nomes absolutamente comuns. E assim temos Gusttavo, Leitte, e uma série de grafias pouco ortodoxas, para não dizer estranhas mesmo.

Isso também acontece com atores de televisão. De um tempo para cá, tornaram-se frequentes as Alinnes, Paollas, etc. Há até uma atriz cujo sobrenome passou do prosaico Oliveira para Ólive, Óllive e finalmente Óliive (!). O motivo alegado em geral é a numerologia: tais grafias supostamente favorecem o sucesso. Crendices à parte, o êxito ou fracasso ligado à grafia do nome se deve mais ao gosto do público. Aparentemente, pessoas menos escolarizadas preferem nomes com grafias estrambóticas, cheios de k’s, w’s e y’s. Ao contrário, as de maior instrução optam pela simplicidade. Talvez por isso, a cantora Cláudia, cujo trabalho sempre teve por foco a MPB de boa qualidade, tenha caído em certo ostracismo, apesar do inequívoco talento, depois que, por razões numerológicas, passou a assinar-se Cláudya.

Uma palavra esquisita

A pedido do meu leitor Cleverson Casarin Uliana, vou falar hoje de uma palavra esquisita: justamente a palavra esquisito. E por que ela é esquisita? Porque existe em várias línguas europeias (espanhol exquisito, francês exquis, italiano squisito, inglês exquisite, alemão exquisit, sueco exkvisit) e em todas significa a mesma coisa: apurado, distinto, delicado, excelente, raro, sofisticado, elegante, requintado. Somente em português é que esquisito significa “esquisito, estranho, incomum”. Mas por que isso acontece?

Vamos começar voltando à origem do vocábulo, no caso, o latim exquisitus, particípio passado do verbo exquirere (= ex- + quaerere), que quer dizer “buscar com cuidado”, sentido que derivou para “buscar algo raro”. Logo exquisitus passou a significar “raro” e, portanto, “precioso, valioso”. Daí para assumir o sentido de “excelente, requintado” foi um pulinho. É esse significado que se mantém até hoje nas línguas supracitadas. E que também já pertenceu ao português (alguns dicionários ainda listam essa acepção, já que ela figura em textos mais antigos). De fato, não é incomum – e portanto não é esquisito – encontrar a palavra usada nesse sentido em textos dos séculos XVI e XVII. Por exemplo, Camões, n’Os Lusíadas, emprega “manjares novos e esquisitos” falando de comidas requintadas.

No entanto, a partir do século XVIII e sobretudo do XIX, esquisito passou a ser usado em tom pejorativo, como algo raro não por ser excelente, mas por ser estranho, anormal, inusual. Acontece que, aos olhos da plebe, os hábitos, as roupas, os gestos, as comidas e a linguagem da aristocracia parecia não propriamente sofisticada, senão muito distante do normal para um cidadão comum. Daí que o comportamento da nobreza aos olhos do povão parecesse mesmo esquisito. E foi essa a acepção da palavra que nos ficou até os dias de hoje. Esquisito, não?

Uma superdica: cuidado com o hífen!

Olá, bom dia! Tudo bem?
Poderia tirar uma dúvida? O correto é Superdica ou Super dica?
Obrigada!!
Patricia Ferreira Flor

A dúvida de Patricia é uma dessas dúvidas recorrentes em matéria de ortografia, e não só por causa do novo Acordo Ortográfico, pois as regras anteriores não eram menos problemáticas, especialmente no que diz respeito ao hífen. Sim, porque alguns prefixos exigem hífen em todos os casos, alguns apenas em certos casos, e outros em nenhum.

O caso de “super” é idêntico aos de “hiper” e “inter”: com palavras iniciadas por “h” ou “r”, usa-se obrigatoriamente o hífen (“super-homem”, “inter-relação”); nos demais casos, o prefixo se liga diretamente à palavra (“superpotência”, “hipermercado”, “interagir”). O que nunca ocorre em português é o prefixo destacado da palavra, isto é, separado dela por espaço em branco.

Portanto, a grafia correta é “superdica” e não “super dica”. Entretanto, conforme já comentei neste espaço, “super” parece estar ganhando vida própria, como se fosse palavra independente, o que justifica o titubeio entre escrever junto ou separado.

A morte da cultura

Certa vez, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente emitiu um comunicado dizendo que o desaparecimento de uma língua e de sua respectiva cultura equivale a queimar um livro único sobre a natureza. Umberto Eco acrescenta: “toda língua é um tesouro social: não só o conjunto de suas regras gramaticais, mas todo o acervo produzido por seus desempenhos”.

Uma língua desaparece quando morre seu último falante. Mas, em seus derradeiros tempos de vida, quando não tem mais com quem conversar em sua língua nativa, essa pessoa deve sentir uma profunda melancolia, uma sensação de estar vivendo em outro planeta: suas experiências e lembranças, as coisas que faziam sentido em seu mundo, nada disso os outros podem compreender porque essas vivências só podem ser expressas numa língua que ninguém mais entende. Condenado ao monólogo, ou a falar de realidades que não são as suas, esse indivíduo deve sentir alívio ao cerrar os olhos pela última vez.

Mas não são só as culturas ditas primitivas que estão desaparecendo, deixando seus últimos guardiães desarvorados. A cultura letrada, de um modo geral, está morrendo, e este não é um problema exclusivamente brasileiro, embora aqui esse fato seja mais gritante por conta do descaso criminoso de nossos governantes, presentes e passados.

Há poucas décadas, fazer contas de cabeça ou conjugar os verbos corretamente (isto é, segundo a norma gramatical) eram atos banais para qualquer cidadão escolarizado. Hoje, nem mesmo caixas de banco ou de supermercado conseguem fazer uma simples soma sem recorrer à calculadora eletrônica. E ficam surpresos quando eu, mentalmente e mais rápido que eles, chego ao resultado correto enquanto ainda estão abrindo a gaveta, retirando a maquininha, ligando-a, digitando os números para ao final obter a mesma resposta que eu já havia obtido. Vezes sem conta recebi elogios por fazer algo que muitas pessoas da minha geração sabe fazer tão bem quanto eu.

Em outras ocasiões, sou olhado como se fosse um E.T. só porque digo que eu e minha esposa somos casados há 15 anos, já que o esperado é que eu diga que eu e a minha esposa, a gente é casado há 15 anos.

Expressões idiomáticas, anedotas, provérbios, alusões históricas, nada disso faz sentido hoje em dia. As pessoas simplesmente perderam a referência cultural que embasava esses enunciados. Num tempo em que quase ninguém mais lê, a não ser revistas de celebridades e postagens em redes sociais, dizer que a luta contra a corrupção no Brasil é como combater moinhos de vento causa perplexidade, quando não riso. Quem hoje em dia conhece Dom Quixote de la Mancha? Quem já ouviu falar (ler é pedir um pouco demais) em Miguel de Cervantes ou no Cavaleiro da Triste Figura?

Quando um famoso (e já idoso) narrador esportivo grita diante de um perigoso chute a gol “Pelas barbas de Netuno!”, será que alguém sabe do que se trata? Talvez alguns, pensando no planeta Netuno, que afinal frequenta os horóscopos, se perguntem: “ué, e planeta tem barba?”.

Pessoas escolarizadas da minha geração (e olha que ainda não cheguei à terceira idade) devem se sentir como o velho índio que pensa em seu idioma, mas não tem como traduzir seus valores culturais para o homem branco, talvez não porque faltem palavras (alguma tradução sempre é possível), mas porque falta o sentido.

Os mais “velhos” – e embora se viva cada vez mais, fica-se obsoleto cada vez mais cedo – são estrangeiros ou alienígenas em meio a uma juventude cujo acesso a um legado cultural milenar e aos valores de civilização foram substituídos por videogames, facebooks, twitters, reality shows, por uma escola imbecilizante (apesar, ou talvez por causa, da tecnologia), mais preocupada em doutrinar do que em educar, e por uma família ausente e consumista, para quem o ter é mais importante do que o ser.

Ironicamente, a cultura branca ocidental, que tantas línguas e culturas matou, está provando uma dose cavalar de seu próprio remédio.

Docente tem a ver com educar?

Bom dia, mestre Aldo. Li ou ouvi em algum lugar que a palavra “docente” é da mesma origem que “educar”,
“educação” etc… Então por que o “o” se transformou em “u” (ou vice-versa)? Isso era comum em latim? Obrigado.
Fábio Lucas Garcia

Do ponto de vista semântico, meu caro Fábio, claro que “docente” tem a ver com “educação”. Já do etimológico, não há nenhuma relação, a não ser uma dessas semelhanças fortuitas que geram os chamados parônimos (palavras de forma gráfica ou fonética parecida) que dão muito pano pra manga.

Em primeiro lugar, a transformação de o em u só se deu em latim num caso muito específico: em sílaba final átona, na passagem do latim arcaico para o clássico. Foi assim que equos e lupos se tornaram equus e lupus. Também tínhamos uma oscilação dialetal entre u e o em algumas palavras, como vulgus e volgus, mas nesse caso a vogal era sempre seguida de r ou l.

Quanto a “docente”, trata-se do particípio presente do verbo docere, “ensinar”, que resultou tanto num substantivo quanto num adjetivo (em “corpo docente”, por exemplo). Já “educação”, “educativo”, “educar”, etc., derivam todos do verbo educare, formado do prefixo e-, forma variante de ex- (“para fora”) e ducare, por sua vez variante de ducere, “conduzir”. Portanto, educare era literalmente “levar para fora”. A primeira motivação da palavra era bem concreta: “criar, alimentar, amamentar” (neste caso, poderíamos pensar em “trazer para fora” o leite materno alojado no seio). Mas também “ter cuidado com, cuidar de”, o que é um sentido mais abstrato derivado do anterior. Finalmente, temos “educar, instruir, ensinar”.

Nesse ponto, os etimólogos divergem sobre como “conduzir para fora” passou a ter o sentido de “educar”. Alguns acreditam que o termo tenha a ver com “levar a criança para fora de casa” (no caso, para a escola). Na Grécia antiga, por sinal, havia até um escravo incumbido dessa tarefa: o pedagogo (de pais, paidós, “criança”, e agogós, “guia, condutor”).

Desse sentido mais literal passa-se a um outro mais metafórico: levar a criança para o mundo lá fora. Portanto, educar seria preparar os pequenos para enfrentar os desafios que, quando adultos, eles encontrarão fora de casa.

Com a evolução das línguas, as palavras mudam de significado, e o pedagogo deixaria de ser um mero escravo condutor de crianças para tornar-se o mestre, o condutor da vida dos cidadãos; igualmente, educar deixaria de ser um mero “levar para fora”, vindo a ter o amplo sentido que tem hoje.

Em resumo, já que os verbos docere e ducere têm raízes e significados diferentes, não há relação etimológica entre “docente” e “educação”, mas apenas, como disse no início, em termos semânticos.

A palavra é… narrativa!

Desde o início do governo Bolsonaro, vem-se tornando cada vez mais frequente no discurso político e também no jornalismo o uso da palavra narrativa com um novo significado: o de versão falsa de um fato político com o objetivo de encobrir a responsabilidade de seus protagonistas. Ou seja, diante de eventos de impacto, como a interferência do Presidente na Polícia Federal, a não resposta do Ministério da Saúde aos e-mails da Pfizer ou a possível intenção de compra superfaturada da Covaxin, governo e oposição apresentam diferentes narrativas, isto é, uma distinta cronologia dos fatos, bem como uma diversa justificativa para eles.

A prática da camuflagem do incômodo político por meio de versões fantasiosas não é nova; na verdade, é velha como o mundo: os gregos desenvolveram uma técnica chamada retórica justamente para fazer prevalecerem os interesses e pontos de vista do orador sobre os do oponente por meio do discurso. Mais do que a arte do convencimento, a retórica tem sempre sido usada como a arte da ocultação da verdade.

E, diante da guerra de narrativas, turbinada nos dias atuais pela manipulação de dados estatísticos, documentos e declarações de autoridades, inclusive com o uso da alta tecnologia, a opinião pública fica confusa, sem saber em quem acreditar, afinal, como demonstra Akira Kurosawa em seu famoso filme de 1950 Rashomon, a verdade não existe, o que existe são versões. Ou, se preferirem, narrativas.

A maldade humana é predominantemente masculina

Fiquei chocado com o vídeo que viralizou na internet na semana passada, em que estudantes de medicina veterinária da Unoeste castram um cachorro sem anestesia, sem equipamentos adequados e, ao que parece, em uma república, que obviamente não tem nenhuma estrutura para um procedimento cirúrgico. Felizmente, a universidade houve por bem – e por pressão da opinião pública – expulsar os “açougueiros”.

Mas essa ocorrência me fez pensar. Não tenho em mãos dados estatísticos, porém me parece que as mulheres são maioria entre os estudantes e os profissionais de veterinária, e é raro ouvir falar de alguma barbaridade praticada contra animais ou seres humanos por mulheres, veterinárias ou não. Parece que elas escolhem essa carreira por amor aos bichos, ao passo que os homens nem sempre.

Os trotes violentos que costumavam acontecer em faculdades de medicina também eram predominantemente capitaneados por alunos do sexo masculino, o que me levava a perguntar: ser médico não é querer livrar o ser humano do sofrimento? Então por que futuros médicos infligiam sofrimento aos calouros, chegando até a matar alguns deles?

Se olharmos a população penitenciária, constataremos que ela é quase totalmente masculina. Mulheres são minoria nas cadeias e geralmente são presas por crimes sem violência. Aliás, mulheres costumam visitar seus companheiros na prisão; já o inverso raramente acontece.

Feminicídios, como o próprio nome indica, são crimes praticados por homens contra mulheres, em geral suas (ex-)companheiras. Até hoje não se ouviu falar de viricídio, ou seja, crime praticado por uma mulher contra seu companheiro ou ex. Igualmente, estupro é um crime exclusivamente masculino.

Mas, de modo mais geral, se observarmos as atitudes que, assim como o crime, fazem mal à humanidade, como a destruição do meio ambiente, a ganância por dinheiro, a agressividade contra o próximo, a opressão, a corrupção na política, veremos sempre um predomínio dos homens sobre as mulheres. No caso específico da política, o próprio ambiente tóxico da esfera estatal parece afugentar as mulheres. E, no entanto, sou daqueles que acreditam que um mundo governado por elas seria, sem dúvida, um mundo melhor.

Em resumo, parece que a maldade, atributo exclusivamente humano, é também essencialmente um atributo masculino. Não que não haja mulheres más, mas os serial killers, os grandes ditadores, os assediadores morais e sexuais, os desordeiros, os sádicos, os perversos, os desumanos são quase sempre homens.

A genética e a evolução natural explicam esse caráter, Mas, desde que deixamos a selva e, portanto, paramos de nos comportar como animais selvagens para nos tornarmos civilizados, esse impulso agressivo e predatório do homem deixou de ser uma vantagem evolutiva e passou a ser um mal social. Como homem que pensa e reflete, não posso deixar de ser a favor do feminismo e – por que não? – de um mundo mais feminino, no sentido de um mundo com mais cuidado e mais bondade.

A ioga ou o yôga?

Hoje é o Dia Internacional da Ioga – ou do Yôga, como querem os mais pedantes. Essa palavra veio do sânscrito, língua sagrada do hinduísmo e significa “união, junção”. O que ocorre é que ela foi há muito aportuguesada, assim como futebol, abajur, contêiner, uísque, etc., de modo que sua grafia é com i e sua pronúncia com o aberto. Além disso, em nossa língua ela é do gênero feminino.

No entanto, de algum tempo para cá os professores de ioga passaram a referir-se a essa técnica milenar como “o yoga”, com y, o fechado e no masculino. Alguns até chegam a corrigir a pronúncia dos alunos que dizem corretamente “a ióga”. Mas afinal, qual é o certo, o que dizem os dicionários ou o que dizem os iogues? É óbvio que corretos estão o dicionário e a gramática; essa onda de pronunciar “o yôga” é pura mania de prestigiar o que é estrangeiro em detrimento do vernáculo. Chamar a ioga de “o yôga” é como chamar o futebol de football. Você faria isso? Se não, não tenha medo de corrigir o seu professor de ioga, pois ele pode até entender muito dessa arte indiana, mas quem entende de língua portuguesa são os linguistas, os gramáticos, os dicionaristas e os professores de português.