A língua e o jogo de xadrez

A linguística só se consolidou como ciência propriamente dita, com objeto e método definidos (como ciência positiva, diria o filósofo francês Auguste Comte, ou como hard science, “ciência dura”, como dizem os americanos) a partir das ideias de Ferdinand de Saussure. Para lançar os fundamentos da linguística moderna, ele propôs uma série de dicotomias segundo as quais a língua deve ser analisada.

A primeira grande distinção que Saussure faz diz respeito às duas maneiras de abordar o fenômeno da linguagem: diacronicamente, isto é, estudando sua evolução histórica, ou sincronicamente, tomando um determinado momento dessa evolução e estudando as relações que seus elementos constituintes estabelecem entre si. Se compararmos a evolução da língua a um filme, cada cena, ou, mais ainda, cada fotograma, seria uma sincronia. Portanto, a análise sincrônica é estática e pressupõe que, no breve intervalo de tempo considerado, nada muda na língua. Já a análise diacrônica vê a língua em movimento: o linguista histórico assiste ao filme todo ou, pelo menos, a uma grande sequência de cenas para entender como a língua passa de uma sincronia a outra, ou seja, como se dá a mudança.

Para tornar mais claras as suas propostas inovadoras, Saussure lança mão de diversas analogias: com a biologia, a economia, a história, a sociologia… Mas sua analogia mais famosa e ilustrativa é com o xadrez. Sim, ele compara a língua a um jogo de xadrez, onde as peças são os diversos elementos linguísticos (por exemplo, fonemas ou palavras) e as regras são sua gramática. A configuração do tabuleiro após cada jogada constitui uma sincronia, ou estado da língua. Nele, não importa por que caminhos o jogo chegou a tal configuração, nem o material de que são feitas as peças. Apenas a posição relativa das peças e sua função — isto é, os movimentos que podem executar — é que têm importância para o desfecho do jogo. Na metáfora proposta por Saussure:

  • cada posição do jogo corresponde a um estado da língua (sincronia);
  • assim como o valor de cada peça depende de sua posição no tabuleiro, cada termo da língua tem seu valor por oposição aos outros termos (cada termo é o que os outros não são);
  • os valores (funções) de cada peça são fruto de uma convenção (a regra do jogo) preexistente à partida do mesmo modo como a língua, com sua gramática e vocabulário, preexistem a cada ato de fala;
  • basta mover uma peça do xadrez para passar de um estado de equilíbrio a outro (de uma sincronia a outra, diremos); igualmente, toda mudança linguística afeta um elemento isolado, mas essa mudança repercute no sistema como um todo;
  • no xadrez, a configuração do tabuleiro num dado momento independe de como se chegou até ela: quem assistiu à partida desde o início não leva qualquer vantagem sobre quem acabou de chegar; só as posições relativas das peças e seus movimentos permitidos é que importam para entender o andamento do jogo. Da mesma maneira, não preciso conhecer a história da língua inglesa para aprender inglês hoje.

Nascem daí outras importantes oposições. Em primeiro lugar, Saussure distingue entre língua e fala: língua é o conjunto abstrato e socialmente partilhado de signos e de regras combinatórias que permite aos falantes produzirem seus atos de fala; a fala, por sua vez, é cada produção concreta e individual feita por um falante utilizando-se da língua. É assim que, com o léxico e a gramática da língua portuguesa, todos nós brasileiros produzimos um sem-número de atos de fala todos os dias, em casa, na escola, no trabalho, no lazer e até quando falamos sozinhos — ou pensamos, o que não deixa de ser um diálogo interior. Em termos do xadrez, a língua é o jogo em si, com suas peças e suas regras; a fala é cada partida jogada.

Saussure também distingue entre a forma e a substância da língua. Sendo a língua um sistema onde cada elemento não tem valor em si, mas sim pela função que desempenha, ela é basicamente um sistema de formas cuja substância é irrelevante (assim como a substância de que são feitas as peças do xadrez não interfere em sua função), ou seja, a língua é um sistema formal. Esse sistema em que cada objeto só se define por oposição aos demais, em que os objetos não se distinguem por sua natureza e sim por sua função, e onde cada objeto mantém com cada um dos demais uma relação de semelhança que nos permite reconhecê-los como elementos do mesmo conjunto e uma relação de diferença que nos permite identificar cada um deles, foi chamado pelos discípulos de Saussure de estrutura. Portanto, a língua é uma estrutura, constatação que é a base do já mencionado estruturalismo.

No jogo de xadrez, se porventura eu perder uma peça (digamos, um cavalo) e combinar com meu adversário que vou usar em seu lugar uma tampinha de garrafa, a qual fará exatamente os mesmos movimentos que o cavalo, na prática, essa tampinha é o meu cavalo! Afinal, o que importa no jogo não é se a peça em questão se parece ou não com um cavalo e sim se ela se comporta como cavalo.

Analogamente, sei que a palavra porto é diferente de posto, pois elas significam coisas diferentes. Isso indica que os únicos elementos que as diferenciam, o fonema /r/ e o fonema /s/, são formas diferentes, pois têm funções diferentes. No entanto, quer eu pronuncie porto com um /r/ “carioca”, “paulistano” ou “caipira”, estarei sempre dizendo a mesma coisa: porto. Do mesmo modo, quer eu pronuncie posto com /s/ carioca ou paulista (isto é, com ou sem chiado), meu interlocutor continuará pensando num posto (de polícia, de gasolina, etc.). Já, se eu trocar qualquer uma das pronúncias do /s/ por qualquer uma das do /r/, meu interlocutor saberá imediatamente que estou falando de um porto e não de um posto. Não importa se o que está sobre o tabuleiro é um cavalo de madeira, de plástico, uma tampa de garrafa ou um parafuso: se essa peça executa os movimentos em L de um cavalo do xadrez, então ela é um cavalo do xadrez. Entretanto, se essa peça, mesmo que tenha a aparência de um cavalo, se deslocar diagonalmente como um bispo, ela será um bispo.

Saussure insiste no caráter social da língua, por oposição ao caráter individual da fala. A língua pertence a todos os falantes, e nenhum deles pode, sozinho, alterá-la. A língua é um patrimônio cultural da sociedade que a fala, que passa de geração a geração: essa língua nos é dada quando aprendemos a falar porque resulta de uma convenção social estabelecida muito antes de nascermos. É essa convenção que garante que as pessoas se comuniquem e se entendam por meio da língua. Assim como os jogadores não podem alterar as regras do jogo durante a partida, mas têm de jogar segundo regras predeterminadas, temos de usar adequadamente as palavras e a gramática da nossa língua se quisermos nos fazer entender. Se eu resolver inventar novas palavras e, além disso, combiná-las de um jeito inédito (por exemplo, colocando o artigo depois do nome e não antes, como é obrigatório em português), posso estar criando um novo idioma, mas como só eu sei falar essa língua, ninguém me entenderá.

Outra decorrência do caráter social da língua é a concepção de signo de Saussure. Até então, as palavras eram vistas como meros rótulos que se dão às coisas. Ao passarmos de uma língua para outra, apenas mudaríamos os nomes pelos quais continuaríamos a designar as mesmas coisas. Saussure mostra que, na verdade, as palavras são inerentes a cada língua e que línguas diferentes dão nomes diferentes a coisas igualmente diferentes. Um exemplo disso é o fato de que aquilo que nós, falantes do português, chamamos de rio os franceses chamam de fleuve ou de rivière, segundo o curso d’água em questão corra para o mar ou para outro rio. Uma história folclórica nos conta que alguns exploradores franceses ficaram surpresos ao descobrirem, na África, um curso d’água que nascia nas montanhas, corria pelas savanas e… desaparecia no deserto. Esses exploradores não sabiam dizer se o que tinham descoberto era um fleuve ou uma rivière. Ora, nós brasileiros diremos que se trata obviamente de um rio!

Isso mostra que cada povo expressa através de sua língua uma particular visão de mundo, que a natureza é uma realidade contínua que cada comunidade linguística “recorta” de modo diferente. Não é a natureza, e sim a língua, que diz onde um curso d’água deixa de ser riacho e se transforma em ribeirão. O modo particular como cada língua divide o mundo em conceitos influi no próprio modo de pensar de cada povo. Isso explica em parte o caráter racional e pragmático que em geral se atribui aos falantes do inglês ou o aspecto “romântico” e sentimental do espanhol, e assim por diante.

Se para Saussure o significado do signo varia de língua para língua, então o próprio significado é parte desse signo. Ele concebe o signo linguístico como uma entidade de duas faces, o significante, ou expressão, que é a forma material do signo, representada pela forma acústica (o som) da palavra ou por sua forma gráfica, e o significado, ou conteúdo, que é uma imagem mental, um conceito, que temos da coisa designada. A “coisa” propriamente dita (que Saussure chama de referente) não faz parte do signo e, em muitos casos, pode nem existir (qual é o referente, isto é, a coisa concreta, representado pela palavra amor?).

Assim, o signo árvore, por exemplo, tem na língua portuguesa um significante que é o som da palavra árvore (ou melhor, a representação mental que temos desse som) ou a sequência de letras que compõe a escrita dessa palavra, e um significado que é o modelo mental que temos de uma árvore, o qual construímos a partir da observação de inúmeras árvores concretas. O significado de árvore, isto é, o conceito de árvore que temos em português, é uma abstração em que retemos apenas aquilo que é constante em todas as árvores, aquilo que é geral: ter um tronco, uma raiz, folhas, estar plantada no solo, etc. O que é variável ou circunstancial não faz parte do conceito de árvore: o fato de ter ou não um coração flechado desenhado em seu tronco acompanhado de um nome de homem e um de mulher não faz parte da definição de árvore. Como se vê, Saussure colocou a visão de mundo particular de cada povo — o modo como cada povo “recorta” o mundo à sua volta — dentro da linguagem, e por isso o seu estudo passou a ser uma forma importantíssima de compreender o modo de pensar dos diferentes povos.

Objetos e pontos de vista

Em seu Curso de Linguística Geral, Ferdinand de Saussure ensinou que é o ponto de vista que cria o objeto. Dentre os muitos pontos de vista possíveis sobre o fenômeno língua, a ciência da linguagem sempre oscilou entre dois principais: o diacrônico, isto é, que analisa a língua em seu desenrolar no tempo, tendo, pois, um enfoque eminentemente narrativo; e o sincrônico, que faz um corte na história das línguas como quem bate um instantâneo, ignorando o antes e o depois e fazendo uma abordagem descritiva.

Ambas as perspectivas são úteis, já que não é possível ter uma compreensão plena de um objeto multidimensional olhando-o de um único ângulo. No entanto, dependendo do fim a que se presta, cada abordagem tem suas vantagens e desvantagens. Como analisar, por exemplo, a morfologia da palavra “comer”? De um ponto de vista histórico, “comer” vem do latim comedere, “comer juntos”, formado do prefixo com-, “juntos”, do radical ed-, “comer”, da vogal temática -e- da segunda conjugação e da desinência de infinitivo -re. Portanto, comedere se analisa como com-ed-e-re.

Na evolução fonética, o e final caiu (diz-se que sofreu apócope), e posteriormente o d intervocálico teve o mesmo destino (que nesse caso se chama síncope). Como resultado, comedere passou a comeer em português medieval. Depois, os dois ee se fundiram num processo chamado crase, dando o atual “comer”. Consequentemente, o processo evolutivo pode ser representado assim:

com-ed-e-re > com-ed-e-r > com-e-e-r > com-Ø-e-r
(Ø representa o morfema zero)

Ou seja, por um capricho da evolução cega, o radical ed-, a alma da própria palavra, desapareceu, só tendo restado os morfemas periféricos. Porém, numa visão puramente sincrônica, diremos que o radical de “comer” é com-, logo analisamos “comer” como com-e-r.

Qual das duas interpretações está correta? Ambas. Um falante ingênuo (isto é, aquele que não tem conhecimento técnico da história da língua) faz a segunda análise e isso é quanto lhe basta para operar com proficiência o código língua portuguesa. Ao ensinar português a estrangeiros, o ponto de vista sincrônico é muito mais útil (contar ao falante estrangeiro toda a história da língua portuguesa será de bem pouca valia se o que queremos é que ele simplesmente se comunique com falantes do português sem mal-entendidos).

Já a compreensão de certas irregularidades do idioma que tanto embaraçam nossos estudantes (e não apenas eles) fica facilitada se lançamos uma luz sobre a história das mudanças linguísticas que ensejaram essas irregularidades. Até mesmo o estudo do latim, infelizmente abolido de nossas escolas há muitos anos, seria um grande trunfo para compreender o porquê dessas formas irregulares e assim driblar esses percalços.

Como Saussure também ensinou, a língua é forma e substância, entendendo-se forma como função e substância como elemento material que desempenha uma função. Toda mudança começa pela substância, isto é, pela casca mais externa da língua. Só que, à medida que a substância muda, elementos distintos podem confundir-se, elementos semelhantes podem diferenciar-se, um elemento crucial ao desempenho de uma função pode simplesmente desaparecer.

Como numa empresa, a mudança de membros de uma equipe pode forçar uma reestruturação dos cargos. Se os elementos que exercem funções mudam, as funções também podem se ver obrigadas a mudar. O que aconteceu com o verbo “comer” foi exatamente isso: o desaparecimento do radical ed- fez o prefixo com- ser promovido a essa função. Uma mutação fonética repercutiu primeiro no sistema fonológico, a seguir no morfológico para chegar ao semântico.

Já que ambas as perspectivas são necessárias à compreensão da língua, é uma pena que alguns teóricos, ao adotar uma delas por razões metodológicas, recusem a validade da outra, criando um clima propício ao conflito ideológico dentro de uma área que, por ser científica, deveria primar pela objetividade e neutralidade.

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Em tempo: pensei em escrever uma crônica sobre as 100 mil mortes pela covid-19 no Brasil, mas desisti, pois iria chover no molhado: tudo o que podia ser dito a respeito já o foi, e tudo o que foi ou for dito não mudará a realidade. Temos governantes que governam a favor da doença e contra a população, e temos uma população embotada pela tragédia. Uns simplesmente se acostumaram ao obituário cotidiano e naturalizaram o que não deveria ser natural; outros decidiram viver como se não houvesse covid amanhã: o mais importante para estes é correr para os shoppings, para as  festas clandestinas, para as grandes aglomerações do comércio de rua…

Há um velho dito popular de que cada povo tem o governo que merece. Uma grande parte de nosso povo merece o governo que tem.

Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?

Imagine que a língua portuguesa é um idioma desconhecido e que você é um linguista tentando descrevê-la, isto é, decifrar sua gramática e assim revelar sua estrutura. Imagine também que você tem duas amostras da língua para usar em sua análise: um discurso oral e um texto escrito. Observe primeiramente o discurso oral abaixo.

Amostra 1 (língua oral): Bom, a Maria ela foi na… é… eu acho que ela fo-foi na farmácia, qué dizê, na drogaria, né? Ela falô pra mim que, tipo assim, ela ia comprá uns remédio, num sei que remédio é. Agora, ãh… se ela… se ela foi mesmo só na farmácia… na na… drogaria, né?, então eu acho que ela num vai demorá pra voltá, tá ligado?

Analise agora a segunda amostra, desta vez de um texto escrito.

Amostra 2 (língua escrita): Ao que parece, Maria foi à drogaria comprar alguns remédios que eu não sei quais sejam, mas, se de fato ela tiver ido somente lá, provavelmente não demorará a voltar.

Então, se o seu objetivo como linguista é descrever a estrutura gramatical dessa língua, reconhecendo a ordem dos elementos na frase, as flexões, as concordâncias e regências, o encadeamento das palavras no sintagma, dos sintagmas nas orações e das orações nos períodos, qual das duas amostras acima lhe seria mais útil?

A linguística do século XX, a partir de Saussure, postulou que seu objeto de estudo é a linguagem verbal em sua modalidade oral, até porque a maioria das línguas do mundo não tem expressão escrita – são as chamadas línguas ágrafas. Portanto, quando etnolinguistas se deparam com uma língua recém-descoberta desse tipo, eles têm de analisar amostras cheias de anacolutos, topicalizações, interrupções, gaguejos, marcadores conversacionais (os famosos “ééé…”, “ããh…”, “entendeu?”, “sabe?”, “né?”), etc. Mesmo assim, eles buscam construir um modelo teórico de “língua ideal”, ou seja, aquela que seria falada se o falante não fosse um ser humano dotado de emoções e sim uma máquina de produzir enunciados a partir das regras gramaticais de base do idioma. Nas línguas de cultura, a escrita culta é essa língua ideal, também chamada pelos gramáticos de língua exemplar.

Quando aprendemos um idioma estrangeiro numa escola, normalmente aprendemos a gramática “ideal” (isto é, normativa) do idioma paralelamente a diálogos bastante artificiais desprovidos de qualquer cacoete. Algo do tipo: “Onde está o livro? O livro está sobre a mesa.”. É o famoso método The Book Is on the Table.

Já quando aprendemos o idioma na prática (por exemplo, quando passamos uma longa temporada num país estrangeiro para o qual fomos sem saber falar uma palavra sequer da sua língua nativa), é a língua oral que vamos aprender. Mesmo assim, nosso cérebro consegue filtrar todos os cacoetes da oralidade (quebras de continuidade, gaguejos, hesitações, gírias) e montar intuitivamente a gramática da língua. É por isso que, mesmo quando aprendemos na prática (ou “na raça”, como se diz), nos tornamos capazes de criar novos enunciados, que nunca proferimos nem ouvimos antes: é que nossa gramática interna, deduzida intuitivamente, nos guia mesmo sem termos consciência dela.

Atualmente, nosso objeto de estudo não é mais tão estreito quanto o da linguística estruturalista do século passado, pois sabemos que, mesmo que noventa por cento do uso que se faz da língua seja na modalidade oral informal, a mente trabalha com uma gramática interna de regras bem definidas (o que Chomsky chama de competência linguística), não necessariamente as regras da gramática normativa, que só quem frequenta a escola aprende (se é que aprende, né?), mas ainda assim regras rígidas, quase computacionais.

O que a linguística atual faz é estudar e compreender todas as marcas da oralidade – que, por incrível que possa parecer, também têm suas regras – e incorporá-las à gramática interna da língua.

Nesse sentido, o estudo da norma culta é tão importante quanto a análise dos discursos orais de todos os falantes de todos os grupos sociais. E o estudo da língua escrita formal é tão relevante para a pesquisa e o avanço do conhecimento científico na área quanto o estudo da língua oral coloquial das classes menos escolarizadas.

A importância da escrita na pesquisa linguística

Quando Ferdinand de Saussure lançou as bases da linguística moderna, em princípios do século passado, uma de suas teses mais importantes era a de que a ciência da linguagem deveria se ocupar da língua oral, isto é, do modo como os falantes efetivamente falam, pois, para ele, a escrita era apenas uma roupagem, ou antes um disfarce, que encobria a realidade da língua.

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Ferdinand de Saussure

De fato, a escrita em geral não reflete a língua real, falada todos os dias, até porque a maioria das coisas que escrevemos nós o fazemos no registro formal, seguindo as regras da gramática normativa, que é em grande parte artificial. A escrita, aliás, oculta as diferenças regionais de pronúncia, já que em todas as regiões se escreve da mesma maneira.

Por todas essas razões, durante praticamente todo o século XX os linguistas relegaram o estudo da escrita a segundo plano e voltaram-se para a modalidade oral da língua. Além disso, esse foi o momento em que os estudiosos europeus e americanos se debruçaram sobre as chamadas línguas ágrafas (sem escrita), que, por sinal, são a maioria das línguas do mundo. Nesse sentido, fizeram um belo trabalho, registrando e descrevendo os falares de povos tribais, de comunidades rurais, de minorias étnicas, chegando em alguns casos até mesmo a salvar determinadas línguas da extinção.

No entanto, ao priorizar o estudo da fala, Saussure jamais disse que a escrita não fosse importante para a pesquisa. A questão era que, até então, só a escrita havia sido estudada, já que a linguística que se fizera até aquele momento era eminentemente histórica, e o único modo de estudar o passado das línguas era por meio dos registros escritos que elas deixaram. Portanto, a priorização da fala era apenas um recorte metodológico.

Com efeito, até o advento das gravações de áudio e vídeo, a escrita foi o único meio de registrar a língua e deixou importantes pistas sobre como as pessoas falavam. Até bem recentemente em termos históricos, não havia uma ortografia oficial para a maioria dos idiomas, e os redatores frequentemente escreviam como falavam. Com isso, é possível hoje deduzir a pronúncia que as palavras tinham na época em que os documentos foram escritos, bem como perceber as diferenças regionais de pronúncia.

Rimas em poemas também ajudam nessa dedução. Por exemplo, a rima de “faz” com “mais” em textos do século XIX permite inferir que “faz” já se pronunciava “fais” naquela época. Nos dois últimos versos da epopeia Os Lusíadas, obra máxima da literatura em língua portuguesa, Luís de Camões rima “veja” com “inveja”. É difícil acreditar que o vate português teria utilizado uma rima imperfeita justamente nos versos finais de sua obra-prima. Por isso, o mais provável é que no século XVI “inveja” se pronunciasse “invêja” (o que, aliás, faz sentido, já que provém do latim invidia, e o i breve latino resulta em e fechado e não aberto em português).

Mas a grafia também influi sobre a pronúncia. A preposição “sob” se escrevia e pronunciava “so” até o século XVI. Foi quando, por imitação do latim sub, de que a preposição portuguesa descende, acrescentou-se a ela um b, que em princípio era mudo. Ou seja, grafava-se “sob”, mas continuava-se a pronunciar “so” (como ocorre hoje com os nomes “Jacob” e “David”, que se leem “Jacó” e “Davi”). Com o tempo, porém, esse b puramente gráfico passou a ser articulado pelas pessoas que sabiam ler mas desconheciam a história da palavra. Assim, a pronúncia “sob” passou a ser sentida como mais culta e, portanto, mais correta do que “so”. Por sinal, “sob” é a única palavra da língua portuguesa terminada em b, até porque as únicas consoantes que nossa língua admite em final de palavra são l, m, n, r, s, x (raro) e z.

No Renascimento, época em que “sob” ganhou seu b, muitas línguas europeias adotaram grafias etimológicas. Foi o momento da introdução de y, ph, th, etc., nesses idiomas. No francês, em que as consoantes frequentemente eram mudas, era muito fácil adotar grafias que nada tinham a ver com a pronúncia, mas imitavam o grego e o latim. Foi assim que doit, “dedo”, passou a doigt por influência do latim digitus, conter, “contar”, passou a compter por causa do latim computare, e assim por diante. Até alguns equívocos etimológicos foram cometidos. Por exemplo, pois, que significava “peso”, passou a ser grafada poids por se acreditar que descendesse do latim pondus, quando, na verdade, provém de pensum.

Outros exemplos de influência da grafia sobre a pronúncia são as palavras portuguesas nascer e crescer e a palavra francesa joug, “jugo”. Até a Renascença, escrevia-se e falava-se “nacer” e “crecer”. Então, por razões etimológicas, passou-se a grafar “nascer” e “crescer”, com o sc do latim nascere e crescere. Hoje, em Portugal, essas palavras se pronunciam “nachcer” e “crechcer” (em algumas regiões, soam mesmo “nacher” e “crecher”). Em certos lugares do Brasil, hoje se diz “naicer” também por influência do sc.

Quanto a joug, sua forma medieval era jou, pronunciada “ju”. Com a introdução do g por analogia ao latim jugum, do qual deriva, os franceses passaram progressivamente a pronunciar “jug”. Essa é, que eu saiba, a única palavra francesa em que o g final não é mudo.

Finalmente, a pronúncia vulgar “tóchico” da palavra “tóxico” não é tão vulgar quanto parece. Afinal, ela é motivada pela grafia com x da palavra. O que quer dizer que quem começou a pronunciar “tóchico” em lugar de “tócsico” sabia ler, embora tivesse pouca cultura.

Sobretudo em idiomas com longa tradição escrita, como são as línguas europeias, é impossível estudar a língua sem levar em conta o modo como as palavras se escrevem. Embora as chamadas línguas de cultura, como o português e o inglês, representem apenas 4% das línguas do mundo, elas são faladas por 96% da população mundial. Ou seja, de longe os idiomas que mais despertam o interesse científico são os que têm ortografia.