Controle e controlar: qual é o primitivo?

Olá, Prof. Aldo! Outro dia, estava discutindo com um colega se ‘controlar’ é derivado de ‘controle’ ou se é o contrário. Você poderia nos esclarecer? Obrigado.
Waltencyr Araújo

Na verdade, Waltencyr, nenhuma das alternativas é verdadeira. Afinal, tanto “controle” quanto “controlar” são empréstimos do francês e, embora apresentem datas diferentes de atestação em português, é de se supor que ambas as palavras tenham entrado em nossa língua quase simultaneamente.

Em latim medieval existia o termo contrarotulus, formado de contra e rotulus, este um diminutivo de rota, “roda”. Tratava-se de uma técnica contábil para verificar contas. O francês do século XVII traduziu esse termo para contrerôle, que logo passaria a contrôle. A seguir, este substantivo produziria o verbo derivado contrôler. Os dois termos chegaram por empréstimo ao português do século XVIII. Logo, o que de fato aconteceu foi que o francês contrôler derivou de contrôle, isto é, a derivação se deu em francês; o português já recebeu os vocábulos prontos.

Duas curiosidades: em Portugal, usa-se preferentemente “controlo” em lugar de “controle”. E essa palavra admite tanto a pronúncia “contrôle” (com “o” fechado) quanto “contróle” (com “o” aberto). Mas a primeira pronúncia, além de ser a predominante, é também a mais recomendada pelas gramáticas.

“Tuíte” e “tuitar”: aportuguesamento ou derivação?

O português é dessas línguas que costumam adaptar a grafia de palavras importadas ao seu próprio sistema ortográfico. Evidentemente, isso não acontece em todos os casos. Palavras como site e internet têm passado incólumes por esse processo – e olhe que já se vão lá quase trinta anos desde que surgiram em português. Às vezes, o aportuguesamento não se deu porque o empréstimo é ainda muito recente; às vezes, porque a adaptação gráfica resultaria numa forma estrambótica demais para ser assimilada pacificamente (pense-se em pitça e blutufe em lugar de pizza e bluetooth). Em alguns casos, como no universo da moda e da tecnologia, a manutenção da grafia original se deve ao status que esta carrega: imagine cordon bleu, termo chique (ou chic) de culinária, grafado cordomblê e sendo confundido com candomblé!

Mas alguns termos recém-chegados à nossa língua já estão sendo devidamente nacionalizados. É o caso de tuitar e tuíte, do inglês tweet, que significa tanto o verbo “piar” quanto o substantivo “pio”. Ao mesmo tempo, o nome da rede social que popularizou esses termos, o Twitter, permanece com sua grafia original, provavelmente por ser nome próprio, marca registrada e sobretudo um termo de difusão internacional.

Que o verbo inglês to tweet tenha dado tuitar e não tweetar em português parece natural. Afinal, toda palavra derivada de estrangeirismo costuma ter a grafia aportuguesada. Por isso, Corinthians é com th mas corintiano não; por isso, marketing é com k, mas marqueteiro, com qu, e assim por diante.

Mas como de tuitar se chega a tuíte? Aqui há duas explicações possíveis – e, a rigor, não há como saber qual delas é a verdadeira: ou o substantivo inglês tweet deu o nosso tuíte por empréstimo direto (evidência disso é que nas primeiras ocorrências da palavra ainda víamos a grafia tweet) e posterior aportuguesamento por analogia com tuitar, ou tuíte seria uma derivação regressiva de tuitar, assim como repasse vem de repassar, achincalhe de achincalhar, desfrute de desfrutar, etc. É claro que a primeira hipótese é a mais provável, principalmente porque a forma aportuguesada do termo surgiu na imprensa especializada em informática, cujos redatores não desconhecem a matriz inglesa da palavra. Mas nada impede que, daqui a alguns anos, professores de português e gramáticos ensinem que tuíte deriva de tuitar. E como os falantes têm memória curta (às vezes acho que gramáticos também), todos aceitarão passivamente essa explicação, que dá de ombros à história da língua. Especialmente porque, quando se trata do admirável mundo novo da tecnologia, o passado – isto é, uns poucos anos atrás – simplesmente não existe.

Pensando bem, talvez daqui a alguns anos o próprio Twitter não exista mais, suplantado por novidades tecnológicas ainda mais mirabolantes, o que fará tuitar e tuíte serem lançados ao arquivo morto dos arcaísmos ultra-antiquados, e então essa discussão sobre o ovo e a galinha (ou sobre o pio e o piar) não fará o menor sentido. É esperar para ver.