O ser humano é realmente um animal racional?

Dando continuidade à minha “filosofice” do artigo anterior, publico agora outro artigo, redigido muito tempo antes daquele, mas que de certa forma funciona como complemento e continuação da minha reflexão sobre a inteligência, a racionalidade e a sabedoria (ou não) da humanidade. Então vamos lá.

Por que o BBB faz tanto sucesso? Por que música brega é tão popular? Por que tanta gente aposta em loterias? Por que tanta gente acredita no sobrenatural? Por que políticos corruptos são (re)eleitos?

Cientistas sociais se debruçam sobre essas questões e produzem teses e mais teses acadêmicas quando a resposta é simples: o bom gosto é irmão do bom senso. E a maioria das pessoas não tem nem bom gosto nem bom senso. Aliás, o bom gosto é a manifestação estética do bom senso. E o bom senso deriva da racionalidade. Só que, embora a racionalidade seja o mais humano dos atributos (“o homem é um ser racional”), ela é um atributo “recessivo”, isto é, a maior parte das pessoas não tem o gene da racionalidade como dominante. É por isso que pessoas guiadas pela razão são minoria no planeta.

A razão foi importante na evolução da espécie humana, mas o fator preponderante da nossa evolução foi de natureza não racional. A superstição e o julgamento pela emoção parecem ter contribuído mais para a sobrevivência dos nossos antepassados do que a razão. Racionalidade é bom na hora de planejar uma caçada, mas isso um dos membros da tribo — o mais racional — pode planejar sozinho. Já a sobrevivência individual dependeu mais de decisões rápidas e não racionais.

Embora se desenvolva com o estudo, a racionalidade só aparece como traço dominante numa pequena parcela da população. É por isso que a religião e a superstição são mais populares que a ciência, e o mau gosto supera o bom senso estético.

A cicuta nossa de cada dia

Corrija um sábio e o tornará ainda mais sábio; corrija um idiota e o tornará seu inimigo.
(Provérbio de origem desconhecida)

Como todos sabem, Sócrates foi um grande sábio grego da Antiguidade. Por sinal, é considerado o pai da filosofia ocidental. Não que não houvesse filósofos antes dele, mas estes ficaram conhecidos como pré-socráticos justamente porque Sócrates representou um divisor de águas: a filosofia passou a ser dividida entre antes e depois dele. Enquanto seus antecessores se preocuparam em estudar a natureza — e por isso poderiam ser comparados aos modernos cientistas —, Sócrates se ocupou de estudar o homem e de compreender a natureza humana. Daí o impacto de suas ideias até hoje.

Mas Sócrates é lembrado também por ter sido mais uma das tantas vítimas da ignorância sobre o conhecimento e a sensatez, assim como o foram Jesus, Giordano Bruno, Galileu e outros.

Sócrates desenvolveu um método próprio e peculiar de filosofar e de ensinar seus discípulos, o chamado método socrático, ou maiêutica, que, à maneira de uma parteira, que traz o bebê ao mundo retirando-o de dentro do ventre da mãe, procura extrair das pessoas o conhecimento que já está dentro delas, mas do qual elas ainda não têm consciência. Para isso, Sócrates basicamente fazia perguntas instigantes, que levavam o interrogado a buscar a resposta dentro de si e, assim, fazer uma descoberta.

A questão é que as perguntas de Sócrates eram tão instigantes quanto inconvenientes, pois não raro levavam as pessoas a deparar-se com verdades incômodas, que elas se recusavam a aceitar, por mais evidentes que fossem, porque contrariavam crenças muito arraigadas dentro delas, tão arraigadas que, para elas, se confundiam com a própria verdade.

O incômodo provocado na sociedade ateniense por Sócrates perturbou os poderosos locais, dentre os quais os políticos, cuja manipulação da opinião pública o filósofo tornava evidente, e os sofistas, filósofos profissionais que ganhavam dinheiro dando aulas em que também manipulavam a verdade por meio de habilidosos jogos de palavras. Em razão do mal-estar que causava, Sócrates acabou sendo condenado por não acreditar nos deuses gregos e por corromper a juventude com suas ideias. Em relação à primeira acusação, não se sabe se Sócrates realmente pregava alguma espécie de ateísmo, mas a crença religiosa prevaleceu sobre qualquer argumento racional que a questionasse, como costuma acontecer ainda hoje. Quanto a corromper os jovens, a sociedade de então viu como corrupção a abertura da mente desses jovens a novas ideias, vistas como perigosas ao status quo, como também ocorre até hoje.

Condenado à morte, Sócrates foi obrigado a ingerir um veneno chamado cicuta, e o fez com serenidade, segundo relatam seus discípulos, que a tudo assistiram. Na realidade, ele pagou com a própria vida por exercer o livre pensamento e por tentar ensinar seus contemporâneos a pensar com a própria cabeça em vez de aceitar passivamente os dogmas que se lhes impunham.

A questão é que, tanto antes dele quanto nos 2.400 anos seguintes, isto é, até os dias de hoje, o pensamento livre, o raciocínio lógico, a busca da verdade por meio da razão e da observação dos fatos, a recusa ao argumento de autoridade e ao dogmatismo incomodam. Seja porque ameaçam o poder de alguns, seja porque abalam aquilo que o ser humano mais preza e em que mais se agarra: suas próprias crenças.

Dizem que o homem é um ser racional. Tanto que a biologia nos intitulou Homo sapiens sapiens, “homem duplamente sábio”. Mas a verdade é que apenas uns poucos homens são ou foram realmente racionais no sentido de pautar sua vida e seu pensamento pela razão e pelo bom senso e não pelos instintos, pelas emoções (inclusive as mais primitivas) e por crenças irracionais e sem fundamento. Todo o progresso civilizatório que desfrutamos hoje se deve a alguns gênios, muitos deles incompreendidos, como o próprio Sócrates, Aristóteles, Leonardo, Galileu, Newton, Voltaire, Darwin, Nietzsche, Freud, Einstein… Esses personagens questionaram a realidade, recusaram aquilo em que se acreditava e foram mais longe, desbravando o desconhecido e revelando aspectos da nossa existência que não conhecíamos — na verdade, a maioria da humanidade ainda não conhece. Aliás, intelectual e moralmente, a maioria da humanidade ainda se encontra no mesmo estado em que estava no tempo das cavernas. Basta olhar para o nosso mundo e constatar que, apesar de todo o nosso progresso material e tecnológico, a maior parte de nós ainda vive na miséria, na fome, dominada por tiranos, travando guerras tão sangrentas quanto inúteis, cultuando deuses que não existem, destruindo a natureza que é nossa própria e única casa, julgando os semelhantes por defeitos que nós próprios temos, odiando-nos uns aos outros por meras questões ideológicas, matando e morrendo por dinheiro, consumindo entretenimento de péssima qualidade, perdendo tempo com futilidades e deixando de nos ocupar com o que é realmente importante, mas, sobretudo, fazendo mal aos outros e a nós mesmos.

Ainda hoje, embora todo o nosso progresso se deva ao conhecimento científico e filosófico, a ciência e a filosofia ainda são desconhecidas ou, pior, desacreditadas pela maior parte das pessoas. Ainda há terraplanistas, antivacinistas e criacionistas. Em contrapartida, crenças metafísicas e ideologias ainda dão o tom. Ainda hoje, quando alguém tenta, mesmo que com argumentos lógicos e evidências objetivas, retirar o véu que encobre a visão dos ignorantes e mostrar-lhes a realidade, estes se revoltam não contra quem os enganou o tempo todo e sim contra quem os livrou do escuro e lhes mostrou a luz. É que a escuridão é muito cômoda, ela nos impede de ver coisas que, no fundo, não queremos ver, como, por exemplo, nossa própria mortalidade e nossa fragilidade e pequenez diante do Universo. A maioria de nós, vendo que o rei está nu, prefere acreditar que ele está vestido com um manto que só os sábios podem ver e, se um abelhudo grita no meio da multidão que o rei está despido, em vez de se dar conta da real nudez do rei, trata logo de linchar o abelhudo.

Viver entre as pessoas comuns é uma tarefa árdua especialmente para quem enxerga um pouco mais longe, para quem tem algum senso crítico, para quem costuma pensar antes de agir ou de falar. O sábio só pode conversar sobre coisas sábias com outro sábio. E os sábios são tão raros! Se o indivíduo sensato tentar discutir qualquer questão mais profunda com o cidadão comum, mediano, provavelmente será incompreendido e fará um inimigo. Quando duas pessoas racionais discutem, mesmo que tenham ideias opostas, elas se dispõem a ouvir e ponderar os argumentos do outro e mesmo a rever seus próprios conceitos em função de algo novo que tenham aprendido com esse outro. Já os irracionais, que são a maioria, só estão preocupados em vencer a discussão, em impor suas próprias convicções ao outro e a destruir as dele. Os sábios, como Sócrates, sabem que nada sabem e que, quanto mais aprendem, mais consciência têm do que ainda falta descobrir. Por sua vez, os estúpidos acham que já sabem tudo, que não têm nada a aprender e muito a ensinar, que qualquer um que os corrija, ainda que com toda a delicadeza e com argumentos sólidos, é um arrogante e impertinente. E, assim, as pessoas racionais e de bom senso vão sendo obrigadas a tomar sua dose diária de cicuta enquanto o mundo marcha a passos largos para seu desfecho trágico. Mas, como diz o título daquele filme de 1956 e também da canção de Lulu Santos, assim caminha a humanidade.

A era das rãs escaldadas

No livro A rã que não sabia que estava cozida, Olivier Clerc narra uma fábula que pode ser resumida mais ou menos assim. Ponha uma rã numa panela com água e embaixo um pequeno fogo. No começo, a rã vai achar agradável a água ligeiramente morna e continuará nadando tranquila. Após algum tempo, a temperatura da água começará a ficar um pouco desagradável, mas a rã não fará nada, até que, uma hora, a água já estará tão quente que a rã, totalmente debilitada, não poderá mais reagir e acabará morta e cozida. Se, em vez disso, jogássemos a rã diretamente na água quente, ela imediatamente saltaria para fora da panela e se salvaria.

Essa metáfora nos mostra que, quando as mudanças são lentas, mesmo que para pior, quase não as percebemos e, por isso, não reagimos a elas. Coisas que causariam indignação algumas décadas atrás hoje são tidas como normais. Algumas até nos incomodam, mas estamos tão anestesiados pela água morna que não esboçamos nenhuma reação concreta a elas até que seja tarde demais, até que estejamos todos cozidos — ou fritos!

Pense em como era o mundo 50, 60 anos atrás. Havia crimes, pois a violência existe desde os tempos das cavernas, mas não se falava em crime organizado (a não ser a máfia dos filmes de gângster), não havia Comando Vermelho nem PCC, o mundo não era refém do tráfico de drogas, não havia celulares nas prisões nem sequestros relâmpago.

Cinco décadas atrás, droga era coisa de hippies e cantores de rock’n’roll; não havia crianças fumando crack nas esquinas nem adolescentes roubando para financiar o vício ou trabalhando orgulhosos para o tráfico. Cinco décadas atrás, já havia megacidades, mas ninguém se queixava do trânsito, da poluição, do clima. Não se falava em ecologia, aquecimento global, superpopulação… Temia-se uma terceira guerra mundial, vivia-se a Guerra Fria, mas no fundo sabíamos que nenhum dos dois lados seria louco de apertar o botão vermelho. Hoje, a Terceira Guerra, nuclear, está batendo à nossa porta, o perigo mora ao lado, o terror está pulverizado por todos os cantos, e qualquer cidadão, com ou sem turbante, é um homem-bomba em potencial.

Hoje, cidades do mundo inteiro estão infestadas por legiões de miseráveis — árabes em Paris, africanos em Madrid, turcos em Berlim, georgianos e casaques em Viena, chicanos em Nova York, nordestinos e bolivianos em São Paulo, brasileiros em todos os lugares — logo nós que antes éramos um país de imigrantes!

Há cinco décadas, crianças falavam e se comportavam como crianças, respeitavam os adultos e sonhavam ganhar de Natal uma patinete ou uma boneca. Crianças brincavam de bola e amarelinha nas ruas sem medo e cresciam sadias. Não havia videogames nem programas infantis eróticos na TV. Aliás, quase não havia TV naquela época. Obesidade infantil quase só existia nos manuais de medicina.

Naquela época, estudantes e seus pais respeitavam professores. Aliás, os pais dos alunos sabiam da importância do estudo e se importavam com a educação de seus filhos. Naquela época, era impensável um estudante matar um professor. Massacres em escolas eram coisa de americanos.

Não éramos escravos da internet nem vítimas de spams, vírus, cavalos de troia, adwares, spywares, telemarketing, marketing viral, menus eletrônicos, secretárias eletrônicas, malas diretas e toda essa parafernália inventada pela publicidade para nos enganar e nos obrigar a consumir. Ódio sempre existiu, mas não havia empresas lucrando com sua veiculação. Hoje, estou escrevendo este artigo; talvez daqui a alguns meses o ChatGPT esteja fazendo isso em meu lugar.

Há cinquenta anos, casamentos já não eram mais arranjados pelos pais, mas tampouco se desfaziam à primeira briga. Romantismo, cavalheirismo, cordialidade, urbanidade eram coisas tão comuns que sua ausência era simplesmente inconcebível.

Tudo tão diferente da rudeza dos nossos tempos…

Até pouco tempo atrás, telenovelas eram uma forma de arte, filmes tinham história e não efeitos especiais, o rádio e a televisão entretinham com conteúdo, música sertaneja era coisa de sertanejos, e podia-se ver Milton Nascimento e Chico Buarque no horário nobre. Aliás, a música popular brasileira era realmente popular. E não era preciso pagar para assistir a canais com alguma qualidade (hoje nem os canais pagos têm qualidade!).

Naquela época, rebeldes eram os Beatles, e ninguém precisava de smartphone ou laptop para viver. Tênis de corrida eram usados exclusivamente para correr, e adolescentes não se matavam por eles.

Há pouco mais de 20 anos, fanatismo religioso era visto com estranheza e não como virtude, duvidar da ciência era prova de insanidade ou de burrice, e era possível ser moderno sem ser devasso.

Nesse tempo não tão distante assim, ficávamos indignados e nos mobilizávamos contra a injustiça, a corrupção, a violação dos direitos e da dignidade humana, enfim, éramos politizados sem ser chatos. As bandeiras que defendíamos eram realmente justas e não mimimi.

Em resumo, se olharmos para trás, veremos que a realidade vem piorando dia a dia em todos os aspectos — político, econômico, social, cultural —, mas temos a impressão de que ainda dá para suportar mais um pouco. Afinal, a água ainda está apenas morna. Só que o fogo está aceso, e a água continua esquentando. Até quando?

Nossa ética egocêntrica

Minha mais recente postagem gerou certa polêmica entre amantes dos animais e amantes de um bom churrasco. Na verdade, diante das mudanças climáticas, da iminente destruição do planeta pelo ser humano, mas também diante de uma certa evolução da consciência humana que se inicia no Renascimento e na Revolução Científica do século XVII e continua com o Iluminismo do século XVIII, pregando valores humanistas de democracia, igualdade e fraternidade, tendemos cada vez mais a olhar com compaixão para seres que antes víamos apenas como objetos utilitários. Afinal, antes da Revolução Industrial, do petróleo e da eletricidade, os animais eram os motores da indústria, os meios de tração e transporte e, evidentemente, como o são até hoje, nossa principal fonte de alimento.

Mas, muito antes disso, desde que saímos das cavernas e nos tornamos animais gregários, percebemos que era preciso estabelecer regras de conduta para o convívio social, pois, se cada um fizesse o que bem entendesse, agindo segundo seus próprios instintos como se estivesse na selva, esse projeto coletivo chamado sociedade sucumbiria ao caos e à barbárie. Por isso, os gregos inventaram uma coisa chamada ética, um conjunto de preceitos do que se deve ou não fazer tendo por base o princípio de que se deve buscar o bem comum; seu lema é: não faça aos outros o que não quer que façam a você. Se todos seguirem esse lema, todos serão felizes e viverão em harmonia.

O problema é que a ética inventada pelos gregos e seguida por todos até hoje é fundamentalmente antropocêntrica, isto é, toma o ser humano como o centro do Universo e a medida de todas as coisas. Essa ideia foi também reforçada tempos depois pelo cristianismo, para quem o homem é a imagem e semelhança de Deus, e este teria criado o próprio Universo para usufruto humano (“Não sou o dono do mundo, mas sou filho do dono”, dizem os evangélicos). Logo, ao homem tudo é permitido, pois tudo o que foi criado por Deus nos pertence e dele podemos dispor ao nosso bel-prazer, especialmente a natureza e, com ela, os animais. O Deus judaico-cristão Javé até apreciava sacrifícios de animais em sua honra. (Na verdade, Javé via com bons olhos até sacrifícios humanos, só que estes foram abandonados quando começaram a se chocar com a ética grega do Ocidente cristianizado.) Mas outras religiões, com seus deuses, também realizavam sacrifícios humanos e animais (estes últimos algumas ainda realizam), pois todas as religiões pressupõem deuses que criaram o mundo para o deleite e usufruto dos homens.

Em resumo, o ser humano criou para si uma ética conveniente a si próprio, em que define certo e errado sempre em função de seu próprio interesse. A ética religiosa, também chamada de moral, segue o mesmo princípio. Por exemplo, os antiabortistas argumentam que é um crime interromper a gestação ainda nas primeiras semanas, pois a vida humana, segundo eles, se inicia na concepção. Resta saber o que eles entendem por vida humana. E por que essa vida seria mais valiosa que a de um animal não humano.

Um embrião humano de algumas semanas de existência é desprovido de sistema nervoso central, portanto não tem sensações, não sente dor nem tem sentimentos ou pensamentos; numa palavra, não é um ser senciente, dotado de consciência, sabedor de que está vivo e de que tem um futuro pela frente. Nesse sentido, um embrião nessa fase é menos “vivo” que uma formiga ou uma barata. No entanto, os antiabortistas não hesitam em pisar em formigas ou abater baratas com inseticida, embora defendam com unhas e dentes a “vida” de um embrião que nada mais é do que um amontoado de células, um mero projeto de ser vivo que ainda não está, rigorosamente, vivo. Mas, nesse caso, a crença religiosa no caráter divino e sagrado da vida humana se sobrepõe a todo o conhecimento científico sobre o que é realmente a vida. Logo, a discussão sobre a liberação do aborto, que deveria ser pautada pela racionalidade e pelo bom senso, se vê turvada pela crendice e pelo fanatismo. Paradoxalmente, alguns antiabortistas chegam a ameaçar de morte médicos que se proponham praticar — legalmente, é preciso ressaltar! — abortos, pois, segundo a ética desses grupos, a vida de um embrião desprovido de consciência vale mais que a do médico que apenas cumpre seu dever legal e que tem família, amigos, uma carreira, lembranças do passado, planos para o futuro…

A questão de se devemos ou não comer carne e outros derivados de animais ou pelo menos se o modo como criamos esses animais para o abate ou a exploração de seus derivados acaba sendo tratada segundo uma ética muito conveniente aos nossos próprios interesses, inclusive os financeiros. Não importa se estou impingindo dor inimaginável a seres que têm sentimentos, laços afetivos, sentem amor, prazer, alegria, tristeza, medo, desde que eu esteja cumprindo a nobre missão de gerar empregos e matar a fome dos humanos. E se eu estiver ganhando dinheiro com isso, que mal tem?

Somos tão antropocêntricos que nossa própria legislação, fundada na ética greco-judaico-cristã, pune com muito mais rigor uma simples injúria contra um ser humano do que o assassinato de um animal. Só que a psiquiatria forense já demonstrou que quem é cruel com animais também é cruel com pessoas. E que, ao prendermos hoje o assassino de um animal, estaremos salvando vidas humanas amanhã. Só falta os juristas e os legisladores compreenderem isso.

A ética deveria ser um conjunto de princípios de conduta visando a proporcionar o bem. Mas o bem de quem? Os gregos, criadores da ética, tinham escravos, e o bem dos escravos não importava aos seus senhores, afinal trata-se de uma ética seletiva: devemos fazer o bem, mas escolhemos arbitrariamente quem serão os destinatários desse bem. Entre o meu interesse e o seu, deve prevalecer o meu, o do meu grupo, da minha etnia, da minha classe social, da minha espécie animal. A própria ciência moderna, ao submeter animais a dolorosos — e por vezes inúteis — experimentos para desenvolver tratamentos para o sofrimento humano, se vale dessa ética seletiva: faça o bem, mas veja a quem!

Se somos os donos do planeta, ou os filhos do dono, então podemos tudo em nosso próprio proveito, tudo é lícito se for para o nosso bem. Só que o planeta está começando a cobrar a conta por essa arrogância humana. Embora tenhamos inventado deuses que são nossa imagem e semelhança, que perdoam todos os nossos pecados e que nos autorizam a fazer o que for melhor para nós nesse mundo que eles supostamente criaram, o Deus verdadeiro, isto é, a natureza, aplica sobre nós suas leis implacáveis. Mesmo com nossa ética egocêntrica e arrogante nos dizendo que estamos certos, estamos começando a pagar caro e de forma irreversível por nossa presunção.

Luiz Felipe Pondé e a pauta dos animais

Recentemente, o filósofo Luiz Felipe Pondé publicou um vídeo em seu canal do YouTube respondendo à pergunta “Por que não me preocupo com a pauta dos animais?”. Admiro muito Pondé por sua sensatez e equilíbrio na análise das mais diversas questões, desde as existenciais até as políticas, mas no vídeo em questão sou obrigado a dizer que o pensador tratou a questão de forma rasa e pouco sensível.

Logo de início, ele argumenta que a natureza é uma máquina de sofrimento e que, embora ninguém em sã consciência seja a favor do sofrimento, animais se alimentam de animais e que se deveria perguntar a um leão se ele é a favor do sofrimento. Mais adiante, ele questiona o que farão os veganos se um dia descobrirem que os vegetais também têm sentimentos: comerão o próprio corpo como única saída possível?

Todos sabemos que seres vivos se alimentam de outros seres vivos, sejam eles animais ou vegetais. Nisso a natureza é sábia, pois, se nos alimentássemos de minerais, que são recursos não renováveis, estaríamos devorando nosso próprio planeta. Portanto, até por ser uma lei da natureza, alimentar-se de animais não seria, em princípio, um problema ético. A questão é como o ser humano trata os animais que come.

O leão tem no antílope (eu ia dizer “veado”, mas algum militante LGBTQIAXYZ pode se sentir ofendido) seu alimento, mas, para comê-lo, ele precisa caçá-lo, e aí temos uma luta de igual para igual. Um dia é da caça, o outro do caçador, logo às vezes o leão mata e come o antílope, às vezes o antílope consegue fugir e sobreviver — para azar do leão.

Os índios (ou indígenas, ou povos originários) brasileiros costumam caçar para comer e até usam um meio um tanto desleal em relação aos bichos que caçam chamado arco e flecha; sim, com esse artefato tecnológico, levam certa vantagem sobre a presa, o que não aconteceria se caçassem só com as próprias mãos. Mesmo assim, jamais caçam além do que precisam para o seu consumo imediato, e algumas tribos ainda realizam cerimônias religiosas em memória dos animais que abatem, encomendando sua alma aos deuses num ato de gratidão.

Já nossa moderna civilização transformou os animais em mercadoria. Quando o dinheiro fala, qualquer princípio ético ou moral se cala — ou é calado. Nas fazendas de gado, tanto de corte quanto leiteiro, bem como nas granjas e avícolas, as condições de vida dos animais são absolutamente miseráveis e desumanas. As técnicas utilizadas no  abate de animais são de fazer inveja a qualquer administrador do campo de concentração de Auschwitz. A pesca predatória nos oceanos elimina muito mais peixes, moluscos e crustáceos do que aqueles que vão ser efetivamente comercializados e consumidos — o que já não seria pouco diante de uma humanidade de 8 bilhões de bocas ávidas de comida. Como resultado, temos a progressiva extinção de um grande número de espécies, o que vem causando um desequilíbrio ambiental irreversível.

Mas a pauta animal não se restringe ao veganismo: quem compra um cãozinho de raça está alimentando uma máfia de criadores inescrupulosos, para quem cachorro é dinheiro, e por trás de todo filhote fofinho há uma mãe (eles chamam desumanizadamente de “matriz”) maltratada, totalmente carente de cuidados, que dirá de carinho, cujo único propósito na vida é parir, e um pai (eles chamam de “reprodutor”) igualmente tratado como mera máquina de copular fêmeas. Quando não servem mais a esses propósitos capitalistas, são simplesmente descartados (mortos é uma palavra muito forte, né?).

Outro grande equívoco do Sr. Pondé em seu vídeo é associar a pauta animal a um modismo de comportamento. É mais ou menos o que faz a direita que enriquece vendendo armas e agrotóxicos ao dizer escarnecendo que “isso é coisa de esquerdista”. Nesse caso, a caridade, o pacifismo, o ambientalismo, a luta por justiça social e, mais ainda, a ética, a solidariedade, a gentileza, o amor ao próximo, tudo isso são pautas de esquerda, “coisa de comunista”. Sei que Pondé não é exatamente um direitista burro; suas posições políticas estão mais ao centro do que à direita, e burro é algo que ele definitivamente não é. Entretanto, sua crítica aos modismos de comportamento, à qual eu também faço coro (por exemplo, só nesta postagem zombei duas vezes da excrescência chamada linguagem politicamente correta), o levou desta vez a tecer um comentário raso onde ele poderia ser profundo, mesmo que seu vídeo ficasse um pouco mais longo. Talvez a pressa de produzir conteúdo toda semana para manter o famigerado engajamento (e a consequente monetização) o tenha levado à pouca reflexão, o que não é típico dele. Mas pode ser também que ele seja de fato um insensível, alguém a quem o excesso de leitura de filosofia, de gnósticos, estoicos até os cínicos, tenha embrutecido. Afinal, segundo a racionalidade fria da filosofia, a natureza é uma máquina de sofrimento, não é mesmo? E máquinas não têm sentimento. Por enquanto.

Voltando de férias com um desagravo

Estive sumido aqui do blog neste mês de janeiro, em parte porque, como todo filho de Deus — embora ateu —, eu também tenho direito a umas merecidas férias. Mas em parte também porque passei por uma experiência que, durante semanas, me tirou totalmente a vontade de escrever.

Logo nos primeiros dias do ano, assistimos ao funeral do eterno Pelé, um dos meus grandes ídolos, que tive a sorte de ver jogar. A morte do Rei e a oportunidade de rever, nos inúmeros documentários que a televisão exibiu, seus incríveis lances provoaram em mim uma emoção só comparável a outra que também vivenciara pouco antes: a despedida dos palcos de Milton Nascimento, meu ídolo maior, em show no Mineirão, na minha amada Belo Horizonte, ao qual estive presente em novembro último. Isso me inspirou a escrever um artigo traçando um paralelo entre esses dois brasileiros geniais. O título seria Dois reis negros, dois brasileiros geniais. O texto se iniciava assim:

Dois negros. Dois brasileiros. Dois mineiros. Um, de Três Corações. O outro, de Três Pontas. Um, nascido a 23 de outubro de 1940. O outro, a 26 de outubro de 1942. Signo de escorpião. Um, nascido no Rio, mas criado em Minas. O outro, nascido em Minas, mas radicado em Santos. Dois gênios em suas profissões. Dois homens que emocionaram e emocionam o público. Dois cidadãos do mundo. Ambos de sobrenome Nascimento. O primeiro, de nome Edison (depois alterado por ele mesmo para Edson). O segundo, de nome Milton. Ambos nomes ingleses: o do inventor da lâmpada elétrica e o do autor do Paraíso Perdido.

E o artigo seguia falando sobre o imortal legado de Pelé, deus do futebol, e sobre a maravilhosa obra musical do Bituca, como Milton Nascimento gosta de ser chamado, e sua contribuição para a MPB, para o Brasil, para o mundo. Nesse texto, eu falava sobre a minha emoção diante do apoteótico show a que assisti, num Mineirão mais lotado que num Cruzeiro x Atlético. Eu terminava agradecendo por ter tido a sorte de ser contemporâneo desses dois gênios, de ter nascido no mesmo país e planeta que eles.

Todas as semanas, publico neste blog textos que escrevo da melhor forma que consigo, tentando falar às vezes de assuntos difíceis como linguística numa linguagem que atinja o maior número possível de leitores, especialmente os não iniciados no assunto. Graças a um dom natural, tenho prazer e facilidade em escrever e, modestamente, acho que faço isso bem. Por isso mesmo, a tarefa de escrever todas as semanas não me é pesada; pelo contrário, minha escrita flui com facilidade. Mas, quando escrevo sobre a língua, ou sobre a política nacional, ou sobre as mazelas do nosso país e do nosso tempo, escrevo com a cabeça. Já quando escrevi a crônica sobre Pelé e Bituca, o fiz com o coração, tomado de profunda emoção e rara inspiração. Tanto que mal podia esperar para que chegasse segunda-feira, dia 9 de janeiro, para publicá-lo. Seria um dos melhores artigos que já produzira na vida. De quebra, no dia anterior, havíamos perdido Roberto Dinamite, outro grande craque do nosso futebol, e eu aproveitaria o ensejo para também lhe prestar uma homenagem. Por último, eu pretendia finalizar com um comentário sucinto deplorando em palavras irônicas a barbárie ocorrida em Brasília na véspera, o fatídico 8 de janeiro.

Pois qual não foi minha surpresa e choque naquela segunda-feira ao abrir o arquivo Word em que estava o meu artigo e constatar que, com exceção do primeiro parágrafo (esse que transcrevi acima), o resto do texto havia sumido. Como? Teria eu por acidente apertado alguma tecla e deletado o restante do texto e a seguir salvado o arquivo? Possivelmente foi o que ocorreu. Como faço backup dos meus arquivos num HD externo ao meu laptop, fui até lá e, para minha decepção, o arquivo em backup também estava mutilado. A partir desse momento, comecei a entrar em pânico. Pesquisando na internet, descobri que o Windows salva versões anteriores dos arquivos, só que essa função precisa ser habilitada e, não se sabe por que cargas d’água, ela não vem habilitada de fábrica. Ou seja, o senhor Bill Gates, nerd que sempre foi, deve achar que todos os usuários dos seus produtos são formados em ciência da computação. Pois bem, descobri tarde demais que não havia versão anterior salva do meu pobre arquivo. Passei o dia baixando softwares de recuperação de arquivos deletados e até encontrei uma versão de 2017 do meu arquivo — ou seja, uma versão absolutamente inútil.

Conclusão: perdi meu texto para sempre, sem que ele tenha tido a chance de ser lido por uma alma sequer — mesmo eu jamais o lerei de novo, e tudo que me resta dele são alguns flashes na memória. Reescrevê-lo é impossível: a emoção e a inspiração que eu tive jamais se repetirão. Além disso, o momento de sua publicação passou; como dizem, perdi o timing.

Meus leitores podem achar bobagem, mais vivenciei um verdadeiro sentimento de luto nesses dias, comparável à perda de um ente querido. Com a diferença de que, quando perdi meus pais, sofri por um tempo, mas guardei comigo a lembrança de todos os anos de vida em que pude desfrutar de sua companhia. E desse artigo que perdi, que era como um filho (sim, amigos, os livros e artigos que escrevo são como meus filhos), o que vou guardar?

Isso tudo só fez reforçar minha ojeriza pela tecnologia. Ojeriza que começou ainda nos anos 90, quando eu finalizava minha tese de doutorado num computador XT, daqueles de telinha verde (os mais jovens nem fazem ideia do que seja isso). Pois, em certo momento, o “bicho” travou, o que fez minha tese, produto de seis anos de insano trabalho, simplesmente sumir. E na época não havia dispositivos de autorrecuperação como os do Windows de hoje em dia — na época sequer havia Windows! Felizmente, após algumas manobras e muito desespero, consegui salvar uma versão tosca do meu trabalho. Passei dias reformatando parágrafo por parágrafo, negrito por negrito, itálico por itálico, refazendo tabelas, redesenhando figuras, reescrevendo o último capítulo, que não havia sido salvo. Mas pelo menos consegui recuperar o conteúdo do arquivo. Esse episódio, somado ao assédio moral que sofria do meu orientador, explica o surto depressivo que tive à época e que me custou anos de tratamento psiquiátrico.

Sou do tempo da máquina de escrever, e os textos que datilografava quando era adolescente ainda estão comigo. Livros impressos ou escritos à mão, alguns com mil anos ou mais, ainda resistem nas grandes bibliotecas do mundo. Mas arquivos “virtuais”, estejam eles num HD ou na nuvem, podem sumir a qualquer momento. E estamos inconsequentemente digitalizando toda a nossa cultura, todo o nosso acervo de conhecimentos, eliminando o papel sob a desculpa de poupar o meio ambiente — como se fosse o papel o grande vilão da emergência climática que vivemos.

Queridos leitores e amigos, este texto é um desabafo e um desagravo. Posso estar ficando velho, mas ninguém me convence de que um videogame de futebol que joga sozinho é melhor que uma partida de futebol de botão. Que joguinhos de celular que se jogam com dois polegares são mais divertidos do que uma bola de futebol, um pião, uma bicicleta ou bolinhas de gude. Que brincar no playground do condomínio é mais bacana do que correr descalço na rua, sem medo de doença ou de bandido.

Volto à rotina da escrita, porque simplesmente não consigo viver sem isso, mas com profundo pesar e medo das próximas perdas. Até a semana que vem.

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Ah, um adendo: na minha opinião, não é o colapso climático ou a guerra nuclear o que vai em breve destruir a humanidade; é a Inteligência Artificial.

Sobre Pelé e a genialidade

A recente morte de Pelé, ídolo dos ídolos, celebridade das celebridades, deus do futebol, o eterno Rei, o mais ilustre dos brasileiros, fez aumentar subitamente de frequência o uso da palavra gênio, e não sem justa razão. É bem verdade que essa palavra anda meio banalizada ultimamente, tendo virado elogio fácil a qualquer um que, na suspeita e duvidosa opinião de alguns, tenha realizado algum feito notável, ainda que trivial. Nesses nossos tempos, Anitta é um gênio por ter chegado ao topo do ranking do Spotify, Galvão Bueno é o gênio da narração esportiva, Steve Jobs foi o gênio da tecnologia por ter inventado o i-Phone, e por aí vai. Mas, apesar desse uso lisonjeiro e pouco autêntico do termo, existem e existiram os gênios verdadeiros, aqueles que revolucionaram com sua inteligência e habilidades ímpares as áreas em que atuaram. Se para nós Pelé se tornou, mais do que um nome próprio, um substantivo comum designativo do indivíduo que chegou ao mais alto nível de seu ofício, tornando-se insuperável, podemos dizer que muitos seres humanos merecem esse epíteto. Não é errado dizer que Ivo Pitanguy foi o Pelé da cirurgia plástica, que Oscar Niemeyer foi o Pelé da arquitetura, Ayrton Senna o Pelé do automobilismo, Michael Phelps o Pelé da natação, Muhammad Ali o Pelé do pugilismo, e assim por diante. Talvez até devêssemos grafar Pelé nesse sentido com inicial minúscula: “o deputado fulano de tal é o pelé da corrupção”.

Mas, ao assistir na TV nestes últimos dias aos feitos fantásticos, inigualáveis e, por que não?, sobre-humanos do nosso querido Rei, me vêm à mente os nomes de muitos pelés que admiro e tenho como guias e fontes de inspiração, cada um tendo sido um divisor de águas em sua profissão, repartindo-a em “antes” e “depois” dele; alguns, diferentemente, foram tão iluminados que fundaram a própria profissão; para estes, só existiu o “depois”.

Por exemplo, penso em Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, capaz de fazer reflexões profundas e complexas sobre todas as áreas do conhecimento, um homem cujas ideias na maioria dos campos em que filosofou ainda são válidas nos dias de hoje e que fez isso numa época em que a filosofia ainda dava seus primeiros passos. O fato é que nenhum filósofo depois dele conseguiu realizar obra mais perene e monumental do que o famoso estagirita, como ficou conhecido.

E o que dizer de Isaac Newton, o sábio inglês que, ao ver, segundo dizem, cair uma maçã, enunciou as leis que regem nosso Universo e que explicam todos os fenômenos físicos, exceto os muito rápidos (próximos à velocidade da luz) e os muito pequenos (na escala subatômica)? Newton não só fundou a física moderna, especialmente nos domínios da mecânica e da óptica, e, de certa forma, toda a ciência moderna, mas também foi um dos mais brilhantes astrônomos e matemáticos de todos os tempos. E, como se não bastasse, ainda fazia estudos em teologia e ciências ocultas. Apenas um homem se igualou a ele, mas não o superou: foi Albert Einstein, o criador da Teoria da Relatividade. Esses dois gênios resumem toda a física. No entanto, Newton prestou reverência a seus mestres, outros gênios um pouco menores mas sem os quais Newton não seria Newton: Copérnico, Galileu e Kepler. Do mesmo modo, Aristóteles não seria quem foi sem seus mestres Sócrates e Platão, e também Tales, Anaximandro, Parmênides, Leucipo, Demócrito…

Enquanto isso, Charles Darwin revolucionou a biologia e, de quebra, abalou nossas mais profundas crenças religiosas com a Teoria da Evolução das Espécies, uma ideia simples, como são todas as ideias geniais, e que hoje se aplica a animais, plantas, línguas, culturas, sociedades, sistemas planetários e o próprio Universo. Mais uma vez, Darwin deve tributo a predecessores menos festejados pela História como Lineu e Lamarck.

Saindo da ciência e indo para a arte, como não lembrar de Johann Sebastian Bach, o maior compositor de todos, o sujeito que não apenas produziu os maiores hits de todos os tempos (sim, se vivesse nos dias de hoje, Bach seria um hitmaker maior que Paul McCartney ou Burt Bacharach, certamente ganhador de todos os Grammys) como simplesmente definiu a estrutura da música ocidental. Tudo o que Mozart, Beethoven, Tchaikovsky, os Beatles, Michael Jackson, Tom Jobim, etc., fizeram só foi possível porque Bach fez primeiro. E sua música sublime é conhecida nos quatro cantos do mundo; não há ninguém que nunca tenha ouvido alguma de suas melodias, nem que seja num comercial de televisão. Aliás, conta-se que um certo crítico musical, quando perguntado quem em sua opinião era o rei da música, respondeu: “Beethoven”. Sua resposta causou surpresa e certa indignação ao indagador, que arguiu: “E Bach?”. Ao que o crítico esclareceu: “Beethoven é o rei da música, já Bach é o deus da música”.

E Lavoisier, o homem que inventou a química e tornou possíveis todos os infinitos produtos industriais que temos hoje? E Thomas Edison, o maior inventor da História? E Sigmund Freud, o médico que desvendou a mente humana? E Leonardo da Vinci, o grande polímata, considerado por muitos o maior de todos os gênios, um craque (poderíamos dizer “um Pelé”) na pintura, escultura, arquitetura, música, poesia, engenharia, anatomia, botânica, aeronáutica, precursor de grande parte dos inventos que só surgiriam oficialmente séculos depois dele, sobretudo o “inventor” do Renascimento e, por consequência, do mundo moderno?

E temos ainda alguns gênios menos difundidos, mas não menos brilhantes: Michael Faraday, o autodidata que destrinçou a eletricidade e tornou possível toda a moderna tecnologia; Alfred Wegener, o geofísico alemão que percebeu a complementaridade entre as formas dos continentes e criou a teoria da Pangeia, segundo a qual todos os atuais continentes um dia formaram uma única massa, que se partiu graças ao movimento das placas tectônicas; Gian Lorenzo Bernini, o mais magistral dos escultores, cujas estátuas parecem ter vida; William Jones, o jurista britânico que, percebendo as semelhanças entre várias línguas da Europa e da Ásia, postulou sua ancestralidade comum num idioma pré-histórico, o indo-europeu, e, com isso, inaugurou a linguística; e, depois dele, Ferdinand de Saussure, o linguista suíço que deitou as bases dessa ciência a partir de uma meia dúzia de dicotomias, das quais já falei diversas vezes em meus escritos. Enfim, há tantos “pelés” a quem devemos o melhor de nossa ciência, arte, tecnologia, esporte, cultura. E o mais incrível é que a maioria deles partiu de ideias absolutamente simples, só que ninguém as teve antes deles, e que se mostraram revolucionárias, além de terem trabalhado às vezes com os recursos mais rudimentares, como a bola de meia com que Pelé aprendeu a jogar futebol. Como diz um provérbio chinês antigo — e mineiro moderno —, inteligente é quem descobre o óbvio. O que nosso Pelé fez com a bola nos pés é no fundo muito simples, mas que outro jogador seria capaz de fazê-lo? Na verdade, muitos craques, como Zico, Maradona, Ronaldo, Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, fizeram em algum momento algo que Pelé fez, mas o Rei fez primeiro; e fez, sozinho, o que todos os outros craques fazem juntos. Ou seja, seria preciso somar o talento de todos eles para produzir Pelé. E esse gênio, um dos maiores da galeria que elenquei aqui, era negro, pobre e brasileiro, para nosso orgulho. Pelé morreu. Viva Pelé!

O ocaso da civilização?

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, temos visto o mundo passar por várias mudanças – a meu ver para pior. Como todos aqueles que têm um pouco mais de idade (no meu caso, nem tanta assim rs), sinto saudade dos meus tempos de infância e adolescência. Na verdade, acho que todo mundo já sentiu, sente ou sentirá saudade desses tempos de despreocupação com o futuro, algo ainda tão distante, e de quase nenhum passado a recordar, quando só o presente importa. E aí temos a tendência a achar que esses tempos foram os melhores não só para nós, mas para todas as pessoas. Olhamos para trás e achamos que nunca, nem antes nem depois, o mundo foi tão bom como naquela época em que éramos mais jovens. Não consultei muitas outras pessoas sobre isso, mas tenho para mim que essa sensação deve ser universal – exceto, é claro, para quem teve uma infância horrível, de privação e violência, por exemplo.

Todavia, no meu caso – e perdoem-me se estou sendo chauvinista –, fico achando que o tempo em que fui criança ou adolescente coincidiu de fato com a melhor época da humanidade, pelo menos nesta parte do planeta que convencionamos chamar de Ocidente.

Se fizermos um retrospecto do que foi a história da espécie humana e em particular a história de nossa civilização, talvez os amigos leitores concordem comigo. Comecemos pela Antiguidade clássica. A civilização greco-romana nos legou um inestimável patrimônio de cultura, arte, filosofia, ciência, fundamentos de ética e moral, mas era, ao mesmo tempo, uma sociedade escravagista, patriarcal, belicosa, xenófoba e dominada por tiranos – mesmo a chamada democracia ateniense não era assim tão democrática, já que excluía a maior parte da população. Portanto, foi uma época de muito arbítrio e pouca liberdade.

Então vieram os mil anos da Idade Média com seu obscurantismo, fanatismo religioso, guerras, fome, peste, falta de higiene, caça às bruxas, ódio a todo conhecimento que não estivesse de acordo com a Bíblia, fogueira aos hereges e nenhuma liberdade de pensamento.

As coisas parecem melhorar com o Renascimento e sua cultura do homem, mas a Santa Inquisição continua a postos, e ainda surgem os monarcas absolutistas. Há uma Revolução Científica acontecendo no século XVII, mas cientistas e pensadores ainda são condenados à prisão ou à morte (Galileu Galilei e Giordano Bruno que o digam). Há também um movimento chamado Iluminismo no século XVIII pregando o estado laico, a separação entre os poderes e o sistema democrático representativo. Mas ainda durante todo o século XIX pouco se pode falar de democracia. Mesmo os regimes republicanos que começam a surgir no Novo Mundo com a independência das antigas colônias europeias têm pouco de democráticos ou representativos. Talvez um pequeno respiro nessa sucessão de tragédias tenha sido a Belle Époque, breve intervalo entre guerras, de 1870 a 1914, em que floresceram as artes e as ciências, e o Ocidente respirou alguma liberdade.

Aí vem o primeiro grande abalo planetário com a Primeira Grande Guerra e seus milhões de mortos, seguida da epidemia conhecida como Gripe Espanhola. Esse conflito descortinou um período sombrio de crise econômica, com a quebra da bolsa de Nova York em 1929 e a subsequente recessão-depressão dos anos ’30, e de crise política, com a ascensão do fascismo e do nazismo, culminando numa convulsão global ainda maior, a Segunda Guerra Mundial.

A partir daí, apesar do início da chamada Guerra Fria e das tensões políticas dela advindas, a Europa ocidental, reconstruída pelo Plano Marshall, e a América vitoriosa começam a viver um período de paz, democracia, mobilidade social, secularismo, liberdade sexual, de costumes e de expressão e florescimento cultural nunca antes vistos: é a era da cultura pop, dos Beatles, de Woodstock, da televisão, da social-democracia e seu estado de bem-estar social. A Europa ainda é atormentada de vez em quando por alguns atentados terroristas de inspiração comunista, mas o clima em geral é de tranquilidade e de efervescência intelectual e artística. Além disso, é a época do conforto: da refrigeração, do aquecimento central elétrico, do chuveiro elétrico, dos eletrodomésticos…

A queda do muro de Berlim em fins dos anos ’80 e o consequente fim da Guerra Fria, aliados ao surgimento da globalização, parecem apontar o início de uma nova era de prosperidade e paz. Só parece. O atentado do 11 de Setembro de 2001 substitui o terrorismo de esquerda pelo terrorismo islâmico. Novos inimigos surgem no horizonte: o Estado Islâmico, a China, ditadura que desponta como a segunda maior potência econômica mundial, a Rússia de Putin e seu desejo de ser o novo imperador do mundo e de nos pôr à beira da Terceira Guerra Mundial. Paralelamente, democracias até então sólidas começam a periclitar: Orban na Hungria, Salvini e Meloni na Itália, Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil… A guinada à direita já se esboçava nos anos ’80 com Thatcher, Kohl, Reagan e João Paulo II, ladeada pelo retorno triunfante das religiões e do misticismo na virada do milênio e a progressiva derrocada do laicismo e ascensão de fantasmas como negacionismo, pós-verdade, fake news e outros venenos do esclarecimento.

Como cereja do bolo, chegam as modernas tecnologias, como a inteligência artificial, trazendo o emburrecimento das mentes e a robotização do ser humano, e o aquecimento global, causador das mudanças climáticas, querendo indicar que nosso modelo de civilização globalizado e consumista está chegando aos estertores.

Enfim, o ciclo de paz, prosperidade e resplendor cultural que se estendeu de aproximadamente 1950 a 2000 parece que terminou. Curiosamente, esse período histórico coincide com o reinado da recém-finada rainha Elizabeth, o que de fato sinaliza o fim de uma era.

Pareço muito pessimista? Talvez. Mas creio que o pessimismo é a melhor forma de realismo. Certa vez disseram ao mestre José Saramago que ele parecia um profeta, tal era o grau de acerto de suas previsões sobre o futuro da humanidade. Ao que ele respondeu que é fácil ser profeta: basta prever o pior cenário possível; certamente será este o que se verificará.

Negacionismo científico e negacionismo político

Semanas atrás, recebi um comentário a um vídeo do meu canal do YouTube Planeta Língua intitulado “A palavra é… negacionismo”. Nesse vídeo, explico a origem e o significado da palavra, que se tornou tão corrente desde a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA em 2016. O comentário em questão afirmava que negacionismo é um termo pejorativo criado pela esquerda para depreciar, humilhar e intimidar a direita. Em outras palavras, o que o comentador do vídeo, indisfarçavelmente de direita, sustenta é que negacionismo não existe, trata-se de uma acusação vazia, o que implica que as posições que os supostos negacionistas defendem são legítimas.

Vamos então primeiramente falar sobre a origem do termo e do porquê de sua criação. A palavra negacionismo foi cunhada em francês (négationnisme) pelo historiador Henry Rousso em seu livro de 1987 A síndrome de Vichy, em que ele o aplica à atitude política de certos membros da direita francesa de negar a existência do Holocausto. Portanto, o termo negacionismo nasceu no âmbito da história e, por isso mesmo, é por vezes chamado de negacionismo histórico.

Na década de 1990, por ocasião dos debates sobre as mudanças climáticas, surgiram os negadores dessas mudanças, os chamados “ambientalistas céticos”. A partir daí, a comunidade científica, especialmente nos EUA, passou a empregar o termo negacionismo (em inglês negationism) em relação a esses céticos. Surgia o negacionismo científico.

Portanto, negacionismo é a postura de negar a realidade e, em especial, fatos cientificamente comprovados como forma de fugir de uma verdade incômoda.
É o triunfo da opinião sobre o fato. O negacionismo se distingue da simples negação porque rejeita uma tese mesmo que ela seja empiricamente comprovável e mesmo já esteja provada um sem-número de vezes. De certa forma, o negacionismo é primo-irmão das teorias conspiratórias. Os adeptos dessas teorias, chamados de conspiracionistas, sustentam que a comunidade científica internacional, denominada depreciativamente por eles mainstream científico, é fechada a novas ideias e rejeita sistematicamente teorias alternativas, como a de que a espécie humana é descendente de extraterrestres ou então teses criacionistas como o design inteligente, por exemplo. Na opinião desses conspiracionistas, a comunidade científica não seria nada mais do que uma máfia.

A questão é que o que eles chamam de mainstream é, na verdade, o conjunto majoritário de pesquisadores do mundo todo que baseiam seus conhecimentos no método científico, isto é, nos dados resultantes de experimentos nos quais uma hipótese é posta à prova e, se contradita pela experiência, é descartada. Essa comunidade de pesquisadores é responsável por estudos minuciosos, rigorosamente planejados e controlados, e sobretudo tão neutros e imparciais quanto possível, o que significa que nenhum resultado é privilegiado a priori, mas as teorias têm de se dobrar ante os fatos, e, se uma teoria entra em contradição com a realidade mostrada pelos resultados empíricos, errada está a teoria, não a realidade.

O ambiente científico é tão controlado que qualquer publicação séria tem de passar primeiro pelo crivo de pareceristas contratados pelo periódico ao qual o artigo é submetido, pareceristas estes de alta reputação científica, que fazem uma análise duplo-cego: nem o parecerista sabe o nome do autor do artigo nem vice-versa. Se aprovado e publicado, o artigo passa agora pelo crivo de toda a comunidade científica; o experimento ali descrito pode ser replicado por qualquer um, e os resultados obtidos devem ser os mesmos relatados no artigo. Se não forem, algo está errado. Logo, uma fraude científica cedo ou tarde é desmascarada. Este é o verdadeiro mainstream da ciência.

Por sinal, é a ele que devemos toda a evolução tecnológica do mundo atual, desde medicamentos para as mais diversas doenças até os modernos meios de transporte e comunicação, dentre tantas outras inovações. Ou seja, se as teorias científicas vigentes estivessem erradas e as “alternativas” é que fossem corretas, certamente ainda estaríamos na Idade Média. O grande problema dessas teorias alternativas, que, a rigor, nem teorias são, mas meras hipóteses, é que elas não têm suporte em dados empíricos, o que equivale a dizer que elas não apresentam provas de sua veracidade, são meros argumentos que podem convencer os mais ingênuos, mas não resistem a um teste mais rigoroso.

Em resumo, ao contrário do que afirma o comentador do meu vídeo, negacionismo não é uma pecha injusta criada pela esquerda política para depreciar direitistas, é uma acusação feita pelas pessoas de bom senso, que aceitam verdades sobejamente provadas, contra as que não as aceitam. O negacionismo é, pois, uma vertente do obscurantismo.

Mas o negacionismo não existe só na ciência, como na história (negação do Holocausto), na biologia (negação da evolução das espécies), na ecologia (negação do aquecimento global) ou na medicina (negação das vacinas); ele existe também na política. A atitude de negar os resultados de pesquisas eleitorais feitas por institutos sérios, com metodologia científica, apenas porque o candidato de sua preferência não está na liderança dessas pesquisas ou, pior, negar o resultado de eleições limpas e seguras, altamente monitoradas até por organismos internacionais, alegando fraude, jamais comprovada, apenas porque seu candidato não venceu, é uma forma de negacionismo político. Por conseguinte, o negacionismo político anda de mãos dadas com o golpismo. Aliás, todos os golpistas partem de uma mentira que eles sustentam como verdade para justificar seu golpe. A alegação de Putin de que o governo ucraniano é neonazista serviu de justificativa para a invasão da Ucrânia. Desde então, o governo russo nega verdades amplamente documentadas pela imprensa como a de que os mísseis russos miram alvos civis ao mesmo tempo que sustenta inverdades como a de que não há uma guerra e sim uma operação militar especial, o que quer que isso signifique.

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Antes que algum bolsonarista me acuse de ser esquerdista, comunista ou “mortadela”, quero esclarecer que sou politicamente de centro e no primeiro turno não votei nem em Lula nem em Bolsonaro. Logo, minhas considerações não têm nenhum caráter sectário ou ideológico, mas são na verdade a mera constatação de uma patologia social de nosso tempo chamada extremismo.

Monarquia ou república?

Desde o falecimento da rainha Elizabeth II do Reino Unido e a consequente ascensão ao trono de seu filho, o agora rei Charles III, vem ganhando corpo naquele país o debate sobre o possível fim da monarquia britânica. Pesquisas mostram que cerca de 40% dos britânicos são republicanos, e hashtags como #notmyqueen e #notmyking pulularam nas redes sociais nestes últimos dias.

Sem dúvida, a república é um regime de governo mais moderno que a monarquia, tanto que a maior parte dos países do mundo foi monárquica até o século XIX e, desde então adotou o sistema republicano.

No entanto, gostaria de fazer algumas considerações sobre essa possível opção entre monarquia e república que a eventual impopularidade do novo soberano britânico pode quem sabe levar seus súditos a ter de fazer dentro de algum tempo.

Antes de mais nada, quero esclarecer que não sou monarquista e, apesar do clima romântico que a monarquia brasileira inspirou e que até hoje rende telenovelas de época de grande sucesso, penso que o Brasil teria se desenvolvido mais se tivesse sido uma república desde a Independência. Mas há alguns fatos a serem analisados e ponderados.

Em primeiro lugar, alguns dos países mais desenvolvidos do mundo, como Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Japão, são monarquias, e não parece que os povos dessas nações estejam descontentes com seus soberanos. Nesses países, o índice de defensores da república é baixo, talvez porque o custo financeiro desses regimes seja menor que o da coroa britânica. De fato, a principal reclamação dos súditos de Charles III diz respeito ao fausto em que vive a família real sustentado pelo dinheiro dos contribuintes – embora há já algum tempo a realeza pague impostos. De todo modo, essas monarquias que citei estão entre os países mais ricos do mundo, perfeitamente capazes de custear esse regime sem prejuízo da qualidade dos serviços públicos. O fato é que, enquanto a pequena parcela mais rica e desenvolvida da humanidade é governada por reis, a imensa maioria dos países mais pobres do mundo é de repúblicas, muitas delas comandadas por ditadores.

Outro fato que talvez explique a antipatia de parcela do povo britânico pela sua monarquia são os escândalos em que volta e meia a família real se envolve. Mas escândalos não são exclusividade da realeza, é bom lembrar. Aliás, o Brasil republicano é pródigo neles.

Por outro lado, a monarquia britânica, com seus rituais de troca da guarda, passeios do monarca em carruagem dourada pela cidade, aparições públicas do soberano na sacada do Palácio de Buckingham, além da existência de palácios e castelos, soldados com fardas belíssimas, títulos de nobreza, etc., tudo isso atrai turistas do mundo inteiro e, por conseguinte, gera renda ao país. É bem verdade que parte dessa renda vai para a própria família real, que licencia produtos – canecas, chaveirinhos, camisetas e outros souvenirs – com a imagem da rainha ou o brasão real, mas, em vez de acabar com a monarquia, bastaria transferir para o estado essa arrecadação. Para se ter uma ideia, a realeza britânica é uma das marcas de maior valor agregado que existem. Se fosse uma empresa, seria uma das mais caras do mundo.

Outro aspecto a ser considerado e que explica a grande atração e fascínio que esse regime exerce é o próprio imaginário popular, muito ligado a reis, rainhas, príncipes e princesas. Aqui no Ocidente, fomos governados por monarcas por pelo menos 2 mil anos, desde o Império Romano, passando pelos reinos europeus medievais, com suas histórias de cavalaria, depois pelas monarquias absolutistas da Idade Moderna, representadas nos romances de capa-e-espada como Os Três Mosqueteiros, até chegarmos às monarquias nórdicas da atualidade. Esse sistema de governo e todo o estilo de vida a ele ligado ainda está tão impregnado em nós que até hoje ninguém chama a um filho pequeno de “meu presidentinho” ou “minha primeira-daminha”: ainda são os príncipes e princesas que nos fascinam e é como eles que as crianças gostam de se fantasiar nas festas infantis. E ainda são contos de fada com príncipes e princesas que contamos aos nossos filhos.

Há ainda a questão da estabilidade política que o regime monárquico proporciona. Em países governados por soberanos, é raro vermos crises institucionais, ameaças de golpe ou coisa parecida. É claro que há reinos e reinos. Uma coisa é a Grã-Bretanha, cujos 70 anos de reinado de uma rainha Elizabeth carismática e popular garantiram essa estabilidade, muito embora a última revolução ocorrida na Inglaterra tenha se dado no século XVII. Outra coisa são reinos como a Tunísia, a Arábia Saudita e a Tailândia. Mas o que pesa aí não é o regime em si, é o nível de desenvolvimento do país. Em outras palavras, nações subdesenvolvidas estão sujeitas a conviver com a instabilidade política qualquer que seja o sistema de governo. Ademais, o risco de corrupção num reinado é menor do que numa república: reis já são ricos e desfrutam dessa riqueza de forma vitalícia, portanto não precisam desviar dinheiro público.

Por sinal, a monarquia britânica tem sido até hoje a responsável por manter o Reino Unido unido, isto é, por impedir a desagregação do estado em face de separatismos como o escocês, por exemplo.

De todo modo, a troca constante de governantes, própria do regime republicano, gera sempre mais instabilidade, especialmente em países como o Brasil, em que é costume cada novo mandatário desfazer todas as realizações de seu antecessor, não necessariamente porque não fossem boas, mas por puro revanchismo político.

Em estados como o Reino Unido, cujo sistema de governo é parlamentarista, o papel do rei é puramente simbólico, assim como também o seria o de um presidente da república. Basta ver que em repúblicas parlamentaristas como Portugal, Itália e Alemanha o presidente pouco apita. Nesse caso, que diferença faria trocar o rei por um presidente? Aliás, grande parte da culpa que se atribui aos monarcas ingleses pelos desmandos do Império Britânico – exploração colonialista, escravidão, roubo de relíquias históricas das colônias – cabe na verdade aos primeiros-ministros do Império, os reais governantes a perpetrar essas barbaridades. Por sinal, a França, republicana desde 1870, cometeu os mesmos abusos em suas colônias.

Por fim, vale lembrar que, se a grande queixa dos republicanos britânicos é o alto custo da monarquia, repúblicas também custam caro. Basta ver os gastos do governo norte-americano com seu presidente em termos de segurança, mas também de cerimonial. Aliás, o estado republicano brasileiro é um dos mais caros do mundo – haja vista o quanto pagamos de impostos – a despeito da pobreza da maior parte de nossa população e dos péssimos serviços públicos oferecidos em troca. Fica aí uma questão para se pensar.