Pessoas transgêneras?!

Volta e meia a novilíngua politicamente correta resolve mudar o significante de certas palavras sem alterar o significado e, o que é pior, sem modificar a realidade que ela representa. A mais nova vítima dessa camuflagem do sentido pela manipulação da forma parece ter sido a palavra “transexual”, que agora atende pelo nome de “transgênero”. Já falei em outra postagem sobre a (não) diferença entre sexo e gênero. Seguindo a mesma linha de raciocínio, houve-se por bem substituir o termo “transexual” por “transgênero” quando adjetivo (não faz sentido dizer que na minha sala de aula há três transgêneros e sim que há três alunos/alunas/alunes/alunxs transgênero).

Ocorre que “transexual” admite flexão de número (plural “transexuais”), ao passo que “transgênero” é palavra invariável em gênero e número. Ou era até certos estagiários de jornalismo, que hoje fazem as vezes de redatores, decidirem flexioná-la. E eis que lemos coisas como “mulher transgênera”, “pessoas transgêneras”, etc. Transgêneras?! Será possível isso? Bem, a linguagem politicamente correta e os estagiários de jornalismo podem tudo, certo?

Mas o fato é que, sendo resultante da mera aposição de um prefixo trans- ao substantivo gênero, “transgênero” é impossível de flexionar. Assim como temos “aulas-piloto” e não “aulas-pilotas”, bem como “casamentos intra-raça” e não “intra-raços” (intrarraciais ainda é a melhor solução), não faz nenhum sentido do ponto de vista gramatical flexionar “transgênero/transgênera/transgêneros/transgêneras”.

Uma solução bem menos traumática para a língua seria a adoção dos adjetivos “transgenérico” ou “transgênere”. Observem que o uso de “genérico” como adjetivo referente a gênero é corrente em zoologia e botânica, assim como se usa “específico” em relação a espécie biológica. Ou seja, genérico não é só aquilo que é geral, que não tem especificidade, mas também um termo técnico usado na biologia. E o gênero masculino, feminino ou outro não deixa de ser um traço biológico, embora muitos sustentem que também tem muito de psicológico (de toda maneira, continuamos no campo das ciências naturais).

Mas a minha preferência é mesmo por “transgênere”, cuja terminação em “e”, tomada do latim e ocorrente em palavras como “congênere” (que é do mesmo gênero), “imberbe” (que não tem barba), “insone” (que não tem sono) e muitas outras, também tem o charme politicamente correto de ser comum de dois gêneros (gramaticais), portanto um prato cheio para quem adora linguagem neutra de gênero (sexual).

Nestes nossos tempos de menines, amigues, namorades e outres, “transgênere” já vem terminada em “e” sem ferir a morfologia de herança latina da língua portuguesa. Gostaram da sugestão?

Questão de gênero

Atualmente, usam-se cada vez mais expressões como “questão de gênero” quando se debatem problemas relativos à discriminação e aos direitos das mulheres, dos homossexuais e dos transexuais (já correntemente chamados de “transgêneros”). Já que não se trata de questão linguística, mas de diferença e discriminação entre os seres humanos quanto a seu sexo, é apropriado o uso da palavra “gênero” nesse caso?

Nota-se, de algum tempo para cá, a tendência a empregar a palavra “gênero”, antes reservada ao discurso da gramática, no sentido de “sexo” (masculino ou feminino). Existe uma óbvia diferença entre o gênero gramatical e o sexo biológico. Afinal, alguns idiomas atribuem gênero masculino ou feminino a substantivos inanimados ou assexuados, enquanto outros atribuem gênero neutro a esses substantivos ou então prescindem completamente da noção de gênero. Mesmo em línguas que fazem essa distinção, o gênero gramatical não necessariamente coincide com o sexo biológico: em alemão, por exemplo, Mädchen (“menina”) é do gênero neutro.

De onde veio, então, essa tendência a usar “gênero” em lugar de “sexo”? Vários fatores concorreram para isso.

Em primeiro lugar, a ambiguidade da palavra “sexo”, que tanto pode se referir à distinção masculino/feminino quanto ao ato sexual. (Há até algumas anedotas brincando com essa ambiguidade, como a do sujeito que, ao preencher um formulário, respondeu: nome – José da Silva; idade – 38 anos; sexo – 7 vezes por semana.)

Em segundo lugar, há uma pitada de “politicamente correto” nessa história, já que “gênero” seria, supostamente, uma palavra mais “neutra”, sem conotações sexistas.

Em terceiro lugar, temos a influência do jargão acadêmico, já que esse emprego surge primeiramente em textos de sociologia e antropologia, sobretudo em inglês. Aliás, é cada vez mais comum nos países de língua inglesa o uso de gender em lugar de sex em formulários e cadastros, tanto que o biólogo britânico Richard Dawkins, o maior evolucionista da atualidade, se levanta contra esse uso no livro Desvendando o arco-íris, até porque “gênero” em biologia designa outro conceito, o de subgrupo que reúne várias espécies de uma mesma família (por exemplo, o gênero Homo, ou gênero humano).

Ou seja, se um cientista do porte de Dawkins considera equivocado esse emprego, é algo a ser seriamente considerado. Outro dado a ser levado em conta é que a maioria dos dicionários ainda não abonou o emprego de “gênero” nessa acepção, exceto no discurso das ciências sociais. Daí porque, do meu ponto de vista, a acepção de “gênero” como “sexo” ainda está restrita ao jargão sociológico. Só que é cada vez mais comum que termos técnicos escapem do universo estritamente acadêmico para invadir até os bate-papos de boteco. Foi assim que “neurose” e “esquizofrênico” deixaram há muito de ser termos exclusivos do ambiente médico.

Em resumo, quando se emprega numa conversa ou em matéria jornalística a expressão “questão de gênero”, faz-se óbvia referência ao discurso sociológico. Não dá para dizer que esse uso está errado; no entanto, em hipótese alguma se pode afirmar que o emprego de “questão de sexo” esteja. Qualquer objeção nesse sentido não passa de patrulhamento ideológico.