O “index” da AGU de Lula

Na Idade Média, durante o período da Inquisição, a Igreja Católica publicou o Index Librorum Prohibitorum, ou Índice dos Livros Proibidos, que listava as obras que os cristãos estavam proibidos de ler porque iam contra a fé católica e os dogmas da Igreja. Desde então, a palavra index passou a designar qualquer lista negra de publicações, palavras ou expressões a serem banidas pelas mais diversas razões.

Pois eis que agora a Advocacia-Geral da União (AGU), sob o comando do (talvez) futuro ministro do STF Jorge Messias (ou seria Bessias?), lançou o index das palavras e expressões que servidores do órgão estão proibidos de usar em suas comunicações oficiais por serem supostamente racistas, cabendo advertência, obrigatoriedade de aulas de “letramento racial” e, em último caso, processo judicial.

A lista inclui itens como mulato, denegrir, escravo, lista negra (que eu usei sem culpa mais acima) e até não sou tuas negas (fico a imaginar alguém da AGU usando essa expressão num ofício, despacho ou parecer). Seguem mais algumas:

  • a coisa tá preta (também é pouco provável que alguém use isso num documento oficial);
  • humor negro, a ser substituído por humor ácido ou macabro;
  • magia negra (as bruxas europeias da Idade Média sem dúvida eram racistas!);
  • mercado negro (os comerciantes venezianos do século XIII também eram racistas).

Portanto, se trabalho na AGU, não posso me referir aos escravos da Grécia ou Roma antigas ou aos escravos judeus no Egito, tantas vezes mencionados na Bíblia que o tal Messias, terrivelmente evangélico que é, tanto lê, senão como escravizados. Ou talvez melhor até como escravizados, escravizadas e escravizades.

Tampouco posso usar o termo mulato, que nada tem a ver com mula, já que vem do árabe muwallad, filho de branco e mouro. Nem denegrir, do latim denigrare, palavra já existente antes do contato dos romanos com os africanos. Nem criado-mudo, nem meia tigela, nem ovelha negra (como se sabe, as ovelhas são brancas, portanto quem criou essa expressão, em tempos imemoriais, para referir-se a um ponto totalmente fora da curva escolheu a cor preta não por razões raciais, mas porque é o antônimo de branco, a cor mais distante daquela no espectro luminoso; o efeito não seria o mesmo se a ovelha em questão fosse azul, rosa, verde…).

Além disso, substituir, por exemplo, lista negra por lista proibida, lista suja, etc., como sugere a normativa da AGU, inventa expressões que não existem nem em nossa língua nem em outras, em que termos como o inglês black list e dumb servant já estão consagrados há séculos, muito antes do advento da escravidão africana e do colonialismo.

Pois bem, se essas palavras e expressões (com exceção de não sou tuas negas, que, como disse, é improbabilíssima em documentos oficiais) nada têm de racistas, como o comprova a etimologia séria e científica, não a pseudoetimologia dos movimentos sociais identitaristas, qualquer sanção ao servidor que as usar será injusta e passível de questionamento judicial. E mais, se o infeliz servidor for, ele, alvo de processo jurídico, poderá convocar etimólogos sérios e de respeito como testemunhas de defesa. Eu mesmo me disponho a testemunhar em favor desses réus se for preciso. Como diz um princípio basilar do Direito, infelizmente nem sempre seguido pelo Judiciário brasileiro, “contra provas não há argumentos”. E a boa etimologia tem fartas provas de que essas listas negras — digo, afrodescendentes — de palavras e expressões “canceladas” não passam de panfletagem woke sem nenhuma base factual.

Verdades inconvenientes

Existem certas verdades que todos — ou quase todos — conhecemos e sabemos que são de fato verdades, mas que, no entanto, não podemos afirmar publicamente sob pena de censura, cancelamento ou mesmo punição legal. Comentamos essas verdades entre amigos, familiares, colegas de trabalho (dependendo de onde trabalhamos, é claro!), mas jamais podemos expô-las num veículo ou evento públicos, como um blog, site, entrevista, palestra ou reunião. Sobretudo de algumas décadas para cá, criou-se no mundo ocidental uma espécie de verdades oficiais incontestáveis que todos os órgãos de imprensa reproduzem e os políticos das mais diversas colorações ideológicas defendem — uns por acreditar (ou fingir acreditar) realmente nessas “verdades”, outros por medo de contrariá-las e assim perder votos ou prestígio. Há verdades que não podem ser ditas — a menos que se aceite pagar o alto preço da desonra e do linchamento moral.

Muitas vezes, especialmente na esfera das políticas públicas, insiste-se num falso diagnóstico de certos problemas, que leva inevitavelmente à proposição de falsas soluções, porque a verdadeira causa do problema não pode ser apontada abertamente já que ela pode não ser politicamente correta. Como resultado, as soluções apresentadas jamais resolvem o problema, e aí culpa-se aquilo ou aqueles que não são os verdadeiros responsáveis, ou o são apenas em parte. Mexe-se no que pode ser mexido, mas há sempre algo “imexível”, algo que, por ser uma verdade sagrada, um dogma inquestionável, não pode ser tocado, pois, por definição, não é ali que está o problema — embora esteja.

Circulam entre nós certas verdades inconvenientes, que todos nós sabemos que são verdades, alguns de nós fingem que são mentiras, mas ninguém ousa sustentar publicamente. A situação assemelha-se muito ao clima daquelas ditaduras em que todos os cidadãos sabem que vivem sob o jugo de um tirano cruel e sanguinário, mas, temendo pela própria vida, o saúdam como o mais justo e generoso dos líderes. Há uma anedota dos tempos da China comunista de Mao Tsé-Tung (mas parece que a situação lá não é muito diferente hoje em dia) em que um cidadão ocidental pergunta a um chinês: “Como vai a situação política aí na China?” Ao que o chinês responde: “Não posso me queixar.”

“África” é um nome racista?

Tenho sempre dito que o negacionismo, fundamentado em notícias falsas, por vezes fabricadas propositalmente, não é exclusividade da direita: a esquerda, especialmente a identitarista (faço questão de distinguir entre identitarista e identitário: o segundo luta por causas justas, o primeiro faz delas instrumento de luta pelo poder), é tão negacionista quanto, apenas produz desinformação sobre outras questões.

Leio no portal de notícias G1 a matéria Filósofos africanos consideram que a palavra ‘África’ é uma injúria racial, e que continente deveria ser renomeado (disponível em https://g1.globo.com/educacao/noticia/2024/09/13/filosofos-africanos-consideram-que-a-palavra-africa-e-uma-injuria-racial-e-que-continente-deveria-ser-renomeado.ghtml), em que o professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Pretória, África do Sul, Jonathan Okeke Chimakonam é entrevistado. A matéria se inicia com as seguintes perguntas: “Os africanos devem ser chamados de negros ou a categorização das pessoas pela cor da pele é uma prática racista? E quanto à África? O nome do continente é uma injúria racial porque foi escolhido pelos exploradores europeus e baseado no clima, e não nas pessoas, e deveria ser renomeado?”

A partir dessas perguntas, o entrevistado, de quem se deduz que, sendo professor de uma das mais importantes universidades africanas, deveria ter um conhecimento razoável de história, geografia e mesmo de etimologia, não hesita em desfiar um rosário de informações mentirosas a fim de sustentar sua tese wokista de que tudo o que os indivíduos brancos fazem ou fizeram tem sempre uma intenção racista (mesmo que os negros façam o mesmo em relação aos brancos, mesmo que qualquer etnia faça o mesmo em relação a qualquer outra etnia).

Diz Chimakonam:

O nome África foi dado ao continente pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus que chegaram como comerciantes e exploradores nos anos 1400. Acredita-se que “África” tenha sido tirado do grego aphrike, que significa sem frio; em latim, traduz-se para aprica, que significa ensolarado.

Agora vamos aos fatos. Em primeiro lugar, o nome do continente não surgiu nos anos 1400, dado “pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus”. Na verdade, o nome Africa já era correntemente usado pelos romanos para designar o norte do continente, especialmente a Líbia e o Egito, a única parte do extenso continente que eles conheciam à época. Igualmente chamavam seus habitantes de afri, donde saiu o nosso prefixoide afro (de afrodescendente, por exemplo). Segundo a Wikipédia,

Afri era um nome latino usado para se referir aos habitantes do que era então conhecido como norte da África, localizado a oeste do rio Nilo, e em seu sentido mais amplo referindo-se a todas as terras ao sul do Mediterrâneo, também conhecido como Líbia Antiga. Este nome parece ter originalmente se referido a uma tribo nativa da Líbia, um ancestral dos berberes modernos; […] O nome tinha sido geralmente ligado com a palavra fenícia ʿafar que significa “poeira”, mas uma hipótese de 1981 afirmou que deriva da palavra berbere ifri (plural ifran) que significa “caverna”, em referência aos moradores de cavernas. A mesma palavra pode ser encontrada no nome dos Banu Ifran da Argélia e Tripolitânia, uma tribo berbere originária de Yafran (também conhecida como Ifrane) no noroeste da Líbia, bem como da cidade de Ifrane no Marrocos.

Como ocorre muitas vezes nos estudos etimológicos e onomásticos (onomástica é o ramo da etimologia que estuda os nomes próprios), não há certezas absolutas quanto à origem de nomes muito antigos, mas o simples benefício da dúvida já seria suficiente para que não se lançassem acusações levianas e desprovidas de evidências contra certas palavras ou nomes. O que se sabe com certeza — e que contradiz veementemente o argumento de Chimakonam — é que o nome da África não foi dado pelos colonizadores europeus do século XV nem tem relação com o suposto grego aphriké, vocábulo que nem consta nos dicionários de grego. Em grego clássico, aphrós significa “espuma” (daí o nome da deusa Afrodite, nascida da espuma do mar), e phriké é a agitação do mar encapelado. Tampouco África tem a ver com o verbo latino aprico, “aquecer ao sol”. O ilustre professor chega até a confundir o grego phriké com o latim frigus, “frio” ao dizer que aphriké é “sem frio”. Uma verdadeira salada de pseudoetimologias!

Mas ele segue em frente em sua argumentação falaciosa:

Os antigos judeus se referiam a pessoas de outras nações e crenças como gentios, o que era uma calúnia porque os identificavam como forasteiros. Os antigos chineses se referiam aos povos da Mongólia como bárbaros, e a lista continua.

Só que gentio deriva de gente, portanto não tem nada a ver com “forasteiro”, e bárbaro é um termo de origem grega para designar os povos não gregos, logo essa palavra jamais foi empregada pelos chineses para referir-se aos mongóis. Mas, como diz o próprio Chimakonam, “a lista continua” — no caso, a lista de fake news identitaristas:

De fato, em muitos casos, os nomes são calúnias destinadas a rebaixar essas pessoas ou lugares. Por exemplo, aprendemos com os relatos de Homero, o antigo poeta grego, que, quando os gregos encontraram pela primeira vez os povos do leste da África, eles os chamaram de aethiops ou Aithiops, que significa rosto queimado pelo sol.

Voltemos à Wikipédia:

Não é muito certo quão velha é a palavra Etiópia, cujo uso mais antigo aparece na Bíblia em Gênesis, capítulo 2. E também na Ilíada, onde o nome aparece duas vezes, e na Odisseia, onde aparece três vezes. O uso mais antigo atestado na região é um nome cristianizado do Reino de Axum no século IV, em escrituras de pedra do Rei Ezana. O nome ge’ez ʾĪtyōṗṗyā e seu cognato português são considerados por alguns estudiosos serem derivados da palavra grega Αἰθιοπία, Aithiopia, de Αἰθίοψ, Aithiops ‘um etíope’, derivado, por sua vez, de palavras gregas que significam “de rosto queimado”. No entanto, O Livro de Axum, uma crônica em ge’ez compilada no século XV, alega que o nome é derivado de ’Ityopp’is — um filho (não mencionado na Bíblia) de Cuxe, filho de Cam, quem, de acordo com a lenda, fundou a cidade de Axum. Plínio, o Velho alega, igualmente, que o nome da nação deriva de alguém cujo nome foi Aethiops. Uma terceira etimologia, sugerida por pesquisadores etíopes recentes e o poeta laureado Tsegaye Gabre-Medhin, traça o nome às palavras “egípcias, velhas e negras”: Et (Verdade ou Paz), Op (Alto ou Superior) e Bia (Terra ou País), sendo Etiópia a “terra de paz superior”.

Mais uma vez, o étimo “de rosto queimado” é apenas uma hipótese, por sinal, a mais fraca em termos de evidências científicas. Mas, entre a “terra da paz superior” e a “terra dos rostos queimados”, os wokistas preferem a segunda, já que precisam de um argumento para sua autovitimização. Aliás, se a ideia é criar falsas etimologias para incriminar os brancos opressores, escravistas, racistas, misóginos, homofóbicos, fascistas, etc., então que tal relacionar África com o grego áphron, “irrefletido, inconsequente, disparatado, tolo”?

Mas o sábio filósofo africano prossegue: “o nome África é uma injúria racial. Aphrike ou aprica refere-se ao clima quente do continente, talvez em exagero, com a falsa impressão de que o continente é ‘sem frio’. Se o continente é quente e não tem frio, isso o tornaria o proverbial fogo do inferno, não é mesmo?”

Agora ele nos brinda com a informação de que a referência ao alegado clima quente da África é uma injúria racial (por essa lógica, o nome da Islândia, que significa “terra do gelo”, também seria uma ofensa aos islandeses, não?) e conclui por meio de um raciocínio altamente tortuoso que, se a África é quente (do ponto de vista dos europeus, obviamente), então ela tem a ver com fogo, e fogo tem a ver com inferno, logo, por uma série questionável de silogismos, a África é o próprio Inferno da tradição judaico-cristã, certo? Viram como é fácil misturar sofismas lógicos com pseudoetimologias para criar bandeiras de luta identitarista e bombar nas redes sociais?

Mas a cereja do bolo vem agora:

Alguém se pergunta por que os defensores do racismo científico em algumas universidades europeias nos anos 1700 e 1800 […] decidiram classificar os povos indígenas africanos com a cor preta, os índios americanos com o vermelho, alguns povos asiáticos com o marrom, outros com o amarelo e os europeus com o branco? […] esses sãovários níveis de degeneração, com exceção da cor branca, que é intocada, pura e imaculada. Em nossa opinião, identificar um ser humano com qualquer cor é racismo. Identificar-se como branco é desconsiderar os outros como não brancos, o que é racismo indireto, e chamar alguém de qualquer outra cor — como negro — é uma subordinação racial direta.
A essência do projeto de categorização de cores da humanidade era estabelecer a hierarquia racial como parte de uma tentativa de defender o racismo científico e justificar a escravidão, a opressão colonial e a exploração.

Portanto, segundo Chimakonam, chamar os negros de negros (embora seja essa a cor de sua pele) é racismo, mas chamarem-se os próprios brancos de brancos (embora essa também seja a cor da sua pele) não é porque, na visão do filósofo, a cor branca é diferente das demais (talvez ela tenha alguma propriedade óptica que as demais cores do espectro não têm, alguma propriedade oculta que os físicos ainda não descobriram). Mas será que denominar os negros como afrodescendentes, os asiáticos como orientais, os índios como povos originários ou os brancos como caucasianos muda alguma coisa em relação ao racismo? O que motiva o ódio entre etnias é uma simples questão estética como a cor da pele? Ou será que o preconceito e a discriminação nascem do choque entre culturas, em que grupos sociais com hábitos muito diferentes, por vezes inconciliáveis, são forçados a habitar o mesmo espaço?

Pois o pensador sul-africano propõe alterar o nome do continente africano para Anaésia, termo derivado de duas palavras do idioma igbo, ana e esi, que significam “terra ou local de origem”: o continente onde se originou a espécie humana e onde a primeira língua humana foi falada. Nome bonito de significado idem. Mas até que ponto — e a que custo — se deve mudar um nome com milênios de tradição apenas porque um acadêmico sul-africano que pouco ou nada entende de etimologia ou história acha que o nome atual é ofensivo? Se for assim, proponho mudar o nome da América, que faz alusão a um branco europeu racista, opressor, colonialista, escravagista, capitalista selvagem — e por que não machista, homo e transfóbico? — chamado Américo Vespúcio. Gostaram da ideia?

A incoerência do discurso identitário

Quando eu era criança, lembro bem que a boa educação recomendava que não nos referíssemos a pessoas negras — ou melhor, afrodescendentes — com os termos negro ou preto. Em vez disso, devíamos usar eufemismos como moreno ou de cor. Por sinal, a expressão pessoa de cor foi importada dos Estados Unidos, onde black person era substituído por colored person.

Na onda da linguagem politicamente correta, outra invenção americana — ou melhor, estadunidense —, passamos a chamar favela de comunidade, gordo de pessoa com obesidade, cego de deficiente visual e depois de não vidente, surdo de deficiente auditivo e agora não ouvinte, paralítico de paraplégico e depois de cadeirante, aleijado de deficiente físico, posteriormente portador de deficiência e agora pessoa com deficiência, abreviado para PCD (parece que até os defensores do politicamente correto ficam cansados ao pronunciar as expressões que eles mesmos criam) e homossexuais de gays e lésbicas, então de GLS, depois LGBT, depois LGBT+, e então LGBTQIA+, LGBTQIAP+ e atualmente LGBTQIAPN+. (Eu me pergunto: se a cada hora acrescentam mais uma letra a essa sigla, para que serve o sinal de mais? E se siglas são feitas para simplificar, por que complicar essa sigla?)

No entanto, na contramão de todos esses eufemismos, supostamente criados para não ofender as minorias que eles representam, os afrodescendentes passaram a rejeitar os termos moreno e de cor por achá-los discriminatórios e, sobretudo, porque alegam sentir orgulho de sua raça — ou melhor, etnia, já que não existem raças — e, assim, querem agora ser chamados de negros ou mesmo de pretos.

No tempo em que, por empatia e não por desprezo, chamávamos os pretos e os pardos escuros de morenos, escurinhos ou pessoas de cor, os termos preto e negro referindo-se à cor da pele eram altamente ofensivos, um tabu semelhante às palavras câncer e morrer, trocadas respectivamente por aquela doença ruim e fazer a passagem. Agora, ser chamado de preto ou negro é motivo de orgulho e revela o empoderamento das pessoas dessa raça — ou melhor, desse genótipo —; agora, moreno, escurinho e de cor é que são ofensivos! Aliás, o paroxismo do politicamente correto é as pessoas “de cor” terem lutado para ser chamadas de negras e, de repente, a própria palavra negro se tornar politicamente incorreta, sendo preferido em seu lugar o vocábulo preto. (Veja a esse respeito o comentário nada a ver do ator Babu Santana constante no meu vídeo O que é ser preto, negro, pardo ou afrodescendente no Brasil?.)

Outro exemplo de incoerência dos ideólogos dessas pautas identitárias é a denominação presidenta aplicada a Dilma Rousseff com o objetivo de demonstrar o empoderamento feminino ao termos pela primeira vez uma mulher no cargo de primeiro mandatário da nação ao mesmo tempo em que se rejeita a designação poetisa para a mulher que faz poesia, que já há algum tempo é chamada também de poeta. Aliás, nos Estados Unidos (sempre lá), há um movimento crescente de substituição da palavra actress, “atriz”, por actor, “ator”, que agora passou a ser substantivo comum de dois gêneros. O mesmo politicamente correto que exige ressaltar a condição feminina em certos casos tenta neutralizá-la em outros? Será que existe algum critério lógico por trás dessas escolhas? Ou será apenas burrice? Parece que, no afã de criar novas denominações para fatos sociais que já têm denominações próprias (e que, diga-se de passagem, raramente são usadas de maneira pejorativa), bem como de eleger inimigos contra os quais dirigir sua revolta, os militantes do identitarismo metem os pés pelas mãos, instituem regras contraditórias e ilógicas, lançam fake news etimológicas para embasar seus ataques e criticam a onda de desinformação semeada pela extrema-direita como se eles próprios não fizessem o mesmo. É a chamada guerra de narrativas. E o pior é que quem está alheio a essa guerra — no caso, a maioria dos falantes — acaba sem saber que palavra ou expressão é melhor usar. Do jeito que a coisa vai, sorte tem quem é mudo.

Index Verborum Prohibitorum Parte 2 — A Missão

DISCLAIMER: Este texto contém ironia.

Eu não disse que voltava? Pois é, voltei! Dando prosseguimento à minha lista de palavras e expressões que devem ser banidas da língua portuguesa ou reformuladas por serem politicamente incorretas e ofensivas a grupos sociais minoritários, trago hoje as seguintes:

• “ameríndios”: se não há índios e sim indígenas ou povos originários, por coerência os ameríndios terão de ser agora chamados de “amerindígenas” ou “ameroriginários”;
• “bolo nega maluca” e “Samba do Crioulo Doido”: diante do desrespeito tanto a uma etnia quanto a uma condição de saúde, o confeito deve passar agora a ser denominado “bolo mulher afrodescendente com distúrbios cognitivos” e o famoso samba composto pelo cronista e humorista Estanislau Ponte Preta deve ser rebatizado para “Samba do Afrodescendente com Problemas Psiquiátricos”;
• “rainha da cocada preta”: com base nos exemplos anteriores, deixo aos leitores a tarefa de deduzir a nova versão dessa expressão racista;
• “pneu careca”: em respeito aos calvos, será chamado de “pneu com deficiência capilar”;
• “olho gordo”: para evitar gordofobia, o chamado mau-olhado passaria agora a ser conhecido como “olho portador de obesidade” (ou “de sobrepeso”, se preferirem).
• “Terça-Feira Gorda”: pelo mesmo motivo da expressão anterior, passa a ser agora “Terça-Feira Plus Size”;
• “Branca de Neve e os Sete Anões”: já que anão passou a ser termo depreciativo, teremos “Branca de Neve e as Sete Pessoas com Nanismo”;
• “matar as bichas”: além de homofóbica, essa expressão incita à violência contra os homossexuais; portanto, não pode sequer ser substituída, deve ser banida mesmo;
• “gesto nobre”: será que só os portadores de título de nobreza é que têm bom coração? Isso é uma discriminação contra quem não tem sangue azul. Portanto, a expressão agora será “gesto plebeu”.

Também alguns nomes próprios terão de ser alterados, em alguns casos até em respeito póstumo aos seus portadores. É o caso do escultor mineiro Aleijadinho, que a partir de agora figurará nos livros de história como Pessoinha com Deficiência ou então Portadorzinho de Necessidades Especiais. Do mesmo modo, o Negrinho do Pastoreio passará obviamente a ser o Afrodescendentezinho do Pastoreio. Igualmente, o Rio Negro, no estado do Amazonas, será agora o Rio Afrodescendente (essa mudança incluiria o nome artístico daquele famoso cantor sertanejo que faz dupla com o Solimões). O Rio das Velhas, em Minas Gerais, se tornará o Rio das Senhoras Idosas ou então o Rio das Senhoras da Terceira Idade. Já a cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas, terá seu nome mudado para Palmeira dos Povos Originários. Finalmente, o Morro dos Macacos, no Rio de Janeiro, terá de receber outra denominação para que não pensem que o nome é uma alusão racista aos moradores do referido morro.

Aproveitando a oportunidade, também sugiro as seguintes alterações em expressões correntemente usadas no dia a dia, as quais ninguém até agora percebeu que são sexistas:

• “o pai ou responsável pela criança” → “o pai, a mãe (ou “e pãe”, no caso de pessoa não binária) ou responsável pela criança”;
• “o dinheiro do contribuinte” → “o dinheiro do contribuinte e da contribuinta”;
• “Dia dos Namorados” → “Dia dos Namorados, Namoradas e Namorades”;
• “título de eleitor” → “título de eleitor, eleitora e eleitore”.

Só assim teremos um Brasil mais justo e inclusivo.

Novas palavras a ser proibidas por serem politicamente incorretas

DISCLAIMER AOS DESAVISADOS: Este texto tem fortes doses de ironia.

Como vocês sabem, a língua portuguesa, como de resto todas as línguas, é machista, racista, classista, homofóbica, transfóbica, aporofóbica, etc. etc. Portanto, precisamos urgentemente banir do nosso vernáculo todas as palavras e expressões que firam a suscetibilidade e os direitos das minorias. Aqui vai minha humilde contribuição a essa justa causa, apontando algumas palavras que até agora passaram despercebidas, mas que contêm uma grande carga de preconceito e desrespeito.

Comecemos pela palavra virtude. Sim, amigos, amigas e amigues, essa palavrinha aparentemente tão inocente e mesmo nobre veio do latim virtus, derivada de vir, “homem, ser humano do sexo masculino”, logo significa “qualidade de quem é homem, aquela que só o homem tem”. Como podem ver, é uma palavra pra lá de machista, visto que considera que só os machos da espécie têm a qualidade da virtude. Pelos mesmos motivos, devemos banir também viril, virilidade, varonil e másculo, pois todos esses termos remetem ao sexo masculino de forma positiva e elogiosa, desmerecendo as mulheres. Aliás, também é urgente proscrevermos hombridade (do espanhol hombre, “homem”) e homenagem (alguém até já propôs mulheragem em seu lugar, mas eu fico me perguntando se aí também não teríamos sexismo, só que em sentido oposto).

E por falar em mulheres, a própria palavra mulher é discriminatória, pois provém do latim mulier, “mulher casada, esposa”, como se só as casadas fossem mulheres de verdade. E o que dizer de senhor então? Essa palavra nos chegou do latim senior, que quer dizer “mais velho”, logo é um termo altamente ageísta. E jamais devemos dizer que um erro é crasso, pois crassus em latim é “gordo”, e nós evidentemente não somos gordofóbicos, né?

Por fim, jamais use a palavra atroz, que vem de ater, “negro” em latim, pois você estará associando a ideia nefasta de atrocidade às pessoas afrodescendentes. E tampouco use a palavra alvo no sentido de meta a ser atingida, já que esse vocábulo significa “branco”, e assim você estará elevando a raça branca ao status de superioridade, perfeição, de objetivo a que todos devem aspirar.

Bem, acho que por hoje já dei minha contribuição para tornar nosso idioma mais inclusivo e menos discriminatório. Em todo caso, se encontrar mais termos preconceituosos, darei prosseguimento ao meu index verborum prohibitorum, ok?

Tá doido, rapaz? Ou melhor, tá inclusão?

Outro dia, publiquei neste espaço um artigo em que teci uma certa crítica à chamada linguagem politicamente correta e à militância que, em nome do justo combate a preconceitos e desrespeito a direitos humanos, sentencia de morte certas palavras, atribuindo-lhes uma carga depreciativa que elas efetivamente não têm, como, por exemplo, afirmar (erroneamente) que denegrir faça alguma alusão à raça negra.

Como era de se esperar, minha crítica, embora fundamentada, gerou algum incômodo em espíritos mais sensíveis a essas causas, na maioria das vezes pessoas bem-intencionadas mas mal-informadas. Um leitor me questionou:

Não entendi se o senhor aceita a mudança da troca das palavras?

E se trocar mudaria para você o que?

E se estudamos a língua com afinco em saber a suas origens, e entendimento ao longo de nossa existência, ela não vale ser revista? Ou que momento isso pode acontecer? Ou não pode?

Sobre o apontamento a pessoas portadoras de deficiências, é algo que está em constante mudança par atingir mais pessoas sem distingui-las como “defeito de fábrica”, já que a sociedade cria um modelo de ser “humano” a ser normatizado e qualquer outro ser humano fora desse padrão é estigmatizado com termos que são excludentes. A empatia no uso dos termos tenta amenizar as diferenças que são consideradas pejorativas por outros (nas mesma definições). […]

Respondi-lhe que, como linguista, sei mais do que ninguém que a língua evolui e, portanto, o léxico muda com o tempo. No entanto, existe uma diferença entre a mudança espontânea feita pelo consenso dos falantes e uma tentativa de mudança imposta por certos grupos de poder. Por exemplo, quem decidiu trocar negro por afrodescendente não foram os falantes do português em geral, nem mesmo os próprios negros; foram sociólogos e antropólogos de universidades públicas na esteira do inglês African American, que tampouco foi criado pelos falantes da língua inglesa, mas por cientistas sociais e intelectuais americanos. O resultado mais concreto dessas tentativas de imposição daquilo que chamei de “novilíngua politicamente correta” é que termos como afrodescendente ou pessoa portadora de necessidades especiais não têm adesão popular; são usados exclusivamente pela imprensa e por ativistas. Os próprios negros em geral se chamam de negros e não de afrodescendentes. Aliás, tenho vários amigos negros e já os vi chamando-se uns aos outros de “negão” ou “crioulo” de forma carinhosa.

Portanto, o que eu critico não é a mudança da língua em si, fato inevitável e que constitui a própria essência da linguagem humana (talvez até de tudo que é humano); minha crítica é à tentativa artificial de imposição de novos termos, bem como a proibição de outros, sem um critério objetivo e por razões meramente ideológicas por parte de grupos políticos que, por vezes, se sentem donos da verdade. Aliás, o fanatismo e o extremismo, sejam eles religiosos, políticos ou até mesmo futebolísticos, surgem quando indivíduos, imbuídos da convicção de que a causa pela qual militam é justa, se sentem no direito (ou, mais do que isso, no dever) de impor sua visão de mundo a toda a sociedade. A Inquisição católica medieval, o nazismo e o comunismo, com suas consequentes atrocidades, nasceram de crenças assim, de que almas precisavam ser salvas, de que o mundo sem judeus ou sem capitalistas seria um mundo melhor.

Em nome do combate ao preconceito e à exclusão social, já tentaram até censurar os dicionários com o objetivo de banir certas acepções consideradas demeritórias a certos grupos. Ora, o dicionário é um espelho da língua: se certos sentidos existem nele é porque existem na língua. Aqui vale o velho adágio: “Não culpes o espelho se tua cara é torta”. Acima de tudo, minha crítica se dirige à hipocrisia de setores políticos que acham que, mudando a linguagem, mudam a realidade. Nesse aspecto, prefiro, por exemplo, continuar chamando os índios de índios, mas vê-los ser tratados com a dignidade que merecem (o que, diga-se de passagem, nunca o foram, e menos ainda neste atual governo) a chamá-los de indígenas ou povos originários e continuar tratando-os com o mesmo descaso histórico como os tratamos atualmente.

Pois bem, um dos efeitos mais deletérios da chamada linguagem politicamente correta (ou linguagem PC, para os íntimos) é o mascaramento da realidade, como se dar nomes bonitos e pomposos a coisas feias as tornasse menos feias. Ou seja, o PC não deixa de ser uma forma dissimulada de manipulação por meio das palavras, e as pessoas comuns, especialmente aquelas que não se deixam influenciar por ideologias (políticas, publicitárias, religiosas, etc.) percebem isso. O cidadão idoso que sempre chamou os afrodescendentes de pretos sem nenhuma conotação pejorativa tem razão de sentir-se perplexo quando agora é advertido de que sua maneira de expressar-se é inadequada, politicamente incorreta ou, o que é pior, racista.

Uma das reações ao patrulhamento ideológico que tenta impor essa novilíngua é a zombaria: expressões PC acabam ganhando sentido bem-humorado (por exemplo, diante de uma tempestade iminente, dizer que o céu está cheio de nuvens afrodescendentes). Expressões politicamente corretas logo produzem versões humorísticas ou paródias, como chamar o careca de “portador de deficiência capilar” ou o baixinho de “pessoa verticalmente deficiente”.

O mais novo rebento desse humor politicamente incorreto (aliás, humor politicamente correto não tem graça nenhuma) decorre da atual – e, a meu ver, acertada – política educacional de incluir nas salas de aula regulares alunos com deficiência cognitiva ou intelectual (outrora deficiência mental), como autistas, portadores da síndrome de Down e outros.

Como se trata de uma política de inclusão social (e a própria legislação educacional assim a denomina), eis que surge a gíria maliciosa entre os profissionais da educação pública: qualquer pessoa que pareça lelé da cuca agora é “inclusão”. A Maria pôs a marmita no micro-ondas e se esqueceu de ligá-lo? Tá na cara que ela é inclusão! O Antônio considera Bolsonaro um defensor da democracia? Só pode estar inclusão! João acredita na honestidade dos políticos do Centrão? Xi, inclusão sem sombra de dúvida!

Como o humor é sempre mais inteligente que o patrulhamento das consciências (o semanário francês Charlie Hebdo que o diga!), não importa quantos termos estrambóticos e rebuscados a linguagem PC invente, o povo vai sempre achar um uso bem-humorado para eles. Mesmo que criado com boas intenções, o PC logo se torna ridículo, e as pessoas cuja fala espontânea não tem maldade nem preconceito utilizam da comicidade como instrumento de defesa contra a “assepsia da linguagem” promovida por esse nosso admirável mundo novo.

Índio ou indígena?

O presidente Jair Bolsonaro recentemente vetou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que propunha alterar o nome do Dia do Índio para Dia dos Povos Indígenas. Essa atitude reacendeu uma polêmica que já dura algum tempo e que põe em xeque a palavra índio como designativa dos povos de origem asiática que já habitavam as Américas antes da chegada dos europeus, bem como de seus atuais descendentes. Nesse embalo, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz chegou a postar um vídeo no YouTube de reprimenda ao presidente com o título É indígena, sr. Presidente!.

Como todos devem saber, a palavra índio tem a ver com a Índia, e a primeira das acepções desse vocábulo nos dicionários é justamente “o mesmo que indiano” (em espanhol, até hoje, os indianos, habitantes da Índia, são chamados de indios, e em inglês Indian significa indistintamente “indiano” e “índio”). É que, segundo consta, ao chegar ao continente americano, Cristóvão Colombo acreditava ter chegado às Índias. E naquele tempo, Índias era a designação que os europeus davam não só à Índia propriamente dita, mas a todo o sudeste asiático, daí o termo no plural.

Desse modo, Colombo chamou os aborígines americanos de índios, e esse nome ficou consagrado por séculos. Como esses aborígines tinham características físicas peculiares (pele moreno-avermelhada, cabelos pretos e lisos, olhos negros ligeiramente amendoados, nariz discretamente achatado), os antropólogos do século XIX decidiram chamar de índia essa suposta raça humana por oposição aos brancos, negros e amarelos (na verdade, os orientais, que de amarelo não têm nada). Uma classificação antropológica mais moderna denomina os brancos de europoides ou caucasianos, os negros de negroides e os amarelos de mongoloides (não confundir com os portadores da síndrome de Down). Quanto aos índios, são atualmente classificados entre os mongoloides, isto é, são um subgrupo dos humanos que habitam o Extremo Oriente e que um dia, há cerca de 30 mil anos, cruzaram o estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, num tempo em que a calota polar o permitia, e povoaram a América.

Hoje em dia se questiona muito o conceito de raça, visto que, do ponto de vista genético e graças à análise do DNA, se sabe que os humanos têm entre si muito mais semelhanças do que diferenças. Mesmo assim, ainda costumamos dividir a humanidade em raças com base nas características físicas de cada povo. Isso é tão verdade que hoje, mais do que nunca, os negros procuram afirmar-se como tal em sua luta contra o racismo e pela preservação de seus valores culturais.

Quanto a indígena, esse termo que normalmente usamos para nos referir aos ameríndios (e olhe a palavra índio aí de novo, disfarçada!) nada tem a ver etimologicamente com os índios. A palavra vem do latim, portanto já existia bem antes de os europeus terem chegado à América, e significa simplesmente “natural da terra, nativo”, do latim indu-, “dentro”, e geno, “nascer”. Ou seja, indígena é quem nasceu dentro (do país). A semelhança fonética fortuita entre índio e indígena foi um prato cheio para estabelecer-se a confusão e passar-se a achar que só os habitantes originários do Novo Continente são indígenas.

Mas a polêmica, alimentada pelo famigerado movimento politicamente correto, está na crença, trajada de fake news, de que o termo índio é pejorativo e de que põe no mesmo balaio povos de etnias muito diferentes. Em primeiro lugar, ninguém ignora hoje em dia que um txucarramãe é etnicamente muito distinto de um ianomâmi; no entanto, chamá-los todos de índios não é muito diferente de chamar povos tão distintos quanto portugueses e húngaros de europeus. Em segundo lugar, qual a evidência científica de que o termo índio tem conotação pejorativa? Há alguma estatística de uso da palavra que comprove que, na maioria das vezes, é empregada em tom depreciativo? Como homem de ciência, me apego aos fatos e não a opiniões ou crenças, e fatos são comprováveis por dados observáveis. Sem eles, o que há é mera especulação, por vezes a serviço de certas agendas ideológicas. O “cancelamento” de palavras legitimamente vernáculas e sem nenhum cunho preconceituoso como gordo, cego, surdo, vesgo, paralítico, careca, etc., e sua substituição por paráfrases longas e pouco práticas de ser pronunciadas como pessoa portadora de deficiência ou pessoa não vidente (até a expressão deficiente visual vem sendo evitada ultimamente) procura criar uma espécie de novilíngua à moda daquela descrita por George Orwell em seu romance distópico 1984, na qual determinadas palavras ou acepções são banidas com o objetivo de restringir a amplitude do pensamento. Assim, se algo não pode ser dito, não pode ser pensado, logo não existe. O que o politicamente correto faz é justamente isso: em vez de procurar mudar a realidade para melhor, ele a mascara, dando nomes bonitos a coisas feias para que elas pareçam mais bonitas – ou menos feias.

A vítima mais recente da orwellização da língua portuguesa é a palavra escravo, sistematicamente substituída por escravizado – como se pessoas escravizadas não fossem escravas. Por essa lógica, não podemos mais nos referir à Abolição da Escravatura, mas devemos em vez disso aludir à Abolição da Escravização.

O pior de tudo é que essa proscrição de palavras feita pela linguagem politicamente correta não tem embasamento nas ciências da linguagem e é feita por pessoas, em geral militantes ideológicos de cultura rasa, sem nenhum cabedal de conhecimento etimológico ou de história da língua. Recentemente, uma deputada federal propôs banir o vocábulo travestido por afirmar erroneamente que seria uma alusão depreciativa aos travestis.

O fato é que muitos jornalistas, intelectuais e ativistas políticos têm evitado até referir-se aos nativos brasileiros como indígenas e empregado em seu lugar a expressão povos originários. Ou seja, já fizeram o revisionismo do próprio revisionismo linguístico.

PC strikes again!

Tenho um conhecido que costumava praticar o famoso esporte do levantamento de copos. E nessa modalidade ele era tão imbatível que acabou ganhando como “prêmio” uma estadia forçada numa clínica de recuperação de dependentes químicos (para quem não sabe, o álcool também é droga, e seu tratamento não é diferente do da dependência de maconha, cocaína, crack, etc.). Pois não é que certo dia, tendo ido visitá-lo na clínica, acabei participando de um bate-papo com os coordenadores em que eles insistentemente se referiam aos dependentes do álcool como “alcoolistas”. Estranhei o neologismo, já que o termo que sempre me vem à cabeça no caso é “alcoólatra”.

Lembrei dos Alcoólicos Anônimos e, embora nunca tenha ouvido ninguém dizer que Fulano é alcoólico, mas sim alcoólatra, imaginei que o uso dessa palavra seja um eufemismo, já que o elemento de composição ‑latra assumiu uma carga pejorativa, ou então uma tradução direta do inglês alcoholic, visto que essa associação nasceu nos Estados Unidos.

Mas “alcoolista” já é um pouco demais para o meu gosto. Pode ser que derive do substantivo “alcoolismo” assim como “tabagista” (isto é, “fumante”) deriva de “tabagismo”, “automobilista” tem a ver com “automobilismo”, “comunista” com “comunismo”, e assim por diante. Mas o fato é que criaram o eufemismo do eufemismo! Agora já temos até o bebum politicamente correto!

Favelário nacional

Hoje, Dia Nacional da Favela, vou falar um pouco sobre essa palavra tão desprestigiada hoje em dia.

As nações tendem a exportar palavras correspondentes àquilo que seu povo faz de melhor. Não é á toa que grande parte do vocabulário referente à moda, à culinária e às artes em geral venha do francês, assim como os termos ligados à música se originem do italiano. Pela mesma razão, a maioria dos termos técnicos e científicos são ingleses. Há muitas línguas (a maioria, na verdade) que não exportam palavra alguma, demonstrando talvez a pouca criatividade de seus falantes, pelo menos em termos de ciência ou cultura, isto é, daquilo que mais influencia os outros povos.

O brasileiro, por exemplo, é um povo muito criativo, tanto nas artes – música popular, telenovela, Carnaval – quanto na malandragem (parece que a inventividade dos nossos patrícios em bolar golpes para subtrair o dinheiro alheio ou lesar os cofres públicos não tem limites), mas essa criatividade não resulta em vocábulos que interessem aos falantes de outros idiomas. Acaba que as palavras brasileiras com penetração no exterior se referem quase sempre à originalidade da nossa natureza, como nomes de frutas e animais (caju e piranha, dentre outros, conquistaram o mundo).

Também a nossa (triste) realidade social desperta a curiosidade dos estrangeiros, tanto que há concorridas excursões turísticas às favelas cariocas. Por falar em favela, eis aí uma palavra genuinamente brasileira que chegou aos quatro cantos do planeta. Outras línguas – especialmente as de países com distribuição de renda tão vergonhosa quanto a nossa – têm termos equivalentes para favela. O maravilhoso poema Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, enumera alguns: bidonville, taudis, slum, witch-town, sanky-town, callampas, cogumelos, corraldas, hongos, barrio paracaidista, bairro de lata, gourbville, champa, court, villa miseria… Mas como o Brasil tem as favelas mais famosas do mundo, protótipo da pobreza, cenário de filmes desde a década de 1950 e de videoclipes desde Michael Jackson, berço do samba (e dos bailes funk), sede do tráfico e de facções criminosas, point de visitação de autoridades como o ex-presidente americano Barack Obama e o papa, é natural que os idiomas que não têm termo próprio – e mesmo muitos dos que têm – adotem favela para referir-se a esse aglomerado humano pouco ou nada urbanizado, embora urbano, que não chega a ser bairro embora seja maior do que muitas cidades (muitas são cidades dentro da cidade, com leis e administração próprias), tampouco é aldeia ou tribo, embora haja mais selvageria dentro delas do que na selva. Embora, mesmo derivada de fava, seja lugar de fome. Embora, mesmo assemelhada a favo, seja bem menos organizada que uma colmeia e bem mais caótica que um formigueiro.

É uma pena que a onda do politicamente correto esteja matando essa palavra tão inerente à nossa cultura. Afinal, hoje em dia ficou feio chamar as coisas pelo próprio nome – como se mudar a denominação mudasse a realidade –, e assim a favela virou comunidade, termo anódino que passa a impressão de mero estilo de vida, como se quem lá mora o fizesse por opção. Vale lembrar que um condomínio de alto luxo também é uma comunidade, embora seus moradores jamais empreguem tal termo para falar de si próprios, tal a carga pejorativa que essa palavra assumiu nos últimos anos, prova cabal de que não adianta maquiar o léxico. Enquanto isso, favela, palavra que, se não surgiu no Brasil, aqui ganhou seu pleno e doloroso sentido, segue viva em outras línguas ao mesmo tempo que vai morrendo entre nós. Vitória da hipocrisia sobre a criatividade.