Índio ou indígena?

O presidente Jair Bolsonaro recentemente vetou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que propunha alterar o nome do Dia do Índio para Dia dos Povos Indígenas. Essa atitude reacendeu uma polêmica que já dura algum tempo e que põe em xeque a palavra índio como designativa dos povos de origem asiática que já habitavam as Américas antes da chegada dos europeus, bem como de seus atuais descendentes. Nesse embalo, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz chegou a postar um vídeo no YouTube de reprimenda ao presidente com o título É indígena, sr. Presidente!.

Como todos devem saber, a palavra índio tem a ver com a Índia, e a primeira das acepções desse vocábulo nos dicionários é justamente “o mesmo que indiano” (em espanhol, até hoje, os indianos, habitantes da Índia, são chamados de indios, e em inglês Indian significa indistintamente “indiano” e “índio”). É que, segundo consta, ao chegar ao continente americano, Cristóvão Colombo acreditava ter chegado às Índias. E naquele tempo, Índias era a designação que os europeus davam não só à Índia propriamente dita, mas a todo o sudeste asiático, daí o termo no plural.

Desse modo, Colombo chamou os aborígines americanos de índios, e esse nome ficou consagrado por séculos. Como esses aborígines tinham características físicas peculiares (pele moreno-avermelhada, cabelos pretos e lisos, olhos negros ligeiramente amendoados, nariz discretamente achatado), os antropólogos do século XIX decidiram chamar de índia essa suposta raça humana por oposição aos brancos, negros e amarelos (na verdade, os orientais, que de amarelo não têm nada). Uma classificação antropológica mais moderna denomina os brancos de europoides ou caucasianos, os negros de negroides e os amarelos de mongoloides (não confundir com os portadores da síndrome de Down). Quanto aos índios, são atualmente classificados entre os mongoloides, isto é, são um subgrupo dos humanos que habitam o Extremo Oriente e que um dia, há cerca de 30 mil anos, cruzaram o estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, num tempo em que a calota polar o permitia, e povoaram a América.

Hoje em dia se questiona muito o conceito de raça, visto que, do ponto de vista genético e graças à análise do DNA, se sabe que os humanos têm entre si muito mais semelhanças do que diferenças. Mesmo assim, ainda costumamos dividir a humanidade em raças com base nas características físicas de cada povo. Isso é tão verdade que hoje, mais do que nunca, os negros procuram afirmar-se como tal em sua luta contra o racismo e pela preservação de seus valores culturais.

Quanto a indígena, esse termo que normalmente usamos para nos referir aos ameríndios (e olhe a palavra índio aí de novo, disfarçada!) nada tem a ver etimologicamente com os índios. A palavra vem do latim, portanto já existia bem antes de os europeus terem chegado à América, e significa simplesmente “natural da terra, nativo”, do latim indu-, “dentro”, e geno, “nascer”. Ou seja, indígena é quem nasceu dentro (do país). A semelhança fonética fortuita entre índio e indígena foi um prato cheio para estabelecer-se a confusão e passar-se a achar que só os habitantes originários do Novo Continente são indígenas.

Mas a polêmica, alimentada pelo famigerado movimento politicamente correto, está na crença, trajada de fake news, de que o termo índio é pejorativo e de que põe no mesmo balaio povos de etnias muito diferentes. Em primeiro lugar, ninguém ignora hoje em dia que um txucarramãe é etnicamente muito distinto de um ianomâmi; no entanto, chamá-los todos de índios não é muito diferente de chamar povos tão distintos quanto portugueses e húngaros de europeus. Em segundo lugar, qual a evidência científica de que o termo índio tem conotação pejorativa? Há alguma estatística de uso da palavra que comprove que, na maioria das vezes, é empregada em tom depreciativo? Como homem de ciência, me apego aos fatos e não a opiniões ou crenças, e fatos são comprováveis por dados observáveis. Sem eles, o que há é mera especulação, por vezes a serviço de certas agendas ideológicas. O “cancelamento” de palavras legitimamente vernáculas e sem nenhum cunho preconceituoso como gordo, cego, surdo, vesgo, paralítico, careca, etc., e sua substituição por paráfrases longas e pouco práticas de ser pronunciadas como pessoa portadora de deficiência ou pessoa não vidente (até a expressão deficiente visual vem sendo evitada ultimamente) procura criar uma espécie de novilíngua à moda daquela descrita por George Orwell em seu romance distópico 1984, na qual determinadas palavras ou acepções são banidas com o objetivo de restringir a amplitude do pensamento. Assim, se algo não pode ser dito, não pode ser pensado, logo não existe. O que o politicamente correto faz é justamente isso: em vez de procurar mudar a realidade para melhor, ele a mascara, dando nomes bonitos a coisas feias para que elas pareçam mais bonitas – ou menos feias.

A vítima mais recente da orwellização da língua portuguesa é a palavra escravo, sistematicamente substituída por escravizado – como se pessoas escravizadas não fossem escravas. Por essa lógica, não podemos mais nos referir à Abolição da Escravatura, mas devemos em vez disso aludir à Abolição da Escravização.

O pior de tudo é que essa proscrição de palavras feita pela linguagem politicamente correta não tem embasamento nas ciências da linguagem e é feita por pessoas, em geral militantes ideológicos de cultura rasa, sem nenhum cabedal de conhecimento etimológico ou de história da língua. Recentemente, uma deputada federal propôs banir o vocábulo travestido por afirmar erroneamente que seria uma alusão depreciativa aos travestis.

O fato é que muitos jornalistas, intelectuais e ativistas políticos têm evitado até referir-se aos nativos brasileiros como indígenas e empregado em seu lugar a expressão povos originários. Ou seja, já fizeram o revisionismo do próprio revisionismo linguístico.

PC strikes again!

Tenho um conhecido que costumava praticar o famoso esporte do levantamento de copos. E nessa modalidade ele era tão imbatível que acabou ganhando como “prêmio” uma estadia forçada numa clínica de recuperação de dependentes químicos (para quem não sabe, o álcool também é droga, e seu tratamento não é diferente do da dependência de maconha, cocaína, crack, etc.). Pois não é que certo dia, tendo ido visitá-lo na clínica, acabei participando de um bate-papo com os coordenadores em que eles insistentemente se referiam aos dependentes do álcool como “alcoolistas”. Estranhei o neologismo, já que o termo que sempre me vem à cabeça no caso é “alcoólatra”.

Lembrei dos Alcoólicos Anônimos e, embora nunca tenha ouvido ninguém dizer que Fulano é alcoólico, mas sim alcoólatra, imaginei que o uso dessa palavra seja um eufemismo, já que o elemento de composição ‑latra assumiu uma carga pejorativa, ou então uma tradução direta do inglês alcoholic, visto que essa associação nasceu nos Estados Unidos.

Mas “alcoolista” já é um pouco demais para o meu gosto. Pode ser que derive do substantivo “alcoolismo” assim como “tabagista” (isto é, “fumante”) deriva de “tabagismo”, “automobilista” tem a ver com “automobilismo”, “comunista” com “comunismo”, e assim por diante. Mas o fato é que criaram o eufemismo do eufemismo! Agora já temos até o bebum politicamente correto!

Favelário nacional

Hoje, Dia Nacional da Favela, vou falar um pouco sobre essa palavra tão desprestigiada hoje em dia.

As nações tendem a exportar palavras correspondentes àquilo que seu povo faz de melhor. Não é á toa que grande parte do vocabulário referente à moda, à culinária e às artes em geral venha do francês, assim como os termos ligados à música se originem do italiano. Pela mesma razão, a maioria dos termos técnicos e científicos são ingleses. Há muitas línguas (a maioria, na verdade) que não exportam palavra alguma, demonstrando talvez a pouca criatividade de seus falantes, pelo menos em termos de ciência ou cultura, isto é, daquilo que mais influencia os outros povos.

O brasileiro, por exemplo, é um povo muito criativo, tanto nas artes – música popular, telenovela, Carnaval – quanto na malandragem (parece que a inventividade dos nossos patrícios em bolar golpes para subtrair o dinheiro alheio ou lesar os cofres públicos não tem limites), mas essa criatividade não resulta em vocábulos que interessem aos falantes de outros idiomas. Acaba que as palavras brasileiras com penetração no exterior se referem quase sempre à originalidade da nossa natureza, como nomes de frutas e animais (caju e piranha, dentre outros, conquistaram o mundo).

Também a nossa (triste) realidade social desperta a curiosidade dos estrangeiros, tanto que há concorridas excursões turísticas às favelas cariocas. Por falar em favela, eis aí uma palavra genuinamente brasileira que chegou aos quatro cantos do planeta. Outras línguas – especialmente as de países com distribuição de renda tão vergonhosa quanto a nossa – têm termos equivalentes para favela. O maravilhoso poema Favelário Nacional, de Carlos Drummond de Andrade, enumera alguns: bidonville, taudis, slum, witch-town, sanky-town, callampas, cogumelos, corraldas, hongos, barrio paracaidista, bairro de lata, gourbville, champa, court, villa miseria… Mas como o Brasil tem as favelas mais famosas do mundo, protótipo da pobreza, cenário de filmes desde a década de 1950 e de videoclipes desde Michael Jackson, berço do samba (e dos bailes funk), sede do tráfico e de facções criminosas, point de visitação de autoridades como o ex-presidente americano Barack Obama e o papa, é natural que os idiomas que não têm termo próprio – e mesmo muitos dos que têm – adotem favela para referir-se a esse aglomerado humano pouco ou nada urbanizado, embora urbano, que não chega a ser bairro embora seja maior do que muitas cidades (muitas são cidades dentro da cidade, com leis e administração próprias), tampouco é aldeia ou tribo, embora haja mais selvageria dentro delas do que na selva. Embora, mesmo derivada de fava, seja lugar de fome. Embora, mesmo assemelhada a favo, seja bem menos organizada que uma colmeia e bem mais caótica que um formigueiro.

É uma pena que a onda do politicamente correto esteja matando essa palavra tão inerente à nossa cultura. Afinal, hoje em dia ficou feio chamar as coisas pelo próprio nome – como se mudar a denominação mudasse a realidade –, e assim a favela virou comunidade, termo anódino que passa a impressão de mero estilo de vida, como se quem lá mora o fizesse por opção. Vale lembrar que um condomínio de alto luxo também é uma comunidade, embora seus moradores jamais empreguem tal termo para falar de si próprios, tal a carga pejorativa que essa palavra assumiu nos últimos anos, prova cabal de que não adianta maquiar o léxico. Enquanto isso, favela, palavra que, se não surgiu no Brasil, aqui ganhou seu pleno e doloroso sentido, segue viva em outras línguas ao mesmo tempo que vai morrendo entre nós. Vitória da hipocrisia sobre a criatividade.

A cartilha antirracista dos juízes de Pernambuco

Já falei mais de uma vez aqui neste espaço sobre esse assunto, mas parece que certos grupos não compreendem – ou melhor, não querem compreender, pois há razões políticas e ideológicas envolvidas –, e por isso sou obrigado a voltar ao tema, mesmo sabendo que, mais uma vez, de nada adiantará. Em todo caso, vamos lá.

A Associação dos Magistrados de Pernambuco (Amape) elaborou recentemente uma cartilha de 13 páginas intitulada Racismo nas Palavras, a qual sugere a substituição de dez expressões ou palavras tidas como “racistas”. Em vez de denegrir, a cartilha sugere difamar; no lugar de mercado negro, propõe mercado ilegal; em substituição a lista negra, teríamos lista de restrições, e ainda a coisa está preta daria lugar a a situação está difícil, dentre outras sugestões de mudança.

Essa cartilha provocou a reação de 34 magistrados filiados à Associação, que assinaram manifesto contra a introdução de pautas ideológicas na categoria profissional, o que poderia, segundo eles, levar a cisões internas.

Diz a certa altura o manifesto:

Por fim apresentamos esse MANIFESTO em repúdio à produção de cursos, lives, webinários, panfletos, cartilhas e similares que nos ponham em apoio a correntes ideológicas e provoque cisões internas, criação de subgrupos de juízes.

A juíza Andrea Rose Borges Cartaxo, uma das subscritoras do manifesto, afirma que a crítica não se dirige às causas de minorias. Segundo ela, “as causas são legítimas. O motivo do manifesto é que o estatuto da associação está sendo ferido”. E acrescenta: “A Justiça precisa ser cega, não abraçar causas ideológicas, e essa causa é de uma ideologia”.

Ou seja, segundo esses juízes “dissidentes” (a maioria dos associados concordou com a cartilha e a realização de cursos sobre o tema do racismo), o problema não é o combate de expressões supostamente racistas e sim o desvio de função da Associação.

Já para mim, o pecado da cartilha é outro: como já havia demonstrado em artigo anterior, o erro dessas cartilhas politicamente corretas é atribuir conotação racista a expressões que nada têm de discriminatórias à raça negra pelo simples fato de que elas contêm as palavras preto ou negro ou fazem alusão à cor preta, um matiz do espectro cromático como qualquer outro.

Ou seja, mais uma vez, os movimentos sociais e seus defensores partem de premissas falsas para sustentar suas bandeiras. Mas, se essas bandeiras são justas – e eu particularmente acho que são –, por que contaminá-las e enfraquecê-las com falsos argumentos? Por que não se ater a fatos reais (exemplos de racismo existem – infelizmente – aos montes em nosso país) em vez de criar inimigos imaginários?

Senão, vejamos: denegrir provém do latim denigrare, que significava originalmente “enegrecer, tingir de preto” e posteriormente “difamar, tornar negra a reputação de alguém”. Ora, esse verbo foi cunhado pelos romanos dois milênios antes da escravidão de africanos por europeus, portanto refere-se às conotações sombrias que a cor preta suscita, sem qualquer relação com tom de pele, mas sim com escuridão, trevas, morte, etc.

Eu poderia explicar a origem não preconceituosa das demais palavras e expressões proscritas pela dita cartilha, mas, como disse, já fiz isso em outro artigo e convido os leitores a lê-lo (basta clicar no link acima).

Ou seja, além do alegado gasto de recursos da Amape com empreendimento alheio à sua finalidade, os juízes que subscreveram o manifesto poderiam também ter questionado a falsidade dos argumentos apresentados na malsinada cartilha a respeito do cunho racista de certas palavras e expressões.

Pelo modo como a coisa anda, daqui a um tempo o próprio uso das palavras preto e negro será proibido, mesmo que você esteja se referindo meramente a um lápis de cor ou ao tom de um vestido.

O politicamente correto, a ideologia da neutralização de gênero e a Constituição alemã

O politicamente correto e seu mais novo rebento, a ideologia da neutralização de gênero, têm dado muito o que falar – mal, principalmente. Não à toa, tal a bizarrice dessa proposta, que, apesar de bem-intencionada, promete não chegar a lugar algum, pois suas bases lógicas, científicas e políticas são frágeis como bolha de sabão em espinheiro.

O problema é que a vida imita a arte, e vice-versa, e aquilo que achamos absurdo a ponto de virar motivo de piada de repente é levado a sério por gente insuspeita. Pois ontem o humorista português Ricardo Araújo Pereira publicou uma crônica satírica cuja leitura recomendo vivamente às minhas leitoras e aos meus leitores e que deveria fazer corarem as defensoras e os defensores do tal gênero neutro. Só que elas e eles não coram. Pelo contrário, elas e eles levam muito a sério uma ideia que não tem a menor possibilidade de prosperar. Tanto que elas e eles chegam a redigir documentos oficiais como a Carta Magna de um país de respeito nessa linguagem que nenhum ser humano ou ser humana em estado normal consegue falar.

Para verem que não estou mentindo, transcrevo abaixo a tradução para o português de um pequeno trecho da Constituição da República Federal da Alemanha, em sua redação mais recente, após a reunificação.

  • O Governo Federal: O Governo Federal é composto pela Chanceler Federal ou Chanceler Federal e pelas Ministras Federais ou Ministros Federais. Juntos, elas ou eles compõem o Gabinete.
  • O papel da Chanceler Federal ou do Chanceler Federal: A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tem uma posição de destaque no governo. A Chanceler Federal ou  o Chanceler decide quem se torna membro do governo, pois só ela ou ele tem o direito de formar um Gabinete. A Chefe do Governo ou o Chefe do Governo escolhe as Ministras ou os Ministros e faz uma proposta vinculativa para a sua nomeação ou exoneração do Presidente Federal. Ela ou ele também decide sobre o número de Ministras ou de Ministros e define suas áreas de responsabilidade. A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal determina os pilares da política governamental (Princípio do Chanceler).
  • O papel da Ministra ou do Ministro: Embora a Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tenha o direito de emitir instruções às Ministras ou aos Ministros, a Constituição também enfatiza que as Ministras Federais ou os Ministros Federais administram sua área de responsabilidade de forma independente e sob sua própria responsabilidade dentro do quadro político definido (Princípio Departamental).

Pois é, minhas amigas, meus amigos e mees amigues, cabe a todas, todos e todes vocês julgar se esse negócio de linguagem neutra de gênero faz algum sentido ou não – ou, como se diz lá em Minas: Tem base esse trem?

Pessoas transgêneras?!

Volta e meia a novilíngua politicamente correta resolve mudar o significante de certas palavras sem alterar o significado e, o que é pior, sem modificar a realidade que ela representa. A mais nova vítima dessa camuflagem do sentido pela manipulação da forma parece ter sido a palavra “transexual”, que agora atende pelo nome de “transgênero”. Já falei em outra postagem sobre a (não) diferença entre sexo e gênero. Seguindo a mesma linha de raciocínio, houve-se por bem substituir o termo “transexual” por “transgênero” quando adjetivo (não faz sentido dizer que na minha sala de aula há três transgêneros e sim que há três alunos/alunas/alunes/alunxs transgênero).

Ocorre que “transexual” admite flexão de número (plural “transexuais”), ao passo que “transgênero” é palavra invariável em gênero e número. Ou era até certos estagiários de jornalismo, que hoje fazem as vezes de redatores, decidirem flexioná-la. E eis que lemos coisas como “mulher transgênera”, “pessoas transgêneras”, etc. Transgêneras?! Será possível isso? Bem, a linguagem politicamente correta e os estagiários de jornalismo podem tudo, certo?

Mas o fato é que, sendo resultante da mera aposição de um prefixo trans- ao substantivo gênero, “transgênero” é impossível de flexionar. Assim como temos “aulas-piloto” e não “aulas-pilotas”, bem como “casamentos intra-raça” e não “intra-raços” (intrarraciais ainda é a melhor solução), não faz nenhum sentido do ponto de vista gramatical flexionar “transgênero/transgênera/transgêneros/transgêneras”.

Uma solução bem menos traumática para a língua seria a adoção dos adjetivos “transgenérico” ou “transgênere”. Observem que o uso de “genérico” como adjetivo referente a gênero é corrente em zoologia e botânica, assim como se usa “específico” em relação a espécie biológica. Ou seja, genérico não é só aquilo que é geral, que não tem especificidade, mas também um termo técnico usado na biologia. E o gênero masculino, feminino ou outro não deixa de ser um traço biológico, embora muitos sustentem que também tem muito de psicológico (de toda maneira, continuamos no campo das ciências naturais).

Mas a minha preferência é mesmo por “transgênere”, cuja terminação em “e”, tomada do latim e ocorrente em palavras como “congênere” (que é do mesmo gênero), “imberbe” (que não tem barba), “insone” (que não tem sono) e muitas outras, também tem o charme politicamente correto de ser comum de dois gêneros (gramaticais), portanto um prato cheio para quem adora linguagem neutra de gênero (sexual).

Nestes nossos tempos de menines, amigues, namorades e outres, “transgênere” já vem terminada em “e” sem ferir a morfologia de herança latina da língua portuguesa. Gostaram da sugestão?

Campanha da Rede Globo contra o racismo peca por ignorância

Por ocasião dos 132 anos da abolição da escravatura no Brasil, a Rede Globo acaba de lançar uma campanha contra expressões verbais consideradas racistas por conterem as palavras “negro” ou “preto” (ou suas flexões de gênero e número). O comercial consiste em omitir a palavra em questão em expressões consagradas na língua portuguesa – e que têm equivalentes em outras línguas –, substituindo-a por uma lacuna (o famoso underline, para quem é da geração digital). Temos então: a coisa está _____, não sou tuas _____, serviço de _____, ovelha _____, mercado _____, lista _____, e por aí vai. O problema é que boa parte dessas expressões não tem nenhuma relação com a raça negra, portanto não tem nada de racista.

Se, de fato, serviço de preto significa “serviço malfeito” porque feito por negros (na época da origem da expressão, escravos), e não sou tuas negas se refere às negras com quem o senhor de escravos se deitava, as demais expressões remetem ao negro como cor e não como raça.

Desde tempos imemoriais, o homem teme a escuridão – e na época das cavernas muito mais do que hoje –, afinal à noite o risco de ser atacado por predadores ou inimigos era muito maior. Da mesma forma, uma caverna escura poderia conter ameaças, desde um buraco até uma fera. Não por outra razão, o negro foi escolhido como a cor do luto, já que a escuridão evoca a tristeza e o medo do desconhecido. Evoca sobretudo o maior de nossos medos: a morte. Daí deriva também o uso da cor negra como símbolo de tudo que é negativo, nefasto e fora do padrão, assim como o branco sempre foi associado à pureza e à virtude. Se todas as ovelhas são brancas, o indivíduo que destoa de seu grupo só poderia ser uma ovelha negra – ovelhas azuis ou amarelas não surtiriam o mesmo efeito de contraste. A lista negra é a que contém os nomes dos indesejáveis, dos que não merecem confiança porque são impuros no caráter. O mercado negro é o comércio ilegal, clandestino, que opera às escuras, sem ser visto pela lei. “A coisa está preta” é mera alusão às nuvens negras anunciando tempestade, e assim por diante.

A maior parte dessas expressões nasceu na Antiguidade ou na Europa medieval, num tempo portanto muito anterior à escravidão negra na América e ao preconceito racial dela decorrente, num tempo em que os europeus praticamente não tinham nenhum contato com os africanos.

O que se passa é que a ideologia do politicamente correto promove uma caça às bruxas, tentando encontrar culpados a todo custo e criminalizando palavras e expressões que, em sua origem, não tinham nada de preconceituoso. Querendo combater o fascismo da sociedade, é o politicamente correto que se torna fascista, censurando qualquer um que não se comporte ou fale segundo sua cartilha. A seguir essa lógica, logo estaremos proibidos de escrever com caneta preta, e as mulheres não poderão mais usar vestido pretinho básico.

A intenção da Globo foi boa, mas de boas intenções o inferno está cheio. Nota zero para essa campanha, que demonstra ignorância da origem das expressões que condena!

*-*-*

Acho que já contei essa história aqui, mas, em todo caso, vale repeti-la. Certa vez, eu estava dando aula enquanto um temporal medonho se avizinhava lá fora, com enormes nuvens negras, raios e trovões dignos de filme de terror. Olhei pela janela e disse aos alunos: “Pessoal, a coisa lá fora tá preta”. Nisso, uma aluna negra me interpelou dizendo que eu não deveria usar essa expressão, que eu deveria demonstrar mais respeito pelo holocausto africano, etc. etc. (Sim, meus amigos, em seu longo sermão ela usou o termo “holocausto” em relação à escravidão). Um tanto perplexo, eu não perdi a pose e voltei à janela, olhei para fora novamente e remendei: “Pessoal, me desculpem, eu quis dizer que a coisa lá fora está afrodescendente”.

Feliz Ano Novo! Feliz?!

“Eu voltei, agora pra ficar…”. Pois é, amigos, brincadeiras à parte, andei sumido nos últimos meses. Na verdade, tirei um semestre sabático, seguido de férias e Carnaval, para resolver problemas particulares inadiáveis e também para preparar um superprojeto que vem por aí. (Aguardem, vocês vão se surpreender!)

E como no Brasil o ano só começa após o Carnaval (e o ano legislativo acaba mais cedo quando há eleições, isto é, ano sim, ano não), desejo a todos um feliz Ano Novo, embora eu tenha cá minhas dúvidas se este ano será realmente feliz. Desculpem-me o pessimismo, mas nestes meses em que andei ausente das mídias sociais observei e ponderei muita coisa que me deixou cético a respeito do futuro do Brasil e da humanidade.

Estamos vivendo uma era de extremos: no clima, na política, na economia, nas relações sociais, em tudo impera o extremismo. E tudo isso reforça minha convicção de que a virtude, mais do que nunca, está no centro. Ou, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Virtus in medio, como diriam os romanos.

Se os eventos climáticos deste século estão se mostrando cada vez mais extremos (chuvas torrenciais, calor e frio fora de hora, derretimento das calotas polares, morte de rios e oceanos, espécies sendo extintas, ar irrespirável em certas cidades), também são extremas as posições políticas em relação ao meio ambiente: de um lado, os ecoterroristas, que exigem a suspensão imediata de todas as emissões de carbono na atmosfera como se isso fosse possível a curtíssimo prazo sem causar uma catástrofe econômica e social no planeta de proporções jamais vistas; de outro, os negacionistas, para quem o aquecimento global é uma ficção criada pelos chineses ou pela esquerda anticapitalista.

Na política, tem-se o tempo todo que escolher entre uma extrema esquerda simpática às ditaduras socialistas e uma extrema direita reacionária e com pendores fascistas, saudosa dos Anos de Chumbo. Fomos jogados na pior crise econômica de nossa história por governos de esquerda corruptos, irresponsáveis e incompetentes. Mas o pior legado desses governos foi pavimentar o caminho para a eleição de um presidente da república ultraconservador, voluntarioso, inexperiente e de tendência autoritária.

Nesse cenário, quem pensa com ponderação, defende a liberdade com responsabilidade e acha que o equilíbrio está sempre no meio-termo é tachado por um e outro lado de “isentão”, alguém que não toma posição, que está sempre em cima do muro. Nesses meses todos, cheguei à conclusão de que em cima do muro é o melhor lugar para estar, pois de lá se veem os dois lados, ao passo que quem está de um dos lados do muro só vê seu próprio lado. Hoje, amigos de anos rompem a amizade e famílias se dividem por questões ideológicas. As redes sociais se tornaram antissociais, um mar de impropérios e insultos pessoais acobertados por um suposto anonimato. Hoje, mais do que nunca, os jovens são rebeldes sem causa, culpando a tudo e a todos por seu vazio existencial. Para a geração do mimimi, que meu amigo Eduardo Affonso lucidamente chamou de geração raudério, todos são vítimas, todos querem muitos direitos e nenhum dever, e tudo, absolutamente tudo, é ofensivo ou opressor.

Hoje, as pessoas ditas “normais” – isto é, as que representam a maioria esmagadora da sociedade – têm seu sexo biológico questionado, seus padrões morais e de comportamento estigmatizados e suas escolhas estéticas e de vida repreendidas. Em resumo, hoje ser normal é que é aberrante.

Também vi a pátria língua portuguesa, esse território que me é tão caro e em que há tantos anos milito, sofrer as mais absurdas intervenções, ser acusada de machista e opressora, como se mudar a língua mudasse a realidade.

Nesses tempos de petralhas, feminazis e bolsominions, vi a ascensão do terraplanismo, o triunfo da superstição sobre a ciência, o Carnaval politicamente correto, a China e seu principal produto de exportação, as epidemias. Mas, verdade seja dita, também vi o crescimento de causas que nos dão alguma esperança, como a da defesa dos animais e a do veganismo.

O fato é que, com tantos conflitos sem sentido e ódios exalando por todos os poros, o mundo simplesmente ficou chato. Como dizia meu pai, em mesa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Bom Ano Novo e até a próxima semana.

A tragédia de Suzano e os eufemismos da crônica policial

Eu havia programado outro assunto para tratar aqui no blog no dia de hoje, mas o massacre ocorrido em Suzano, SP, esta manhã me fez refletir sobre várias coisas: sobre os limites da maldade humana (ou a inexistência deles); sobre psicopatas que circulam discretamente entre as pessoas de bem e o risco que oferecem de, a qualquer momento, cometer as piores atrocidades; sobre o pânico dos jovens que presenciaram a chacina; sobre a dor dos familiares; sobre a facilidade de acesso às armas de fogo e a flexibilização da legislação a esse respeito… Mas, linguista que sou, chamou-me a atenção em especial o modo como a lei brasileira – e por tabela a imprensa – trata os crimes cometidos por menores. Os dois autores da matança de hoje de manhã, um de 17 e o outro de 25 anos, estão sendo chamados pelos telejornais de assassinos, e seu ato de crime hediondo, horrível massacre, chacina sanguinária, e por aí vai. No entanto, tivesse o menor de 17 anos, de nome Guilherme Taucci Monteiro, sido capturado vivo e não se suicidado, sua identidade não teria sido relevada, seu rosto apareceria na TV coberto por uma tarja preta ou então desfocado, estaria ele sendo chamado de “menor infrator”, e a barbárie que cometeu seria classificada como “ato infracional”. Mas como ele está morto, sabemos seu nome e sua face e podemos chamá-lo pelo que ele realmente é: um assassino. Ou seja, uma vez morto o criminoso, cessa a hipocrisia, e o nefasto linguajar politicamente correto não mais se aplica.

Com a violência crescente que assola o país, é cada vez mais comum ler ou ouvir notícias como “o menor foi apreendido pela polícia” ou “os suspeitos fugiram num carro roubado e trocaram tiros com os policiais”. A adoção pelos meios de comunicação do jargão jurídico costuma ser uma imposição dos “manuais de redação e estilo”, cartilhas elaboradas por cada veículo de imprensa para balizar a linguagem utilizada por seus redatores. Esses manuais foram instituídos para padronizar os textos de uma determinada publicação, conferindo-lhe uma marca própria, e também para limitar a liberdade criativa dos jornalistas, evitando que algum deles empregue termos cuja interpretação possa trazer problemas ao jornal, como um processo judicial, por exemplo.

A questão é que, ao fazer uma opção equivocada, o criador do manual propaga seu equívoco a todos os integrantes da redação. A meu ver, é bem esse o caso do emprego do juridiquês na pauta jornalística. Afinal, o repórter não escreve para juristas, mas para leitores leigos. E em tempos em que a impunidade institucionalizada bate em nossa cara todos os dias, palavras que amenizam a culpabilidade dos criminosos soam como um acinte à sociedade.

Suspeito

Segundo o Michaelis – Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, suspeito é o indivíduo “1) De quem há suspeitas ou desconfianças; 2) De fé ou integridade moral duvidosa. 3) Que dá causa ou origem a dúvidas, que não merece confiança. […] 8) Que parece ou se supõe ter algum defeito ou vício […]”. Ora, a suspeita é da esfera da dúvida, da possibilidade, não da certeza. Qual é a probabilidade de que indivíduos que fogem em alta velocidade num carro roubado e trocam tiros com a polícia sejam cidadãos de bem e não bandidos? Não se trata aí de possibilidade, mas de certeza.

O que acontece é que, no jargão jurídico, um indivíduo é suspeito até ser formalmente indiciado; a partir desse momento, passa a acusado e, só após a condenação em última instância, é que pode ser oficialmente chamado de criminoso. Trata-se de um cuidado que respeita o princípio da presunção de inocência. No entanto, a imprensa é a voz da sociedade, ela fala pela e para a sociedade. Logo, se por um lado os jornais não podem julgar e condenar, pois isso é prerrogativa do Poder Judiciário, por outro, soa hipócrita apresentar como mera hipótese a culpa de alguém preso em flagrante delito ou foragido em carro roubado após troca de tiros.

Apreendido

A mesma crítica pode ser feita a termos como “apreender um menor”, “ato infracional”, “medida socioeducativa”, etc. Se, para os operadores do direito, menores não cometem crimes, não podem ser presos nem cumprir pena (e por isso se instituíram eufemismos para falar sobre a criminalidade dos que têm menos de 18 anos), para a sociedade, um assassinato bárbaro praticado por um elemento de 17 anos e 362 dias não é um mero ato infracional, como o prova o atual clamor pela redução da maioridade penal. A questão é: de que lado estão os elaboradores de manuais de redação e estilo: do lado da sociedade, que clama por justiça, ou do lado dos juristas e legisladores, cuja concepção de justiça só é justa na opinião dos próprios?

Isso explica o sucesso dos programas de TV do chamado “jornalismo justiceiro”. Embora tenham um indisfarçável viés mercadológico, tais programas dizem o que o público quer ouvir e, por isso mesmo, têm tanta audiência. Nem é preciso ir tão longe: muitos comentaristas sérios, que diante das câmeras têm linguagem mais comedida, aproveitam os jornais e o rádio para, sem caluniar, injuriar ou difamar ninguém, “dar nomes aos bois”, tratando por bandido quem é bandido e por corrupto quem é corrupto. Afinal, a mesma justiça que presume a inocência do réu garante a chamada exceção da verdade: não é crime acusar alguém de um ato que ele efetivamente praticou.

De resto, meus sinceros sentimentos aos familiares das vítimas. E minha torcida para que essa prática da chacina em escolas, tão comum nos Estados Unidos, não vire moda no Brasil.

Direitos humanos e o direito à liberdade de expressão do pensamento

Dois fatos recentes – a decisão judicial que proibiu os examinadores do Enem de anular as provas de redação que porventura ferissem os direitos humanos e o afastamento do jornalista William Waack da Rede Globo após o vazamento de um vídeo com suposto teor racista – nos fazem pensar sobre os limites da liberdade de expressão do pensamento e da criminalização da linguagem.

Até a decisão liminar da ministra do Superior Tribunal Federal Carmen Lúcia sobre ação impetrada pelo movimento Escola sem Partido, os examinadores das provas de redação do Enem podiam zerar a nota de uma redação que eles entendessem ofensiva aos direitos humanos sem examinar qualquer outro quesito. Como professor de português, sempre achei questionável esse critério de avaliação – ou melhor, de não avaliação – de uma prova de redação, já que o que deve estar em julgamento é a capacidade de se expressar com clareza, coesão, coerência e correção gramatical, que todo aluno concluinte do ensino médio e pretendente a uma vaga universitária deve ter, e não suas posições ideológicas.

Da mesma forma como, durante o regime militar, era proibido e, mais do que isso, perigoso expressar opiniões que pudessem ser consideradas “de esquerda”, parece que hoje o jogo se inverteu, e o que é proibido ou execrável é ter posições que sejam vistas por certos grupos detentores de poder como “de direita”. Em tempos em que até a intolerância ao glúten pode ser vista como crime de intolerância, fica a impressão de que, para entrar na universidade, é preciso estar alinhado ideologicamente com aqueles que ditam as regras nas instâncias superiores da educação brasileira.

download

Hoje se tipifica um novo tipo de crime, o chamado crime de ódio, em que o criminoso tem como motivação de seu ato o pertencimento da vítima a um determinado grupo social, definido pela raça, religião, orientação sexual, deficiência física, etnia, nacionalidade, etc. Embora motivado pelo ódio (que é preciso distinguir de preconceito), o crime de ódio é fundamentalmente um crime, isto é, um ato de violência física, psicológica ou moral contra alguém. É, portanto, diferente da simples expressão do ódio, pública ou privadamente.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, há uma diferença fundamental entre o ódio puro e simples e a violência praticada em razão dele. Odiar é uma prerrogativa humana (e creio que exclusivamente humana) decorrente do fato biológico de termos sentimentos. Isso significa que, assim como posso amar chocolate, viagens, MPB, um determinado time de futebol ou astro do cinema, certas pessoas em particular (amigos, parentes, o cônjuge), também posso odiar certas comidas, lugares e pessoas. E como os sentimentos não são racionais, mas são o oposto cognitivo da razão, não preciso de um motivo lógico para amar ou odiar algo ou alguém. A questão é: a simples expressão verbal do meu ódio é por si só um crime de ódio? Não sou versado em Direito, mas quero crer que não, afinal a Constituição Federal garante a todos o direito à livre expressão do pensamento (e eu acrescentaria, do sentimento). Mesmo os pensamentos e sentimentos mais vis estariam sob essa garantia, pois a vileza ou não daquilo que se pensa ou sente é questão de valor e não de verdade.

Quanto ao preconceito, tal como definido pelos dicionários como um julgamento prévio que fazemos de algo ou alguém, ele não é, em princípio, nem bom nem mau. Qualquer juízo que eu faça sem conhecer profundamente o que ou quem estou julgando é um preconceito. O que significa que ele pode ser também positivo: posso superestimar precipitadamente as qualidades do objeto em questão, como supor que a comida de um restaurante é muito boa apenas porque sua fachada é bonita ou chique.

Na verdade, o preconceito é um mecanismo mental de que a natureza nos dotou e que tem sido imprescindível à nossa sobrevivência: é graças a julgamentos prévios e por vezes superficiais que tomamos a decisão de nos arriscar ou não em certas situações. O mesmo preconceito que pode me fazer desconfiar injustamente de uma pessoa mal-encarada numa rua escura pode salvar a minha vida caso minha suspeita esteja correta.

O fato é que posso ter certos preconceitos, mesmo que infundados, sem que eles se transformem em ódio, assim como posso nutrir ódio por certos indivíduos sem que ele se transforme em violência. Posso, finalmente, expressar o meu ódio ou reprovação a uma pessoa ou grupo de pessoas sem que isso configure crime. Especialmente se faço isso em situação privada, de modo que o próprio alvo da minha desafeição não saiba o que penso dele.

William-Waack-Reproduo

E aí chegamos ao caso William Waack. Sem dúvida, dizer que buzinar insistentemente é “coisa de preto” revela preconceito negativo. Aliás, preconceitos desse tipo pecam por generalização. Não é porque um negro trafega com os vidros do carro abertos e o som do funk no volume máximo que todos os negros se comportam assim (e, é óbvio, há brancos que também assim se comportam). Mas o que proponho à reflexão é: a expressão do desapreço injustificado por toda uma raça por causa de uma buzina insistente é em si um crime? Ainda mais se feita em contexto privado e que deveria ser mantido privado, não fosse a má-fé de algum desafeto que tornou pública essa manifestação, por meio do hoje tão em moda “vazamento seletivo”?

É claro, Waack não está sendo processado criminalmente (ainda), pois não cometeu crime algum, o que ele está é sendo moralmente linchado por ter revelado involuntariamente um lado politicamente incorreto que todos nós temos, principalmente em momentos de intimidade e descontração. Quem nessas situações nunca fez um comentário maldoso acerca de alguém, quem nunca riu de uma piada racista ou sexista, quem nunca aludiu à sexualidade alheia de modo depreciativo, que atire a primeira pedra!

O fato é que, hoje, as redes sociais amplificam a repercussão de algo que deveria ser estritamente íntimo e dão voz a um novo tipo de pessoas, os haters, odiadores profissionais, que fazem da expressão pública do ódio a quem consideram fora dos parâmetros de sua ideologia a razão de sua existência. Ou seja, em nome de seu direito de condenar a manifestação do ódio alheio, eles odeiam e praticam a violência moral contra pessoas cuja biografia lhes faz inveja. E odeiam você por sua opinião, seja ela qual for, preconceituosa ou não, odienta ou não, desde que não concordem com ela. E, nesse afã, impedem a diversidade de opiniões dentro da universidade simplesmente impedindo que os portadores de certas opiniões entrem na universidade. Ou ignoram todas as boas contribuições sociais que uma pessoa deu ao longo da vida, em seu trabalho sério e competente, por causa de um deslize verbal, por vezes impensado – ou mal interpretado –, que todos nós cometemos no dia a dia, sobretudo imersos que estamos numa cultura de herança patriarcal, escravista, colonialista e censitária, da qual nem nos damos conta.