Qual é a pronúncia correta do sobrenome do papa?

A recente eleição do cardeal americano-peruano Robert Francis Prevost como papa Leão XIV acendeu uma polêmica: como se pronuncia o sobrenome Prevost? Desde que a fumacinha branca saiu da chaminé da Capela Sistina, temos ouvido os jornalistas e seus entrevistados pronunciarem esse nome das mais diversas maneiras: prévost, prevóst, prevôst, prevôs, prevous… O próprio papa afirmou que pronuncia seu sobrenome como prevôs. Mas será essa a pronúncia correta? Meu sobrenome é Bizzocchi, de origem italiana, e sua pronúncia em italiano é bidzóqui, mas eu próprio pronuncio bizóqui para não soar afetado. Portanto, a pronúncia do papa não é garantidamente a mais correta, visto que ele é falante nativo da língua inglesa e seu sobrenome não é inglês.

Na verdade, esse sobrenome é de origem francesa e corresponde à antiga grafia do substantivo prévôt, que significa “preboste”, do latim praepositus, “preposto”. E o que é um preboste? E um preposto? Segundo a Wikipédia:

Preboste era um agente do senhor feudal ou do Rei, encarregado de ministrar justiça e gerir a propriedade que lhe era confiada, na Idade Média e durante o Antigo Regime.
Passou depois a designar um magistrado ou oficial responsável pela manutenção da lei e da ordem dentro do Exército. Hoje, em alguns exércitos é a designação do comandante ou do próprio serviço de polícia militar.
Esta função foi instituída pelo Rei Salomão.
[…]
No Brasil o termo preposto designa aquele quem tem poderes substabelecidos por um outorgante para o representar e defender em causas judiciais. Muito utilizado nas demandas da Justiça do Trabalho, conforme estabelecido nos artigos 483; 630; 843, §1º; 861, todos da CLT – Consolidação das Leis de Trabalho.
No Exército Português, até 1984, existiu um órgão central de direção de Polícia Militar/Polícia do Exército, denominado como Chefia do Serviço de Preboste, subordinado ao chefe do Estado-Maior do Exército, cuja função foi atribuída à Direção da Arma de Cavalaria em julho de 1984.

Portanto, a pronúncia correta de Prevost é prevô, pois, mesmo antes da reforma ortográfica que transformou prevost em prévôt, o s e o t já eram mudos. Da mesma forma como pronunciamos os sobrenomes portugueses Baptista e Assumpção como Batista e Assunção, o nome Prevost, mesmo grafado à moda antiga, deve ser pronunciado tal qual se fala hoje em dia.

Então, a partir de agora vocês já sabem: o nome do papa é prevô! Comecem a pronunciar assim e, se for o caso, corrijam seus amigos e familiares. Assim, dentro em breve todos estarão dizendo esse sobrenome corretamente.

Bolsonaro foi a Canossa

Um dos fatos históricos mais marcantes da Idade Média foi a chamada Questão das Investiduras, ou Querela das Investiduras. Trata-se de um conflito ocorrido de 1075 a 1122 entre o papa e o imperador germânico no qual se disputava a primazia na nomeação de bispos. Ocorria que o imperador Henrique IV desejava escolher ele mesmo os bispos a serem investidos dentro dos territórios do Império. Por outro lado, o papa não abria mão de seu poder sobre cardeais, bispos, abades e párocos. Assim, Henrique declarou guerra ao papado e, por causa disso, acabou excomungado pelo papa Gregório VII. Isso fez com que os barões alemães esboçassem a intenção de emancipar-se do jugo do imperador. Temendo a fragmentação de seu império, Henrique pediu ao papa que revogasse sua excomunhão.

Gregório VII exigiu então que o imperador viajasse de Speyer, na Alemanha, a Canossa, na Itália, e que permanecesse três dias e três noites ajoelhado às portas do castelo, sob frio e neve, descalço e trajando apenas uma túnica de lã. Cumprida essa penitência, o papa o recebeu e revogou sua excomunhão sob certas condições, que Henrique viria a violar pouco tempo depois.

Desse episódio histórico surgiram as expressões “penitência de Canossa” e “ir a Canossa” para designar um ato humilhante que alguém tem de praticar para conseguir o perdão por um malfeito.

Foi exatamente o que Bolsonaro foi obrigado a fazer ontem ao publicar uma carta à nação assinada por ele, mas redigida pelo ex-presidente Michel Temer, em que afirma não ter querido dizer aquilo que dissera em 7 de setembro sobre o STF e o ministro Alexandre de Moraes.

O fato de o presidente não ter redigido a carta com suas próprias palavras já põe em dúvida a sinceridade de seu conteúdo. Mas, como o que vale é a assinatura, para todos os efeitos – e para decepção de seus militantes – Bolsonaro fez um vexatório recuo estratégico. Ou seja, foi a Canossa.

Melhor para o Brasil, que já não tem poucos problemas a resolver. No entanto, o ceticismo é geral, não só dos ministros do Supremo, mas até mesmo dos próprios aliados políticos do presidente. Conhecendo o temperamento do capitão, estamos todos aguardando que ele, como Henrique IV, logo viole as promessas de bom comportamento que acabou de fazer. Como não é a primeira vez que ele morde e depois assopra, fica difícil acreditar nessa nova versão “Bolsonarinho paz e amor”.

País cristão ou país laico?

A recente polêmica sobre os decretos de fechamento temporário de templos religiosos, em que felizmente prevaleceu o bom senso, dá a dimensão do quão realmente laico é o estado brasileiro.

Como se sabe, a Proclamação da República, em 1889, marcou não só o fim da monarquia como também a separação entre Igreja Católica e estado brasileiro – até então, o catolicismo era a religião oficial do Brasil, com sérias implicações políticas em cujo mérito não vou entrar aqui. Só quero lembrar que o estado laico, isto é, que não privilegia nenhuma religião e dá ao cidadão a liberdade de consciência, credo e expressão, é uma conquista da modernidade que devemos aos filósofos iluministas do século XVIII.

Embora a ideia de que todos têm direito a escolher a crença religiosa (que implica o direito de não escolher nenhuma), como, de resto, o direito de escolher a tendência política, os governantes e parlamentares, o time de futebol preferido, etc., nos pareça óbvia hoje em dia, ela tem pouco mais de duzentos anos e só foi posta em prática efetivamente há pouco mais de cem anos. Por isso, a maioria dos países ocidentais, que vivem o chamado estado de direito, ainda não assimilaram totalmente esse princípio. O Brasil, que em matéria de estado de direito ainda está engatinhando, revela isso quando a legislação oficial prevê uma série de feriados religiosos católicos, mas não contempla as datas sagradas de outras religiões. Certa vez tive, por conta própria, de dispensar da aula uma aluna judia numa data comemorativa da sua religião que, obviamente, não estava prevista no calendário escolar da universidade.

Como, evidentemente, o calendário oficial não pode contemplar todas as datas sagradas de todas as religiões, até porque existem centenas de religiões no mundo e pelos menos várias dezenas delas no Brasil, o mais lógico numa república que se diz laica seria que apenas as datas cívicas fossem feriados. Muitos alegam que o Brasil é um país católico, daí comemorarmos até o dia da Padroeira do Brasil. Isso não é verdade: o Brasil é um país cujo povo é predominantemente, mas não totalmente católico. Portanto, católica é uma parcela da população, não o povo como um todo, menos ainda o estado.

Mas o que quero ressaltar aqui é o chauvinismo católico enrustido na nossa própria língua. Os defensores do politicamente correto, que vivem caçando as bruxas da intolerância racial, sexual, social, etc., ainda não atentaram para o fato de que expressões como “Nosso Senhor” ou “Nossa Senhora” embutem uma reverência a Jesus e a Maria que só cabe aos cristãos fervorosos. Num estado laico, o dia de Nossa Senhora Aparecida não deveria ser feriado pela razão acima exposta, bem como órgãos oficiais e meios de comunicação não vinculados à Igreja deveriam substituir “Nosso Senhor” e “Nossa Senhora” pelas denominações mais neutras “Jesus Cristo” e “Maria”, da mesma forma como deveriam evitar chamar o papa de Sua Santidade, a menos que dispensassem o mesmo tratamento (o que não costuma ocorrer) ao patriarca de Constantinopla, ao dalai-lama, e assim por diante. Aliás, tampouco tenho ouvido a mídia se referir à rainha da Inglaterra como “Sua Majestade” ou ao recém-falecido duque de Edimburgo como “Sua Alteza Real”.