A posição do sujeito e sua concordância com o verbo — respondendo a uma leitora

Minha leitora Patricia B. Limongi me fez uma pergunta interessante sobre uma dúvida que também pode ser, creio, de muitos outros leitores. Ela pergunta:

Em seu artigo Ainda sobre o português e o “brasileiro”, de 24 de março, o senhor critica os linguistas que defendem a abonação de construções como “aconteceu dois acidentes”.

De acordo com a gramática tradicional, que delimita nitidamente o grupo restrito dos verbos impessoais e classifica como pessoais todos os outros, nesse exemplo faltou a concordância verbal com o sujeito posposto. Mas, de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal, o que leva à tentativa de compreender a causa do fenômeno sintático e propor novas descrições para ele.

No livro Não é errado falar assim!, capítulo “Concordância com sujeito posposto”, Marcos Bagno diz que a ordem SVO está “tão enraizada no nosso processamento mental da língua que nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”. Ele cita a hipótese de Mattoso, segundo a qual, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal. E conclui:

O mais democrático a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância. Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal.

Acho essa explicação muito lúcida e convincente. A minha dúvida é esta: existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?

Em resposta a ela, esclareço que, em primeiro lugar, existe uma diferença entre a linguística descritiva e a gramática normativa. A primeira descreve e explica como as pessoas falam e/ou escrevem nas mais diversas situações de comunicação. A segunda prescreve como as pessoas devem escrever textos formais (acadêmicos, técnicos, científicos, jurídicos, jornalísticos, literários, etc.) consoante o próprio modelo de referência já empregado nesses textos. A gramática estabelece uma norma, um modelo exemplar de uso da língua nas situações mais formais, como são os textos profissionais. E, para isso, ela toma como padrão o uso feito pelos melhores prosadores do idioma, pessoas de comprovada alta cultura linguística — e, evidentemente, cultura geral — e não apenas portadoras de diploma de nível superior (muitas das quais hoje em dia analfabetas funcionais). Se queremos estabelecer um padrão exemplar de bom uso da língua, devemos buscar os melhores exemplos (literários e não literários) de uso e não nos pautar pela mediocridade de textos jornalísticos de internet escritos por estagiários (isto é, estudantes ainda não formados de faculdades de jornalismo de qualidade duvidosa) ou de textos técnicos (relatórios, petições, contratos, trabalhos escolares — incluindo teses acadêmicas) redigidos por profissionais de letramento deficiente, que não são raros entre nossos advogados, engenheiros, médicos e pós-graduandos em geral.

Portanto, os exemplos supostamente encontrados pelos linguistas descritivistas de construções desviantes da norma-padrão, mesmo que produzidos por redatores de nível superior, não podem justificar a mudança dessa norma — ainda mais para acolher usos que são fruto de má escolarização.

Aliás, normatizar o padrão culto da língua é tarefa dos gramáticos e não de linguistas. Ao tentar legislar sobre a norma-padrão, certos linguistas invadem uma atribuição profissional que não é sua. E o fato é que, por mais que esbravejem contra a gramática normativa, os gramáticos vão continuar a exercer seu ofício sem lhes dar ouvidos, e as pessoas de bom senso vão continuar a seguir as recomendações da gramática ao redigir seus textos. O mal que esses linguistas causam é que eles doutrinam seus alunos, futuros professores de português, a não ensinar gramática, e assim a educação no Brasil, que já é péssima, fica ainda pior.

A questão é justamente a confusão que linguistas como Marcos Bagno fazem entre descrição e normatividade. Confundem registro coloquial com registro culto, modalidade falada com modalidade escrita, gêneros textuais menos formais com gêneros textuais mais formais e colocam tudo num mesmo balaio. Pior: usam critérios da linguística descritiva para orientar a elaboração da gramática normativa, duas atividades que têm lógicas e propósitos totalmente diferentes. O papel da gramática normativa é descrever e, em consequência disso, normatizar os usos linguísticos das pessoas verdadeiramente cultas da sociedade, a partir da modalidade escrita desses indivíduos em gêneros textuais de maior grau de cultivo, esmero, cuidado da língua, ou, se se desejar, de formalidade, visando a uma norma supradialetal — a norma-padrão. Isso não tem nada a ver com o modo como as pessoas de média ou baixa cultura linguística falam ou escrevem no seu dia a dia em situações de pouca ou nenhuma formalidade ou mesmo em situações em que deveriam ser formais, mas não têm plena proficiência para isso.

Outro ponto que preciso destacar é quando Patricia afirma que “de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”. A questão é que esses linguistas jamais provam o que afirmam. E ciência se faz com provas, fatos concretos, evidências que possam ser constatadas e não com opiniões, impressões pessoais ou achismos. Eu mesmo leio frequentemente textos formais dos mais diversos tipos (livros, artigos científicos, dissertações, teses, colunas em jornais e revistas, etc.) e, contrariamente ao que afirmam Bagno e seus colegas, nunca encontro construções como “aconteceu dois acidentes”. Mas, para não contrapor a minha visão pessoal à deles, cito o meu colega Prof. Fernando Pestana, que em sua dissertação de mestrado desmascarou as mentiras (sim, mentiras!) propaladas por Bagno, Faraco, Possenti, Perini, Ataliba e outros, fazendo um extenso, exaustivo e minucioso levantamento dos usos encontrados em textos cultos. Sobre a não concordância do verbo com sujeito posposto, ele apresenta os números que estão na seguinte tabela, na qual DNP significa “dentro da norma-padrão” e FNP, “fora da norma-padrão”:

Vejam os números e concluam por vocês mesmos. São números como esses que os linguistas citados por ela jamais apresentam, provavelmente porque contradizem suas teses.

O fato é que a definição de sujeito apresentada pelas gramáticas normativas dá conta perfeitamente da realidade dos usos que compõem a norma que elas delineiam.

Se, portanto, é um fato comprovado e comprovável que os usuários realmente cultos 99% das vezes pluralizam o verbo cujo sujeito simples plural venha posposto, o papel da gramática normativa é registrar essa regularidade, esse padrão, delimitando assim tal concordância verbal.

Quando Bagno afirma que “essa forma [Aconteceu dois acidentes] é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”, está apenas reiterando a arbitrariedade mentirosa registrada em sua própria gramática.

Quanto à definição de sujeito, é preciso esclarecer que o que define um elemento sintático como sujeito ou como objeto direto não é sua posição na oração (antes ou depois do verbo) e sim sua função sintáxico-semântica, também chamada de papel temático. Tanto que, em latim, a ordem das palavras na oração é totalmente livre, mas sujeito e objeto jamais se confundem, e o verbo sempre concorda com o sujeito.

Segundo Bernard Pottier, criador da sintaxe-semântica, o sujeito exerce funções, chamadas por ele de casos, que são o nominativo, o ergativo, etc., ao passo que o objeto exerce os casos acusativo, dativo, benefactivo, e assim por diante.

Na teoria dos papéis temáticos, as funções semânticas (ou “papéis”) são: agente, fonte, experienciador, locativo, alvo e tema. O sujeito é sempre agente, fonte ou experienciador; o objeto é sempre alvo ou tema. Portanto, em “aconteceu dois acidentes”, dois acidentes está no caso ergativo e não no acusativo, logo não pode ser objeto de um suposto verbo impessoal transitivo direto acontecer. Segundo a teoria dos papéis temáticos, dois acidentes é fonte e não alvo, portanto novamente só pode ser sujeito e não objeto direto.

Quando Bagno afirma “nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”, eu pergunto: nós quem, cara pálida? Uma coisa é a análise subjetiva e ingênua (no sentido de “não técnica, não especializada”) que um falante comum, de baixa ou média escolaridade, faz da língua; outra é a análise técnica e abalizada que um estudioso faz com base em modelos científicos testados e comprovados.

Quando Mattoso Câmara, um linguista mil vezes maior do que Bagno, afirma que, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal, ele está se referindo à análise subjetiva e ingênua do falante comum de baixa ou média escolaridade e não à estrutura sintática real da língua, só acessível mediante estudo por pessoas de alto letramento e pesquisadores qualificados, como o próprio Mattoso. Aliás, ele próprio contrapõe em sua obra a visão ingênua e subjetiva do falante comum à estrutura real da língua, objeto de estudo da linguística. E em nenhum momento ele afirma que esta deva ser substituída por aquela, especialmente na elaboração de gramáticas normativas. A linguística descritiva explica como o falante comum interpreta os fatos de língua, o que não significa que essa interpretação seja sempre correta.

Por fim, gostaria de chamar a atenção para as palavras de Bagno: “O mais democrático (grifo meu) a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância”. Agora temos Bagno fazendo o que ele sempre faz: introduzindo juízos de valor de natureza político-ideológica em um discurso científico, que, como tal, deveria primar pela impessoalidade, imparcialidade, objetividade e isenção, atendo-se estritamente aos fatos observáveis e eximindo-se de qualquer opinião. Ciência se faz com juízos de verdade e não com juízos de valor. Não existe ciência democrática, inclusiva, identitária, antirracista, liberal, conservadora, esquerdista, direitista…, existe apenas ciência. Seu papel é descrever e tentar explicar fatos concretos, objetivos e efetivamente observados à luz da razão, do raciocínio lógico e de modelos teóricos já testados e comprovados. O pesquisador pode ter suas convicções políticas e pode inclusive externá-las em artigos jornalísticos, em entrevistas à imprensa, em palestras, mas não em trabalhos científicos; aí, ele deve exclusivamente expor os fatos e apresentar conclusões que decorram estritamente desses fatos e não de seus desejos pessoais, por mais nobres que sejam. Defender uma posição política num trabalho científico é absolutamente inadmissível e depõe contra a própria credibilidade desse trabalho!

Quando um autor como Bagno publica um livro chamado Não é errado falar assim!, ele induz o leitor incauto a pensar que certas construções são aceitáveis em situações formais quando não o são e assim leva esse leitor a ter prejuízos pessoais, como ser reprovado em um processo seletivo. O que ele faz é um desserviço à sociedade!

Acrescento ainda que o que Bagno propõe é uma complicação ainda maior da norma-padrão. Hoje o verbo concorda com o sujeito em 100% dos casos; na proposta dele, passaríamos a ter casos em que há concordância e casos em que não. Por que criar exceções a uma regra e tornar ainda mais complexo o que já não é simples?

Bagno ainda afirma: “Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal”. Ora, como um mesmo elemento pode exercer duas funções sintáticas tão distintas quanto sujeito e objeto direto? Que tipo de análise sintática é essa? Bagno fala tanto em ciência e, no entanto, sua análise “científica” pode ser qualquer uma, ao gosto do freguês?

Em resumo, o papel da gramática normativa é registrar o que efetivamente se usa na norma culta do idioma e recomendar que se obedeça a esse padrão ao se escreverem textos formais. A gramática normativa não é nem pode ser democrática e muito menos demagógica, como propõe Bagno. Sua proposta é simplesmente populista e anticientífica. O fato de existir no sistema da língua e na norma coloquial/popular/vulgar uma estrutura A e uma estrutura B, facilmente comprovadas (seja na fala, seja na escrita de qualquer brasileiro), não implica a automática existência de ambas na norma culta, pois só uma delas efetivamente existe nessa norma, a saber: “aconteceram dois acidentes”. É isso que Bagno e todos os seus seguidores não entendem (ou fingem não entender), apesar de quererem muito acreditar que “aconteceu dois acidentes” já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro, o que é nada menos do que uma insustentável mentira.

Assim, à pergunta de Patricia “existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?”, o que posso responder é que toda a tradição gramatical, com sua definição clássica de sujeito, e também toda a teoria sintática desenvolvida pela linguística estruturalista e pós-estruturalista (gerativista, cognitivista, etc.) invalidam essa análise, que, como disse, é descritiva e não normativa e parte da interpretação do falante ingênuo sobre um fato de língua e não sobre o fato de língua em si.

Espero que esta minha resposta tenha sido esclarecedora a Patricia e a todos os meus leitores.

Sobre descrever, prescrever — e mentir (ou “A falácia do espantalho”)

Recentemente, o linguista Marcos Bagno publicou no site da Editora Parábola um artigo intitulado O certo, o errado, a ciência e a má-fé, no qual apresenta diversas informações e argumentos a respeito da linguística enquanto ciência e de sua tarefa de descrição da língua que merecem alguma reflexão.

Bagno começa explicando que a gramática, também chamada de gramática normativa ou gramática tradicional, nascida na Grécia Antiga, tem por objetivo fixar uma norma, isto é, um padrão, para a língua. Em suas palavras,

[f]ixar uma norma significa, inescapavelmente, fazer escolhas, e fazer escolhas significa, inevitavelmente, descartar tudo o que sobra depois de feita a seleção. O que a norma seleciona então passa a ser o certo, o correto, o aceitável, enquanto o que não entra na norma é o anormal, o equívoco, o que deve ser evitado.

É evidente que toda norma, seja ela linguística, técnica, jurídica ou de qualquer outra espécie, opera escolhas — quase sempre segundo critérios razoáveis — cuja observância  passa a ser recomendável (em alguns casos obrigatória) pelos profissionais da respectiva área. Logo, toda norma diz o que deve ou não deve ser feito em tal ou qual situação. Por exemplo, os plugues e as tomadas atualmente em uso no Brasil (maldosamente chamadas de “tomadas do Lula”) seguem um modelo determinado pela ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas. Isso significa que todos os fabricantes de plugues, tomadas, máquinas, eletrodomésticos e aparelhos elétricos em geral devem seguir esse modelo. É claro que um determinado fabricante pode produzir e colocar no mercado produtos fora desse padrão, só que, por razões óbvias, eles não terão aceitação, pois o plugue não encaixará na tomada. É claro também que o modelo escolhido como padrão poderia ser outro, mas a ABNT deve ter tido boas razões técnicas para eleger o que está atualmente em uso.

A norma gramatical funciona da mesma maneira que as normas da ABNT: é preciso que haja uma padronização da linguagem escrita formal para que as pessoas se entendam sem equívocos ou ambiguidades em atos de comunicação que impliquem grande responsabilidade. A gramática não obriga ninguém a escrever segundo suas normas, mas, em muitos casos, sobretudo profissionais, quem não o fizer estará sujeito a sanções, que podem ir desde a mera advertência até a perda do emprego.

A seguir, Bagno explica que a linguística nasceu como ciência descritivo-explicativa no século XIX e que, como toda ciência, não faz juízos de certo e errado, mas analisa os fenômenos linguísticos de forma objetiva. Nesse sentido, reconhece que muitos fatos apontados pela gramática como erros são, na verdade, formas desviantes que denunciam o fenômeno da mudança linguística, isto é, da evolução histórica da língua. E Bagno enumera uma série de exemplos de como palavras do latim se transformaram até chegar ao português, o que demonstra que ele não faltou às aulas de linguística histórica. E argumenta corretamente que nada na língua é por acaso (aliás, esse é o título de um de seus livros): as mutações seguem padrões fixos e previsíveis, o que contempla um dos princípios básicos de toda ciência, que é o chamado determinismo científico (as mesmas causas, nas mesmas condições, devem produzir sempre os mesmos efeitos).

Mas Bagno confunde alhos com bugalhos ao confrontar o trabalho do linguista com o do gramático. O primeiro analisa a língua como ela é, em todas as suas variedades, inclusive as variedades não padrão, isto é, aquelas que costumamos atribuir às pessoas menos letradas, pois “o erro de hoje pode vir a ser o acerto de amanhã”. Já o gramático tem a tarefa de normatizar uma variedade específica da língua, o padrão escrito formal, também chamado de norma-padrão.

Assim como os físicos estudam todos os materiais condutores de eletricidade sem fazer juízos de valor sobre eles, os linguistas estudam todas as formas de manifestação linguística sem julgá-las. Da mesma maneira, assim como os engenheiros da ABNT têm de escolher, dentre todas as possibilidades de conduzir eletricidade de uma tomada para um plugue e deste para um equipamento, um determinado modelo de plugue e de tomada, os gramáticos precisam escolher as estruturas linguísticas que farão parte da norma que orienta a redação de textos formais. E seu critério tem sido a média dos usos dos melhores prosadores contemporâneos da língua, tanto ficcionistas quanto não ficcionistas, sobre cuja alta qualidade haja consenso.

Portanto, de um ponto de vista linguístico e, por conseguinte, científico, não há certo e errado, há apenas fatos a serem descritos e explicados, o que o próprio Bagno reconhece em seu artigo. Já, de um ponto de vista normativo, que é o ponto de vista da gramática aplicada a textos formais, há o recomendável e o não recomendável — ou, se preferirem, o “certo” e o “errado”. Obviamente, a gramática não é nem nunca foi uma camisa de força, e os bons prosadores, sejam eles ficcionais, ensaísticos ou técnicos, sempre tiveram liberdade para transgredir aqui e ali as normas (assim como todos temos a liberdade de conectar um benjamim à tomada antiga para ligar um eletrodoméstico novo, que segue o atual padrão ABNT).

No entanto, Bagno afirma que “pelo fato de descrevermos e explicarmos esses fenômenos de mudança, muitas pessoas dão um salto ideológico adiante e acham que estamos ‘defendendo’ os erros e até incentivando as pessoas a ‘falar errado’”. De fato, muitos leigos em linguística nos fazem esse tipo de acusação, o que demonstra seu desconhecimento da diferença entre descrever e prescrever. O problema começa quando linguistas, que devem descrever a língua, se põem a prescrever usos distintos daqueles recomendados pelas gramáticas tradicionais, gerando desorientação na cabeça de quem apenas precisa redigir textos formais aceitáveis.

Bagno demonstra lucidez ao afirmar que “o que defendemos é que, sim, todas e todos devem ter garantido o acesso à escolarização de qualidade, a única que permite a ampliação do repertório linguístico das cidadãs e dos cidadãos, o contato com as normas de prestígio e sua inserção na cultura letrada”.

Entretanto, em sua Gramática pedagógica e em outros escritos seus, ele abona usos que de modo algum fazem parte da “cultura letrada”, como eu encontrei ele, ela está meia cansada, chegou os novos livros, e coisas do gênero.

Em primeiro lugar, não há conflito entre o fazer descritivo da linguística e o fazer prescritivo da gramática. São atividades diferentes com propósitos e objetivos diferentes. Em segundo lugar, pode-se sugerir que a gramática abone usos que já estão consagrados na escrita de pessoas cultas (e culto aqui significa “portador de alto letramento, vasto conhecimento e muitas horas de leitura” e não apenas “portador de diploma universitário e vivência urbana”), como assistir o filme paralelamente a assistir ao filme ou estou me lavando concomitantemente a estou-me lavando ou estou lavando-me. Aliás, nem é preciso sugerir: os gramáticos da atualidade já fazem isso por dever de ofício.

Mas Bagno ridiculariza a gramática e os gramáticos dizendo que “a gramática é uma ‘religião’ mais antiga que o cristianismo, o que faz as pessoas considerarem os compêndios gramaticais como livros quase sagrados, merecedores de toda reverência, e seus autores como uma casta de sacerdotes de uma seita esotérica”. E também, como é seu costume, lança insultos contra seus críticos, com termos como “má-fé encharcada de ideologia fascistoide”, “terraplanismo linguístico”, “má-fé, ignorância e alinhamento ideológico assumidamente reacionário — a santíssima trindade do fascismo clássico”, “bravatas hidrófobas”, “cão raivoso”, e várias outras ofensas. Tudo porque esses críticos, dentre os quais me incluo, apontam na obra de Bagno inúmeras inverdades, imprecisões, afirmações sem prova ou, o que é pior, alegações que vão de encontro às evidências empíricas. Não tendo como se defender, ele parte do princípio de que “a melhor defesa é o ataque”. E ainda lança mais uma inverdade: a de que a crítica recai indistintamente sobre todos os linguistas que descrevem a língua portuguesa em suas diversas variedades, como se todos eles estivessem sustentando as teses não comprovadas e não comprováveis de Bagno.

Quem me acompanha desde os tempos em que escrevia na saudosa revista Língua Portuguesa sabe que sempre advoguei uma simplificação da norma-padrão do português, a exemplo do que já aconteceu com as normas de nossas línguas-irmãs, o espanhol, o francês e o italiano. Mas “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, ou “devagar com o andor que o santo é de barro”: de um lado, pode-se perfeitamente flexibilizar a colocação pronominal (o que já acontece na prática em textos verdadeiramente cultos), até porque a regra atual é extremamente complexa; de outro lado, não se pode chancelar no âmbito da escrita culta formal usos que atualmente estão restritos à fala das pessoas de baixo letramento, como meia cansada ou chegou os livros. Talvez um dia, seguindo os metaplasmos naturais da língua que Bagno didaticamente ilustrou em seu artigo, a forma pobrema venha a ser incorporada à norma-padrão, assim como problema venha a ser apontado como arcaísmo. Mas, por enquanto, pobrema é inadmissível em textos formais, da mesma forma como fresta seria inadmissível no português do século XIII, em que o “certo” era feestra.

Em outra postagem, desta vez no Facebook, Bagno, em coautoria com Carlos Alberto Faraco, diz: “Não conheço um(a) linguista que tenha proposto que usos como ‘os menino chegou’ ou pronúncias como ‘praça’, ‘pranta’, ‘trabaio’ sejam considerados recomendáveis e dignas (sic) de figurar numa norma de referência para os usos formais da língua”. Só que em sua Gramática pedagógica, ele assevera que no português brasileiro culto, inclusive escrito, estão corretos tanto Aconteceram dois acidentes na estrada quanto Aconteceu dois acidentes na estrada.

E no próprio trecho citado acima, Bagno constrói uma oração cujo sujeito composto usos e pronúncias concorda (concorda?) simultaneamente com o adjetivo masculino considerados e o feminino dignas. Distração, falta de revisão ou mais uma inovação de sua proposta gramatical, que ele chama de “social-democrata”?! Ou seja, o esquerdista radical Marcos Bagno agora é social-democrata, ao passo que os verdadeiros social-democratas, que defendem educação de qualidade para todos em vez de um nivelamento por baixo da norma e de seu ensino, são os reacionários e fascistoides.

Uma última observação: numa terceira postagem, também no Facebook, Bagno afirma:

Não temos absolutamente nada contra quem quiser seguir à risca as prescrições tradicionais. Nosso projeto é democrático, não é autoritário: ninguém quer substituir uma norma por outra, apenas mostrar que, no século 21, é interessante que haja uma norma do século 21, em que as pessoas se reconheçam. Mas quem quiser continuar a escrever como Rui Barbosa, escreva e seja feliz, mas deixe a gente em paz.

Daí se depreendem duas conclusões.

Primeiro, que a norma proposta por Bagno e seus seguidores não quer substituir a norma-padrão vigente, mas sim conviver com ela. Então cabe a pergunta: qual das duas o cidadão comum, que precisa redigir textos profissionais, deve seguir? A coexistência de duas normas diferentes só servirá para confundir ainda mais a cabeça de estudantes e profissionais que precisam escrever.

Segundo, pessoas que seguem à risca a norma atual não estão escrevendo como Rui Barbosa — a não ser os chamados operadores do Direito, que adoram um linguajar preciosista e rebarbativo, só que estes são incorrigíveis —, mas redigem como o próprio Bagno redigiu suas três postagens aqui citadas, o que mostra que o tão propalado abismo existente entre a norma atual e o modo como as pessoas bem escolarizadas escrevem no século XXI não passa de ficção — ou de um espantalho. É bem verdade que em sua Gramática, Bagno comete vários desvios em relação à norma, mas percebe-se claramente que são desvios forçados e não espontâneos, isto é, que Bagno não escreve assim normalmente, mas “forçou a barra” na referida obra para marcar posição e com isso criar um inimigo imaginário contra o qual possa dirigir sua rebeldia sem causa.

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Em tempo: para mais informações sobre essa “falácia do espantalho”, visitem os seguintes links: https://www.facebook.com/share/p/YVDxgHB3jk7Dizdq, https://www.facebook.com/share/p/rxijwSajUgbqMj7a e https://www.facebook.com/share/p/Pa21U3sdtCtK2Ugo/?mibextid=oFDknk.

Viva a linguística brasileira! Mas qual linguística?

Neste último Dia do Trabalho, o linguista Marcos Bagno não perdeu a oportunidade de atacar aqueles que elegeu como inimigos: os gramáticos normativos, os elaboradores de concursos públicos e, de modo geral, todos aqueles que prezam uma linguagem elegante, culta, bem elaborada e bem redigida. Ele publicou a seguinte mensagem no Facebook:

De fato, os linguistas brasileiros, a quem ele se refere como “as e os linguistas”, instituindo o artigo definido não seguido de nome, têm realizado um grande trabalho de descrição da língua portuguesa falada no Brasil — que o próprio Bagno advoga não ser mais língua portuguesa e sim língua brasileira, donde temos aqui sua primeira contradição. E têm elaborado compêndios de descrição dessa língua que podem, sim, ser chamados de gramáticas. Mas aqui é preciso fazer um alerta: há dois tipos básicos de gramáticas. Primeiramente, as descritivas, de objetivo fundamentalmente científico, que descrevem a língua tal como ela é efetivamente usada num dado momento de sua história pelos falantes e escreventes, e que pode focalizar um determinado estrato social (o linguajar culto, popular, iletrado), vários ou todos. Em segundo lugar, as normativas, com finalidade essencialmente pedagógica, que recomendam os melhores usos para a escrita formal com base no exemplo dos mais respeitados e competentes prosadores contemporâneos da língua, literários e não literários (isto é, acadêmicos, jurídicos, jornalísticos, etc.).

O que os linguistas normalmente produzem são gramáticas descritivas, que não servem como guias para o ensino da norma-padrão nem são pensadas para esse fim; seu uso deve ser restrito à própria pesquisa científica, logo são gramáticas feitas por linguistas para linguistas.

Por sinal, a Gramática pedagógica de Marcos Bagno, embora seja descritiva — e nessa descrição contenha diversos erros teóricos e metodológicos —, pretende, como diz o título, ser pedagógica. Noutras palavras, Bagno propõe que se ensine os estudantes a escrever textos cultos e formais num linguajar que é um misto de língua escrita e falada, e de nível formal e informal. Ou seja, sua própria gramática não é um bom exemplo do esplêndido trabalho de descrição da língua portuguesa do Brasil feito pelos linguistas profissionais. Quanto às “mentiras” difundidas por esses linguistas, a própria gramática de Bagno é um imenso repositório delas. Na verdade, a maioria dos linguistas profissionais brasileiros é séria, responsável, intelectualmente honesta e sabe aplicar corretamente o método científico, não falsificando ou manipulando dados nem apresentando conclusões que não possam ser deduzidas desses dados. As “mentiras”, no caso, se devem a meia dúzia de maus linguistas, incluindo o próprio Bagno, que misturam ciência com política e usam do trabalho científico para exercer sua militância. Essas “mentiras”, bem como inúmeras contradições e incoerências, vêm sendo apontadas uma por uma — inclusive as presentes nos escritos de Bagno — de forma absolutamente fundamentada e estão disponíveis na mesma internet que ele usa para atacar seus desafetos. Somando-se isso à enorme e secular produção gramatical de cunho normativo da língua portuguesa, há um cabedal de conhecimentos mais do que “minimamente comparável a tudo isso”.

Quanto aos concursos públicos, concordo com ele que haja pessoas (não necessariamente uma máfia) que lucram com esse processo: professores, cursinhos, autores de livros didáticos, sem falar nos próprios elaboradores e examinadores das provas desses concursos. Mas o problema (a praga tipicamente nacional) são os concursos em si e não os profissionais que veem neles uma oportunidade de prestar serviços. Já critiquei em outras oportunidades essa instituição brasileira do “concurso público”, uma prova de múltipla escolha que não avalia a real competência do candidato, não leva em consideração seu currículo e experiência profissionais e é simplesmente a porta de entrada para um emprego estável e geralmente remunerado muito acima da média do mercado, no qual o aprovado vai muitas vezes “encostar seu corpo” pelo resto da vida às custas do dinheiro do contribuinte.

O grande problema das provas de língua portuguesa desses concursos é que os elaboradores e examinadores se apegam a uma visão estreita do que seja o normativamente correto, atendo-se às vezes a uma única gramática e reprovando construções abonadas por outras gramáticas que não aquela tomada como referência. Como resultado, não é rara a judicialização dos gabaritos dessas provas.

Quanto às e aos linguistas profissionais do Brasil, estão de parabéns todos aqueles que fazem ciência de verdade, com seriedade e responsabilidade, sem viés político-partidário. Nesse sentido, faço coro à exaltação de Marcos Bagno: viva a linguística brasileira! Mas a linguística verdadeira, não esse arremedo de linguística feito por ele e seus asseclas.

Mentiras “linguísticas” reveladas

Hoje reproduzo um artigo magistral do meu amigo, o gramático, linguista e professor Fernando Pestana, que desmascara a falsa ciência que vem sendo feita por certos colegas linguistas em nome de uma pauta ideológica, que desvirtua métodos, falsifica dados, ignora fatos para fazer triunfar dentro das universidades uma agenda política. Eis o artigo.

Há três frases — atribuídas aos escritores Millôr Fernandes, Anaïn Nis e Bertolt Brecht — que me marcaram profundamente:

1. Jamais diga uma mentira que não possa provar. (MF)
2. A origem da mentira está na imagem idealizada que temos de nós próprios e que desejamos impor aos outros. (AN)
3. Quem conhece a verdade e a chama de mentira é um criminoso. (BB)

No artigo do linguista Marcos Bagno intitulado “Norma linguística, hibridismo e tradução” (2012), lê-se o seguinte:

Aqueles que, por outro lado, usam a expressão “norma culta” como um conceito, como um termo técnico, agem exatamente ao contrário: primeiro investigam a atividade linguística dos falantes em suas interações sociais, para depois dizer o que é essa atividade, por meio de instrumental teórico consistente. Com base nessa investigação e nessa análise é que os linguistas podem AFIRMAR, por exemplo, que o PRONOME ‘CUJO’ DESAPARECEU DA LÍNGUA FALADA NO BRASIL, inclusive da língua falada pelos BRASILEIROS CLASSIFICADOS DE CULTOS; que o FUTURO SIMPLES DO INDICATIVO (eu cantarei) também SOBREVIVE APENAS na escrita mais formal… (p. 24; grifos meus)

Sim. Foi exatamente isso que você leu. Em outras palavras, frases como “Moramos num país CUJA população é pouco letrada” e “Só INICIAREI a palestra daqui a pouco” só sobreviveriam na escrita mais formal do brasileiro culto, e não em sua fala. Será?

[Mas o que é um brasileiro culto? De acordo com a opinião de muitos linguistas brasileiros influentes, os falantes CULTOS são “definidos por dois critérios de base: escolaridade superior completa e antecedentes biográfico-culturais urbanos” (Bagno, 2012:24). Basta preencher esses dois critérios e, num passe de mágica, você se torna uma pessoa culta.]

Segundo esse linguista, sem apresentar nenhuma fonte comprobatória, as pesquisas científicas do português brasileiro falado comprovam que o pronome relativo “cujo” DESAPARECEU (puf!) na fala dos brasileiros (inclusive cultos); além disso, de acordo com Bagno, os brasileiros cultos NEM SEQUER usam na sua fala as formas verbais simples de futuro do presente do indicativo.

Note que o estudioso generaliza, pondo no mesmo balaio todos os cientistas, como se a sua palavra fosse a batida do martelo em nome da ciência, a respeito desse pleno sumiço do pronome “cujo” e do “futuro simples” da fala dos brasileiros: “Com base nessa investigação e nessa análise é que OS LINGUISTAS podem afirmar…”. Olha o maroto artigo definido aí.

Ora, é verdade que todos os linguistas pensam assim? Espero que se manifestem os linguistas que me leem.

Será que os brasileiros cultos realmente não usam mais o “cujo” e as formas verbais no futuro do presente simples em sua fala? Aguardo os comentários de vocês, leitores brasileiros.

Será que esses dois fatos linguísticos estão mortos e enterrados na fala do brasileiro, conforme ensinado por Bagno e outros que com ele concordam?

Ainda que se defenda a ideia de que o pronome relativo “cujo” não faz parte da gramática internalizada do falante contemporâneo (em geral), faz parte da gramática adjacente. Afinal, nem todas as formas linguísticas são internalizadas, e sim adquiridas no ambiente escolar e/ou a partir do letramento eficiente — e que bom! É desse modo que nos valemos de novas formas da língua, como certas conjugações verbais, certos empregos e colocações pronominais, certas regências, certas concordâncias, etc. para podermos transmitir, de modo mais pleno e diversificado possível, os nossos pensamentos. Logo, tais formas adjacentemente naturais existem, do contrário não seriam produtos humanos de ordem linguístico-cultural.

Diremos, então, que essas formas adquiridas e produzidas por meio do contato com a norma culta INEXISTEM na fala do brasileiro? Não faz o menor sentido.

O fato de umas serem, na fala de brasileiros cultos, mais (ou menos) frequentemente usadas do que outras não as torna necessariamente arcaísmos ou fósseis linguísticos, como obviamente é o caso destes sepultados anacronismos (na fala): a apossínclise, o haver existencial antecedido de sujeito, muitas formas da 2ª pessoa do plural, certas locuções verbais, certas regências, certos gêneros de substantivos, certas formas verbais abundantes, certas contrações pronominais, etc.

Importante: nossa religião, como cientistas da linguagem, deve ser a busca pela verdade para que ela nos liberte das mentiras. Para isso, é preciso HONESTIDADE INTELECTUAL. Não diga amém a tudo que você lê no ambiente acadêmico. Faça o que deve ser feito: conteste, questione, busque os fatos e o rigor do método, sempre!

Foi o que fiz. Convidei 10 alunos meus (professores de Português) para analisarmos a linguagem falada pelos brasileiros — sobretudo os considerados “cultos” — durante todo o mês de janeiro de 2024: foram 31 dias ouvindo brasileiros falando, a fim de rastrear esses únicos dois fatos linguísticos ditos inexistentes (!) da norma brasileira falada.

Pois bem… Chegou a hora. Eis a metodologia usada e os resultados:

1. Abrimos o YouTube.

2. Assistimos aos vídeos de canais, programas, podcasts, debates e afins cujos convidados são, segundo os critérios atuais dentro da Linguística brasileira, cidadãos brasileiros enquadrados como cultos — jornalistas, políticos, comentaristas políticos, professores, juristas, teólogos, linguistas, filósofos, historiadores, empresários…

3. Procedemos à pesquisa durante todos os dias do mês de janeiro. Os vídeos foram quase todos desses últimos anos, sobretudo de 2023. Tomamos o cuidado de não repetir os vídeos analisados; no entanto, caso tenha havido alguma repetição, não foi intencional.

4. Observamos, com calma e atenção, a fala espontânea dessas pessoas, nas situações mais formais de comunicação, em geral. Importante: só buscamos avaliar o discurso falado delas; portanto, citações de terceiros e leituras de texto escrito não foram computadas em nossa pesquisa — caso tenha havido algum equívoco pontual nesse sentido, não foi intencional.

5. Foram anotadas todas as ocorrências das duas estruturas gramaticais ditas inexistentes no português brasileiro (o pronome relativo “cujo” e as formas verbais simples do “futuro do presente do indicativo”), neste esquema:

a) o link do vídeo;
b) o nome do canal;
c) a data;
d) o título do vídeo;
e) o nome completo de cada indivíduo e sua profissão (alvo das anotações); e
f) a minutagem exata de cada ocorrência das duas estruturas gramaticais a ser analisadas.

6. Como resultado, chegamos (I) ao seguinte número de horas analisadas, (II) ao grupo de falantes diferentes (considerados “cultos”, segundo os critérios atuais) e (III) à quantidade de ocorrências do futuro do presente simples e do pronome relativo “cujo”:

I. 134 horas, 29 minutos e 6 segundos;
II. 103 falantes diferentes;
III. Futuro do presente simples: 251 ocorrências; pronome relativo “cujo”: 16 ocorrências.

[Importante: aos 45 do segundo tempo, no apagar das luzes, um amigo me indicou um site que rastreia o uso de palavras e expressões faladas em vídeos no Youtube. Como encontramos poucas ocorrências do pronome relativo “cujo” nessa peneira tradicional durante 31 dias de investigação, o que já seria suficiente para derrubar a falsa narrativa de que esse pronome não existe mais na fala do brasileiro, como advoga Marcos Bagno no já citado artigo, decidi sozinho ir atrás dos dados de fala nesse site. Resultado: o “cujo” (e suas flexões) foi empregado CENTENAS de vezes. Eis o site, já com o link engatilhado, para você conferir com os seus próprios olhos e ouvidos: https://pt.youglish.com/pronounce/Cujo/portuguese]

Resumo da ópera: será que “os linguistas podem afirmar, por exemplo, que o pronome ‘cujo’ desapareceu da língua falada no Brasil, inclusive da língua falada pelos brasileiros classificados de cultos; que o futuro simples do indicativo (eu cantarei) também sobrevive apenas na escrita mais formal”, como assevera o linguista Marcos Bagno?

Os dados mostram que a afirmação dele está comprovadamente EQUIVOCADA e, por isso, em respeito à ciência da linguagem, deve ser ignorada — afinal, tanto o “cujo” quanto o “futuro do presente simples” existem inequivocamente na norma linguística brasileira.

………………….

Agora faça um exercício imaginativo intelectualmente honesto: já pensou se essa mesma pesquisa (realizada tão somente em 31 dias) fosse realizada durante longos 365 dias? Pois é… Os dados seriam MUITO maiores do que os demonstrados em nossa investigação, o que corroboraria ainda mais a existência das duas formas linguísticas no português brasileiro falado.

Encerro com um antigo provérbio judaico: “A punição do mentiroso é não se crer nele”.

Por isso, convido você a duvidar dos fatos acima. Faça você mesmo a sua pesquisa. Comprove se os dados da nossa investigação são verdadeiros ou falsos. Em ciência, não se pode ter compromisso com a fraude. Desse modo, busque a verdade e o rigor do método, porque fatos não se importam com opiniões.

Só assim é que se deve fazer Ciência.

Ainda sobre Marcos Bagno e sua gramática

ALERTA: se você não tem paciência para ler textos longos, desconsidere esta postagem.

Na semana passada, publiquei aqui neste blog uma crítica ao linguista Marcos Bagno por suas ideias equivocadas sobre o ensino da norma-padrão e sobretudo por sua reação destemperada e incivilizada contra um de seus críticos, o gramático Fernando Pestana, que, como eu, também aponta os erros metodológicos, incoerências e contradições de suas propostas e atitudes. Como resultado, recebi muitos comentários, tanto de apoio quanto de discordância à minha crítica, e é a estes últimos que quero responder aqui para tornar mais clara a minha posição.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer a diferença entre dois conceitos que são frequentemente confundidos e por vezes utilizados um pelo outro, que são norma-padrão e norma culta.

A norma-padrão, preconizada pela gramática normativa, é o modelo de uso da língua que deve ser adotado na redação de textos formais, como livros, jornais, documentos, contratos, relatórios, manuais, textos acadêmicos, jurídicos, técnicos, etc. Portanto, é um modelo sujeito a normatização (como, de resto, muitas atividades profissionais estão igualmente sujeitas a normas técnicas, algumas até com poder de lei) justamente para garantir a intercomunicação eficiente e não ambígua em atividades profissionais e oficiais.

Já a norma culta é o conjunto dos usos linguísticos das pessoas de maior escolaridade, tanto falados quanto escritos, tanto formais quanto informais, isto é, coloquiais. E é importante frisar que as pessoas cultas em geral não escrevem do mesmo modo como falam; mesmo ao escrever num registro mais informal (como num e-mail a um amigo), evitam construções como “pra mim fazer”, “vamo se encontrar”, “eu tava”, “dez real”, etc., que normalmente usam em sua fala cotidiana.

A questão é que Bagno critica a atual norma-padrão da língua portuguesa (o que, por sinal, eu às vezes também faço, mas não pelas mesmas razões que ele), e até prega que não se a ensine nas escolas, com base numa definição dessa norma que não corresponde à realidade. Para Bagno, a norma-padrão é uma linguagem artificial e idealizada, baseada nuns poucos escritores de ficção de maior prestígio, sobretudo do passado e sobretudo lusitanos. Para ele, os gramáticos escolhem arbitrariamente alguns autores tidos como exemplares e, mesmo assim, selecionam apenas certos usos desses autores, deixando outros de lado. Portanto, os gramáticos seriam uma espécie de ditadores da língua, que impõem determinados padrões de maneira totalmente arbitrária e segundo seus caprichos pessoais. De fato, alguns gramáticos fazem isso — ou melhor, fizeram, pois escreveram suas gramáticas há quase 100 anos, numa era pré-científica, e já estão todos mortos.

Atualmente, as gramáticas normativas são elaboradas seguindo uma metodologia própria e rigorosa, que se baseia em textos escritos formais de ficção e também de não ficção (acadêmicos, jurídicos e jornalísticos, dentre outros) sobretudo dos últimos 50 anos (portanto, a partir de aproximadamente 1970). Além disso, as gramáticas normativas só abonam usos que estejam efetivamente disseminados na escrita culta e formal, isto é, ocorram com frequência significativa o suficiente para que se possa atestar que já fazem parte do português escrito formal contemporâneo. Isso significa que, mesmo que um contrato redigido por um advogado mal escolarizado contenha coisas como “se o interessado propor” ou “quando houverem as negociações”, isso não entrará na norma-padrão, pois, por enquanto (pode ser que no futuro mude), é um desvio devido à má formação escolar e não um uso generalizado pelas pessoas cultas em seus textos profissionais.

O fato é que Bagno se insurge contra uma gramática normativa que só existe em sua cabeça; ele desconhece o processo sério, metódico e criterioso como são elaboradas as modernas gramáticas normativas e as ataca a partir de uma visão equivocada e preconcebida do que sejam elas. Além disso, ele comete um erro metodológico grave a alguém que tem formação acadêmica ao tomar como uso corrente na escrita formal construções que fazem parte da norma culta falada, mas não da escrita, e ao propor que essas construções sejam incorporadas à norma-padrão. Criticando os gramáticos por serem, em sua visão, arbitrários, ele é que é arbitrário ao querer estabelecer, segundo critérios em grande parte pessoais, uma nova norma, que não corresponde ao uso efetivo que fazem as pessoas cultas ao redigir textos profissionais ou oficiais.

Alguns dos comentários que recebi afirmam que a gramática de Bagno não é normativa, é descritiva e pedagógica. E que é uma referência internacional em matéria de língua portuguesa. Primeiramente, e é preciso ser justo, a gramática de Bagno faz uma boa descrição do português brasileiro contemporâneo falado e escrito e é útil aos estudos sobretudo do português falado. Mas, quando se trata de descrever o português escrito formal, ela falha fragorosamente, atestando, contra todos os dados empíricos disponíveis, usos que não são correntes nesse registro e nessa modalidade. Além disso, essa gramática não é acadêmica, voltada exclusivamente aos estudiosos do idioma, e sim pedagógica, portanto um guia sobre o que os professores do ensino básico devem ou  não ensinar. E ele prega que não se ensine mais a diferença entre este e esse, que se chancele o uso de “eu vi ela”, “existe muitas pessoas”, “aconteceu várias coisas”, e assim por diante.

Em segundo lugar, Bagno sustenta que se adote a norma culta (falada e escrita, bem entendido), isto é, o uso linguístico dos mais escolarizados, como parâmetro para uma nova norma-padrão. Ao mesmo tempo, ele fala o tempo todo na necessidade de promover a inclusão social dos menos favorecidos por meio da linguagem. Só que, do ponto de vista dos menos favorecidos, essa norma culta é tão elitista quanto a norma-padrão oficial, pois, embora contemple a não distinção entre este e esse, ainda está muito distante da língua dos excluídos, das periferias, em que o padrão é “nós foi”, “a gente somos” e “pobrema”. Aliás, teríamos de abonar também os erros de pontuação, como, por exemplo, separar sujeito de predicado por vírgula, e de ortografia, já que a inclusão por meio da linguagem tem de ser total e não apenas gramatical.

Na verdade, o que se critica em Marcos Bagno, além de seus inadmissíveis erros metodológicos, é uma postura militante, que mistura ciência com política e prega uma determinada pedagogia da língua portuguesa calcada em pressupostos de justiça social e emancipação dos menos favorecidos — o que é uma causa, sem dúvida, muito justa —, porém alicerçada em certos dogmas que não condizem com a realidade. Como respondi a uma professora que me escreveu, é preciso levar educação de verdade a quem não tem acesso a ela, pois só assim esses brasileiros serão emancipados, conquistarão a verdadeira cidadania, e o Brasil se desenvolverá, tornando-se um grande país e não apenas um país grande, como é hoje. Só que a proposta de Bagno é exatamente o contrário disso: é nivelar por baixo, rebaixando a norma-padrão ao nível do linguajar dos menos escolarizados. Fazendo uma analogia com a economia, é como, em vez de lutar para que todos sejam ricos, almejar um país em que todos sejam iguais na pobreza.

Será que, se as gramáticas normativas passassem a abonar “eu vi ela”, e, portanto, por um mero truque de manipulação da norma, o linguajar dos botequins passasse a ser considerado aceitável em textos formais, isso emanciparia os mais pobres, isso lhes abriria portas no mercado de trabalho, isso tornaria o Brasil um país desenvolvido e menos desigual?

Outro argumento é o de que é preciso conhecer o Brasil em sua diversidade linguística, o Brasil profundo, de escolas públicas sucateadas e violentas, de professores desassistidos, e, portanto, é preciso empregar uma sociolinguística educacional que funcione na prática. Que o aluno precisa de fato dominar a gramática normativa, mas que, para tanto, há etapas nessa construção. O que isso quer dizer? Que devemos no ensino fundamental ensinar que é correto escrever “eu vi ela” num trabalho escolar para só no ensino médio explicar que o correto é “eu a vi”? Devemos então reforçar a variedade que o aluno traz de casa — porque dizer que ele fala “errado” é preconceito linguístico, causa evasão escolar, afeta a autoestima do aluno, etc. — para, só quando essa variedade já estiver petrificada, revelar-lhe que, escrevendo assim, ele jamais conseguirá um emprego decente?

Também  se argumenta que é preciso respeitar a linguagem do aluno, como de resto a de todas as pessoas, por menos letradas que sejam, o que é verdade e um princípio de civilidade. Mas respeitar não é o mesmo que considerar correto e aceitável em situações formais, especialmente acadêmicas e profissionais.

Não sou contra o ensino da variação linguística nas escolas, pois o próprio Evanildo Bechara, um dos gramáticos normativos a quem Bagno torce o nariz, afirma que temos de ser “poliglotas em nossa própria língua”, isto é, saber em que momento empregar a norma-padrão e em que momento não. Mas é preciso ter em mente que é a norma-padrão em vigor, mesmo com todas as críticas que possamos ter a ela, que liberta, emancipa e confere verdadeira cidadania. Portanto, é preciso tornar o estudante proficiente nela desde o primeiro momento em que pisa na escola. Eu, por exemplo, não estaria redigindo este texto se não dominasse essa norma.

Uma coisa que constato — e acho que não sou só eu — é que o domínio da língua culta pelas pessoas escolarizadas é cada vez menor (estão aí os resultados do PISA que não me deixam mentir). Antigamente, a maioria das pessoas que tinham acesso à educação formal — e que eram relativamente poucas — frequentava a escola pública (por incrível que possa parecer aos mais jovens, a escola privada abrigava aqueles que não se saíam bem no ensino público) e lá aprendia Língua Portuguesa desde os primeiros anos pela gramática tradicional (ninguém havia ouvido falar em linguística naquela época); essas pessoas, no entanto, tinham uma proficiência muito maior no português culto do que os jovens de hoje, educados pela moderna pedagogia variacionista. Penso que o problema da educação em nosso país não está propriamente no modelo teórico adotado, está nas drogas, na violência, no desrespeito ao professor, nos baixos salários dos profissionais da educação, no desinteresse dos pais pela educação dos filhos, na falta de infraestrutura das escolas, na falta de uma política educacional de Estado e não só de governo…

Outro argumento muito usado por Bagno é o de que o ensino de ciências é constantemente atualizado à medida que o próprio conhecimento científico avança. Por isso, não se ensina mais nas escolas que a Terra é o centro do Universo nem que animais surgem por geração espontânea. Enquanto isso, ensina-se gramática hoje do mesmo modo como se ensinava há 2.300 amos. De fato, concordo que deveríamos substituir as definições e a nomenclatura da gramática tradicional pelos modernos conceitos e terminologia da ciência linguística. Só que a gramática não é uma ciência, é uma normatização da linguagem formal escrita, portanto não está necessariamente obrigada a atualizações, embora as faça periodicamente. Há no Congresso Nacional uma norma antiquíssima determinando que parlamentares do sexo masculino são obrigados a trajar terno e gravata em suas dependências. Pode-se argumentar que a moda mudou muito desde que essa exigência foi estabelecida, que hoje em dia as pessoas vão de bermudas e chinelos aos mais diversos lugares e que, portanto, essa norma é obsoleta. No entanto, a obrigatoriedade do traje social no Congresso continua independentemente de qualquer mudança no estilo de vestir das pessoas comuns porque normas são normas e não ciências. O objetivo do ensino de gramática não é inculcar no aluno definições ou termos técnicos, é torná-lo proficiente na redação e leitura de textos formais. Definições e termos são um meio de aprendizagem e não um fim em si, portanto, para tal propósito, a NGB (Nomenclatura Gramatical Brasileira) tem funcionado tão bem quanto a terminologia linguística.

 Ao contrário de muitos de meus colegas, não sou ideológico, sou pragmático, portanto defendo aquilo que comprovadamente funciona. Por não ser ideológico, não me apego a doutrinas e agendas políticas, mas sim a fatos concretos, comprováveis cientificamente. Logo, não sou dogmático, não me arvoro em dono da verdade e tenho o espírito aberto a revisar meus conceitos e opiniões desde que seja convencido por argumentos sólidos, sobretudo os baseados em dados colhidos por metodologia científica rigorosa. Qualquer um que tenha estudado com afinco uma disciplina chamada Metodologia Científica, indispensável na formação de qualquer pesquisador e obrigatória a quem faz mestrado ou doutorado, sabe que a obra acadêmica de Bagno é eivada de erros metodológicos, muitos deles propositais, que, como tenho assinalado, decorrem da interferência de sua agenda político-ideológica num trabalho que, por sua própria natureza científica, deveria ser neutro e objetivo. E é principalmente aos seus erros metodológicos e à sua pregação política baseada nesse viés que eu me oponho. Não sou intransigente como certos radicais que colocam suas ideologias, crenças e cartilhas acima da realidade fática nem sou arrogante, como disse aquela mesma professora, quando afirmo que Bagno divulga uma versão deturpada da linguística, pois a verdadeira linguística, como ciência que é, não faz juízos de valor, não milita em favor desta ou daquela causa social, por mais justa que seja, porque não é sua função, e essa postura pode até comprometer a validade do conhecimento que produz. Aliás, por sua condição metodológica de neutralidade e imparcialidade, a ciência não pode defender pautas políticas, sejam de esquerda ou de direita. Ou a ciência é apolítica ou não é ciência.

Tampouco sou a favor do linchamento moral (ou, como dizem hoje, do “cancelamento”) de quem quer que seja, pois é exatamente isso que fazem os radicais; de certa forma, é isso que o próprio Marcos Bagno faz contra os gramáticos normativos. O que faço é uma crítica fundamentada a uma descrição linguística falha e a uma proposta pedagógica equivocada. Minha questão não é pessoal, por isso mesmo não chamo meus opositores de calhordas nem dou carteirada neles.

É evidente que Marcos Bagno continuará sua pregação defendendo o indefensável e seguirá tentando legitimar sua metodologia e suas conclusões, assim como é evidente que seus admiradores continuarão a apoiá-lo incondicionalmente, pois ideologia é algo tão arraigado nas pessoas que é quase impossível mudar. Àqueles que dizem não ser seguidores cegos de Bagno e que reconhecem nele erros e acertos, eu digo que também aí me incluo: não faço tabula rasa da sua competência profissional, nunca afirmei que tudo o que ele diz é bobagem nem prego a sua desmoralização, mas, na vida acadêmica, em que se debatem ideias e fatos, todos estamos sujeitos a críticas (algumas às vezes até sem fundamento) e devemos rebatê-las com argumentos robustos ou, na falta deles, aceitá-las com humildade, sem rompantes de agressividade e destempero verbal.

Uma última consideração: apesar de toda essa celeuma, as pessoas continuam tentando escrever o mais próximo da gramática normativa que conseguem, e os gramáticos continuam fazendo seu trabalho sem dar a menor bola para o que diz Marcos Bagno. Os cães ladram, e a caravana passa.

Perdoem-me a prolixidade, mas espero ter sido claro.

Quem é o calhorda?

Desde o início do ano, o Prof. Fernando Pestana, meu colega colunista na página Língua e Tradição, vem publicando nessa página uma série de artigos comentando a Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, do linguista Marcos Bagno, sobretudo apontando os erros metodológicos e as incoerências entre o que o autor prega e o que ele mesmo e os autores em que se apoia fazem em matéria de uso da chamada norma-padrão da língua portuguesa.

Antes de mais nada, convém situar o leitor sobre do que trata essa gramática. Nela, Bagno advoga que a atual norma culta do português brasileiro, isto é, o modo como os brasileiros altamente escolarizados falam e escrevem, está bastante distante da norma-padrão, aquela preconizada pela gramática normativa e ensinada nas escolas, a qual estaria, portanto, desatualizada e se teria tornado anacrônica, além de refletir mais o português lusitano do que o brasileiro. Como resultado, o autor propõe não só que se adote uma nova norma-padrão, que abone construções típicas do falar brasileiro, como também que se passe a ensinar essa nova norma nas escolas. É daí que vem o epíteto “pedagógica” do título da obra.

Bagno afirma, dentre outras coisas, que os pronomes demonstrativos este/esta/estes/estas não existem mais no português brasileiro, substituídos que foram por esse/essa/esses/essas em todos os casos. No entanto, o próprio autor emprega diversas vezes este/esta/estes/estas em sua obra, numa contradição com sua própria lição.

Ele também defende que construções como “eu a vi” quase não se usam mais e, portanto, deve-se a partir de agora abonar construções como “eu vi ela”. Seu argumento, coerente com o militante de esquerda que é, é o de que a norma-padrão vigente é elitista e excludente e que, para empoderar os menos favorecidos, é preciso chancelar o modo como eles se expressam.

Esse raciocínio tem dois problemas. Primeiro, a verdadeira emancipação dos mais pobres e menos escolarizados se dá justamente pela educação, portanto pelo acesso dessa população a um ensino de qualidade, que a torne proficiente naquela norma que vai lhe abrir as portas do mercado de trabalho qualificado, e não pelo rebaixamento da norma-padrão ao linguajar das pessoas menos escolarizadas. Essa proposta seria como se, em vez de lutar pela saúde bucal da população, tornando o tratamento dentário acessível a todos, se instituísse a boca banguela como padrão de normalidade.

O segundo problema é que a norma-padrão de uma língua se baseia no uso formal que as pessoas cultas fazem na modalidade ESCRITA. Embora a maioria de nós brasileiros use de fato esse no lugar de este mesmo referindo-se a um objeto próximo de quem fala, o uso do pronome este ainda está muito vivo em nossa escrita formal. Da mesma forma, todos nós dizemos “eu vi ela” quando falamos informalmente, mas nenhuma pessoa bem escolarizada, que é a que redige textos formais, escreveria dessa maneira num documento profissional, trabalho escolar ou na prova do Enem. Logo, o argumento de que nossa norma-padrão é uma peça de ficção, um retrato do português escrito de séculos atrás, como sustenta Bagno, não se sustenta.

É bem verdade que muitos profissionais de nível superior já não respeitam rigorosamente certas regras da gramática normativa quando escrevem, como, por exemplo, quando utilizam a próclise (anteposição do pronome oblíquo ao verbo) em contextos em que deveriam usar a ênclise (posposição do pronome ao verbo). Nesse sentido, a norma-padrão poderia, sim, ser flexibilizada, e creio que o será nos próximos anos, como é da dinâmica natural das gramáticas. Mas, se as pessoas cultas já escrevem assim — eu mesmo faço isso e, aliás, o fiz aqui neste texto — e essas construções são aceitas pacificamente, por que precisaríamos reformular radicalmente a norma-padrão? Não bastariam alguns pequenos ajustes? Por outro lado, que sentido há em institucionalizar uma construção como “eu vi ela” se nenhum redator culto a emprega em textos formais?

Nesse sentido, as críticas do Prof. Pestana à obra de Bagno são plenamente razoáveis e pertinentes. Além disso, a gramática em questão se baseia muito mais nas percepções pessoais do próprio autor sobre o português brasileiro do que num levantamento sistemático, segundo o método científico, de textos escritos formais do Brasil atual, ainda que ele afirme ter feito tal levantamento. Na prática, o que Bagno faz é tomar o português oral informal como padrão a ser adotado na escrita formal, algo que ainda está muito longe de acontecer e de ser aceito socialmente.

Mas o motivo deste meu artigo é que o linguista Marcos Bagno postou recentemente um texto no Facebook com o título “A calhordice do ‘ele não escreve como manda os outros escreverem’”. Embora não especifique a quem dirige sua ira, fica claro que o alvo é justamente o Prof. Pestana, primeiro porque, num trocadilho de gosto duvidoso, Bagno impreca a certa altura: “Vá queimar pestana, calhorda (…)”. E, em segundo lugar, porque as críticas que tenta rebater em sua postagem são exatamente aquelas feitas por Pestana.

A primeira coisa a observar é que Bagno não contra-argumenta, em nenhum momento afirma que os apontamentos de Pestana são inverdades, mas limita-se apenas a dizer que

a postura mais democrática em língua é aquela que diz que as formas inovadoras já devidamente implantadas na linguagem dita culta podem ser empregadas TANTO QUANTO as formas previstas pela tradição normativa. A palavra mágica é TAMBÉM, mas, numa sociedade polarizada como a nossa, com o evângelo-fascismo se espalhando feito a doença que é, falar de TAMBÉM é quase uma heresia.

Só que, em sua gramática, Bagno não sustenta que se use indiferentemente quer a forma tradicional quer a inovadora, ele aconselha os professores a ensinar apenas esta segunda. Diz ele: “é perda de tempo tentar inculcar nos aprendizes uma diferença entre esse e este, que não existe na língua e que não é rigorosamente seguida nem sequer pelos que produzem gêneros escritos mais monitorados”.

Como não tem argumentos para negar que as críticas de Pestana têm fundamento, Bagno recorre ao argumentum ad hominem da retórica de Aristóteles e chama seu crítico de calhorda. Não podendo atacar o argumento, ataca o argumentador, numa atitude infantil de descontrole emocional de quem sabe que não tem razão. Ao contrário, Pestana critica Bagno com espírito científico, como é praxe no debate acadêmico, jamais em nível pessoal, jamais resvalando para a ofensa ou o insulto. Em outras palavras, ataca as ideias, não a pessoa.

Em outro momento, Bagno dá uma “carteirada” em Pestana, um típico “você sabe com quem está falando?”, ao dizer:

escreva uma gramática com pelo menos 1.000 páginas como a minha, leia tudo o que tive de ler para escrever ELA, colete os milhares de dados que coletei para provar meus argumentos, faça dela uma referência internacional para quem estuda português, e um dia talvez quem sabe (mas eu sei que é nunca) você possa (mas sei que não vai poder) começar a pensar em me dar conselhos e passar pito.

Arrogante como sempre e detentor de uma postura de dono da verdade, como o são todos os extremistas, radicais e dogmáticos, Bagno se gaba de ter escrito uma gramática de mil páginas, o que, supostamente, Pestana não seria capaz de fazer. Ora, primeiramente, um livro grande não é necessariamente um grande livro, ou “tamanho não é documento”. Em segundo lugar, Pestana é autor d’A Gramática para Concursos Públicos, por sinal, a gramática mais vendida e a mais lida por concurseiros e vestibulandos, mas não só por eles.

A certa altura, Bagno coloca o pronome pessoal oblíquo antes do advérbio de negação (“…como se fosse possível algum trabalho que o não seja…”) e, pretensioso, desafia seu opositor como quem quer ensinar o padre-nosso ao vigário: “já ouviu falar em apossínclise? Eu já, e uso quando bem quiser!”.

Bagno também afirma em sua postagem que sua gramática “descreve uma construção sintática nova e comprova que ela já está perfeitamente enraizada nos usos falados e escritos das pessoas ditas cultas”. Será? “Eu vi ela” já está enraizado no uso ESCRITO das pessoas cultas? Diz também que “descrever fenômenos gramaticais não é o mesmo que se obrigar (ou às outras pessoas) a usar esses fenômenos na própria escrita”. No entanto, sua gramática se diz pedagógica justamente porque quer ensinar as pessoas a usar essas formas em sua escrita. Gramáticas descritivas descrevem a língua tal como é falada e escrita, tanto pelos mais cultos quanto pelos iletrados; já gramáticas normativas e pedagógicas normatizam a linguagem formal, isto é, estabelecem normas de como se deve ou não se deve escrever textos formais. A gramática de Bagno é pedagógica até no título, e seu conteúdo não é meramente descritivo, com fins unicamente científicos, é prescritivo e estimula os professores a ensinar a seus alunos um padrão que praticamente só o próprio Bagno utiliza. Afinal, quem mais no meio acadêmico ou profissional escreve “leia tudo o que tive de ler para escrever ELA”?

Em outra passagem de seu texto, Bagno se vangloria de ter escrito um romance em que não usou nenhuma vez a palavra cujo. Enquanto os grandes escritores se esmeram em produzir obras linguisticamente ricas, Bagno se orgulha de sua pobreza vocabular. E ainda assim se considera um literato!

Por fim, usando da falsa humildade característica dos cínicos, Bagno afirma: “aceito as críticas e observações que fazem, sempre com bom conhecimento de causa, acato umas, outras não — como é próprio de quem faz ciência e assume coerência teórica. Aceito criticas e observações — mas calhordice, aceito não”. Coerência teórica?! Aceita críticas e observações?! Só se forem aquelas que não exponham sua incoerência ou a fragilidade de suas postulações. Do contrário, o crítico é calhorda, mesmo que todas as suas críticas estejam fundamentadas e apoiadas em dados colhidos por metodologia científica, como o fez o Prof. Pestana.

Mas, a certa altura de seu texto, Bagno também confessa: “na virada do milênio, fiz concurso para uma universidade pública e um dos membros da banca examinadora me perguntou como é que eu tinha sido aprovado no doutorado usando tantas formas não normativas na minha tese”. Pergunta que eu também me faço. O fato é que Marcos Bagno diz o tempo todo fazer ciência ao mesmo tempo em que confessa que todo o seu trabalho é eivado de ideologia (marxista, no caso), e que não é possível fazer ciência não ideológica. Na verdade, todo trabalho científico estritamente descritivo e explicativo que seja bem feito e metodologicamente correto, seja nas ciências naturais ou nas humanas, é não ideológico, já que se atém à realidade dos dados coletados, sem emitir opiniões ou juízos de valor. No entanto, Bagno advoga o tempo todo em favor de uma agenda política, como quando diz em sua postagem:

[o argumento] (é) calhorda porque vem, sempre, da parte de gente que tem acesso suficiente à informação para formar opiniões mais bem fundamentadas, mas que, sempre, troca a boa fundamentação pela defesa de uma ideologia linguística que, como tudo na vida, é uma ideologia política que só deseja preservar o tipo de sociedade em que o uso da língua é mais um critério para excluir as pessoas, tanto quanto a cor da pele, o gênero, a orientação sexual, o nível de pobreza (porque, no Brasil, falar em “nível de renda” é falta de compaixão) etc.

Em resumo, Bagno não faz ciência, faz política travestida de ciência. Como todo extremista, não se pauta por fatos objetivos e sim por dogmas. Como todo radical, é raivoso contra quem discorde de suas ideias. Como todo hipócrita, finge-se de democrata quando só dá ouvidos a quem lhe faz coro. Como todo aquele que se sabe medíocre (porque quem é bom de fato não precisa provar nada a ninguém), vomita o tempo todo seu currículo acadêmico e desqualifica seus adversários. Como militante político barulhento e rebelde sem causa, desprestigia os verdadeiros linguistas, aqueles que fazem ciência de verdade com seriedade e responsabilidade, que não misturam fatos com opiniões, que não falseiam dados para provar suas teses, que não atacam a honra de seus críticos ou adversários e que, além de tudo, escrevem num português que, mesmo não seguindo religiosamente a norma-padrão, é perfeitamente aceitável entre as pessoas de cultura. O que não é o caso do Sr. Marcos Bagno.

Extremismos na língua e o “caminho do meio”

Como todos sabemos e sentimos, o Brasil atravessa uma excruciante polarização política entre extremos. Cada uma de seu lado, esquerda e direita se digladiam em defesa de suas ideologias enquanto a maioria silenciosa, adepta da moderação e do equilíbrio, permanece tal, silenciosa – ou melhor, silenciada pela grita histérica que se eleva das extremidades do espectro político.

Pois a mesmíssima coisa está ocorrendo neste momento no âmbito da língua. Temos de um lado uma esquerda radical, com sua neutralização de gênero, seu “todos, todas, todes e todxs”, sua defesa incondicional do “se deu pra intendê, tá tudo certo” e outras bandeirolas ideológicas; de outro, temos os guardiães da tradição, que veem a norma-padrão do idioma como entidade metafísica, sacrossanta, impoluta e inquestionável, e que advoga a normatização gramatical com base na tradição pré-científica que remonta à Grécia antiga e no uso da arte literária em lugar da ciência como parâmetro para essa normatização.

O grande “muso” da extrema esquerda, o super-herói defensor dos fracos e oprimidos da língua é Marcos Bagno, professor da Universidade de Brasília, que, embora o negue, é o paladino do vale-tudo linguístico, o salvador das variedades estigmatizadas, vítimas do preconceito linguístico (conceito que ele mesmo criou), um sujeito que diz coisas como “o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado” ou “toda e qualquer maneira de falar vale ouro na luta contra o fascismo”, ou ainda “a norma culta que se lasque, que se dane, que se esboroe! Saber falar o ‘bom português’ nunca permitiu a ascensão social de ninguém, ao contrário do que prega a propaganda enganosa da pequena, pequeníssima burguesia”.

No outro extremo, cujo pontífice é o finado Napoleão Mendes de Almeida, temos os gramáticos normativos tradicionalistas, cujo método de descrição gramatical remonta a Dionísio, o Trácio (séculos II-I a.C.) e sua Tekhné Grammatiké (“Arte Gramatical”), e cujo corpus de onde extraem os modelos de “língua exemplar” são as obras dos grandes literatos, especialmente os clássicos.

Para esses gramáticos puristas, a palavra de ordem é tradição; ou seja, devemos falar e escrever como nossos antepassados o fizeram e como o fazem os mais ilustres prosadores de nosso idioma, especialmente os ficcionistas, aqueles que levam a língua ao “estado mais puro de arte” e fazem malabarismos linguísticos como “fá-lo”, “fê-lo”, “fi-lo”, “pô-lo”, “pu-lo” ou mesmo “qué-lo” (outra variante seria “quere-o”), sem falar nas mesóclises do tipo “dar-lho-ás” e “dir-no-los-ia”.

Enquanto isso, os pobres mortais que apenas desejam – ou pior, têm por obrigação – redigir textos formais e para os quais a norma-padrão tem valor meramente operacional, isto é, como ferramenta de trabalho e não de criação artística, se veem diante de um emaranhado pouco lógico de regras e exceções, de definições francamente falhas porque não científicas (“sujeito é aquele de quem se declara algo” ou “é o autor da ação”; “os termos essenciais da oração são sujeito e predicado” – só que existem orações sem sujeito, e por aí vai).

Ou seja, para uma maioria “de centro”, tanto política quanto linguisticamente, nem tanto ao mar nem tanto à terra: nem a abolição total da norma-padrão e sua substituição pelo “cada um fala como pode e como qué” nem a idolatria de uma norma anacrônica, pedante mesmo, vista como sagrada.

O fato é que as línguas mudam com o tempo (a isso se chama evolução), e a norma-padrão também precisa ser atualizada periodicamente. Como instrumento de comunicação formal que deve ser, sobretudo, funcional, ela tem de ser estabelecida com base no conhecimento científico e não nos arroubos estéticos de escritores que, por mais prestigiados que sejam, também erram (José de Alencar, por exemplo, costumava separar sujeito e predicado por vírgula). Ela deve ter como norte a simplicidade, regularidade e racionalidade. Nesse sentido, gramáticos que abonam certas construções que tornam a regra mais complexa e criam exceções de difícil explicação apenas porque um grande literato as usou prestam um grande desserviço à língua e seus usuários.

Da mesma forma, linguistas “progressistas” que defendem a incorporação à norma de certos usos populares que irregularizam o que até então era regular apenas porque tais usos são isso mesmo, “populares” – e é preciso valorizar a fala do povo para ser um verdadeiro democrata, não é mesmo? – igualmente mais atrapalham do que ajudam.

A realidade é que nossa norma-padrão precisa, sim, ser atualizada, racionalizada e simplificada, da mesma maneira como o fizeram nos últimos cem anos outras línguas neolatinas, notadamente o espanhol e o italiano. Precisamos, sim, de gramáticas normativas que incorporem o método científico e substituam definições, categorias e terminologias ultrapassadas por outras, sustentadas por dados e modelos fornecidos pela ciência.

Mas também é fato que precisamos da norma-padrão, pois nenhuma língua de cultura existe sem ela, e é ela que garante a intercomunicação dos variados grupos que constituem a sociedade sem que haja mal-entendidos, seja em nível profissional, acadêmico ou mesmo prático, como num manual de instruções, por exemplo. É ela que nos dá acesso a direitos e à cidadania; é ela que permite ascensão social a quem não sabe jogar futebol nem cantar pagode; é ela que nos possibilita ler e entender o que lemos; é ela que nos permite redigir e ser compreendidos.

Por via de consequência, a posição “centrista”, de bom senso, livre de extremismos demagógicos, é a que defende ambos os movimentos: de um lado, através da educação, a aproximação dos falantes à gramática normativa; de outro, por meio da reforma desta, a aproximação da gramática aos falantes. É pena que, nesse ambiente radicalizado em que vivemos, a voz da sensatez e da razoabilidade não esteja sendo ouvida.

As raízes biológicas do preconceito

Vê-se, nos dias atuais, um grande esforço em prol da inclusão social, por meio de campanhas educativas, ações afirmativas, valorização da diversidade, repressão à intolerância, adoção de cotas para minorias, e outras. No entanto, por mais que se tente combatê-lo, o preconceito segue firme e forte em todas as sociedades, das mais primitivas às mais desenvolvidas.

Discriminação por motivos étnicos, raciais, religiosos, sociais e até linguísticos parece uma chaga longe de ser superada.

A explicação para esse comportamento pode estar em nossa biologia. Estudos conduzidos de maneira independente em diversas universidades, uns com viés biológico, outros com foco psicológico ou social, apontam que a rejeição que sentimos pelo diferente pode ter sido moldada por milênios de evolução da espécie humana.

Para a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o preconceito é algo natural. “É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a especialista.

Como o homem é um ser gregário, o sentimento de pertencer a um grupo e, consequentemente, o impulso a rechaçar os elementos estranhos foi uma estratégia inteligente de sobrevivência numa época em que estávamos longe de dominar o planeta. Criar vínculos sociais com base em características semelhantes parece natural e é algo que transcende a espécie humana.

Segundo Marta, ao formarmos grupos, atentamos ao que nos aproxima de determinados indivíduos e que nos diferencia dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito. Um animal com cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo.”

Em Prejudice, its social psychology (Preconceito, sua psicologia social), Rupert Brown, professor de psicologia da Universidade de Sussex, descreve várias experiências sugerindo que superestimamos características que fogem da normalidade, especialmente em relação a minorias. “Coisas menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma parcela desproporcional da nossa atenção e são lembradas mais facilmente. Esse fenômeno pode dar origem a estereótipos.”

Segundo uma pesquisa americana, bebês de menos de dois anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com uma criança vestida com roupas de cores diferentes das suas.

O papel da evolução biológica na formação do preconceito é claro: toda vez que nossos ancestrais pré-históricos ouviam um barulho estranho, imaginavam algum perigo iminente, como um predador, por exemplo, e tratavam de se proteger. Poderia não ser nada, apenas o vento entre as folhagens, mas, como diz o biólogo britânico Richard Dawkins, um falso positivo pode ser apenas perda de tempo; já um falso negativo pode significar a morte. Ou seja, a seleção natural favoreceu aqueles que tinham um olhar mais desconfiado sobre os outros à sua volta, isto é, os mais preconceituosos.

O mesmo raciocínio se aplica ainda hoje: se estou caminhando por uma rua escura e avisto um sujeito mal-encarado caminhando em minha direção, minha tendência natural – se eu for esperto, claro – é fugir dali. É bem possível que o tal sujeito não seja de fato um criminoso, mas vinha visão preconcebida sobre o seu caráter baseada em sua aparência pode, eventualmente, salvar a minha vida.

Dentre as várias formas de discriminação, está o preconceito linguístico. Esse termo, difundido por Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, denomina a aversão por aqueles que falam de modo diferente, especialmente as pessoas menos escolarizadas, por isso mesmo mais distantes do padrão linguístico, e as provenientes de rincões afastados dos grandes centros, cuja fala é mais regional. Em suma, pessoas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio.

Segundo Bagno, o preconceito linguístico encobre, na verdade, formas mais profundas de discriminação. O indivíduo cuja fala revela origem rural é identificado com traços como pobreza, ignorância, alienação, falta de polidez, de bom gosto, bom senso, cidadania… Ou seja, sua pronúncia e sua gramática nos levam a traçar um raio X — verdadeiro ou equivocado, mas de todo modo preconcebido — dessa pessoa. E aí o preconceito linguístico se torna preconceito social, étnico, religioso ou racial.

Mas, se o preconceito, seja linguístico ou de qualquer outra natureza, existe e é um instinto biológico instalado em nossos genes, então a educação pode — como em relação aos nossos demais instintos —, no máximo, atenuar essa pulsão, jamais eliminá-la: até as pessoas mais cultas e conscientes do problema deixam extravasar, em momentos de descontrole emocional (quando aflora o “instinto animal”), sua ira contra o diferente, em especial se este é visto como inferior.

No caso específico da língua, o preconceito tem duas vertentes: uma de índole grupal e chauvinista, resquício de nossa herança tribal, e outra social, ligada à dinâmica da vida numa sociedade estratificada.

De um lado, o falante reage positivamente a quem se expressa como ele (há imediata identidade: se ele fala como eu, é porque é igual a mim) e negativamente a quem fala de modo diferente. A lógica subjacente, ainda que inconsciente, é: pessoas de outras regiões, classes sociais, credos religiosos, modos de vida não podem me compreender, nem eu as compreendo, então eu as vejo com desconfiança.

De outro lado, há uma tendência a valorizar o que pertence às classes sociais mais elevadas. Assim, tudo o que foge ao padrão, à norma, ao bom uso da língua deve ser rechaçado.

Embora essa postura seja de fato um preconceito e, como tal, seja injusta na maioria das vezes, é um dado real com o qual se tem de lidar. É preciso ter claro que ações educativas ou coercitivas podem reduzir o problema, mas dificilmente erradicá-lo, já que suas causas são biológicas.

Nesse sentido, muitos trabalhos teóricos têm equivocadamente enfatizado os aspectos sociais da questão — alguns linguistas, como Marta Scherre, da Universidade Federal do Espírito Santo, chegam a defender a criminalização do preconceito linguístico — quando seria mais proveitoso unir as teorias da linguagem aos conhecimentos da biologia, psicologia e neurociência para compreender melhor o fenômeno e saber até que ponto somos ou não capazes de combatê-lo. A ciência deve primeiro conhecer os fatos para depois julgar os valores.