As raízes biológicas do preconceito

Vê-se, nos dias atuais, um grande esforço em prol da inclusão social, por meio de campanhas educativas, ações afirmativas, valorização da diversidade, repressão à intolerância, adoção de cotas para minorias, e outras. No entanto, por mais que se tente combatê-lo, o preconceito segue firme e forte em todas as sociedades, das mais primitivas às mais desenvolvidas.

Discriminação por motivos étnicos, raciais, religiosos, sociais e até linguísticos parece uma chaga longe de ser superada.

A explicação para esse comportamento pode estar em nossa biologia. Estudos conduzidos de maneira independente em diversas universidades, uns com viés biológico, outros com foco psicológico ou social, apontam que a rejeição que sentimos pelo diferente pode ter sido moldada por milênios de evolução da espécie humana.

Para a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o preconceito é algo natural. “É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a especialista.

Como o homem é um ser gregário, o sentimento de pertencer a um grupo e, consequentemente, o impulso a rechaçar os elementos estranhos foi uma estratégia inteligente de sobrevivência numa época em que estávamos longe de dominar o planeta. Criar vínculos sociais com base em características semelhantes parece natural e é algo que transcende a espécie humana.

Segundo Marta, ao formarmos grupos, atentamos ao que nos aproxima de determinados indivíduos e que nos diferencia dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito. Um animal com cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo.”

Em Prejudice, its social psychology (Preconceito, sua psicologia social), Rupert Brown, professor de psicologia da Universidade de Sussex, descreve várias experiências sugerindo que superestimamos características que fogem da normalidade, especialmente em relação a minorias. “Coisas menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma parcela desproporcional da nossa atenção e são lembradas mais facilmente. Esse fenômeno pode dar origem a estereótipos.”

Segundo uma pesquisa americana, bebês de menos de dois anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com uma criança vestida com roupas de cores diferentes das suas.

O papel da evolução biológica na formação do preconceito é claro: toda vez que nossos ancestrais pré-históricos ouviam um barulho estranho, imaginavam algum perigo iminente, como um predador, por exemplo, e tratavam de se proteger. Poderia não ser nada, apenas o vento entre as folhagens, mas, como diz o biólogo britânico Richard Dawkins, um falso positivo pode ser apenas perda de tempo; já um falso negativo pode significar a morte. Ou seja, a seleção natural favoreceu aqueles que tinham um olhar mais desconfiado sobre os outros à sua volta, isto é, os mais preconceituosos.

O mesmo raciocínio se aplica ainda hoje: se estou caminhando por uma rua escura e avisto um sujeito mal-encarado caminhando em minha direção, minha tendência natural – se eu for esperto, claro – é fugir dali. É bem possível que o tal sujeito não seja de fato um criminoso, mas vinha visão preconcebida sobre o seu caráter baseada em sua aparência pode, eventualmente, salvar a minha vida.

Dentre as várias formas de discriminação, está o preconceito linguístico. Esse termo, difundido por Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, denomina a aversão por aqueles que falam de modo diferente, especialmente as pessoas menos escolarizadas, por isso mesmo mais distantes do padrão linguístico, e as provenientes de rincões afastados dos grandes centros, cuja fala é mais regional. Em suma, pessoas que utilizam variedades linguísticas de menor prestígio.

Segundo Bagno, o preconceito linguístico encobre, na verdade, formas mais profundas de discriminação. O indivíduo cuja fala revela origem rural é identificado com traços como pobreza, ignorância, alienação, falta de polidez, de bom gosto, bom senso, cidadania… Ou seja, sua pronúncia e sua gramática nos levam a traçar um raio X — verdadeiro ou equivocado, mas de todo modo preconcebido — dessa pessoa. E aí o preconceito linguístico se torna preconceito social, étnico, religioso ou racial.

Mas, se o preconceito, seja linguístico ou de qualquer outra natureza, existe e é um instinto biológico instalado em nossos genes, então a educação pode — como em relação aos nossos demais instintos —, no máximo, atenuar essa pulsão, jamais eliminá-la: até as pessoas mais cultas e conscientes do problema deixam extravasar, em momentos de descontrole emocional (quando aflora o “instinto animal”), sua ira contra o diferente, em especial se este é visto como inferior.

No caso específico da língua, o preconceito tem duas vertentes: uma de índole grupal e chauvinista, resquício de nossa herança tribal, e outra social, ligada à dinâmica da vida numa sociedade estratificada.

De um lado, o falante reage positivamente a quem se expressa como ele (há imediata identidade: se ele fala como eu, é porque é igual a mim) e negativamente a quem fala de modo diferente. A lógica subjacente, ainda que inconsciente, é: pessoas de outras regiões, classes sociais, credos religiosos, modos de vida não podem me compreender, nem eu as compreendo, então eu as vejo com desconfiança.

De outro lado, há uma tendência a valorizar o que pertence às classes sociais mais elevadas. Assim, tudo o que foge ao padrão, à norma, ao bom uso da língua deve ser rechaçado.

Embora essa postura seja de fato um preconceito e, como tal, seja injusta na maioria das vezes, é um dado real com o qual se tem de lidar. É preciso ter claro que ações educativas ou coercitivas podem reduzir o problema, mas dificilmente erradicá-lo, já que suas causas são biológicas.

Nesse sentido, muitos trabalhos teóricos têm equivocadamente enfatizado os aspectos sociais da questão — alguns linguistas, como Marta Scherre, da Universidade Federal do Espírito Santo, chegam a defender a criminalização do preconceito linguístico — quando seria mais proveitoso unir as teorias da linguagem aos conhecimentos da biologia, psicologia e neurociência para compreender melhor o fenômeno e saber até que ponto somos ou não capazes de combatê-lo. A ciência deve primeiro conhecer os fatos para depois julgar os valores.