Deve-se ensinar alta literatura a adolescentes?

A polêmica da semana é a postagem do digital influencer Felipe Neto, segundo a qual “forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis NÃO SÃO PARA ADOLESCENTES! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco”. E acrescentou: “o fato de VOCÊ ser, ou ter sido, um adolescente fora da curva que ama romantismo e realismo brasileiro não significa nada perto do mar de jovens odiando livros por aí. E um dos motivos é justamente a forma como a maioria das escolas aplica a literatura como matéria”.

Sem dúvida, em um país que pouco lê e cuja cultura letrada, mesmo entre as classes mais abastadas, é bem baixa, questionar o ensino de literatura é algo bastante temerário e até mesmo iconoclasta. (Bem, talvez tenha sido realmente essa a intenção do famoso e controverso youtuber.)

Mas a questão é bem complexa e delicada, já que envolve vários aspectos, e o próprio ponto de vista dos estudantes não pode deixar de ser levado em conta. O filósofo e historiador Leandro Karnal afirma em seu Instagram que

Machado é um gênio, talvez o maior na prosa. É bom forçar um adolescente a ler Dom Casmurro para fazer uma prova? Acredito que isto precisa ser muito debatido. A diferença entre remédio e veneno é a dose. Como professor e amante da obra de Machado, eu diria: a) primeiro textos curtos e sedutores; b) avaliar idade e maturidade de cada turma; c) preparar o ambiente e trabalhar, talvez, O Alienista ou um conto curto; d) valorizar mais a ideia e as ironias, um pouco menos as personagens em uma avaliação. A questão está na gradação, no método, no prazer e na capacidade crítica. Eu começaria mostrando uma imagem tradicional de Machado “embranquecido” e o Machado real e perguntaria: “por que o gênio foi mudado na aparência?” Talvez, preparando O Alienista, lançaria o debate: “quem é louco para vocês?”. Dar uma obra densa, explicar que é realista e marcar uma prova é o caminho para despertar a raiva ou o tédio… De novo: ensinar alunos jovens é um desafio gigantesco.

O saudoso Rubem Alves diz em seu artigo O prazer da leitura:

Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. É a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) [A criança] Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da mediação da pessoa que o está lendo.
Num primeiro momento, as delícias do texto encontram-se na fala do professor. (…) Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gramática ou de análise sintática. Não foi nelas que aprendi as delícias da literatura. Mas lembro-me com alegria das aulas de leitura. Na verdade, não eram aulas. Eram concertos. A professora lia, interpretava o texto, e nós ouvíamos, extasiados. Ninguém falava.
Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que não havia exames sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experiência prazerosa da leitura – experiência vagabunda! – e a experiência de ler a fim de responder a questionários de interpretação e compreensão.

Devo confessar que eu próprio sou uma das vítimas desse ensino equivocado de literatura. Sempre gostei de escrever, amo as línguas desde que me entendo por gente – ou, pelo menos, desde descobri que há muitas línguas no mundo. Abandonei o curso de física no quinto semestre para me dedicar à linguística por amor à palavra. No entanto, ter sido obrigado a ler Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ou Menino de Engenho, de José Lins do Rego, ou, pior ainda, A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, e O Cabeleira, de Franklin Távora, provocaram em mim um trauma que carrego até hoje: sou totalmente avesso à prosa de ficção. Na verdade, leio muito, desde filosofia, passando por divulgação científica, história, biografias, atualidades, política, crônica, música, até humor e poesia, mas há anos não pego nas mãos um romance ou livro de contos. Não que eu desmereça a literatura ou não tenha consciência de sua importância artística e cultural. Pelo contrário, admiro muito as pessoas que têm a paciência de ler a descrição de um ambiente ou do vestido da heroína feita em três longas páginas, cheias de figuras de linguagem e torneios sintáticos inusitados! Assim como admiro as pessoas que, lendo uma narrativa ficcional, conseguem transportar-se mentalmente aos ambientes que ela visita e conseguem visualizar as feições dos personagens sem associá-las a atores de televisão. Mas admito que, em matéria de ficção, sou de uma geração mais imediatista, que de fato achava um saco passar dias e dias lendo uma estória quando o cinema nos conta essa mesma estória em pouco menos de duas horas, com trilha sonora, recursos audiovisuais, maravilhosos cenários, belos atores e atrizes e, em alguns casos, até narrador (aquela voz em off que fala com o espectador como o narrador onisciente ou como um dos personagens contando sua própria história).

Lembro-me que no ano de 2000 publiquei um artigo na Folha de S. Paulo com o título Repensando o ensino de literatura. Nele, eu dizia:

[o] ensino de literatura portuguesa e brasileira faz parte do currículo escolar de primeiro e segundo graus, e o conhecimento dessas literaturas é exigido na maioria dos concursos vestibulares. A justificativa para o ensino dessas disciplinas é a necessidade de nossos jovens tomarem contato com a literatura e, assim, com a língua portuguesa escrita em sua mais alta expressão. Em suma, o conhecimento literário faz parte da formação geral e humanística que se espera de qualquer cidadão escolarizado.
No entanto, o ensino de literatura nas escolas tem-se restringido, as mais das vezes, à história da literatura brasileira e portuguesa, exigindo do aluno, por exemplo, que decore o fato de que o início do Romantismo no Brasil se deu com a publicação, em 1836, de Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, ou que o barroco se caracterizava, dentre outras coisas, pelo teocentrismo. Paralelamente, exige-se a leitura de alguns livros enfadonhos (…).
Ora, a literatura é uma arte como qualquer outra, como a música, a pintura, a escultura, o teatro… Entretanto, o ensino de educação artística nas escolas não se restringe à história da arte, mas, antes, procura incentivar a criatividade dos alunos por meio da elaboração de trabalhos manuais. Igualmente, o ensino de música (nas escolas onde ele existe) não objetiva fazer os alunos saberem em que ano nasceu Beethoven, mas sim transmitir a eles os rudimentos de teoria musical e de prática de algum instrumento. Note-se que nem o conhecimento de música nem o de artes é exigido nos vestibulares (exceto, é claro, para as carreiras de música e de artes plásticas).

Minha tese, que ainda sustento, é que o contato com a leitura deve ser prazeroso e que o aluno deveria ter a liberdade de escolher o que ler, seja ficção ou não ficção, seja nacional ou estrangeiro. Pois a cultura geral do cidadão não se faz apenas com narrativas de ficção, mas também e principalmente com a leitura de grandes intelectuais e pensadores, e o conhecimento que forma a cultura não está restrito a autores de língua portuguesa. Aliás, venhamos e convenhamos que a literatura de língua portuguesa goza de bem pouco prestígio em termos mundiais, o que parece indicar que há muito mais coisas boas a serem lidas lá fora do que aqui dentro.

Por isso, naquele artigo eu também defendia que,

[s]e o objetivo do ensino de literatura na escola média é estimular no aluno o hábito da leitura, então por que, em vez de obrigá-lo a ler obras de ficção de séculos passados, não se propõe a ele a leitura de obras importantes de não ficção da atualidade, como os livros de Sérgio Buarque de Hollanda e Milton Santos, por sinal muito bem escritos, ou os de Carl Sagan, que possuem, aliás, excelentes traduções em português? Será que o estudo de obras, nacionais ou estrangeiras, que tratam de questões reais do mundo contemporâneo, como a globalização e a poluição, por exemplo, não é mais relevante que o estudo de obras ficcionais?

Ou seja, eu considerava que a literatura de ficção, como arte, deve ser, sim, conhecida e apreciada, e que, para isso, é preciso educar a mente assim como se educam os ouvidos para apreciar boa música ou o paladar para degustar um bom vinho. E que o modo como essa literatura vinha – e pelo jeito ainda vem – sendo ensinada simplesmente desestimula o estudante a ler, mata-lhe a capacidade da fruição estética e o enche de enfado e tédio. Finalmente, a cobrança dessas leituras em concursos vestibulares favorece o surgimento de cursinhos e sites que fornecem resumos, de modo que o candidato possa responder às questões da prova sem ter passado pelo suplício de ler as obras.

À época, recebi muitas cartas de apoio (os e-mails ainda estavam engatinhando; comentários e likes nem sonhavam em existir). Mas também fui detonado por dois ou três professores de literatura de universidades renomadas, que, defendendo seu feudo, chamaram meu arrazoado de “barbárie”.

Portanto, não espero que você, leitor, concorde comigo, mas que reflita sobre a problematização que fiz. E que não pegue o atalho fácil de sair malhando essa ou aquela celebridade que posta alguma opinião polêmica nas redes sociais sem ter analisado a fundo a questão. Às vezes, até um Felipe Neto da vida pode dizer algo que faça sentido. Ou propor um debate que valha a pena.

Qual é o correto: “pra” ou “prá”?

Caro Aldo, boa tarde.
Vejo em muitos lugares a preposição “pra” escrita como “prá”. Afinal qual é o correto, “pra” ou “prá”? Obrigado.
Kléber Araújo dos Santos

Caro Kléber, a rigor, nenhuma das duas grafias está correta, pelo menos em termos do português padrão. Acontece que “pra” é forma coloquial da preposição “para”, logo só deveria ser usada em textos escritos que procurem reproduzir a fala informal, como é o caso da transcrição de diálogos em obras de ficção.

No entanto, muitas propagandas (talvez a maioria delas) utilizam correntemente “pra” em lugar de “para” com o objetivo de assumir um tom mais intimista, menos sisudo, e assim criar um vínculo maior com o público-alvo. Coisas do marketing.

Mas a questão é: já que essa forma popular da preposição aparece cada vez mais em textos escritos, seja via literatura ou via publicidade, deve haver uma grafia recomendada para ela, certo? Nesse ponto, a maioria dos dicionários se cala, já que formas populares como “tó”, “ói”, “tô”, “tá”, “peraí”, etc., não costumam ser dicionarizadas. Em contrapartida, o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) elenca “pra” (sem acento). Só que temos um complicador: a preposição “para” é frequentemente seguida de artigos (“para o”, “para a”, “para os”, “para as”), no que é seguida por sua forma alternativa “pra” (“pra o”, “pra a”, “pra os”, “pra as”). Essa pronúncia, comum no Nordeste, evoluiu no Centro-Sul do país para as formas contraídas “pro”, “pros”, etc. Se “pra” + “o” = “pro”, então “pra” + “a” deveria ser algo diferente do próprio “pra”, ou seja, deveria valer nesse caso a mesma regra da crase (“a” + “o” = “ao”, “a” + “a” = “à”).

Segundo esse raciocínio, a contração de “pra” com “a” ou “as” deveria ser grafada “prà”, “pràs”. Como essa grafia não existe, é possível que alguém (provavelmente em Portugal, onde a distinção de timbre entre “a” e “à” é bastante forte) tenha adotado a grafia “prá” a fim de indicar a contração de “pra” com “a”.

Só que, como estamos no âmbito da informalidade, a ausência de uma norma ortográfica que reja expressões coloquiais faz com que as pessoas grafem essas palavras a seu bel-prazer, sem nenhum critério morfológico ou etimológico. Conclusão: “pra” e “prá” andam juntos e misturados. Pelo sim e pelo não, prefira a grafia “pra”, que ao menos está registrada no VOLP. Além disso, se você não é escritor nem publicitário, certamente ninguém o censurará por escrever errado, num bilhete ou e-mail informal, uma palavra que não está nos dicionários.

Poesia, arte maior ou atividade marginal?

Ao longo da História, a poesia sempre foi considerada “a grande Arte”. Tanto que a palavra grega poíesis (criação, composição), da qual provém “poesia”, era o termo utilizado pelos gregos para designar a arte em geral (a palavra tékhne era reservada às artes manuais, como a escultura e a ourivesaria). Essa distinção se dava porque os gregos consideravam que um pintor ou escultor eram meros reprodutores servis da realidade, e que um quadro ou estátua, portanto, não passavam de cópias de objetos ou figuras humanas que qualquer artífice bem treinado seria capaz de fazer. Já a verdadeira criação do espírito estava na poesia e na música, que exigiam gênio para ser compostas. Aliás, a música e a poesia sempre conviveram na Antiguidade, tanto que o símbolo grego da poesia é um instrumento musical, a lira. Tal como na música popular de hoje, os poemas eram cantados e não recitados.

A facilidade em decorar versos foi fator determinante para o triunfo da poesia, a ponto de a maioria dos livros antigos, mesmo aqueles com finalidades práticas ou religiosas, como os Vedas indianos, ter sido escrita em versos. Numa época em que a transmissão do conhecimento era oral, a versificação facilitava muito as coisas. E entoar os versos, seguindo uma melodia, facilitava ainda mais.

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Foram os grandes poemas, as epopeias, os textos fundadores de línguas e nacionalidades. Foi assim com o Gilgamesh na Mesopotâmia, a Ilíada e a Odisseia na Grécia, a Eneida em Roma, o Mahabharata na Índia, além, é claro, do nosso épico Os Lusíadas, marco da língua portuguesa.

Até meados do século passado, a poesia figurava entre as grandes artes, e os poetas eram tidos em alta conta na sociedade (Bandeira, Drummond, João Cabral, Cecília Meireles são reverenciados até hoje). Muitos movimentos estéticos, como o Romantismo e o Modernismo, nasceram na poesia e só depois se espraiaram aos outros campos artísticos.

No entanto, a partir das décadas de 1950 e 1960, a “grande arte” entrou em decadência. As vendas de livros de poemas caíram, as editoras passaram a publicar menos (a não ser os grandes clássicos e, mesmo assim, visando sobretudo ao mercado didático), e grandes poetas, como Vinicius de Moraes, migraram para a música popular ou a publicidade.

Por sinal, no caso brasileiro, a MPB tem sido o grande refúgio dos poetas: e aí que, a meu ver, se encontram hoje os melhores textos em versos. É este também o melhor ganha-pão dos fazedores de versos; afinal, ser letrista de composições de sucesso pode render muito dinheiro em direitos autorais.

Não à toa, Chico Buarque, que nunca publicou um livro de poemas, já foi considerado o maior poeta brasileiro – em que pese a velha polêmica sobre se letra de canção é poema ou não.

Nos anos 1970 e 1980, a poesia já dava claros sinais de ter descido aos infernos da marginalidade com a chamada “geração mimeógrafo”. Tratava-se de poetas que imprimiam seus escritos no velho mimeógrafo (para quem não sabe ou não se lembra, é um aparelho que faz cópias de um texto manuscrito ou datilografado utilizando álcool) e saíam pelos bares e eventos culturais vendendo seu trabalho de mão em mão. Os mais abonados chegavam a imprimir seus livros em gráficas, às vezes com ótimo acabamento. Quem viveu essa época deve se lembrar de como às vezes eram inconvenientes esses poetas, interrompendo a conversa de casais de namorados para ofertar um livro (alguns até dedicavam certo poema ao amor do casal).

De lá para cá, o advento da internet fez migrar os poetas-camelôs para os blogs, meio muito mais eficiente e econômico de divulgar poemas. Mesmo assim, o alcance de um texto poético na rede é bem pequeno se comparado a blogs de moda, tecnologia, esportes, notícias, etc.

O que hoje se nota é que a poesia, outrora rainha das artes, mudou-se de mala e cuia para a periferia das cidades, e é um fenômeno que anima sobretudo as classes mais baixas. Na onda do hip-hop, grande parte dos atuais poetas de periferia são rappers, que novamente unem a música à palavra para dar seu recado. Um recado que fala em geral de coisas pouco poéticas, como crime e violência policial.

Se no século XIX saraus literários eram eventos da elite, regados a chá e quitutes finos, hoje o sarau ocorre em bares e salões paroquiais, e poetas e espectadores se confundem; neles, há participação de artistas amadores, donas de casa, estudantes, aposentados…

Não que o fenômeno seja desprezível. Embora longe dos holofotes da mídia ou do interesse dos críticos acadêmicos, esse movimento poético marginal envolve um grande número de pessoas, muitos livros fabricados artesanalmente têm sua tiragem esgotada na venda direta do autor ao leitor, e muitos desses poetas são verdadeiras celebridades em seu meio. Só que a qualidade dessa produção também é bastante irregular: poetas de qualidade declamam ao lado de senhoras que versejam por passatempo ou adolescentes que dedicam suas criações um tanto infantis ao ser amado.

Como os livros são produzidos sob encomenda do próprio autor – e por ele financiados –, não há um critério de seleção por qualidade ou viabilidade comercial como ocorre nas editoras. E tais obras, desconhecidas da maioria da sociedade, jamais entrarão para o cânone literário, jamais serão estudadas nas aulas de literatura, jamais entrarão para a História.

A poesia resiste, seja nas letras de canções, seja nos blogs e nos saraus de periferia, mas é triste constatar que essa arte, que fundou a literatura, que é a mais antiga forma de manifestação artística do homem e que define povos e culturas, hoje vive na marginalidade. Enquanto músicos, artistas plásticos, atores, cineastas, performers e mesmo escritores de prosa mais comercial ganham dinheiro e fama com sua arte, os poetas se misturam e se confundem com a pobreza e a violência do lado esquecido (“excluído” é moda dizer hoje em dia) da cidade e da sociedade.