Homofobia, antipatias, idiossincrasias

Tempos atrás, no artigo O estigma das palavras, toquei na questão da ideologia e da lógica (ou falta dela) por trás de certos termos técnicos ou do domínio dos discursos ditos “cultos” (a polêmica entre homossexualismo e homossexualidade seria um exemplo disso). Argumentei que, se levássemos a ferro e fogo o sentido etimológico desses termos, todos eles teriam de ser mudados: a astrologia deveria chamar-se astromancia, a neurociência passaria a ser neurologia, a neurologia neuriatria, a tecnologia logotecnia, e assim por diante.

Pois uma dessas palavras cujo real significado pode causar embaraços e mesmo pendências jurídicas é homofobia. Neste momento em que se adotam leis que punem atitudes homofóbicas, é oportuno entender o que se compreende sob esse rótulo. Aliás, as considerações que faço a seguir valem igualmente para outros comportamentos sociais, alguns deles já criminalizados, também denominados por palavras terminadas em ‑fobia, como xenofobia, gordofobia, transfobia, islamofobia, russofobia, etc.

A palavra homofobia foi cunhada a partir do pseudorradical homo- (na verdade, truncamento de homossexual, pois o verdadeiro radical grego homo quer dizer “igual”), e fobia, que significa “medo, repulsa, aversão”. Portanto, etimologicamente, homofobia seria a aversão aos homossexuais. Ora, repulsa, aversão, amor, ódio, apreço, medo, situam-se na esfera dos sentimentos e paixões humanas, portanto dizem respeito à ética privada de cada um, ao chamado foro íntimo. Logo, salvo melhor juízo, não são nem podem ser objeto de qualquer legislação, muito menos no âmbito criminal.

Não gosto de bife de fígado, de futebol nem de funk (o das favelas brasileiras, bem entendido; o americano eu adoro). Sou passível de punição por causa disso? Todo mundo tem suas preferências, simpatias, antipatias, idiossincrasias. Há quem prefira as louras às morenas (ou vice-versa), há quem goste mais de roupa esportiva do que de terno e gravata. O que a lei tem a dizer sobre isso? Nada. No máximo, pode definir locais em que o uso de roupa casual é proibido ou não recomendado.

Agredir os torcedores do time adversário é crime, odiar o time adversário não. Insultar alguém por sua fé religiosa também é crime, deplorar a religião do outro também não é.

Na verdade, o que os legisladores visam punir, e com justa razão, sob a denominação de conduta homofóbica é a violência, física ou moral, e o cerceamento dos direitos civis dos homossexuais, o que inclui insultos, xingamentos, chacota, agressão, negação de acesso a locais públicos ou a cargos profissionais e outras formas de desrespeito e discriminação. Ou seja, a simples reprovação do estilo de vida ou do comportamento gay, bem como a expressão pública dessa reprovação, não pode constituir crime porque está assegurada pelo princípio constitucional da liberdade de consciência e de expressão do pensamento. Gostar ou não gostar de alguém pelo modo como age, fala, gesticula, se veste ou pelas posições que defende, assim como manifestar essa opinião, é algo legítimo e jamais passível de punição, ao menos num estado democrático de direito — o que tenho dúvidas se o Brasil é de fato.

Alguns poderão dizer que se trata de preconceito. Certamente, mas, a rigor, toda opinião é preconceito, afinal ninguém é dono da verdade, e opiniões são justamente isso: opiniões. Há uma distância enorme entre a opinião e o fato objetivo, concreto, e por vezes nem a ciência é capaz de compreender a realidade para além dos filtros de seus próprios preconceitos, chamados pomposamente de teorias. Portanto, exigir que simples mortais emitam opiniões “verdadeiras”, despojadas de qualquer prejulgamento, é esperar de nós mesmos uma postura sobre-humana, divina talvez.

A questão é que, preconcebida ou não, fundada ou não em argumentos lógicos ou evidências científicas, a visão que temos do outro é algo que lei alguma pode mudar. Em regimes totalitários, pode-se proibir a expressão, mas não o pensamento. Nos regimes democráticos, nem isso. Logo, se entendermos a homofobia etimologicamente como a aversão pura e simples aos gays e seu comportamento, chegaremos à conclusão de que qualquer lei contra ela é inconstitucional. O que se passa é que as condutas e práticas que a legislação pretende coibir vão muito além da simples aversão, e estas sim são passiveis de repressão e punição. Só que, se quisermos ser rigorosos em termos linguísticos, essas atitudes não podem ser classificadas como homofobia. Seria preciso então cunhar outro termo para designar o crime motivado por sentimento homofóbico, que se distingue do sentimento propriamente dito e mesmo de sua expressão verbal  (uma sugestão — mas acho que não pegaria — seria cinaidobia, do grego kínaidos, “homossexual”, e bía, “violência”). Isso porque há sempre o risco de que alguém, por ignorância ou oportunismo, invoque a lei diante de um simples comentário adverso ou olhar atravessado. Em tempos de caça às bruxas, convém cercar-se de todas as garantias, pois, para alguns, até pensar constitui crime.

Novas palavras a ser proibidas por serem politicamente incorretas

DISCLAIMER AOS DESAVISADOS: Este texto tem fortes doses de ironia.

Como vocês sabem, a língua portuguesa, como de resto todas as línguas, é machista, racista, classista, homofóbica, transfóbica, aporofóbica, etc. etc. Portanto, precisamos urgentemente banir do nosso vernáculo todas as palavras e expressões que firam a suscetibilidade e os direitos das minorias. Aqui vai minha humilde contribuição a essa justa causa, apontando algumas palavras que até agora passaram despercebidas, mas que contêm uma grande carga de preconceito e desrespeito.

Comecemos pela palavra virtude. Sim, amigos, amigas e amigues, essa palavrinha aparentemente tão inocente e mesmo nobre veio do latim virtus, derivada de vir, “homem, ser humano do sexo masculino”, logo significa “qualidade de quem é homem, aquela que só o homem tem”. Como podem ver, é uma palavra pra lá de machista, visto que considera que só os machos da espécie têm a qualidade da virtude. Pelos mesmos motivos, devemos banir também viril, virilidade, varonil e másculo, pois todos esses termos remetem ao sexo masculino de forma positiva e elogiosa, desmerecendo as mulheres. Aliás, também é urgente proscrevermos hombridade (do espanhol hombre, “homem”) e homenagem (alguém até já propôs mulheragem em seu lugar, mas eu fico me perguntando se aí também não teríamos sexismo, só que em sentido oposto).

E por falar em mulheres, a própria palavra mulher é discriminatória, pois provém do latim mulier, “mulher casada, esposa”, como se só as casadas fossem mulheres de verdade. E o que dizer de senhor então? Essa palavra nos chegou do latim senior, que quer dizer “mais velho”, logo é um termo altamente ageísta. E jamais devemos dizer que um erro é crasso, pois crassus em latim é “gordo”, e nós evidentemente não somos gordofóbicos, né?

Por fim, jamais use a palavra atroz, que vem de ater, “negro” em latim, pois você estará associando a ideia nefasta de atrocidade às pessoas afrodescendentes. E tampouco use a palavra alvo no sentido de meta a ser atingida, já que esse vocábulo significa “branco”, e assim você estará elevando a raça branca ao status de superioridade, perfeição, de objetivo a que todos devem aspirar.

Bem, acho que por hoje já dei minha contribuição para tornar nosso idioma mais inclusivo e menos discriminatório. Em todo caso, se encontrar mais termos preconceituosos, darei prosseguimento ao meu index verborum prohibitorum, ok?

Homossexualismo ou homossexualidade?

O caso da piada homofóbica feita pelo disseminador de fake news bolsonarista Otávio Fakhoury contra o senador Fabiano Contarato e a elegantíssima resposta dada por este ao negacionista Fakhoury na sessão da CPI da pandemia repercutiu durante toda a semana. Emocionado, indignado, mas altivo, o senador falou em nome de todos aqueles que são diariamente desrespeitados neste país por sua orientação sexual, cor da pele, gênero, idade, condição física, origem étnica ou geográfica, e assim por diante.

É claro que eu jamais faria uma brincadeira tão sem graça e tão desrespeitosa, mas se a tivesse feito, naquele momento na CPI, diante das câmeras e de milhões de telespectadores brasileiros, teria cavado um buraco no chão e me enterrado nele. Para resumir numa palavra a atitude do militante bolsonarista, eu diria que, além de insultuosa, foi uma tremenda babaquice, coisa de moleque e não de homem feito. Ainda mais vindo de alguém que detém certa cultura, muitos recursos materiais e que exalta a família o tempo todo, mas só um tipo de família – a dele.

Mas o caso suscitou novamente uma controvérsia linguística. Qual a forma politicamente mais correta: homossexualismo ou homossexualidade? Esse debate não é novo, e muitos dizem que cabe aos membros da própria comunidade LGBTQIA+ decidir como devemos nos referir a eles. Não vou entrar nessa polêmica, que envolve lugar de fala e outras questões atinentes à linguagem inclusiva. Vou apenas expressar minha opinião com base no meu conhecimento de língua.

Critica-se a forma homossexualismo alegando que o sufixo ‑ismo remete à ideia de doença ou patologia. Teríamos então nanismo, autismo, sedentarismo, etc., ao passo que o sufixo ‑dade de homossexualidade seria mais neutro, denotando condição – uns chamam até de opção (o que não é o caso, já que ninguém escolhe ser homossexual) ou orientação.

Entretanto, há inúmeras contraprovas desse argumento. Em primeiro lugar, o sufixo -ismo aparece em capitalismo, marxismo, classicismo, romantismo, automobilismo, alpinismo, cristianismo, budismo, e muitos outros.

Em segundo lugar, o sufixo ‑dade ocorre no nome de várias patologias: ansiedade, obesidade, hiperatividade.

Portanto, penso que não há nada de negativo em homossexualismo e nada de neutro ou positivo em homossexualidade. Ainda que os portadores dessa condição tenham sua preferência vocabular – e eles estão no seu direito –, não vejo sentido em repreender alguém por usar outro termo que tem exatamente o mesmo significado. Ou seja, sufixos não são bandeiras ideológicas, são meras ferramentas da língua para expressar conceitos. Há muitos indivíduos homofóbicos usando a palavra homossexualidade, assim como há muitos simpatizantes da causa LGBTQIA+ empregando homossexualismo, tudo por uma questão de hábito, sem qualquer outra conotação.

E em tempo: parabéns ao senador Contarato por sua coragem e postura cívica e a todos aqueles que, como ele, se sentiram ofendidos por um babaca.