O desprestígio da área de Letras

Pode soar estranho para a maioria das pessoas, mas a língua é, das instituições sociais criadas pelo homem, a mais “exata”, no sentido matemático do termo. Isso porque, na verdade, a língua não foi propriamente “criada” pela espécie humana, mas é o desenvolvimento natural de uma aptidão que tem raízes biológicas. Como disse o linguista israelense Guy Deutscher, “a língua é a maior invenção da humanidade, exceto pelo fato de que nunca foi inventada”. Como quer que seja, as línguas humanas são estruturas formadas de elementos que se combinam segundo regras precisas para formar elementos de um nível superior, que por sua vez se combinam segundo as mesmas regras, e assim por diante, seguindo um princípio hierárquico que vai dos elementos mínimos (os fonemas) até os enunciados máximos (os textos e discursos).

Embora haja também fenômenos psicossociais envolvidos na comunicação humana verbal, o fato é que a ferramenta básica dessa comunicação é um sistema cujo funcionamento segue leis matemáticas e, por isso mesmo, permite coisas como tradução automática, inteligência artificial e muito mais.

Olhando desse ponto de vista, um profissional de Letras deveria ser muito respeitado em nossa sociedade, já que é detentor de um conhecimento técnico tão complexo quanto o dos engenheiros, médicos, advogados, economistas, analistas de sistemas, cientistas… Só que não, e é fácil entender por quê. Enquanto um médico estuda no mínimo seis anos e um engenheiro ou advogado no mínimo cinco para se formarem, além de outros profissionais universitários, que estudam pelo menos quatro anos, um professor de português ou inglês estuda, na maioria das faculdades de Letras do nosso país, apenas três anos. E boa parte desse tempo é dedicada a disciplinas pedagógicas (como dar uma aula, como elaborar um plano de ensino, etc.). E hoje, com o advento hegemônico da educação à distância, até a prática pedagógica é ensinada… teoricamente.

Não bastasse isso, no pouco tempo que sobra para estudar a língua propriamente dita, o que se estuda não é a gramática normativa, que é a que deverá ser ensinada pelos futuros professores. Enquanto médicos, engenheiros e advogados, dentre outros, são bem remunerados por serem profissionais “pensantes”, que têm de usar seu conhecimento técnico e seu raciocínio para resolver problemas complexos, o professor é visto como alguém que não pensa, apenas repete como papagaio as informações que memorizou em seus poucos anos de estudo superior. E, nesse entremeio, o professor de Letras é o mais desvalorizado, afinal um professor de matemática ou química, bem ou mal, lida com coisas “exatas”.

Infelizmente, o ensino de Letras em nosso país só faz justificar essa visão preconceituosa da profissão. Não é à toa que cursos de medicina ou engenharia existem principalmente em universidades de grande porte, muitas das quais famosas e conceituadas (bem, hoje em dia as faculdades de medicina de fundo de quintal já são quase tão onipresentes quanto as igrejas do Edir Macedo). Já cursos de Letras costumavam até pouco tempo atrás pulular em faculdadezinhas sem nenhuma qualidade. (É evidente que também há cursos ruins de medicina e engenharia em faculdades igualmente ruins, mas para cada curso ruim de medicina ou engenharia havia cinco ou seis de Letras ou Pedagogia. Esse cenário mudou nos últimos anos, quando o desinteresse geral dos estudantes em seguir a carreira do magistério levou ao fechamento da maioria dos cursos de Letras ou à sua transferência para a modalidade à distância, com redução ainda maior da carga horária e nenhuma prática pedagógica, ao mesmo tempo que cresceu a busca pelos cursos de Direito, Informática e Medicina.)

Outro ponto importante é que um estudante de Engenharia é alguém que supostamente estudou bastante matemática e física no colégio e, por isso, chega aos bancos universitários relativamente preparado para o que vem pela frente. (Bem, novamente aqui tenho que fazer essa afirmação com certa ressalva, pois posso estar redondamente enganado.) Ao contrário, o estudante de Letras é, via de regra, alguém cuja educação básica não estimulou seu raciocínio lógico. Em outras palavras, é alguém que não está acostumado a pensar, a fazer abstrações, a visualizar diagramas e esquemas em duas ou mais dimensões — em resumo, é alguém que está na área de Humanas para fugir do raciocínio, alguém que, vindo das classes mais baixas e de um ensino público falido, escolhe o curso “mais fácil”. Então, quando esse aluno depara com uma disciplina chamada Linguística e suas subdivisões (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica, pragmática) e começa a ver esquemas, diagramas em árvore, oposições binárias, linguagem de conjuntos e outros que-tais, entra em desespero e desiste do curso. Ou conclui a faculdade odiando a linguística e, assim, vai ser mais um profissional não pensante, mal remunerado e desprezado socialmente. Infelizmente, na maioria dos casos, esse indivíduo fez por merecer — ainda que involuntariamente — o preconceito que se lhe abate.

A raiz do feminicídio

A matança de mulheres pelo simples fato de serem mulheres é uma das grandes chagas do nosso tempo e, no Brasil, uma verdadeira e vergonhosa epidemia. Mas, mais do que um fenômeno policial, trata-se de um problema social. As estatísticas mostram que cerca de 60% das vítimas brasileiras de feminicídio são mulheres negras pobres de periferia. E que seus executores são igualmente homens negros pobres de periferia. Portanto, embora esse crime ocorra em todas as classes sociais, ele é mais frequente nas classes mais baixas, onde estão presentes diversas características que, aliadas ao mau caráter dos criminosos, acabam turbinando a incidência desses assassinatos, como a baixa escolaridade, famílias desestruturadas, amiúde formadas por uma mãe solteira e muitos filhos, às vezes de pais diferentes, com um pai ausente ou então alcoólatra, drogado e/ou marginal e, em todos os casos, violento, além de o próprio entorno favorecer a violência, já que na periferia mesmo as pessoas de bem são obrigadas a conviver muito de perto com a criminalidade (toda favela tem sua boca de fumo, e muitas favelas são totalmente dominadas pelo tráfico ou pelas milícias).

Assim, o feminicídio é apenas mais uma das mazelas produzidas por nossa brutal desigualdade social. Mas não é só isso: nossa cultura machista, herdada dos colonizadores ibéricos, que resultou no típico machão latino-americano, também é um ingrediente importante do problema. E o pior é que mudanças culturais levam décadas e gerações para ocorrer, além de dependerem da educação que se dá às crianças em casa (e que o ambiente periférico tem falhado em prover) e da que se dá na escola, onde a péssima qualidade do serviço oferecido pelo Estado igualmente falha.

Por isso sou pessimista em relação a uma solução de curto ou médio prazo para essa epidemia de crimes contra as mulheres. O poder público ataca o sintoma e não a causa da doença na medida em que endurece punições para esse crime, mas não resolve a questão estrutural básica da desigualdade social crônica. E aumentar penas não adianta: os criminosos não temem a cadeia, ainda mais com todas as regalias que a legislação oferece aos criminosos. Sem falar que esses crimes são cometidos por impulso, movidos a emoção e não a razão; logo, nenhum feminicida pondera antes de praticar o crime se vale a pena ou não executá-lo, qual o custo-benefício de seu ato em face de uma possível punição. Aliás, muitos assassinos se suicidam logo após o crime. Trata-se de selvageria pura, combinada à visão de que a mulher é propriedade do homem, à vergonha da “dor de corno” e à sensação de impunidade que nossa legislação e nosso Judiciário contribuem para reafirmar.

A pesquisa linguística no Brasil

Apesar de ainda sermos um país em vias de desenvolvimento (ou emergente, como se diz hoje em dia) e mesmo com os constantes ataques da nada saudosa gestão Bolsonaro à ciência e os sucessivos cortes de verbas e de investimento no setor, não só por aquele desastroso governo, mas também pelos anteriores, nossas pesquisas científicas e tecnológicas em várias áreas já se equiparam ao que de melhor se produz no mundo. Cirurgia cardíaca, neurociência, física, química, engenharia de materiais, aeronáutica, agricultura, dentre outros, são setores em que o Brasil vem continuamente se destacando no cenário mundial, com uma produção científica e intelectual relevante do ponto de vista tanto quantitativo como qualitativo. Infelizmente, nada semelhante pode ser dito a respeito das ciências da linguagem. Em nosso país, há poucas universidades (quase todas públicas) com departamentos de linguística. E, nestes, a pesquisa que se faz está quase sempre voltada ao ensino de português na escola básica. Ironicamente, nunca se ensinou tão mal a nossa língua nas escolas, haja vista os deploráveis resultados dos testes de avaliação aplicados aos nossos estudantes. Em plena sexta série, muitos são analfabetos funcionais — ou absolutos!

Enquanto no mundo desenvolvido as pesquisas em linguística versam sobre temas como a origem da linguagem e a primeira língua falada pelo homem, a reconstrução de línguas pré-históricas, as relações entre o cérebro humano e o processamento da linguagem, o uso do conhecimento linguístico no desenvolvimento de inteligência artificial e o tratamento de patologias da linguagem, dentre outros, aqui os departamentos de linguística mais parecem extensões das faculdades de educação. Não que a pesquisa aplicada ao ensino não seja relevante, mas os departamentos de linguística das universidades não deveriam ocupar-se somente disso. Além do mais, os linguistas que pesquisam sobre educação em geral propugnam não o ensino da norma-padrão da língua portuguesa, aquela que é correntemente utilizada pelas pessoas de alto letramento na imprensa, nos livros, na redação jurídica, técnica, acadêmica, etc., mas uma outra, em grande parte inventada por eles, que só gente que escreve mal emprega.

Todo o problema deriva do mau uso de uma disciplina linguística bastante importante, a sociolinguística, que estuda a relação entre o modo como as pessoas se expressam e o grupo social (classe, nível socioeconômico, profissão, idade, sexo, etc.) a que pertencem. Muitos linguistas brasileiros confundem a análise neutra, objetiva e imparcial do fenômeno com o suposto dever de militar em favor de algum grupo social e, por conseguinte, adequar o ensino de gramática às deficiências desse grupo, ministrando aos pobres — ou melhor, às pessoas em situação de vulnerabilidade econômica — uma educação igualmente pobre. Essas pesquisas não atacam a raiz do problema, isto é, a desigualdade social (o que, aliás, não é da competência dos linguistas fazer), nem propõem a solução óbvia, a melhoria da educação pública. Em vez disso, optam por sugerir o empobrecimento do vocabulário e da gramática para que, nivelando-os por baixo, sejam acessíveis a estudantes em situação de vulnerabilidade intelectual.

O problema é que esse tipo de pesquisa dá com os burros n’água na medida em que em nada contribuem para a melhoria do desempenho linguístico dos alunos, especialmente nas situações que realmente importam, ligadas à atividade profissional de alto nível. E pesquisas como essas ou como tantas outras, que enfocam questões meramente locais, têm pouca relevância no Brasil e nenhuma em nível global. De fato, pesquisas sobre questões pontuais e desimportantes — certa vez um professor meu da USP publicou um artigo sobre os parassinônimos do verbo andar; e um doutorando defendeu uma tese sobre o léxico dos travestis da Praça da Sé —, publicadas em língua portuguesa, acabam não tendo aplicação prática na elaboração de políticas públicas nem interessam à comunidade científica internacional, que, aliás, não lê português. Enquanto isso, outros países emergentes como China, Rússia, Índia e mesmo os vizinhos Chile e Argentina se destacam pela quantidade e pela qualidade de suas pesquisas, de interesse mundial e não apenas local.

Portanto, falta à linguística brasileira em particular e às ciências humanas em geral uma postura mais científica e menos ideológica. Falta que os linguistas encastelados nas universidades públicas brasileiras façam mais ciência e menos política. Ainda mais quando essa política já se provou na prática ineficaz, quando não nociva ao desenvolvimento do país.

A posição do sujeito e sua concordância com o verbo — respondendo a uma leitora

Minha leitora Patricia B. Limongi me fez uma pergunta interessante sobre uma dúvida que também pode ser, creio, de muitos outros leitores. Ela pergunta:

Em seu artigo Ainda sobre o português e o “brasileiro”, de 24 de março, o senhor critica os linguistas que defendem a abonação de construções como “aconteceu dois acidentes”.

De acordo com a gramática tradicional, que delimita nitidamente o grupo restrito dos verbos impessoais e classifica como pessoais todos os outros, nesse exemplo faltou a concordância verbal com o sujeito posposto. Mas, de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal, o que leva à tentativa de compreender a causa do fenômeno sintático e propor novas descrições para ele.

No livro Não é errado falar assim!, capítulo “Concordância com sujeito posposto”, Marcos Bagno diz que a ordem SVO está “tão enraizada no nosso processamento mental da língua que nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”. Ele cita a hipótese de Mattoso, segundo a qual, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal. E conclui:

O mais democrático a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância. Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal.

Acho essa explicação muito lúcida e convincente. A minha dúvida é esta: existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?

Em resposta a ela, esclareço que, em primeiro lugar, existe uma diferença entre a linguística descritiva e a gramática normativa. A primeira descreve e explica como as pessoas falam e/ou escrevem nas mais diversas situações de comunicação. A segunda prescreve como as pessoas devem escrever textos formais (acadêmicos, técnicos, científicos, jurídicos, jornalísticos, literários, etc.) consoante o próprio modelo de referência já empregado nesses textos. A gramática estabelece uma norma, um modelo exemplar de uso da língua nas situações mais formais, como são os textos profissionais. E, para isso, ela toma como padrão o uso feito pelos melhores prosadores do idioma, pessoas de comprovada alta cultura linguística — e, evidentemente, cultura geral — e não apenas portadoras de diploma de nível superior (muitas das quais hoje em dia analfabetas funcionais). Se queremos estabelecer um padrão exemplar de bom uso da língua, devemos buscar os melhores exemplos (literários e não literários) de uso e não nos pautar pela mediocridade de textos jornalísticos de internet escritos por estagiários (isto é, estudantes ainda não formados de faculdades de jornalismo de qualidade duvidosa) ou de textos técnicos (relatórios, petições, contratos, trabalhos escolares — incluindo teses acadêmicas) redigidos por profissionais de letramento deficiente, que não são raros entre nossos advogados, engenheiros, médicos e pós-graduandos em geral.

Portanto, os exemplos supostamente encontrados pelos linguistas descritivistas de construções desviantes da norma-padrão, mesmo que produzidos por redatores de nível superior, não podem justificar a mudança dessa norma — ainda mais para acolher usos que são fruto de má escolarização.

Aliás, normatizar o padrão culto da língua é tarefa dos gramáticos e não de linguistas. Ao tentar legislar sobre a norma-padrão, certos linguistas invadem uma atribuição profissional que não é sua. E o fato é que, por mais que esbravejem contra a gramática normativa, os gramáticos vão continuar a exercer seu ofício sem lhes dar ouvidos, e as pessoas de bom senso vão continuar a seguir as recomendações da gramática ao redigir seus textos. O mal que esses linguistas causam é que eles doutrinam seus alunos, futuros professores de português, a não ensinar gramática, e assim a educação no Brasil, que já é péssima, fica ainda pior.

A questão é justamente a confusão que linguistas como Marcos Bagno fazem entre descrição e normatividade. Confundem registro coloquial com registro culto, modalidade falada com modalidade escrita, gêneros textuais menos formais com gêneros textuais mais formais e colocam tudo num mesmo balaio. Pior: usam critérios da linguística descritiva para orientar a elaboração da gramática normativa, duas atividades que têm lógicas e propósitos totalmente diferentes. O papel da gramática normativa é descrever e, em consequência disso, normatizar os usos linguísticos das pessoas verdadeiramente cultas da sociedade, a partir da modalidade escrita desses indivíduos em gêneros textuais de maior grau de cultivo, esmero, cuidado da língua, ou, se se desejar, de formalidade, visando a uma norma supradialetal — a norma-padrão. Isso não tem nada a ver com o modo como as pessoas de média ou baixa cultura linguística falam ou escrevem no seu dia a dia em situações de pouca ou nenhuma formalidade ou mesmo em situações em que deveriam ser formais, mas não têm plena proficiência para isso.

Outro ponto que preciso destacar é quando Patricia afirma que “de acordo com linguistas descritivistas, essa forma é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”. A questão é que esses linguistas jamais provam o que afirmam. E ciência se faz com provas, fatos concretos, evidências que possam ser constatadas e não com opiniões, impressões pessoais ou achismos. Eu mesmo leio frequentemente textos formais dos mais diversos tipos (livros, artigos científicos, dissertações, teses, colunas em jornais e revistas, etc.) e, contrariamente ao que afirmam Bagno e seus colegas, nunca encontro construções como “aconteceu dois acidentes”. Mas, para não contrapor a minha visão pessoal à deles, cito o meu colega Prof. Fernando Pestana, que em sua dissertação de mestrado desmascarou as mentiras (sim, mentiras!) propaladas por Bagno, Faraco, Possenti, Perini, Ataliba e outros, fazendo um extenso, exaustivo e minucioso levantamento dos usos encontrados em textos cultos. Sobre a não concordância do verbo com sujeito posposto, ele apresenta os números que estão na seguinte tabela, na qual DNP significa “dentro da norma-padrão” e FNP, “fora da norma-padrão”:

Vejam os números e concluam por vocês mesmos. São números como esses que os linguistas citados por ela jamais apresentam, provavelmente porque contradizem suas teses.

O fato é que a definição de sujeito apresentada pelas gramáticas normativas dá conta perfeitamente da realidade dos usos que compõem a norma que elas delineiam.

Se, portanto, é um fato comprovado e comprovável que os usuários realmente cultos 99% das vezes pluralizam o verbo cujo sujeito simples plural venha posposto, o papel da gramática normativa é registrar essa regularidade, esse padrão, delimitando assim tal concordância verbal.

Quando Bagno afirma que “essa forma [Aconteceu dois acidentes] é usual na fala e na escrita, mesmo entre falantes com alto grau de instrução formal”, está apenas reiterando a arbitrariedade mentirosa registrada em sua própria gramática.

Quanto à definição de sujeito, é preciso esclarecer que o que define um elemento sintático como sujeito ou como objeto direto não é sua posição na oração (antes ou depois do verbo) e sim sua função sintáxico-semântica, também chamada de papel temático. Tanto que, em latim, a ordem das palavras na oração é totalmente livre, mas sujeito e objeto jamais se confundem, e o verbo sempre concorda com o sujeito.

Segundo Bernard Pottier, criador da sintaxe-semântica, o sujeito exerce funções, chamadas por ele de casos, que são o nominativo, o ergativo, etc., ao passo que o objeto exerce os casos acusativo, dativo, benefactivo, e assim por diante.

Na teoria dos papéis temáticos, as funções semânticas (ou “papéis”) são: agente, fonte, experienciador, locativo, alvo e tema. O sujeito é sempre agente, fonte ou experienciador; o objeto é sempre alvo ou tema. Portanto, em “aconteceu dois acidentes”, dois acidentes está no caso ergativo e não no acusativo, logo não pode ser objeto de um suposto verbo impessoal transitivo direto acontecer. Segundo a teoria dos papéis temáticos, dois acidentes é fonte e não alvo, portanto novamente só pode ser sujeito e não objeto direto.

Quando Bagno afirma “nós analisamos intuitivamente qualquer elemento que apareça depois do verbo como objeto”, eu pergunto: nós quem, cara pálida? Uma coisa é a análise subjetiva e ingênua (no sentido de “não técnica, não especializada”) que um falante comum, de baixa ou média escolaridade, faz da língua; outra é a análise técnica e abalizada que um estudioso faz com base em modelos científicos testados e comprovados.

Quando Mattoso Câmara, um linguista mil vezes maior do que Bagno, afirma que, nos casos de sujeito posposto, o falante interpreta o verbo como impessoal, ele está se referindo à análise subjetiva e ingênua do falante comum de baixa ou média escolaridade e não à estrutura sintática real da língua, só acessível mediante estudo por pessoas de alto letramento e pesquisadores qualificados, como o próprio Mattoso. Aliás, ele próprio contrapõe em sua obra a visão ingênua e subjetiva do falante comum à estrutura real da língua, objeto de estudo da linguística. E em nenhum momento ele afirma que esta deva ser substituída por aquela, especialmente na elaboração de gramáticas normativas. A linguística descritiva explica como o falante comum interpreta os fatos de língua, o que não significa que essa interpretação seja sempre correta.

Por fim, gostaria de chamar a atenção para as palavras de Bagno: “O mais democrático (grifo meu) a fazer é admitir que a concordância do verbo com o sujeito posposto (seja ele composto ou simples) é variável, e que a não concordância é uma opção tão adequada quanto a concordância”. Agora temos Bagno fazendo o que ele sempre faz: introduzindo juízos de valor de natureza político-ideológica em um discurso científico, que, como tal, deveria primar pela impessoalidade, imparcialidade, objetividade e isenção, atendo-se estritamente aos fatos observáveis e eximindo-se de qualquer opinião. Ciência se faz com juízos de verdade e não com juízos de valor. Não existe ciência democrática, inclusiva, identitária, antirracista, liberal, conservadora, esquerdista, direitista…, existe apenas ciência. Seu papel é descrever e tentar explicar fatos concretos, objetivos e efetivamente observados à luz da razão, do raciocínio lógico e de modelos teóricos já testados e comprovados. O pesquisador pode ter suas convicções políticas e pode inclusive externá-las em artigos jornalísticos, em entrevistas à imprensa, em palestras, mas não em trabalhos científicos; aí, ele deve exclusivamente expor os fatos e apresentar conclusões que decorram estritamente desses fatos e não de seus desejos pessoais, por mais nobres que sejam. Defender uma posição política num trabalho científico é absolutamente inadmissível e depõe contra a própria credibilidade desse trabalho!

Quando um autor como Bagno publica um livro chamado Não é errado falar assim!, ele induz o leitor incauto a pensar que certas construções são aceitáveis em situações formais quando não o são e assim leva esse leitor a ter prejuízos pessoais, como ser reprovado em um processo seletivo. O que ele faz é um desserviço à sociedade!

Acrescento ainda que o que Bagno propõe é uma complicação ainda maior da norma-padrão. Hoje o verbo concorda com o sujeito em 100% dos casos; na proposta dele, passaríamos a ter casos em que há concordância e casos em que não. Por que criar exceções a uma regra e tornar ainda mais complexo o que já não é simples?

Bagno ainda afirma: “Trata-se, simplesmente, de optar por duas análises sintáticas, igualmente válidas: (1) o elemento posposto ao verbo é o sujeito da oração; (2) o elemento posposto ao verbo é objeto de um verbo impessoal”. Ora, como um mesmo elemento pode exercer duas funções sintáticas tão distintas quanto sujeito e objeto direto? Que tipo de análise sintática é essa? Bagno fala tanto em ciência e, no entanto, sua análise “científica” pode ser qualquer uma, ao gosto do freguês?

Em resumo, o papel da gramática normativa é registrar o que efetivamente se usa na norma culta do idioma e recomendar que se obedeça a esse padrão ao se escreverem textos formais. A gramática normativa não é nem pode ser democrática e muito menos demagógica, como propõe Bagno. Sua proposta é simplesmente populista e anticientífica. O fato de existir no sistema da língua e na norma coloquial/popular/vulgar uma estrutura A e uma estrutura B, facilmente comprovadas (seja na fala, seja na escrita de qualquer brasileiro), não implica a automática existência de ambas na norma culta, pois só uma delas efetivamente existe nessa norma, a saber: “aconteceram dois acidentes”. É isso que Bagno e todos os seus seguidores não entendem (ou fingem não entender), apesar de quererem muito acreditar que “aconteceu dois acidentes” já faz parte da norma culta escrita do português brasileiro, o que é nada menos do que uma insustentável mentira.

Assim, à pergunta de Patricia “existe em nossa tradição gramatical alguma conceituação da função sintática sujeito que invalide a análise de Mattoso e Bagno?”, o que posso responder é que toda a tradição gramatical, com sua definição clássica de sujeito, e também toda a teoria sintática desenvolvida pela linguística estruturalista e pós-estruturalista (gerativista, cognitivista, etc.) invalidam essa análise, que, como disse, é descritiva e não normativa e parte da interpretação do falante ingênuo sobre um fato de língua e não sobre o fato de língua em si.

Espero que esta minha resposta tenha sido esclarecedora a Patricia e a todos os meus leitores.

Educar é humilhar?

Em seu artigo “O preconceito linguístico disfarçado de elegância nas redes sociais”, publicado no site Folha Vitória, a professora Larissa O’Hara critica uma certa postura arrogante e preconceituosa de quem, tendo domínio da norma-padrão do idioma, ou mesmo sendo professor dela, usa de seu conhecimento linguístico para humilhar quem não a domina. Ela diz: “A elegância, quando usada para desqualificar o outro, não é uma virtude; ao contrário, torna-se um instrumento de exclusão. Utilizar o domínio da norma-padrão para menosprezar dialetos marginalizados reforça uma postura segregacionista e violenta”.

E justifica:

[…] foi apenas no final do século XX, em 1996, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que a escola se universalizou e o perfil da população estudantil se diversificou. […] Antes, a escola era espaço das elites; com a democratização, passou a acolher também alunos das classes trabalhadoras e de segmentos à margem do sistema de produção. Nesse processo, a escola passou a receber estudantes que falam, por exemplo, “nóis vai”, “abrido”, “cheguemu”, expressões típicas de suas comunidades e contextos sociais.

De fato, a universalização do ensino básico levou para dentro da escola pública a quase totalidade das crianças e adolescentes das classes mais baixas da população (e, diga-se de passagem, introduziu no ambiente escolar muitos pequenos marginais que ameaçam a integridade física e a vida de colegas e professores). Mas, antes de continuarmos, deixem-me explicar algo que já mencionei em outras oportunidades.

A língua tem três níveis de linguagem, ou registros (na verdade, o terceiro deles é muito mais um dialeto do que um registro), que são o formal (iremos), o informal-coloquial (nós vamos, a gente vai) e o vulgar, ou iletrado (nóis vai, a gente vamo). Este último é antes um dialeto do que um registro porque registros são modos de expressão que adotamos conforme a situação de comunicação. Assim, o mesmo falante que emprega iremos num texto profissional utiliza a gente vai num bate-papo entre amigos. Mas ele jamais diria nóis vai, a não ser de brincadeira. Já quem diz nóis vai é incapaz de usar nós vamos ou nós iremos. Há uma barreira social e educacional entre a pessoa que alterna os dois primeiros registros e a que só utiliza o terceiro. Vale lembrar que a função da escola é tornar o aluno proficiente no primeiro registro, que é o que lhe abrirá portas em seu futuro profissional e civil, pois nos outros dois registros ele já é proficiente.

Vamos imaginar que, se o Brasil tivesse um ensino público gratuito e universal de altíssima qualidade como têm países como Finlândia ou Dinamarca e, portanto, todas as crianças recebessem desde cedo esse nível de educação, ninguém no país falaria nóis vai. É o que se espera de um país desenvolvido — eu diria até, civilizado.

Obviamente, crianças oriundas de favelas ou zonas rurais, filhas de pais analfabetos, que não podem dar aos filhos o que não têm nem conhecem, chegam à escola dizendo nóis vai. E concordo com a articulista de que não é justo que sejam humilhadas por isso, afinal não têm culpa da condição socioeconômica em que nasceram.

Citando Stela Maris, Ph.D. em Linguística, na obra Nós cheguemu na escola, e agora?, Larissa recomenda “que a norma culta seja ensinada nas escolas, mas que, ao mesmo tempo, sejam preservados os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social”. 

E é aí que discordo da colunista e da doutora em linguística. Os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social devem, sim, ser respeitados, mas não preservados. A escola deve, sim, corrigir o aluno que diz nóis vai e ensiná-lo de que, daqui para frente, deve dizer nós vamos, nós iremos ou a gente vai, dependendo do contexto. Mas, e quando esse aluno for para casa e conversar com seus pais, ele deve usar a nova forma que aprendeu ou mudar a chave e dizer: “hoje nóis aprendeu uma coisa nova lá na escola”? Ninguém passa pela escolarização impunemente. Portanto, o que se espera de alguém que está sendo escolarizado é que aplique na sua vida o que aprende na escola. Logo, esse aluno deve aos poucos se acostumar a empregar um linguajar mais condizente com sua condição escolar. Se os pais acharem estranha a nova forma de expressão da criança, esta deve dizer: “pai, mãe, a professora ensinou que essa é a forma correta de falar”. Essa criança estará indiretamente educando também os seus pais, num efeito multiplicador. Antes de causar estranheza, esse novo modo de falar deveria causar orgulho em pais que não puderam estudar, mas cujos filhos estudam para um dia ter uma posição social melhor que a deles. A menos que esses pais sonhem em ter um filho traficante, funkeiro, jogador de futebol ou influenciador digital.

Larissa prossegue: “Aprender a norma culta deve significar uma ampliação da competência linguística e comunicativa do aluno, capacitando-o a usar uma variedade ou outra, conforme a situação discursiva”. Fico imaginando um eminente jurista como Joaquim Barbosa, que veio de um meio muito humilde, chegando à casa de seus pais depois de dar uma palestra em português castiço e dizer “hoje eu di uma palestra numa facurdade pra lá de boa e os pessoal me apraudiu tudo”. Seria concebível essa situação?

Respeitar o socioleto do aluno vindo da favela é uma coisa, ensiná-lo a usar variedades de maior prestígio para seu próprio bem é outra. À medida que o aluno aprende uma forma de expressão mais prestigiosa, que o afasta do ambiente tóxico em que estaria condenado a viver, por que ele continuaria a usar uma forma linguística que só o prende a essa realidade?

A colunista finaliza:

Os alunos devem se sentir à vontade para falar em sala de aula, independentemente da variedade linguística que utilizem. Quando seus antecedentes culturais e linguísticos não são respeitados, podem desenvolver um sentimento de insegurança e inadequação. […] Como poderíamos ensinar menosprezando, desautorizando e humilhando nossos próprios alunos? Não somos contrários às regras, nem defensores de um “vale-tudo” linguístico.
Na verdade, apreciamos ensinar as normas do português padrão e promover uma boa escrita. No entanto, isso é muito diferente de diminuir alguém por sua forma de se expressar. […] Humilhar outra pessoa por sua forma de falar, não apenas silencia uma voz, mas também perpetua um ciclo de opressão.

Obviamente, sou contra qualquer humilhação que um professor possa impor a um aluno, especialmente por seu modo de falar. Mas a sociolinguística, base teórica da noção de variação e variedade linguísticas, que prega a igualdade de valor entre todas as variedades, tem sido frequentemente usada por professores inexperientes, preguiçosos ou mal-intencionados para deixar de ensinar a norma-padrão (até linguistas de universidades brasileiras recomendam que não se ensine mais gramática) sob a alegação de que corrigir o aluno constitui preconceito linguístico que pode traumatizá-lo e de a gramática normativa é uma forma de opressão das elites contra a classe trabalhadora; por isso, é melhor deixá-lo continuar a dizer nóis vai — e a vandalizar a sala de aula e ameaçar colegas, professores e diretores. É por isso que o artigo da professora O’Hara, embora bem-intencionado, pode ser perigoso se mal interpretado.

Palavras que morrem sem deixar herdeiros

Boa tarde, Aldo. Estou lendo uma novela policial de Henning Mankell (A quinta mulher, Companhia das Letras, edição de 2002, tradução de Luciano Vieira Machado, formato epub). O que me chamou a atenção foi o uso de certos verbos que já foram muito comuns em traduções antigas, mas que caíram em desuso já há algumas décadas, tais como: redarguiu, retorquiu, anuiu. Você poderia dar sua visão sobre isso?
Marcus Frederico Ferreira Lopes

Caro Marcus, na minha visão (que não é só minha), está havendo um progressivo empobrecimento vocabular da população devido à decadência da educação, fruto do descaso do poder público e de uma campanha de certos grupos políticos que tentam (e, por sinal, estão conseguindo) deslegitimar o conhecimento do vernáculo, da norma-padrão, da gramática, tidos por eles como elitistas e opressores — como se a ignorância fosse libertadora! Com isso, verbos como os que você citou, que eram muito comuns em textos literários e mesmo jornalísticos do passado, vêm sendo proscritos, e quase ninguém mais os usa ou mesmo sabe o que significam.

Na verdade, muitas palavras têm caído em desuso, e não porque novas palavras de significado equivalente ou até mais preciso estejam nascendo para substituí-las, mas simplesmente porque as pessoas, sobretudo os mais jovens, não tendo mais contato íntimo com a leitura, especialmente de boas obras, sequer chegam a conhecer tais vocábulos. A partir disso ocorrem duas coisas: ou o falante busca um termo mais corriqueiro para expressar aquela ideia (por vezes até uma gíria), termo este que quase nunca exprime tão bem o conceito em questão quanto a palavra que se perdeu, ou o falante sequer concebe a ideia que aquela palavra expressava. Em outras palavras, pobreza de linguagem é pobreza de pensamento. Que se reflete em pobreza material e espiritual. Como disse Esaias Tegnér Jr., “o que é confusamente dito é confusamente pensado”.

Li recentemente uma pesquisa que procurava compreender por que no Brasil a taxa de alfabetização das crianças em idade escolar é tão baixa, mesmo comparada a outros países em desenvolvimento — ou, como se costuma dizer hoje em dia, do Sul Global. Pois o resultado foi que, além da má qualidade da nossa educação, as crianças das camadas mais baixas da população não veem sentido na escrita: há um abismo entre o mundo letrado e a realidade em que vivem. De fato, crianças filhas de pais com pouca ou nenhuma instrução, que pouco falam com elas e, quando o fazem, é somente sobre assuntos de pouca relevância e complexidade, que não leem para elas (nem para si próprios, diga-se) e, com isso, não cultivam nelas o hábito de ler, percebem a leitura e a escrita como algo inútil e enfadonho, que nada tem a ver com seu dia a dia e sua perspectiva de futuro, se é que têm alguma.

E, como disse acima, há grupos de intelectuais e acadêmicos que procuram legitimar essa situação porque é mais fácil e cômodo dar o pão do que ensinar a pescar e porque precisam da massa de manobra que essas pessoas vulneráveis representam para sustentar seu projeto político.

Infelizmente, é assim que eu vejo.

Que tipo de país queremos?

Em 1974, o economista Edmar Bacha cunhou o termo Belíndia para se referir à realidade brasileira, um misto de Bélgica e Índia, um país com leis e impostos de Primeiro Mundo e com serviços e realidade social de Terceiro. A seguir, esse conceito foi estendido para dar conta de um Brasil contraditório, cuja sociedade tem ao mesmo tempo aspectos de Primeiro e Terceiro Mundos: de um lado, uma elite rica e culta, megacidades com infraestrutura de países desenvolvidos, grande parque industrial, importantes universidades produzindo pesquisa de ponta, recordes de produção agrícola, recordes em número de helicópteros e de cirurgias plásticas per capita, produção artística tipo exportação, e, de outro, fome, miséria, analfabetismo, doenças endêmicas, latifúndios improdutivos, muita corrupção, péssimos serviços públicos, comunidades ilhadas no meio de florestas, aonde só se chega de barco, e assim por diante.

Talvez hoje o termo Belíndia já não seja mais tão adequado, visto que a Índia, embora continue a ser um país com população majoritariamente pobre, é uma das nações emergentes e a quinta maior economia global, que também já conta com ilhas de excelência em vários campos, estando, por sinal, em alguns deles mais adiantada que o Brasil. Noutros termos, a própria Índia é hoje uma Belíndia. Por isso, penso que hoje o termo mais adequado para definir o Brasil e a Índia seja Beláfrica. Afinal, o continente africano segue sendo o mais atrasado do planeta em termos políticos, econômicos, sociais e educacionais. É lá que ainda estão os problemas mais graves da humanidade em termos de fome, miséria, superpopulação, educação precária, péssimas condições de saúde e higiene, pouquíssimo desenvolvimento industrial, infraestrutura deficiente, costumes retrógrados, fanatismo religioso, ditadores tirânicos e corruptos, guerras tribais intermináveis, etc. É claro que lá também há bons exemplos de progresso material e cultural, logo nem tudo é pobreza na África. No entanto, em termos gerais de desenvolvimento, especialmente aquele medido pelo IDH — Índice de Desenvolvimento Humano —, a África permanece em último lugar na média dos continentes.

Portanto, se somos uma Beláfrica e não queremos permanecer nesse estado, temos dois caminhos a seguir: ou nos aproximamos da Europa, onde estão os países mais desenvolvidos do mundo, ou nos aproximamos da África, onde estão os mais atrasados. Deveria ser consenso que o modelo a ser seguido é o europeu, com sociedades altamente industrializadas, democracias sólidas e a maior parte da população situada na classe média ou alta e portadora de escolaridade superior. No entanto, certos grupos ideológicos parecem querer que o Brasil rume na direção oposta. Embora façam um discurso aparentemente bem-intencionado (“lacrador” eu diria), polvilhado de um bom-mocismo que soa bem a muitos (especialmente aos que fazem parte de sua “bolha”), o que eles pregam é uma divisão do país em que uma das partes precisa aniquilar a outra. Trata-se da famosa oposição “nós x eles”, que dividiu e polarizou o Brasil.

Somos uma nação plural, somatório de muitas culturas, e essa é nossa grande vantagem estratégica. Nossa diversidade cultural é nosso grande capital, que, somado ao nosso potencial natural (imenso e rico território, riquezas minerais e vegetais, clima favorável, ausência de cataclismos), pode fazer de nós uma potência mundial. No entanto, para esses grupos ideológicos, a cultura brasileira dominante é fundamentalmente branca e europeia e, portanto, exclui a maior parte da população, de origem africana e/ou indígena. Na visão desses grupos, para incluir socialmente essa maioria preta ou parda e sobretudo pobre, é preciso mudar radicalmente nossos paradigmas culturais, não propriamente somando à cultura branca europeia as valiosas contribuições dos indígenas e afrodescendentes, mas erradicando aquela cultura e substituindo-a por esta.

Tenho falado muito aqui sobre o absurdo que é a proposta de alguns linguistas de substituir nossa norma-padrão supradialetal e fundada em longa tradição escrita e literária pelos usos do português brasileiro contemporâneo falado informal, isto é, o linguajar coloquial das ruas. Segundo esses linguistas, a gramática normativa do português é elitista, excludente, opressora, elaborada por homens brancos, burgueses, conservadores, heterossexuais e misóginos, logo precisa ser destruída, num ato revolucionário análogo talvez à Revolução Bolchevique ou à Revolução Cultural chinesa. Vejam o que diz, por exemplo, o livro Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, organizado por Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira (p. 41): “Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário” (grifos meus).

Sem dúvida, a linguística pode contribuir e muito para o fazer gramatical, e eu mesmo tenho sempre reiterado que o modelo de análise da língua baseado na gramática grega de Dionísio o Trácio precisa ser superado. Mas a elaboração de gramáticas normativas tem sua lógica própria, que esses linguistas aparentemente desconhecem. Eles criticam aquilo que nem sequer entendem. E elaborar novas gramáticas utilizando o ferramental da linguística é uma coisa, já substituir arbitrariamente um padrão linguístico estável e estabelecido por outro que só é usado na fala descontraída sob o pretexto da inclusão social dos menos favorecidos é pura demagogia. Em vez de levar educação de qualidade aos mais pobres, opta-se por mantê-los na situação em que estão, normalizando sua pobreza material e intelectual. Aos pobres, uma educação igualmente pobre.

Sem dúvida, a norma-padrão que utilizamos baseia-se numa variedade de português calcada no falar das elites culturais da “corte” — seja a Lisboa monárquica seja o Rio de Janeiro imperial. Mas isso é assim em qualquer idioma de cultura: o francês padrão nada mais é do que a língua falada pelos reis e nobres franceses de antanho; o italiano padrão é o dialeto da antiga corte de Florença, e assim por diante. É natural que a classe dominante de uma sociedade imponha a ela seus costumes e também sua língua. Assim como é natural nas sociedades complexas (isto é, as que passaram do estágio tribal ao civilizado) que haja hierarquia, classes sociais distintas e disputas de poder entre elas. No entanto, o que se vê historicamente é que, quando uma classe oprimida depõe o grupo dominante e toma o poder, é ela que passa a ser a classe opressora. Até costumo dizer que, se os europeus tivessem se mantido tribais e os africanos tivessem desenvolvido uma civilização altamente tecnológica, teriam sido os negros a escravizar os brancos. Afinal, o homem é o lobo do homem.

Se, como pregam alguns de meus colegas linguistas que não conseguem analisar o fenômeno “língua” sem projetar nele suas ideologias políticas pessoais, a gramática normativa em vigor é opressiva e reforça o preconceito linguístico, fazendo com que a população menos favorecida sinta que fala “errado”, substituí-la por uma nova gramática, baseada em outra variedade do português (a preferência desses linguistas é pelo padrão das pessoas pouco ou nada letradas) vai apenas trocar uma opressão por outra. Pois, se a gramática é normativa, portanto seu uso é uma injunção em textos formais, qualquer que seja ela, desrespeitá-la configurará erro, que estará decerto sujeito ao preconceito linguístico (mais uma vez, “o homem é o lobo do homem”).

Sob o pretexto de que nossa cultura e nosso padrão linguístico são eminentemente brancos e europeus, o que se propõe não é acrescentar ao estudo da história das civilizações da Europa e Ásia o estudo da história da África (por sinal, eminentemente oral, uma mistura de fatos e mitos), como, aliás, já vem sendo feito, e sim substituir uma pela outra. Em vez de filosofia grega, estudaremos os orixás africanos (a pergunta que faço é: ser versado em história e cultura africanas abre as portas do mercado de trabalho mais qualificado a alguém?). Em vez de permitirmos que jovens pretos e pardos das periferias tenham acesso à cultura letrada por meio do domínio da norma supradialetal, oficializaremos “eu vi ela” e “vamos se encontrar” como padrão culto.

A lógica desses grupos, que paradoxalmente incluem pessoas de alta cultura e muito bem informadas, é a de que só se combate uma sociedade patriarcal instituindo o matriarcado, que só se apaga a chaga do racismo contra os negros discriminando os brancos, e assim por diante. Numa palavra, o que eles propõem não é justiça social, é uma mera inversão de papéis, em que opressores se tornem oprimidos e oprimidos se tornem opressores. Era mais ou menos essa a lógica dos comunistas de 1917: o proletariado governando a burguesia. O que querem fazer com a língua é uma espécie de vingança dos iletrados sobre os que tiveram a chance de estudar.

Em suma, o que está em jogo é que tipo de país queremos ser: queremos ser como a Bélgica ou como a África? É bom lembrar que até o final do século XIX o Brasil era um país escravocrata, quase exclusivamente rural, sem indústrias, com uma população quase totalmente formada de africanos e indígenas e seus descendentes e governada por uma pequena elite latifundiária composta por descendentes dos primeiros portugueses que nos colonizaram. Foi com a chegada dos imigrantes europeus e asiáticos em fins do século XIX e princípios do XX, logo após o fim da escravidão, que começou nossa industrialização, surgiram as primeiras universidades e a sociedade brasileira foi progressivamente se urbanizando. É que esses imigrantes, mesmo aqueles que foram trabalhar na lavoura em substituição aos escravos, tinham uma cultura urbana e valores milenares de civilização, além de um espírito empreendedor e grande apreço pela educação. Tanto que, duas ou três gerações após sua chegada, seus descendentes, inclusive de muitos que eram analfabetos, já estavam na universidade. E vejam que esses imigrantes sofreram quase tanto racismo quanto os negros e os índios.

Vários de nossos intelectuais de esquerda criticam esse processo de “embranquecimento” da população brasileira promovido pela República Velha como se isso tivesse sido uma violência contra nossa nacionalidade quando, na verdade, esses imigrantes só vieram somar a essa nacionalidade. Não tivesse havido essa onda imigratória, seríamos provavelmente ainda hoje um país predominantemente agrícola e rural, dominado por oligarcas latifundiários, como éramos à época do Império. Mas parece que é exatamente isso que esses ideólogos gostariam que fôssemos.

Aliás, de maneira contraditória e incoerente, esses intelectuais críticos à política de imigração são eles próprios descendentes de imigrantes e certamente não estariam aqui no Brasil nem muito menos ocupando cargos nas universidades não fosse essa política que tanto criticam.

É evidente que a República Velha falhou em dar aos negros recém-libertos condições de emancipação econômica como cidadãos, o que os fez trocar a senzala pela favela. Mas, quase um século e meio após a Abolição, o que o Estado Novo, a República Nova, o regime militar e a Nova República fizeram por essas pessoas e seus descendentes? Já tivemos muito tempo para curar essas feridas, mas tudo que foi feito foram leis e políticas demagógicas, que nada resolvem. Tudo que se faz é um discurso hipócrita de inclusão social, entoado por uma elite acadêmica branca, eurodescendente e de classe média alta.

O fato é que se instalou em nosso meio intelectual, inclusive nas universidades, que deveriam primar pela racionalidade, pelo bom senso e pelo apego à verdade, uma ideologia iconoclasta, que vê tudo que é branco, europeu, ocidental, capitalista, judaico-cristão e, mais, masculino, heterossexual e cisgênero como negativo, opressor, excludente, elitista, quando não fascista. Temos, de fato, uma longa história de dominação de brancos sobre negros e índios, de europeus sobre africanos e outros povos aborígines, mas é preciso ter em mente que o Brasil está inserido no mundo ocidental, que é culturalmente oriundo da civilização europeia e cristã. Logo, apegarmo-nos a tradições africanas e indígenas em detrimento de conhecimentos científicos e filosóficos europeus não vai nos conduzir ao progresso que almejamos. Se queremos nos integrar cada vez mais ao mundo desenvolvido e incluir cada vez mais nossa população nas classes médias e altas da sociedade, não podemos renunciar ao patrimônio de cultura que nos foi legado desde a era greco-romana nem ao padrão linguístico que produziu todo o acervo literário de que dispomos.

Que se valorizem todas as culturas que formaram nosso país, que se acabe com o pernicioso racismo que nos assola, que se ajustem as contas com nosso passado escravista, que se respeitem as culturas nativas, que se estabeleça uma verdadeira justiça social em nosso país é o que todos queremos. Mas esse desideratum só se conquista somando e não subtraindo ou dividindo.

O “jeitinho brasileiro” de falar

Volta e meia, surgem na imprensa matérias sobre a “língua brasileira”, o nosso modo particular de falar português, em geral análises feitas por jornalistas (menos frequentemente por especialistas), além do depoimento de escritores e outros usuários privilegiados — embora não estudiosos — da língua. Com raras exceções, esses textos assumem um tom ufanista em relação ao português tupiniquim, exaltando a nossa criatividade linguística, um jeito malandro, próprio da identidade nacional, que se refletiria no idioma. Segundo esses analistas, o português brasileiro é a perfeita simbiose da mais bela das línguas com o mais versátil dos povos.

Esse tipo de avaliação, além de extremamente subjetivo e questionável pelo seu chauvinismo (já se disse até que só é possível poetar em português, assim como só é possível filosofar em alemão), peca por desconsiderar os fatos: aqueles que enaltecem o “jeitinho brasileiro” de falar nunca empreenderam um estudo sério e sistemático sobre o assunto. Se o fizessem, chegariam a conclusões bem diferentes.

Em primeiro lugar, o português é, das línguas da Europa ocidental (românicas e germânicas), uma das mais difíceis. Claro, os críticos dirão que todas as línguas têm suas complexidades, que nenhuma língua é fácil, etc. etc. Mas, comparando item a item cada um dos aspectos gramaticais (número de tempos verbais, colocação pronominal, flexão verbal e nominal…), veremos que o português é muito mais complexo que o espanhol, francês, italiano ou inglês, por exemplo. Em nível de dificuldade, nossa língua se equipara ao romeno e ao islandês. Mesmo o alemão, tido por muitos como uma língua complicada, é mais simples que o português. Isso porque nossa língua se apoia no binômio complexidade-irregularidade (isto é, muitas regras e muitíssimas exceções); já o alemão tem menos regras que o português, e estas têm poucas exceções.

É óbvio que nenhum povo fala exatamente como dita a norma-padrão, mas qualquer brasileiro que viaje ao exterior — inclusive a Portugal — e conheça outras línguas perceberá que a distância entre como se fala nas ruas e o que estudou nos cursos de idiomas é menor do que no Brasil. Exceção talvez seja o espanhol platino, mas mesmo nesse caso dados empíricos precisam ser examinados.

Em segundo lugar, o “jeitinho brasileiro” de falar é a tentativa de um povo etnicamente heterogêneo, com os mais variados substratos linguísticos, de baixa ou baixíssima escolaridade e espalhado por um território continental de falar uma língua complexa e cheia de irregularidades. Sem dúvida, o português popular tem o mérito de tentar simplificar um sistema que causa embaraço até aos eruditos. Mas as soluções encontradas pela fala do povo nem sempre são as melhores. Às vezes, troca-se uma regra ilógica por outra idem.

Há duas forças cegas atuando sobre a língua: a mutação, que rompe a regularidade, e a analogia, que tenta (mas nem sempre consegue) restabelecê-la. Se o português tem dois tipos de infinitivo (impessoal e pessoal) quando as demais línguas têm apenas um, há necessidade de uma regra disciplinando o uso de um e de outro. Como há uma infinidade de casos dúbios (“os alunos levam tempo para aprender” ou “para aprenderem”?), e, de quebra, existe uma pressão social para falar corretamente (isto é, segundo o padrão culto), os falantes acabam metendo os pés pelas mãos e misturando as formas de maneira pouco lógica e pouco prática (certa vez ouvi um porteiro de casa noturna dizer: “Vocês vão entrarem agora ou preferem esperarem mais um pouco?”).

Objetivamente falando, isto é, deixando de lado as paixões e atendo-nos estritamente aos dados observáveis, o português nada tem de belo ou perfeito. A rigor, nenhuma língua é intrinsecamente bela ou boa, a não ser do ponto de vista particular e tendencioso de quem a contempla. O mesmo sentimento ufanista que nutrimos por nossa língua os falantes de todos os idiomas também têm. É tão possível poetar em turcomeno quanto em português. Excetuando-se os dados objetivos, que o estudo comparado de línguas guiado pelo método científico produz, tudo o mais são fanfarronices patriotescas que em nada contribuem para a real compreensão da língua e de seus impasses.

Dito de outro modo, só podemos resolver problemas se tivermos consciência de que eles existem. A defesa apaixonada do “jeitinho brasileiro” de falar surte o mesmo efeito que a exaltação do jeitinho brasileiro de lidar com a lei, a política, a cidadania. Se quisermos ser de fato uma nação desenvolvida, precisamos ser menos autocondescendentes e parar de tratar o vício como virtude. Todas as línguas têm defeitos e qualidades, umas mais, outras menos; todos os povos têm seus pontos positivos e negativos, inclusive no trato com o idioma. O tal “jeitinho”, como já assinalado por inúmeros antropólogos, nada mais é do que a forma como tentamos contornar, às vezes de modo desonesto, as dificuldades oriundas de nossa própria formação moral e cultural deficiente: um estado oligárquico e profundamente burocrático, leis classistas, educação e saúde precárias, as exigências de um mundo globalizado e altamente tecnológico, e assim por diante. Um dos desafios que enfrentamos e para o qual não estamos bem preparados é justamente a língua portuguesa padrão, um sistema tão emperrado quanto os demais. Por isso, diante dos entraves do idioma, também temos de nos virar. E dá-lhe jeitinho!

Tudo bem, que estejamos conseguindo nos comunicar com eficiência e criatividade apesar de todos os pesares não deixa de ser louvável, mas daí a acharmos que nosso sistema de comunicação é nota dez vai uma grande distância. Talvez repetir o senso comum, praticar o bom-mocismo e engrossar o coro dos contentes (numa palavra, “lacrar”), dizendo o que todos querem ouvir, seja uma estratégia politicamente mais inteligente do que provocar polêmica pondo o dedo em certas feridas. Mas nunca sairemos do subdesenvolvimento enquanto ficarmos legitimando os nossos erros em vez de corrigi-los.

Existe empobrecimento na língua e na cultura?

Um amigo meu, que está concluindo sua dissertação de mestrado, me pergunta se é possível falar em empobrecimento da cultura ou da língua e, mais, se é possível medir esse empobrecimento, caso ele exista.

Trata-se de um tema espinhoso, pois o próprio conceito de empobrecimento é relativo: pode-se argumentar que o que realmente ocorre é uma mudança de paradigmas, que a cultura e a língua são dinâmicas, portanto a ideia de que algo está se perdendo é mera perspectiva saudosista, já que algo novo está sempre surgindo em seu lugar.

No entanto, muitos intelectuais de respeito apontam o fato de que está efetivamente havendo uma perda em termos tanto quantitativos quanto qualitativos; Gilles Lapouge, por exemplo, fala disso em vários de seus escritos.

Em minha visão, esse empobrecimento tem a ver com a decadência da educação e também com as novas tecnologias, fenômeno mundial, embora mais perceptível em nações como o Brasil, em que o sistema educacional e a condição social da população são mais frágeis. Antigamente, a cultura era transmitida basicamente pelos livros, e ler tanto literatura quanto ciência e filosofia era um hábito entre as famílias da elite, mas também uma imposição da escola. E liam-se os clássicos da literatura, cujo linguajar era muito rico, os grandes pensadores de todos os tempos, desde os gregos até os mais modernos e mesmo jornais e revistas, que naquela época eram muito bem escritos.

Então veio o rádio, a seguir a televisão, depois os sites de internet e, mais recentemente, as redes sociais. Sobretudo os mais jovens passaram a valorizar mais a informação midiática do que a literária, talvez por seu apelo audiovisual e seu marketing. Mas também porque a linguagem desses meios se aproximava mais do coloquial desses jovens. Até mesmo os filmes e as telenovelas foram pouco a pouco incorporando um linguajar mais despojado, mais próximo do dia a dia: a fala impostada e teatral dos anos 1940 e ’50 cedeu às gírias e expressões cotidianas. Também os temas mudaram: as antigas telenovelas, que adaptavam para a TV grandes romances do passado ou eram ambientadas numa Europa longínqua e medieval passaram a abordar a vida presente das cidades brasileiras, com seus dramas e contradições — drogas, violência, choque de gerações, racismo, machismo, homofobia. Mesmo as poucas novelas de época que temos hoje procuram adaptar-se à ideologia presente, lançando uma visão crítica à escravidão que certamente não constava na maioria das obras clássicas.

Como disse no início, pode ser que estejamos apenas substituindo uma cultura por outra: saem os mitos gregos, entram os super-heróis norte-americanos. Mas a educação atual privilegia sem dúvida o conhecimento tecnológico em detrimento da cultura clássica, afinal nossa sociedade capitalista espera que a escola forme mão de obra qualificada para as empresas, e dominar tecnologia da informação é mais importante hoje em dia do que saber latim ou ser versado em literatura grega.

Quanto à língua, é possível mensurar objetivamente se há ou não um empobrecimento, mas essa mensuração terá de restringir-se aos registros que temos, isto é, aos textos escritos de hoje em dia e do passado. Na verdade, não temos como saber se a fala informal das pessoas comuns da atualidade é mais ou menos rica que a de nossos antepassados, pois não há registros daquelas falas a não ser episodicamente na reprodução que algum escritor fez da fala popular ao retratar um personagem.

Mas há pistas. Por exemplo, minha falecida mãe me legou a cartilha em que estudara as primeiras letras. E é possível ver nos textos desse livro didático dirigido a crianças de seis, sete anos uma riqueza vocabular que deixa embaraçados hoje em dia até estudantes universitários. A comparação entre textos escritos de décadas ou séculos passados e atuais permite avaliar, dentre outras coisas, a complexidade das estruturas gramaticais, a já mencionada riqueza vocabular, o uso de figuras de linguagem, a elaboração estilística e mesmo a variedade e a erudição das referências temáticas (filosofia, mitologia, alta literatura). Mesmo a extensão dos textos pode nos revelar algo: parece que hoje, até pela falta de tempo imposta por nossa vida corrida, os textos costumam ser mais curtos, concisos e objetivos — às vezes até lacônicos. E um texto mais curto é também mais pobre linguisticamente.

A análise comparativa de textos antigos e atuais nos aspectos linguísticos acima mencionados pode ser feita por meio de softwares especializados que devolvem dados quantitativos e estatísticas sobre a frequência de uso de palavras, expressões, construções sintáticas, etc., classificados por gênero textual, por época, por autor, e assim por diante. Os linguistas estatísticos e computacionais, assim como os especialistas em linguística de corpus, têm bastante familiaridade com esses programas.

Em resposta ao meu amigo, não posso dizer assim de chofre se a cultura e a língua estão empobrecendo, pois seria preciso empreender o estudo que acima mencionei para ter dados concretos em que pudéssemos apoiar nossas afirmações. Do contrário, eu estaria apenas emitindo uma opinião pessoal e, como cientista, sei mais do que ninguém que, em ciência, opiniões pessoais não valem nada. Mas, se me permitem um palpite — afinal este texto não é um artigo científico —, acho que nossa educação indigente, somada à pouca importância que uma parcela significativa de nossa população dá a ela, tem contribuído muito para a derrocada da qualidade dos textos que se produzem hoje, pelo menos no Brasil. Mas é possível que a progressiva substituição de Chico Buarque e Elis Regina por Anitta, a de Machado de Assis por Paulo Coelho, a de Beatles e Burt Bacharach por Rihanna, a de Ernest Hemingway por Harold Robbins estejam de fato assinalando um empobrecimento cultural, com seu inevitável corolário linguístico.

Uma última consideração: a história é feita de ciclos. A eras de apogeu cultural sucedem-se eras de decadência e trevas para novamente ressurgir o esplendor da cultura, e assim sucessivamente. Talvez estejamos de fato vivenciando uma época de obscuridade; tomara seja apenas um interregno a anunciar um futuro novo boom de cultura.

A educação para a arte

Um dos papéis da educação é estimular nos indivíduos o gosto pela arte de qualidade. Para isso, ela parte do princípio de que é preciso “educar” os olhos e os ouvidos. Caso contrário, as pessoas só apreciariam obras vulgares e de pouco conteúdo. Não há nessa proposta algo de preconceituoso ou de elitista?

As crianças adoram certos alimentos, enquanto outros elas só comem obrigadas. Adultos acham gostosos certos alimentos porque foram acostumados desde pequenos a consumi-los. É por isso que em alguns lugares do mundo se come peixe cru, insetos, etc.

Uma piada que precisa ser explicada é realmente engraçada?

Em resumo, há certas obras que nos agradam naturalmente, sem que tenhamos de aprender a gostar delas; outras só são apreciadas por quem foi “condicionado” a gostar delas. Não é que estas não deem prazer, mas se trata de um prazer “oculto”, não óbvio, um prazer “iniciático”, que só alguns conseguem sentir.

Isso põe a questão: será que uma obra é intrinsecamente boa (por exemplo, quando produz prazer de modo instintivo, em mentes não treinadas) ou tudo não passa de condicionamento?

É função da escola “educar” o olhar e o ouvido no sentido de condicioná-lo a um padrão estético arbitrariamente estabelecido como de bom gosto por uma elite cultural ou econômica?

O que ocorre é que a escola tenta fazer — sem muito sucesso, devido aos seus métodos repressivos — o que a mídia deveria fazer, mas não faz: apresentar ao público a maior diversidade possível de gêneros artísticos para que cada um possa escolher do que gosta mais. O problema é que os meios de comunicação sempre oferecem mais do mesmo — e trata-se de obras que não primam pelo conteúdo, mas por serem vendáveis. Fica aí a questão: não serão elas vendáveis justamente porque coincidem com nosso modelo “instintivo” de prazer? Ou seja, não serão populares essas obras exatamente porque ativam as zonas de prazer do cérebro de pessoas não treinadas? Será então que a “educação do olhar” feita pela escola não é uma ação contrária à natureza? Mas ser o contrário da natureza não é exatamente a definição de cultura?

Fica aqui a reflexão.