Feliz Ano Novo ou feliz Ano-Novo?

Estranharam o título desta postagem? Pois saibam que ambas as grafias existem – e significam coisas diferentes. Quem deseja feliz Ano-Novo (com hífen) está fazendo votos de que a noite do Réveillon e o subsequente primeiro dia do ano sejam felizes. Já quem deseja feliz Ano Novo (ou mesmo em minúsculas: ano novo) deseja que todo o ano que se inicia seja feliz, aquilo a que todos nós ansiamos, mesmo sabendo de antemão que é muito difícil de acontecer, pois momentos felizes e momentos infelizes ocorrem todos os anos a todas as pessoas.

Mas o que importa aqui é que o Ano-Novo dura somente um dia enquanto o Ano Novo dura 365 dias. Essa distinção também é feita em outras línguas. Por exemplo, o inglês distingue entre New Year’s Eve (o nosso Réveillon) e New Year (o novo ano). Por isso, a saudação Happy New Year sugere 365 dias de felicidade. Em italiano, pode-se desejar Buon Capodanno (bom começo de ano) ou Buon Anno (o ano inteiro). Os franceses dizem sempre Bonne Année (bom ano) almejando 12 meses felizes. O mesmo se aplica ao alemão Fröhliches Neues Jahr.

Portanto, quando enviamos saudações de Feliz Ano Novo a nossos amigos e parentes, o que queremos é que eles tenham um ano inteiro de paz, harmonia, realizações, sucesso, prosperidade e um mínimo de dissabores – se possível, nenhum.

Então quando se usa Ano-Novo? Usa-se em contextos como “Vou passar o Ano-Novo na praia”, o que significa que estarei à beira-mar nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro, não o ano todo. Por sinal, tenho um amigo que sempre me deseja um feliz Ano-Novo e um feliz Ano Novo. Trata-se de um gracejo que, afinal de contas, faz sentido, mas que, provavelmente, só é plenamente compreendido por quem conhece as minúcias da nossa ortografia.

Bem, o Ano-Novo já passou, e eu espero que tenha sido feliz para os meus leitores. Então agora quero desejar-lhes um feliz e maravilhoso Ano Novo, com 12 meses, 52 semanas e 365 dias de alegrias.

De onde surgiram as palavras que marcam as festas de fim de ano?

Semana passada, falei sobre a origem da palavra Natal. Mas faltou dizer que, enquanto o português denomina essa data com uma palavra de origem culta, tomada de empréstimo ao latim Natalis, outras línguas empregam termos hereditários, que sofreram ao longo dos séculos todo o processo da evolução fonética. É assim com o galego Nadal, em que o t intervocálico do latim se transmutou em d num fenômeno evolutivo bem conhecido. A mesma palavra latina deu o francês Noël, cuja mutação fonética foi ainda mais severa que em galego. Em espanhol, temos Navidad, do latim Nativitatem, a natividade de Jesus.

Nas línguas germânicas, as origens da palavra para Natal são diversas: em inglês, Christmas provém de Christ mass, a missa de Cristo; o alemão Weihnachten significa “noites sagradas” e refere-se às noites de inverno que já eram celebradas pelos antigos germanos antes do cristianismo, assim como o sueco Jul (e também o inglês Yule), festa nórdica pagã que depois assumiu o sentido cristão atual.

Nosso Papai Noel veio do francês Père Noël, literalmente o Pai Natal (por sinal, é assim que o bom velhinho é chamado em Portugal). Na Inglaterra, ele é o Father Christmas, expressão em tudo equivalente às portuguesas e à francesa. Já nos Estados Unidos, prevaleceu Santa Claus, corruptela do holandês Sinter Klaas ou Sinter Klaes (São Nicolau) devido à grande influência que os holandeses tiveram na colonização americana. Em alemão temos Weihnachtsmann, o homem do Natal.

Já que falamos em Papai Noel, é curioso que aqui no Brasil utilizemos o nome francês da data natalina enquanto os portugueses parecem mais nacionalistas a esse respeito. Igualmente, a palavra Réveillon é muito usada no Brasil e na França (claro, os franceses são os criadores do termo!). Em outros países, preferem-se outras denominações, como o inglês New Year’s Eve (Véspera do Ano Novo). O francês Réveillon vem do verbo réveiller (acordar, ficar acordado) e designava, originalmente, o jantar da noite de Natal; depois passou a referir-se à ceia da véspera do Ano Novo e, finalmente, à própria virada do ano.

Então feliz 2021 a todos! Que no novo ano tenhamos a cura da pandemia, mas principalmente a cura do egoísmo que leva pessoas a se aglomerar em festinhas e nações a comprar mais vacinas do que o necessário para vacinar toda a sua população.