Esta semana me chamou a atenção um vídeo no Instagram de uma jovem de nome Camilla, cujo perfil é @pretaletrada, falando sobre o pretuguês, isto é, o português brasileiro falado, especialmente pelas pessoas pouco ou nada letradas. Esse conceito, o pretuguês, ou “português de preto”, foi criado pela ativista negra Lélia González (que não era linguista) provavelmente baseado no consagrado Black English, o dialeto (sim, dialeto!) dos negros americanos pobres e iletrados, sobretudo os do Sul dos Estados Unidos. Lá, séculos atrás, surgiu um dialeto crioulo resultante da tentativa de escravos negros africanos de falar inglês, língua estrangeira para eles, sendo que os próprios africanos pertenciam a várias etnias e tinham línguas maternas distintas. (Atenção: língua crioula não é língua de preto, como podem pensar os desavisados; é uma língua nascida nas colônias europeias da América, da África e da Ásia, resultante da mistura das línguas dos colonizadores e dos colonizados.)
Nos EUA, o linguajar popular tem de fato uma forte influência africana, mas muito pouco indígena, pois os índios americanos foram simplesmente dizimados, o que justifica a denominação Black English. Já no Brasil, o dialeto crioulo que surgiu era um português inculto falado pelos primeiros colonizadores, gente de baixa cultura, altamente influenciado em primeiro lugar pelas línguas indígenas, especialmente o tupi, e posteriormente pelas línguas africanas, com destaque para o quimbundo e o iorubá. Logo, o pretuguês não é apenas preto e português, é também índio, ou pretindiuguês. E por que isso é importante? É o que veremos a seguir.
A moça preta e letrada do vídeo afirma que brusa, pobrema, os menino e as casa não são erros e sim produtos da herança africana na nossa língua. Em primeiro lugar, ela aparentemente ignora os diferentes significados da palavra erro em linguística e em gramática (ela tampouco é linguista). Em linguística, não há erros, há variedades distintas (de região, de idade, de nível social, de escolaridade, etc.), logo os menino e os meninos são variantes diastráticas, isto é, de classe sociocultural, da mesma expressão portuguesa. Já na gramática normativa, é considerado erro o uso em um texto ou discurso formal de tudo aquilo que não é próprio da variedade chamada de norma-padrão. Portanto, erro é o uso inadequado de uma variedade linguística em contexto de comunicação em que ela não é recomendada. Assim, numa sociedade letrada como a nossa, em que ocorreu há várias décadas a universalização do ensino básico, dizer brusa ou os menino só não é inadequado aos analfabetos (absolutos ou funcionais).
Dito isso, muitos dos fatos que a preta letrada aponta como africanismos no português brasileiro oral são de fato herdados das línguas africanas, especialmente das línguas bantu, dentre as quais o mencionado quimbundo. A marcação do plural apenas no artigo (os menino) é quase consensualmente aceita como uma marca africana.
Em compensação, construções como os tempos contínuos ou cursivos, formados pelo verbo estar mais um gerúndio (estou fazendo, por exemplo), não são herança africana, já que esse tipo de construção existe em espanhol, galego, catalão, italiano e inglês, dentre outros. No próprio português lusitano, essa construção predominou até o século XIX (mais uma vez, é a mais usual em Camões); foi a partir daí que estou a fazer acabou suplantando estou fazendo. Mesmo assim, em algumas regiões de Portugal ainda prevalece estou fazendo.
Já o rotacismo, isto é, a troca de l por r, que a jovem argumenta ser causada pelo fato de as línguas africanas trazidas ao Brasil não terem o fonema /l/, é bastante discutível. Em primeiro lugar, esse fenômeno já existia no português medieval (latim plattu, fluxu, clavu > português prato, frouxo, cravo), de modo que pode ter sido trazido pelos próprios portugueses. Até Camões, n’Os Lusíadas, emprega simpres por simples. Mas a causa também pode ser indígena, pois o tupi, este sim, não tinha o som de l, tanto que pronúncias como carça, asfarto, borso por calça, asfalto, bolso se originam de regiões como o interior do Estado de São Paulo, onde a língua de substrato era o tupi e não o quimbundo.
Por outro lado, inúmeras palavras brasileiras de origem afro têm l e justamente porque tinham l no quimbundo da era colonial. Por exemplo, moleque (< quimbundo mu’leke, “menino”), quizília (< kizila, “aborrecimento”), beleléu (< mbalale, “cemitério”), caçula (< kasakula), lundu, quilombo, senzala, Luanda…
Esta última, nome da capital de Angola, situada na ilha do mesmo nome, deriva de lu’ndandu, formada por lu, “litoral”, e ndandu, “búzio”. Curiosamente, foi no Brasil que o nome Luanda deu origem ao termo religioso Aruanda, “Paraíso”. Por falar em religião, a palavra candomblé se origina da junção do quimbundo candombe, “dança ao som de atabaques”, com o iorubá ilê, “casa”. Como vocês podem ver (e o baiano Ilê Aiyê confirma), o iorubá também tem l.
Pois bem, é nisso que dá quando militantes woke resolvem sustentar suas pautas identitárias em informações falsas, resultado de falta de pesquisa ou, em certos casos, de desonestidade intelectual. E a jovem Camilla, que sintomaticamente usa termos como bacharela e escravizados (em 2010 e 2014, ela deve ter votado na presidenta), é declaradamente uma militante, assim como Lélia González também o era. A causa defendida por ambas ganharia muito em força argumentativa se se apoiasse em fatos cientificamente comprovados e não em achismos disseminados em grupos de militância, onde quase ninguém sabe realmente do que está falando.