A vela e a vela

Todos sabem que o português tem diversas palavras homônimas, como manga (fruta) e manga (de camisa), lima (fruta) e lima (ferramenta), como (do verbo comer) e como (conjunção). Palavras homônimas são aquelas que têm a mesma grafia e a mesma pronúncia, mas origens diferentes. Nos casos citados, a manga de camisa veio do latim manica, a parte da roupa que cobre a mão (manus em latim), e a fruta veio do malaiala (língua da Índia) mangâ (e temos ainda manga do verbo mangar, “zombar”); a lima de limar veio do latim lima; já a lima de chupar veio do árabe lîmâ; como de comer provém do latim comedo, ao passo que a conjunção como provém do latim quomodo.

Do mesmo modo, temos a vela de acender e a vela de velejar. Esta última proveio do latim vela, cognato de velum, “véu”, portanto um termo que designa genericamente um tecido, seja o das velas do navio, seja o véu que cobre a cabeça. Já a vela de acender é uma derivação regressiva do verbo velar, do latim vigilare, “ficar acordado, vigiar”, que nos deu também vigília, vigia, vigiar e vigilante. É que antigamente se velavam os defuntos segurando velas durante a noite toda (ainda não havia luz elétrica). As pessoas passavam a noite acordadas ao lado do morto para enterrá-lo no dia seguinte. Por isso mesmo essa vigília se chama velório. E assim as candeias (do latim candela, que nos deu candelabro, candelária e candeeiro) passaram a chamar-se velas.

Uma curiosidade: a razão de velar o morto ao longo da noite para só enterrá-lo na manhã seguinte é a catalepsia, doença que faz a pessoa parecer morta quando, na verdade, continua viva. Como muitos catalépticos foram enterrados vivos, o medo de que isso acontecesse levou a que se aguardassem várias horas antes do sepultamento; se, durante esse tempo, o “morto” não ressuscitasse, então ele poderia ser enterrado sem susto. O problema é que algumas pessoas permanecem em estado cataléptico por mais de 12 horas, logo o risco de enterrarmos um defunto vivo ainda permanece.

A etimologia da vela

Vela em latim é candela. Que deu em português “candeia”, “candelabro”, “candelária”, e é da mesma raiz de “cândido”, “incandescente”, “candidato” e “incêndio”. Então porque chamamos vela de vela? Na verdade, esse vocábulo é um derivado regressivo do verbo “velar”, que por sua vez veio do latim vigilare, “vigiar”, isto é, ficar acordado (a vigília é o oposto do sono).

A razão do nome “vela” é que esse objeto de cera ou parafina que serve para iluminar era usado nos velórios (“velório” é justamente um coletivo de velas), nos quais se velava — isto é, se vigiava — o morto. É que o verbo “vigiar” significa não apenas estar desperto, mas também montar guarda, já que quem está encarregado de vigiar alguma coisa não pode dormir.

Mas por que vigiar um defunto? A explicação é que algumas pessoas sofrem de catalepsia, distúrbio que leva a um estado de morte aparente, da qual o indivíduo “ressuscita” após algumas horas. Assim, os antigos criaram o hábito de vigiar o corpo durante 24 horas. Findo esse prazo, o finado não voltando à vida, podia o cadáver ser enterrado sem susto. (Na prática, sabe-se que muitos já foram enterrados vivos pois só acordaram depois de vencidas as 24 horas.)

Mas o fato é que as pessoas varavam a noite em claro segurando velas, já que não havia luz elétrica, vigiando o falecido. Daí que o objeto usado para velar ganhou o nome de “vela”, isto é, “vigia”. E a reunião de pessoas vigilantes em torno do caixão passou a se chamar velório.

Uma curiosidade: no interior de Minas Gerais, velório se chama “sentinela”, termo de origem militar que traduz a mesma ideia de vigilância.