Educar é humilhar?

Em seu artigo “O preconceito linguístico disfarçado de elegância nas redes sociais”, publicado no site Folha Vitória, a professora Larissa O’Hara critica uma certa postura arrogante e preconceituosa de quem, tendo domínio da norma-padrão do idioma, ou mesmo sendo professor dela, usa de seu conhecimento linguístico para humilhar quem não a domina. Ela diz: “A elegância, quando usada para desqualificar o outro, não é uma virtude; ao contrário, torna-se um instrumento de exclusão. Utilizar o domínio da norma-padrão para menosprezar dialetos marginalizados reforça uma postura segregacionista e violenta”.

E justifica:

[…] foi apenas no final do século XX, em 1996, com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que a escola se universalizou e o perfil da população estudantil se diversificou. […] Antes, a escola era espaço das elites; com a democratização, passou a acolher também alunos das classes trabalhadoras e de segmentos à margem do sistema de produção. Nesse processo, a escola passou a receber estudantes que falam, por exemplo, “nóis vai”, “abrido”, “cheguemu”, expressões típicas de suas comunidades e contextos sociais.

De fato, a universalização do ensino básico levou para dentro da escola pública a quase totalidade das crianças e adolescentes das classes mais baixas da população (e, diga-se de passagem, introduziu no ambiente escolar muitos pequenos marginais que ameaçam a integridade física e a vida de colegas e professores). Mas, antes de continuarmos, deixem-me explicar algo que já mencionei em outras oportunidades.

A língua tem três níveis de linguagem, ou registros (na verdade, o terceiro deles é muito mais um dialeto do que um registro), que são o formal (iremos), o informal-coloquial (nós vamos, a gente vai) e o vulgar, ou iletrado (nóis vai, a gente vamo). Este último é antes um dialeto do que um registro porque registros são modos de expressão que adotamos conforme a situação de comunicação. Assim, o mesmo falante que emprega iremos num texto profissional utiliza a gente vai num bate-papo entre amigos. Mas ele jamais diria nóis vai, a não ser de brincadeira. Já quem diz nóis vai é incapaz de usar nós vamos ou nós iremos. Há uma barreira social e educacional entre a pessoa que alterna os dois primeiros registros e a que só utiliza o terceiro. Vale lembrar que a função da escola é tornar o aluno proficiente no primeiro registro, que é o que lhe abrirá portas em seu futuro profissional e civil, pois nos outros dois registros ele já é proficiente.

Vamos imaginar que, se o Brasil tivesse um ensino público gratuito e universal de altíssima qualidade como têm países como Finlândia ou Dinamarca e, portanto, todas as crianças recebessem desde cedo esse nível de educação, ninguém no país falaria nóis vai. É o que se espera de um país desenvolvido — eu diria até, civilizado.

Obviamente, crianças oriundas de favelas ou zonas rurais, filhas de pais analfabetos, que não podem dar aos filhos o que não têm nem conhecem, chegam à escola dizendo nóis vai. E concordo com a articulista de que não é justo que sejam humilhadas por isso, afinal não têm culpa da condição socioeconômica em que nasceram.

Citando Stela Maris, Ph.D. em Linguística, na obra Nós cheguemu na escola, e agora?, Larissa recomenda “que a norma culta seja ensinada nas escolas, mas que, ao mesmo tempo, sejam preservados os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social”. 

E é aí que discordo da colunista e da doutora em linguística. Os conhecimentos sociolinguísticos e os valores culturais que os alunos trazem de seu ambiente social devem, sim, ser respeitados, mas não preservados. A escola deve, sim, corrigir o aluno que diz nóis vai e ensiná-lo de que, daqui para frente, deve dizer nós vamos, nós iremos ou a gente vai, dependendo do contexto. Mas, e quando esse aluno for para casa e conversar com seus pais, ele deve usar a nova forma que aprendeu ou mudar a chave e dizer: “hoje nóis aprendeu uma coisa nova lá na escola”? Ninguém passa pela escolarização impunemente. Portanto, o que se espera de alguém que está sendo escolarizado é que aplique na sua vida o que aprende na escola. Logo, esse aluno deve aos poucos se acostumar a empregar um linguajar mais condizente com sua condição escolar. Se os pais acharem estranha a nova forma de expressão da criança, esta deve dizer: “pai, mãe, a professora ensinou que essa é a forma correta de falar”. Essa criança estará indiretamente educando também os seus pais, num efeito multiplicador. Antes de causar estranheza, esse novo modo de falar deveria causar orgulho em pais que não puderam estudar, mas cujos filhos estudam para um dia ter uma posição social melhor que a deles. A menos que esses pais sonhem em ter um filho traficante, funkeiro, jogador de futebol ou influenciador digital.

Larissa prossegue: “Aprender a norma culta deve significar uma ampliação da competência linguística e comunicativa do aluno, capacitando-o a usar uma variedade ou outra, conforme a situação discursiva”. Fico imaginando um eminente jurista como Joaquim Barbosa, que veio de um meio muito humilde, chegando à casa de seus pais depois de dar uma palestra em português castiço e dizer “hoje eu di uma palestra numa facurdade pra lá de boa e os pessoal me apraudiu tudo”. Seria concebível essa situação?

Respeitar o socioleto do aluno vindo da favela é uma coisa, ensiná-lo a usar variedades de maior prestígio para seu próprio bem é outra. À medida que o aluno aprende uma forma de expressão mais prestigiosa, que o afasta do ambiente tóxico em que estaria condenado a viver, por que ele continuaria a usar uma forma linguística que só o prende a essa realidade?

A colunista finaliza:

Os alunos devem se sentir à vontade para falar em sala de aula, independentemente da variedade linguística que utilizem. Quando seus antecedentes culturais e linguísticos não são respeitados, podem desenvolver um sentimento de insegurança e inadequação. […] Como poderíamos ensinar menosprezando, desautorizando e humilhando nossos próprios alunos? Não somos contrários às regras, nem defensores de um “vale-tudo” linguístico.
Na verdade, apreciamos ensinar as normas do português padrão e promover uma boa escrita. No entanto, isso é muito diferente de diminuir alguém por sua forma de se expressar. […] Humilhar outra pessoa por sua forma de falar, não apenas silencia uma voz, mas também perpetua um ciclo de opressão.

Obviamente, sou contra qualquer humilhação que um professor possa impor a um aluno, especialmente por seu modo de falar. Mas a sociolinguística, base teórica da noção de variação e variedade linguísticas, que prega a igualdade de valor entre todas as variedades, tem sido frequentemente usada por professores inexperientes, preguiçosos ou mal-intencionados para deixar de ensinar a norma-padrão (até linguistas de universidades brasileiras recomendam que não se ensine mais gramática) sob a alegação de que corrigir o aluno constitui preconceito linguístico que pode traumatizá-lo e de a gramática normativa é uma forma de opressão das elites contra a classe trabalhadora; por isso, é melhor deixá-lo continuar a dizer nóis vai — e a vandalizar a sala de aula e ameaçar colegas, professores e diretores. É por isso que o artigo da professora O’Hara, embora bem-intencionado, pode ser perigoso se mal interpretado.

Como e por que as línguas mudam?

A mudança é o fenômeno fundamental da linguagem. Na medida em que a língua é, ao mesmo tempo, produtora e produto de uma cultura, que é algo dinâmico, é natural que a língua acompanhe esse dinamismo.

Na natureza, a mudança é sempre imperceptível. Num universo em que o comportamento dos seres é regido por leis físicas ou genéticas, prevalece o determinismo do instinto. Assim, a natureza parece funcionar sempre da mesma maneira, os fenômenos seguindo sua ordem natural, sem exceção. O que distingue o homem dos outros seres vivos é a capacidade de modificar a natureza com seu trabalho transformador. O homem foi o único animal capaz de criar diferentes modos de vida, distintas civilizações, de se adaptar a todos os habitats oferecidos pela natureza, além de ser o único animal a produzir história. No mundo natural, a mudança temporal é medida em termos de milhares ou milhões de anos, o que nos dá a falsa impressão de permanência e perenidade. Já os fatos sociais e as criações intelectuais evoluem a uma velocidade às vezes assustadora.

A língua foi chamada por Yuri Lotman de sistema modelizante primário por ser o primeiro e principal instrumento de comunicação e do pensamento de que dispomos. Segundo os linguistas americanos Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, ela é também o filtro através do qual o homem vê e pensa o mundo à sua volta e assim se dá conta de sua própria experiência. Para os adeptos do relativismo linguístico, a língua impõe a seus falantes uma visão de mundo que condiciona os comportamentos psíquicos e sociais dos indivíduos. Contudo, a capacidade humana de transformar o meio social e de explorar a natureza conduz o tempo todo a uma nova realidade, que obriga o homem a uma nova visão de mundo, levando a novos recortes, novas apreensões e novos tratamentos do continuum dos dados da experiência, o que força a língua a mudar para poder continuar dando conta dessa realidade e servindo de instrumento da comunicação e do pensamento.

Num jogo dialético, a língua muda para conservar-se e só se conserva na medida em que muda. Assim como para conservar uma casa é preciso submetê-la a periódicas reformas, a língua precisa adaptar-se constantemente às necessidades de comunicação da comunidade falante. Se não mudasse, em pouco tempo estaria divorciada da sociedade a que deve servir. Em resumo, a língua evolui porque funciona e funciona porque evolui: é o uso da linguagem que produz sua mudança e é esse permanente mudar que garante a continuidade de seu funcionamento.

Segundo Saussure, a língua possui duas características aparentemente contraditórias entre si: a imutabilidade e a mutabilidade. Para ele, a língua é dada aos falantes como uma realidade que nenhum indivíduo pode transformar por sua própria vontade; a língua é fruto de uma convenção social, e mudá-la exigiria o consenso social. Além disso, é uma instituição herdada de gerações anteriores e não um contrato firmado entre os falantes no presente. Saussure insiste na arbitrariedade dos signos linguísticos (as palavras) como uma escolha e, ao mesmo tempo, uma coerção. Por outro lado, a mutabilidade dos signos — e, portanto, da língua — está ligada à própria inconsciência que os falantes têm das leis que regem o sistema, assim como à própria tensão entre a língua como bem social e os atos de fala individuais, com seu caráter particular e transitório.

Mas, se a língua é produtora e produto da cultura, a diversidade cultural é causa da diversidade linguística e vice-versa. Além da mudança temporal, decorrente da evolução histórica, há também a diversidade geográfica, em que os diferentes habitats condicionam diferentes formas de cultura. Assim, a separação dos grupamentos humanos no tempo e no espaço conduz à sua diferenciação. Mais ainda, em sociedades complexas e extremamente heterogêneas como as pós-industriais, estratificadas pela organização política e a especialização das atividades econômicas, a classe social, o grupo profissional e a própria situação de comunicação levam à diferenciação.

Existem, portanto, quatro fatores responsáveis pela mudança linguística: o tempo histórico, o espaço geográfico, a divisão das classes sociais e a variedade das situações de discurso, entendidas como os diferentes ambientes sociais, ligados às diversas práticas profissionais, religiosas, recreativas, culturais, etc., que condicionam diferentes formas de expressão do pensamento (isto é, diferentes escolhas de vocabulário e construção sintática), como é o caso dos discursos científico, político, jurídico, jornalístico, publicitário, dos jargões e das gírias específicas de cada profissão e de cada grupo social (os médicos, os economistas, os surfistas…).

Na mudança histórica, o aspecto que mais chama a atenção é a mutação fonética. A alteração da pronúncia ao longo do tempo pode, muitas vezes, ser mascarada pela grafia: o português cozer era pronunciado na Idade Média como codzer, distinguindo-se perfeitamente de seu hoje homófono coser. Uma alteração de pronúncia pode implicar mudança no sistema de sons distintivos da língua, os fonemas, pelo acréscimo, supressão ou reorganização das relações entre as unidades. Uma mudança ao nível dos fonemas pode, por sua vez, acarretar alterações em categorias morfológicas, como no caso da flexão de número em latim. No latim arcaico, o plural de lupos, “lobo”, era lupoi. Portanto, depreendiam-se claramente um radical lup-, uma vogal temática -o- e as desinências do singular e do plural -s e -i, respectivamente. A evolução de lupos para lupus e de lupoi para lupi levou à oposição entre as terminações -us e -i, que passaram a ser vistas como unidades irredutíveis.

Frequentemente, a mudança histórica se dá não apenas na pronúncia, mas também no significado. É assim que muitas palavras, independentemente da conservação ou mutação de sua forma fonética ou gráfica, adquirem novos significados, podendo manter ou não os antigos. Finalmente, novas palavras são introduzidas na língua, fruto de criação interna ou de empréstimo, enquanto outras caem em desuso e desaparecem.

A mudança espacial é resultado da diferente evolução temporal da língua em comunidades linguísticas separadas geograficamente. A distância geográfica, responsável pela falta de comunicação entre dois grupos de falantes de uma mesma língua, produz em cada um dos grupos uma evolução histórica independente, que, a longo prazo, poderá resultar na não intercompreensão entre os grupos. As migrações humanas também são outro fator que conspira a favor da mudança espacial. Ocorre assim o fenômeno da dialetação, que pode, com o tempo, fazer surgirem novas línguas.

A separação entre classes sociais, tanto do ponto de vista físico quanto em termos do modo de vida, faz com que indivíduos pertencentes a classes sociais distintas se expressem de formas diferentes e reproduzam visões de mundo parcialmente diversas. Surgem então os socioletos, ou formas de expressão particulares de cada classe social. Finalmente, os diferentes grupos sociais (grupos profissionais, religiosos, etários, etc.) existentes numa sociedade complexa tendem a produzir discursos privativos desses grupos. Temos aí os vários idioletos e tecnoletos de uma sociedade.

A análise científica da mudança linguística em função desses fatores pode se dar centrando-se o foco da atenção num estado de língua isolado ou na comparação entre dois ou mais estados de língua. Por exemplo, em relação à mudança temporal, é possível fazer uma análise da língua num dado momento de sua evolução ou confrontar dois diferentes momentos dessa evolução e verificar que elementos ou relações se mantiveram ou mudaram. O mesmo raciocínio vale para os outros três fatores de mudança da língua.

Além disso, podemos realizar uma fusão e integração das análises individual e comparativa. No caso da evolução histórica, pode-se não apenas descrever e confrontar duas etapas distintas, mas também compreender como as relações internas entre os elementos do sistema no estado 1 conduziram ao estado 2, integrando a evolução e o funcionamento num único processo.

Podemos, igualmente, analisar de modo global as variações geográficas, de classe social e tipos de discurso. É essa tendência à visão holística da mudança linguística que norteia a maioria dos estudos científicos da linguagem atualmente, mostrando que hoje, ao contrário da fragmentação e da visão parcial que tínhamos até um passado relativamente recente, a linguística atual opta por uma análise global de seu objeto, a partir de um ponto de vista dinâmico.

Quem é o calhorda?

Desde o início do ano, o Prof. Fernando Pestana, meu colega colunista na página Língua e Tradição, vem publicando nessa página uma série de artigos comentando a Gramática Pedagógica do Português Brasileiro, do linguista Marcos Bagno, sobretudo apontando os erros metodológicos e as incoerências entre o que o autor prega e o que ele mesmo e os autores em que se apoia fazem em matéria de uso da chamada norma-padrão da língua portuguesa.

Antes de mais nada, convém situar o leitor sobre do que trata essa gramática. Nela, Bagno advoga que a atual norma culta do português brasileiro, isto é, o modo como os brasileiros altamente escolarizados falam e escrevem, está bastante distante da norma-padrão, aquela preconizada pela gramática normativa e ensinada nas escolas, a qual estaria, portanto, desatualizada e se teria tornado anacrônica, além de refletir mais o português lusitano do que o brasileiro. Como resultado, o autor propõe não só que se adote uma nova norma-padrão, que abone construções típicas do falar brasileiro, como também que se passe a ensinar essa nova norma nas escolas. É daí que vem o epíteto “pedagógica” do título da obra.

Bagno afirma, dentre outras coisas, que os pronomes demonstrativos este/esta/estes/estas não existem mais no português brasileiro, substituídos que foram por esse/essa/esses/essas em todos os casos. No entanto, o próprio autor emprega diversas vezes este/esta/estes/estas em sua obra, numa contradição com sua própria lição.

Ele também defende que construções como “eu a vi” quase não se usam mais e, portanto, deve-se a partir de agora abonar construções como “eu vi ela”. Seu argumento, coerente com o militante de esquerda que é, é o de que a norma-padrão vigente é elitista e excludente e que, para empoderar os menos favorecidos, é preciso chancelar o modo como eles se expressam.

Esse raciocínio tem dois problemas. Primeiro, a verdadeira emancipação dos mais pobres e menos escolarizados se dá justamente pela educação, portanto pelo acesso dessa população a um ensino de qualidade, que a torne proficiente naquela norma que vai lhe abrir as portas do mercado de trabalho qualificado, e não pelo rebaixamento da norma-padrão ao linguajar das pessoas menos escolarizadas. Essa proposta seria como se, em vez de lutar pela saúde bucal da população, tornando o tratamento dentário acessível a todos, se instituísse a boca banguela como padrão de normalidade.

O segundo problema é que a norma-padrão de uma língua se baseia no uso formal que as pessoas cultas fazem na modalidade ESCRITA. Embora a maioria de nós brasileiros use de fato esse no lugar de este mesmo referindo-se a um objeto próximo de quem fala, o uso do pronome este ainda está muito vivo em nossa escrita formal. Da mesma forma, todos nós dizemos “eu vi ela” quando falamos informalmente, mas nenhuma pessoa bem escolarizada, que é a que redige textos formais, escreveria dessa maneira num documento profissional, trabalho escolar ou na prova do Enem. Logo, o argumento de que nossa norma-padrão é uma peça de ficção, um retrato do português escrito de séculos atrás, como sustenta Bagno, não se sustenta.

É bem verdade que muitos profissionais de nível superior já não respeitam rigorosamente certas regras da gramática normativa quando escrevem, como, por exemplo, quando utilizam a próclise (anteposição do pronome oblíquo ao verbo) em contextos em que deveriam usar a ênclise (posposição do pronome ao verbo). Nesse sentido, a norma-padrão poderia, sim, ser flexibilizada, e creio que o será nos próximos anos, como é da dinâmica natural das gramáticas. Mas, se as pessoas cultas já escrevem assim — eu mesmo faço isso e, aliás, o fiz aqui neste texto — e essas construções são aceitas pacificamente, por que precisaríamos reformular radicalmente a norma-padrão? Não bastariam alguns pequenos ajustes? Por outro lado, que sentido há em institucionalizar uma construção como “eu vi ela” se nenhum redator culto a emprega em textos formais?

Nesse sentido, as críticas do Prof. Pestana à obra de Bagno são plenamente razoáveis e pertinentes. Além disso, a gramática em questão se baseia muito mais nas percepções pessoais do próprio autor sobre o português brasileiro do que num levantamento sistemático, segundo o método científico, de textos escritos formais do Brasil atual, ainda que ele afirme ter feito tal levantamento. Na prática, o que Bagno faz é tomar o português oral informal como padrão a ser adotado na escrita formal, algo que ainda está muito longe de acontecer e de ser aceito socialmente.

Mas o motivo deste meu artigo é que o linguista Marcos Bagno postou recentemente um texto no Facebook com o título “A calhordice do ‘ele não escreve como manda os outros escreverem’”. Embora não especifique a quem dirige sua ira, fica claro que o alvo é justamente o Prof. Pestana, primeiro porque, num trocadilho de gosto duvidoso, Bagno impreca a certa altura: “Vá queimar pestana, calhorda (…)”. E, em segundo lugar, porque as críticas que tenta rebater em sua postagem são exatamente aquelas feitas por Pestana.

A primeira coisa a observar é que Bagno não contra-argumenta, em nenhum momento afirma que os apontamentos de Pestana são inverdades, mas limita-se apenas a dizer que

a postura mais democrática em língua é aquela que diz que as formas inovadoras já devidamente implantadas na linguagem dita culta podem ser empregadas TANTO QUANTO as formas previstas pela tradição normativa. A palavra mágica é TAMBÉM, mas, numa sociedade polarizada como a nossa, com o evângelo-fascismo se espalhando feito a doença que é, falar de TAMBÉM é quase uma heresia.

Só que, em sua gramática, Bagno não sustenta que se use indiferentemente quer a forma tradicional quer a inovadora, ele aconselha os professores a ensinar apenas esta segunda. Diz ele: “é perda de tempo tentar inculcar nos aprendizes uma diferença entre esse e este, que não existe na língua e que não é rigorosamente seguida nem sequer pelos que produzem gêneros escritos mais monitorados”.

Como não tem argumentos para negar que as críticas de Pestana têm fundamento, Bagno recorre ao argumentum ad hominem da retórica de Aristóteles e chama seu crítico de calhorda. Não podendo atacar o argumento, ataca o argumentador, numa atitude infantil de descontrole emocional de quem sabe que não tem razão. Ao contrário, Pestana critica Bagno com espírito científico, como é praxe no debate acadêmico, jamais em nível pessoal, jamais resvalando para a ofensa ou o insulto. Em outras palavras, ataca as ideias, não a pessoa.

Em outro momento, Bagno dá uma “carteirada” em Pestana, um típico “você sabe com quem está falando?”, ao dizer:

escreva uma gramática com pelo menos 1.000 páginas como a minha, leia tudo o que tive de ler para escrever ELA, colete os milhares de dados que coletei para provar meus argumentos, faça dela uma referência internacional para quem estuda português, e um dia talvez quem sabe (mas eu sei que é nunca) você possa (mas sei que não vai poder) começar a pensar em me dar conselhos e passar pito.

Arrogante como sempre e detentor de uma postura de dono da verdade, como o são todos os extremistas, radicais e dogmáticos, Bagno se gaba de ter escrito uma gramática de mil páginas, o que, supostamente, Pestana não seria capaz de fazer. Ora, primeiramente, um livro grande não é necessariamente um grande livro, ou “tamanho não é documento”. Em segundo lugar, Pestana é autor d’A Gramática para Concursos Públicos, por sinal, a gramática mais vendida e a mais lida por concurseiros e vestibulandos, mas não só por eles.

A certa altura, Bagno coloca o pronome pessoal oblíquo antes do advérbio de negação (“…como se fosse possível algum trabalho que o não seja…”) e, pretensioso, desafia seu opositor como quem quer ensinar o padre-nosso ao vigário: “já ouviu falar em apossínclise? Eu já, e uso quando bem quiser!”.

Bagno também afirma em sua postagem que sua gramática “descreve uma construção sintática nova e comprova que ela já está perfeitamente enraizada nos usos falados e escritos das pessoas ditas cultas”. Será? “Eu vi ela” já está enraizado no uso ESCRITO das pessoas cultas? Diz também que “descrever fenômenos gramaticais não é o mesmo que se obrigar (ou às outras pessoas) a usar esses fenômenos na própria escrita”. No entanto, sua gramática se diz pedagógica justamente porque quer ensinar as pessoas a usar essas formas em sua escrita. Gramáticas descritivas descrevem a língua tal como é falada e escrita, tanto pelos mais cultos quanto pelos iletrados; já gramáticas normativas e pedagógicas normatizam a linguagem formal, isto é, estabelecem normas de como se deve ou não se deve escrever textos formais. A gramática de Bagno é pedagógica até no título, e seu conteúdo não é meramente descritivo, com fins unicamente científicos, é prescritivo e estimula os professores a ensinar a seus alunos um padrão que praticamente só o próprio Bagno utiliza. Afinal, quem mais no meio acadêmico ou profissional escreve “leia tudo o que tive de ler para escrever ELA”?

Em outra passagem de seu texto, Bagno se vangloria de ter escrito um romance em que não usou nenhuma vez a palavra cujo. Enquanto os grandes escritores se esmeram em produzir obras linguisticamente ricas, Bagno se orgulha de sua pobreza vocabular. E ainda assim se considera um literato!

Por fim, usando da falsa humildade característica dos cínicos, Bagno afirma: “aceito as críticas e observações que fazem, sempre com bom conhecimento de causa, acato umas, outras não — como é próprio de quem faz ciência e assume coerência teórica. Aceito criticas e observações — mas calhordice, aceito não”. Coerência teórica?! Aceita críticas e observações?! Só se forem aquelas que não exponham sua incoerência ou a fragilidade de suas postulações. Do contrário, o crítico é calhorda, mesmo que todas as suas críticas estejam fundamentadas e apoiadas em dados colhidos por metodologia científica, como o fez o Prof. Pestana.

Mas, a certa altura de seu texto, Bagno também confessa: “na virada do milênio, fiz concurso para uma universidade pública e um dos membros da banca examinadora me perguntou como é que eu tinha sido aprovado no doutorado usando tantas formas não normativas na minha tese”. Pergunta que eu também me faço. O fato é que Marcos Bagno diz o tempo todo fazer ciência ao mesmo tempo em que confessa que todo o seu trabalho é eivado de ideologia (marxista, no caso), e que não é possível fazer ciência não ideológica. Na verdade, todo trabalho científico estritamente descritivo e explicativo que seja bem feito e metodologicamente correto, seja nas ciências naturais ou nas humanas, é não ideológico, já que se atém à realidade dos dados coletados, sem emitir opiniões ou juízos de valor. No entanto, Bagno advoga o tempo todo em favor de uma agenda política, como quando diz em sua postagem:

[o argumento] (é) calhorda porque vem, sempre, da parte de gente que tem acesso suficiente à informação para formar opiniões mais bem fundamentadas, mas que, sempre, troca a boa fundamentação pela defesa de uma ideologia linguística que, como tudo na vida, é uma ideologia política que só deseja preservar o tipo de sociedade em que o uso da língua é mais um critério para excluir as pessoas, tanto quanto a cor da pele, o gênero, a orientação sexual, o nível de pobreza (porque, no Brasil, falar em “nível de renda” é falta de compaixão) etc.

Em resumo, Bagno não faz ciência, faz política travestida de ciência. Como todo extremista, não se pauta por fatos objetivos e sim por dogmas. Como todo radical, é raivoso contra quem discorde de suas ideias. Como todo hipócrita, finge-se de democrata quando só dá ouvidos a quem lhe faz coro. Como todo aquele que se sabe medíocre (porque quem é bom de fato não precisa provar nada a ninguém), vomita o tempo todo seu currículo acadêmico e desqualifica seus adversários. Como militante político barulhento e rebelde sem causa, desprestigia os verdadeiros linguistas, aqueles que fazem ciência de verdade com seriedade e responsabilidade, que não misturam fatos com opiniões, que não falseiam dados para provar suas teses, que não atacam a honra de seus críticos ou adversários e que, além de tudo, escrevem num português que, mesmo não seguindo religiosamente a norma-padrão, é perfeitamente aceitável entre as pessoas de cultura. O que não é o caso do Sr. Marcos Bagno.

Um novo tipo de variação linguística

Já faz algum tempo que nas aulas de Língua Portuguesa se ensina sobre variação e mudança linguísticas. Trata-se de mostrar aos estudantes que a mesma língua se fala ou escreve de formas diferentes conforme o lugar, a época, o ambiente, o meio de comunicação… A sociolinguística, disciplina que estuda esse fenômeno, costuma reconhecer cinco tipos de variação: a diatópica, que é a que a língua sofre de uma região para outra e que se caracteriza principalmente pela pronúncia (o chamado sotaque) e pelo vocabulário (os chamados regionalismos); a diacrônica, mudança que a língua sofre ao longo do tempo, por força da evolução histórica, e que se percebe na pronúncia e no vocabulário de pessoas de diferentes faixas etárias; a diastrática, ou variação da língua de acordo com a classe social do falante, na medida em que todos nós tendemos a falar de modo semelhante aos nossos iguais, isto é, aos membros de nossa própria comunidade linguística e de nosso próprio grupo social; a diafásica, isto é, o modo como nos expressamos dependendo da situação de comunicação em que nos encontremos (uma conversa informal, uma palestra, uma entrevista de emprego, etc.); e a diamésica, último tipo de variação a ser reconhecido, que tem a ver com o meio de comunicação empregado, ou seja, a fala, um documento escrito, um e-mail, uma mensagem no WhatsApp, e assim por diante.

De fato, nossa pronúncia, nossa gramática e nosso léxico mudam em função de todos esses parâmetros (nas mensagens eletrônicas até a grafia muda!). É por isso que não se fala no Rio de Janeiro como se fala na Paraíba, é por isso que um idoso não fala como um adolescente, um morador da periferia não fala como um dos Jardins, não falamos com nosso chefe como falamos com nossos filhos, nem escrevemos como falamos ou redigimos um SMS como redigimos um ofício.

Até aí, tudo muito claro, lógico e natural. Mas acontece que a língua também pode variar no mesmo falante no mesmo ato de comunicação, isto é, no mesmo enunciado. E pode variar em termos de pronúncia, léxico ou gramática. É o que vou chamar aqui em primeira mão de variação diatática (do grego taktós, “ordenado, posicionado”).

O presidente Michel Temer, por exemplo, costuma pronunciar o r de “rua” à maneira dos sulistas, isto é, vibrando a língua na região dos alvéolos (aquelas bolinhas que temos entre a gengiva e o palato atrás dos dentes incisivos superiores) – trata-se da chamada vibrante alveolar múltipla, que se transcreve foneticamente como [r]. Já a maioria dos brasileiros pronúncia o r como uma fricativa velar, uvular ou glotal – é o chamado “erre carioca”, que pode ser transcrito como [ɣ], [ʁ] ou [h] (na verdade, essas três transcrições correspondem a três variantes desse tipo de erre).

Acontece que nosso presidente alterna os dois tipos de pronúncia, que estamos aqui chamando respectivamente de “sulista” e “carioca”, às vezes numa mesma frase ou em frases de um mesmo discurso. Tudo depende de se o r está no início ou final da frase, se é precedido de consoante ou de vogal, se a palavra é pronunciada com mais ou menos ênfase, além de alguns outros fatores difíceis de detectar (nível de cansaço, tensão emocional, secura da boca).

Na verdade, a maioria dos falantes de São Paulo, Sul e Centro-Oeste do Brasil que utilizam o erre “sulista” costumam misturá-lo ao “carioca” em sua fala. Sendo a variante sulista a natural dessas pessoas, a outra entra justamente naquelas posições do enunciado em que a vibração da língua nos alvéolos costuma falhar ou ser mais difícil. Já o contrário quase nunca ocorre: um falante do Sudeste, Norte ou Nordeste que tem o erre carioca como padrão dificilmente o trocaria pelo sulista, a não ser por brincadeira.

Mas há também pessoas que empregam indiferentemente “louro” e “loiro”, “catorze” e “quatorze”, “éxtra” e “êxtra”, “Rorãima” e “Roráima”… E a maioria de nós mistura na mesma frase “nós” e “a gente”, “teu” e “seu”, “seu” e “dele”, “dez reais” e “dez real”, e por aí vai. Ou seja, a pronúncia, o vocabulário e a gramática mudam na mesma pessoa, no mesmo ato de fala. Às vezes temos a tendência, consciente ou inconsciente, de adequar a nossa fala à do nosso interlocutor. Por isso, se costumo pronunciar “catorze”, mas a pessoa com quem converso repete o tempo todo “quatorze”, posso acabar pronunciando “quatorze” por influência dela – especialmente se estou falando com alguém a quem respeito muito.

O fato é que todos nós sofremos essas flutuações em nossa fala sem nos darmos conta. E, que eu saiba, parece que os sociolinguistas também não se deram conta ainda. É a tal variação diatática.