A Butanvac, as telenovelas e os casais-valise

Foi anunciada na semana passada uma vacina contra a covid-19 cem por cento nacional – embora a tecnologia inicial seja americana – a ser fabricada pelo Instituto Butantan e batizada de Butanvac. A escolha do nome é uma clara junção de “Butan” (de Butantan) e “vac” (de vacina). Esse processo de formação de nomes de produtos e mesmo de palavras comuns da língua juntando pedaços de outras palavras é bastante frequente, especialmente na indústria farmacêutica. Aliás, várias das vacinas anticovid têm nomes formados assim: Coronavac = coronavirus + vaccine, Novavax = nova + vaccine, e assim por diante.

Esse processo de formação de palavras é chamado tecnicamente de fractocomposição, e seu resultado é o fractocomposto ou palavra-valise. Há muitos exemplos em português:

  • ataca|do| + |va|rejo = atacarejo;
  • auto|móvel| + peça = autopeça;
  • brasi|leiro| + |para|guaio = brasiguaio;
  • cant|ora| + atriz = cantatriz;
  • mini|atura| + saia = minissaia;
  • portu|guês| + |espa|nhol = portunhol;
  • repro|dução| + |foto|grafia = reprografia;
  • show + |co|mício = showmício.

A fractocomposição é um processo relativamente moderno de formação de palavras, já que a maioria delas tem menos de 100 anos. Um dos primeiros campos a adotar esse processo foi a química, cujos compostos são formados a partir de fractomorfemas como met- (do grego méthy, “vinho”), et- (de “éter”), prop- (de “propiônico”, nome de um ácido), but- (do latim butyrum, “manteiga”), etc. Depois veio a informática (de “informação” + “automática”) com blog (de web + log), flog (de “foto” + blog), Instagram (de instant, “instantâneo” + photogram, “fotograma”), e muitos mais.

Os fãs de telenovelas também costumam usar esse processo, que eles chamam de “shippar”. Trata-se de juntar por meio de truncamento seguido de aglutinação os nomes de dois personagens que eles desejam que terminem juntos, ou seja, que formem par romântico. Assim, já tivemos laurique (Laura e Caíque), perina (Pedro e Karina), peju (Pedro e Júlia), shirlipe (Shirlei e Filipe), e muitos outros. Às vezes, também os nomes de celebridades são “shippados”, como aconteceu com o casal Dillzé (e também Guizill) no tempo em que os atores Nathalia Dill e Sérgio Guizé namoravam.

Ou seja, assim como ocorre com medicamentos, é muito comum que nomes de personagens de telenovela se transformem em palavras-valise. O que às vezes vem a calhar, já que certos personagens são realmente muito “malas”.

Todos os indígenas são índios?

A campanha de vacinação contra a covid-19, iniciada tardiamente e ameaçada de não ter continuidade por causa do isolacionismo diplomático em que nosso presidente coloca o Brasil, prioriza, neste primeiro momento, os profissionais de saúde que lutam na linha de frente, os idosos e os indígenas – estes últimos, também popularmente conhecidos como índios. A semelhança fonética entre “índio” e “indígena”, somada à semelhança de significados, nos induz logo a pensar que se trate de palavras aparentadas, o que não é verdade: trata-se, antes, de uma dessas coincidências capciosas, uma peça que a língua nos prega.

É que “indígena” provém do latim indigena, formado de indu, “dentro”, e geno, “gerar, dar à luz”, significando “natural do próprio país, nativo”. Ou seja, na Roma antiga, indígenas eram os próprios romanos (no Império Romano obviamente não havia índios). Por outro lado, na Renascença a palavra “índio” designava (e em espanhol ainda designa) os indianos; a confusão entre “índio” e “indiano” se deu justamente porque, segundo reza a lenda, os primeiros europeus a chegar à América, com a expedição de Cristóvão Colombo, acreditavam ter chegado às Índias. (Por causa disso, até hoje, a palavra inglesa Indian denomina tanto os indianos quanto os índios.)

Por outro lado, os índios não deixam de ser os nativos do continente americano, portanto legítimos indígenas. E aí está feita a confusão! Embora não seja usual, a palavra “indígena” seria perfeitamente aplicável a qualquer população nativa em relação aos exploradores europeus: nativos africanos, aborígines australianos, esquimós, habitantes das estepes siberianas, etc. Só que o uso reiterado de “indígena” em relação ao ameríndio e somente a este acaba reforçando a ilusão de parentesco entre palavras cuja similitude é puramente fortuita.

Quanto aos termos “índio” e “indiano”, suas origens remontam à Índia, terra assim chamada por causa do rio Indo, cujo nome no antigo persa era Hinduš. Essa denominação veio, por sua vez, do sânscrito Sindhu. É do persa, por meio do grego, que se origina o nome “hindu”, designativo de uma das religiões da Índia, e que muitos confundem com a própria etnia indiana. Como, na Antiguidade, muitas civilizações cresceram em torno de religiões, não é absurdo falar-se de uma civilização hindu, já que, naquela época, etnia e religião andavam juntas; entretanto, nos dias de hoje, é mais adequado nos referirmos à Índia como estado ou governo indiano do que estado ou governo hindu – até porque a nação indiana é composta de um sem-número de comunidades religiosas, das quais a hindu é a maior, mas não a única.