Quem matou Domingos Montagner?

A morte do ator Domingos Montagner, o Santo da novela Velho Chico, afogado nas águas do rio São Francisco na última quinta-feira, provocou comoção geral entre os brasileiros. Muito se falou sobre as causas dessa morte trágica: teria sido resultado da imprudência do ator e de sua colega, a atriz Camila Pitanga, que com ele nadava? Da falta de sinalização para o perigo de nadar no local? Teria sido uma fatalidade, ou, para os mais místicos, a mão do destino ou, quem sabe, um desígnio divino?

Nada disso: quem matou Domingos Montagner foi a corrupção, sempre ela! Explico: o local do acidente, conhecido como Prainha, passou por uma reforma realizada pela prefeitura do município de Canindé de São Francisco há poucos meses. Um dos itens dessa reforma era a recolocação no local de placas de sinalização alertando os banhistas para os riscos oferecidos pela correnteza do rio, bem como a contratação de salva-vidas e a reinstalação de boias limitando o acesso dos visitantes à área segura. Digo recolocação e reinstalação porque essas medidas de segurança existiam antes da reforma.

Ocorreu que o Ministério Público Federal mandou suspender a obra por indícios de irregularidades (leia-se “desvio de dinheiro público”). Por determinação dos procuradores federais ou por mau entendimento por parte das autoridades locais do despacho do MPF, as medidas que garantiriam a segurança dos turistas não foram implementadas. Ou seja, a suspeita de corrupção motivou o MPF a sustar a obra, e a burocracia em que se afunda o Estado brasileiro, em que ninguém sabe a quem compete tomar essa ou aquela medida, com o consequente jogo de empurra, causou a paralisia da prefeitura em relação a providências que poderiam ter salvado a vida do ator.

Além das milhares de pessoas que morrem nas filas dos hospitais públicos à espera de atendimento e além das centenas que morrem em rodovias sem manutenção pelo poder público, em ambos os casos por falta de verba (que foi desviada), a corrupção também mata quando, por sua causa, se interrompem obras de interesse do cidadão como essas na Prainha.