Revoluções científicas e revoluções políticas

Em sua obra Gramáticas brasileiras: com a palavra, os leitores, Carlos Alberto Faraco e Francisco Eduardo Vieira invocam às páginas 40-41 o livro de 1962 do epistemólogo americano Thomas Kuhn A estrutura das revoluções científicas para defender sua agenda “revolucionária” em relação à gramática normativa do português. Vieira diz o seguinte:

Kuhn (1962) afirma que as revoluções científicas assemelham-se às revoluções políticas, e eu alargo seu pensamento ao contexto das produções emergentes das gramáticas do PB. Seus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica […] Não à toa as características que Kuhn (1962: 126-128) afirma pertencerem às revoluções políticas e científicas podem ser apontadas como constitutivas da revolução do fazer gramatical brasileiro. […] Assim, a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional e grandes alterações nos problemas e técnicas arraigados historicamente no nosso fazer gramatical, algo próprio do caráter revolucionário.

Na verdade, a aproximação que Kuhn faz entre revoluções científicas e revoluções políticas deve ser entendida cum grano salis: ambas suplantam um paradigma vigente para instituir um novo paradigma (no caso de revoluções políticas e também de golpes de Estado, o paradigma no caso é um regime político ou um governo específico). Mas há uma diferença crucial que o próprio Kuhn reconhece em suas obras: uma revolução política é um ato violento em que o grupo que toma o poder não é necessariamente melhor que o deposto — muitas vezes é ainda pior. O que motiva o grupo revolucionário a tomar o poder é, as mais das vezes, o próprio desejo pelo poder, disfarçado demagogicamente de “luta pela liberdade”, “em favor dos oprimidos”, “contra a corrupção e os desmandos do regime anterior”, etc. etc.

Já uma revolução científica ocorre não porque um grupo de cientistas defensores de uma tese heterodoxa resolve desbancar os defensores da teoria mainstream para assumir seus cargos nas universidades e institutos de pesquisa; uma revolução científica ocorre quando uma nova descoberta, muitas vezes feita por acaso, desnuda as limitações ou lacunas do modelo explicativo vigente, revelando sua incapacidade de dar conta do novo fenômeno, o que enseja a elaboração de uma nova teoria, assentada num novo ponto de vista, que Kuhn chamou justamente de paradigma.

Um exemplo clássico de revolução científica e consequente mudança de paradigma é a Teoria da Relatividade de Einstein. Até fins do século XIX, acreditava-se que todos os problemas básicos da física estavam resolvidos, da mecânica ao eletromagnetismo e à termodinâmica. Um dos pilares dessa física, hoje chamada de “clássica”, era o postulado de que o espaço e o tempo são absolutos, logo o valor da velocidade de um corpo em movimento depende do referencial adotado como origem do sistema. Por exemplo, uma mosca voando dentro de um ônibus em movimento terá um valor x de velocidade para um passageiro dentro do ônibus, mas outro valor y para um observador fora do ônibus, parado na calçada. Partindo desse princípio, imaginava-se que um facho de luz projetado a partir de uma lanterna dentro do ônibus teria velocidades diferentes para o observador dentro do veículo e para o observador fora dele.

No entanto, em 1887, os físicos Albert Michelson e Edward Morley realizaram um experimento para medir a variação da velocidade da luz a partir de referenciais distintos e, surpreendentemente, verificaram que essa velocidade é uma constante qualquer que seja o sistema de referência adotado. Dito em outras palavras, o valor da velocidade da luz é absoluto, logo o que é relativo é o espaço e o tempo. Foi essa conclusão pouco ortodoxa e bastante contraintuitiva que levou o então jovem físico Albert Einstein a formular sua famosa teoria. E esta foi comprovada experimentalmente inúmeras vezes, uma delas, por sinal, numa observação astronômica realizada no Brasil, mais precisamente em Sobral, no Ceará, em 1919.

A descoberta de Michelson e Morley acarretou a elaboração de uma teoria totalmente nova, que pôs por terra o que até então se acreditava sobre o espaço e o tempo. Mas, como sempre acontece na ciência, nenhuma revolução científica invalida totalmente o conhecimento anterior; na verdade, ela o amplia. Desse modo, a Teoria da Relatividade não invalidou a mecânica clássica de Newton, que, aliás, continua a ser utilizada correntemente ainda hoje em situações que não envolvam grandes massas (como a da Terra ou do Sol) nem grandes velocidades (como a dos elétrons ou da luz), como é o caso da construção civil ou da indústria automobilística. O que a Teoria da Relatividade fez foi englobar a mecânica de Newton: com pequenas massas e baixas velocidades, as equações da Relatividade se reduzem às equações de Newton.

Os casos históricos em que um determinado conhecimento foi inteiramente abandonado por estar errado — como a substituição da física de Aristóteles pela de Galileu e Newton, do geocentrismo de Ptolomeu pelo heliocentrismo de Copérnico, da geração espontânea pela microbiologia de Pasteur e do criacionismo bíblico pela teoria da evolução de Darwin — são, na verdade, exemplos da substituição de uma crença não científica, instituída em tempos em que a ciência como a entendemos hoje nem existia, por uma constatação científica baseada em dados empíricos.

Dito isto, o que os linguistas-gramáticos Faraco e Vieira propõem, supostamente respaldando-se numa ciência, a linguística, é uma revolução de cunho muito mais político do que científico. Com efeito, nenhuma descoberta revolucionária ocorreu no âmbito dessa ciência que tornasse a gramática normativa do português brasileiro contemporâneo escrito culto — numa palavra, a norma-padrão vigente — obsoleta ou incorreta, portanto inútil e desprezível, a ponto de que as pessoas que precisem redigir textos formais devam simplesmente desconsiderar suas lições e jogar seus compêndios no lixo. Parece-me, antes, que o objetivo de certos linguistas que se arvoram em gramáticos, como os citados Faraco e Vieira, bem como Marcos Bagno, é muito mais ocupar o espaço dos gramáticos tradicionais, destronando-os como os revolucionários políticos fazem com quem está no poder, para vender suas gramáticas “revolucionárias” ou, quem sabe, para iniciar, gramscianamente, por meio de uma revolução na gramática e no ensino de língua portuguesa, uma revolução de verdade, desta vez política. Isso se confirma em termos como “[s]eus autores e partidários veem-se unidos numa causa não só científica, mas sociopolítico-ideológica” ou “a emergência de um novo paradigma de gramatização exige a destruição em larga escala do paradigma tradicional” (grifos meus). Nenhuma revolução científica jamais se pautou por critérios sociopolítico-ideológicos nem propôs a destruição em larga escala do que quer que fosse. Esses slogans panfletários caberiam melhor na boca de revolucionários bolcheviques do que na de cientistas que estudam e descrevem seu objeto com a máxima isenção, neutralidade e imparcialidade possíveis, portanto sem viés político, conforme recomenda o método científico.