Ah, que saudade do “a”!

Já faz um bom tempo que o português brasileiro aposentou a preposição a. Atualmente, a maioria dos verbos que antes regiam essa graciosa preposição preferem a companhia do para. Hoje em dia, não se dá nada a alguém, mas para alguém; não se diz algo a uma pessoa, mas se fala alguma coisa para ela. Verbos de transmissão (em latim, verba dativa), aqueles em que há implícita a ideia de fazer alguém ter algo que não tem, como dar, entregar, contribuir, enviar, e verbos de comunicação (lat. verba dicendi), como dizer, contar, explicar, informar, etc., que sempre pediram como complemento a preposição a – e que ainda o fazem em outros idiomas, como o espanhol, o francês e o italiano – resolveram trair essa companheira de tantos séculos na adúltera relação com para ou, pior, com sua irmã plebeia pra (mais raramente, com em e com, como no caso de chegar em, contribuir com, e por aí vai).

A razão desse adultério deve ser a possível confusão entre a preposição a e o artigo feminino a. Aliás, esses dois homônimos são a causa maior da dificuldade que nove entre dez falantes – ou melhor, escreventes – do português têm de usar a crase. A esse imbróglio se une o pronome pessoal oblíquo a. Assim, uma frase como “Aconselhei-a a ir de carro à padaria” vira algo como “Aconselhei ela pra ir de carro na padaria”. Dada a ambiguidade dos três a’s, a preposição virou pra ou em, o pronome oblíquo virou ela, e só o artigo ainda não foi substituído.

A preposição a atualmente resiste apenas em locuções petrificadas como a respeito de, a propósito, com vistas a, a meu ver, a qualquer preço, a todo custo… Nos demais casos, a teve de ceder o lugar que antes era exclusivamente seu: hoje se vai pra escola ou na escola, jamais à escola. Até o famoso Parabéns a você já virou Parabéns pra você.

A rejeição ao a se deve em grande parte aos hiatos desagradáveis que provoca. Por exemplo, “Ataliba adora-a a toda prova”. Essa sequência cacofônica de a’s não se resolve mudando o pronome de lugar: “Ataliba a adora a toda prova”.

Os portugueses em geral apreciam o a muito mais do que os brasileiros. Lá na terrinha, fala-se ao telefone, senta-se à mesa, fica-se ao sol, paga-se a dinheiro, entrega-se a domicílio. Até o famoso a nível de, tão repudiado pelos gramáticos brasileiros, tem seu lugar ao sol (ou no sol?) em Portugal. Além disso, os tempos cursivos, também chamados de progressivos, que aqui no Brasil se formam com o gerúndio (estou fazendo, estou dizendo) são construídos com a preposição a em terras lusitanas: estou a fazer, estou a dizer.

Outro dia, me deparei com esta bela frase em espanhol: todo lo que te sucede en la vida no es a ti, es para ti. Percebam a distinção que o castelhano faz das preposições a e para – assim como o inglês tampouco confunde to com for. Em português brasileiro, uma tradução não ambígua desse dito seria “tudo o que acontece na sua vida não é com você, é para você”. O verbo acontecer regia classicamente a preposição a (algo acontece a alguém), hoje rege preferencialmente com, preposição de companhia ou instrumento e não de alvo da ação. É o mesmo caso de contribuir com em lugar de contribuir a.

E a confusão de a com então? Isso aconteceu dois minutos, mas aquilo vai acontecer daqui a duas horas. Aí o povo vai e escreve: “a dois dias atrás…”, com duplo erro: preposição a em vez do verbo e redundância entre (no caso, a) e atrás.

E o que dizer de construções arcaicas como chegar a casa e preferir banana a laranja? Hoje se chega em casa e se prefere mais banana do que laranja. Aliás, há quem prefira muito mais uma coisa do que outra! Só faltou falar da interjeição ah: “ah, a amiga Aurora, há tempos que não a vejo!”.

Resumindo, o português brasileiro substituiu a preposição a por para (e consequentemente trocou à por para a, que no linguajar corrente virou pra a e depois simplesmente pra), substituiu por tem (exceto em expressões de tempo como “há dois dias” que se transforma automaticamente em “faz (ou, pior ainda, fazem) dois dias” e só manteve o a artigo (que não tem como substituir, né?) e a interjeição ah, que não se confunde com os outros a’s porque é sempre longa: “aaahh, que saudade do a!”.