Todo dia era dia de povo originário

O revisionismo de palavras que se faz hoje em dia com base no linguajar politicamente correto, nas pautas identitárias e na política de inclusão social não raro comete equívocos e estigmatiza termos inocentes, tachando-os de uma conotação preconceituosa que eles, na verdade, não têm.

Atualmente, vários historiadores e professores de História vêm se referindo ao Descobrimento do Brasil (ou achamento, como disse Pero Vaz de Caminha em sua famosa carta) como invasão. Para isso, alegam que por aqui já existiam habitantes — os indígenas ou povos originários, termo que preferem ao mais usual índios — constituídos em nações, as quais foram invadidas pelos portugueses a partir de 1500.

Assim, quero em primeiro lugar analisar a ideologia por trás das palavras achamento, descobrimento e invasão. Quanto a achamento, palavra que não se usa mais há séculos, é o mesmo que descobrimento e pressupõe o ponto de vista do europeu que encontra uma terra nova, desconhecida para ele. Nesse sentido se fala também no descobrimento da Austrália, no descobrimento da Antártida, e assim por diante. É claro que, do ponto de vista dos indígenas brasileiros ou australianos, o que houve foi uma invasão. Mas a questão é: da perspectiva da maioria dos brasileiros atuais, que não são nem indígenas nem portugueses (muitos são, por sinal, mestiços de ambos), a chegada dos europeus às Américas não foi nem um descobrimento nem uma invasão. No entanto, como o Brasil é um país eminentemente ocidental, de cultura predominantemente europeia, apesar das valiosas contribuições culturais de ameríndios, africanos, árabes, judeus e japoneses, tendemos a falar no Descobrimento do Brasil, assumindo assim o ponto de vista europeu — e a meu ver não há nada de errado nisso. Quem prefere o termo invasão tem legítimo direito a escolher tal denominação, mas, a meu ver, esse revisionismo terminológico tem uma forte carga ideológica de movimentos identitários, que infelizmente, na maioria das vezes, pecam pelo extremismo. O ser humano chegou à Lua em 1969; na época falava-se em “conquista da Lua”, e conquista pode ser entendido tanto como uma conquista da ciência (portanto, um avanço científico) quanto uma conquista política, imperialista dos americanos, que tomaram para si um novo território. Deveríamos então falar da “invasão da Lua pelos terráqueos”? Se os selenitas existissem, talvez eles vissem a chegada de Neil Armstrong como uma invasão, assim como os pataxós teriam o direito de ver a chegada de Cabral (parece que não viram assim, pois foram cordiais com os novos visitantes).

Outra pergunta: os vikings que chegaram à América do Norte no século IX e os fenícios que supostamente aqui estiveram ainda na Antiguidade também devem ser tratados como invasores? Há registros de que os primeiros se estabeleceram no Canadá por quase um século e interagiram com os povos locais, inclusive levando objetos da cultura indígena para a Escandinávia. Sobre os fenícios, alguns arqueólogos afirmam ter encontrado vestígios de uma estadia duradoura deles por aqui.

Quanto ao termo indígenas, atualmente recomendado no lugar de índios, cito aqui um trecho da matéria de Gilvana Giombelli que saiu hoje no portal G1:

A data era chamada de “dia do índio”. Porém, a Lei 14.402, de julho de 2022, mudou a nomenclatura [para Dia dos Povos Indígenas]. Defensores das causas indígenas argumentam que a mudança foi de um termo genérico para uma expressão que considera a diversidade dos povos indígenas que vivem no Brasil.
Para Márcio Kókoj Werá Popyguá, líder espiritual da Terra Indígena Mangueirinha, no Paraná, a mudança reflete numa nova visão sobre os indígenas e retira o tom pejorativo da palavra “índio”, atribuída aos povos originários por quem, segundo ele, invadiu terras latino-americanas desde o século XV.

Agora, as minhas considerações. Se índio é um termo genérico, ao passo que indígena contempla a diversidade dos povos que aqui habitavam antes da chegada dos europeus, então o termo negro em relação aos inúmeros povos e etnias africanas subsaarianas também é genérico e deveria ser mudado, não? E o termo branco em relação aos europeus e habitantes do Oriente Médio? Também seria genérico e colocaria no mesmo balaio populações tão diferentes como portugueses, suecos, russos, árabes e persas?

Quanto a índio ser termo pejorativo, tenho sérias dúvidas. Um amigo meu, o Prof. Fernando Pestana, fez uma estatística do número de vezes que a palavra índio é empregada em textos escritos e constatou que a esmagadora maioria a utiliza de forma neutra, como mera denominação dos povos originários da América, e não negativa. Fala-se sobre a raça índia como se fala em raça branca, negra ou amarela: como uma classificação fenotípica e não genotípica desses povos, que corresponde também a uma classificação étnico-cultural. Nesse sentido, índios é simplesmente a designação de pessoas cujo fenótipo, isto é, aparência física, corresponde ao dos povos originários das Américas, assim como brancos corresponde ao fenótipo de europeus e parte dos asiáticos, amarelo corresponde ao dos nativos do Extremo Oriente, e assim por diante.

Estou falando aqui em fenótipo, pois genotipicamente, ou seja, em termos genéticos, não há raças humanas, apenas a espécie humana, o que não impede que reconheçamos diferentes grupos humanos, distintos entre si tanto por sua cultura quanto por sua aparência.

Como sustento no vídeo O que é ser preto, negro, pardo ou afrodescendente no Brasil?, do meu canal do YouTube Planeta Língua, as palavras que melhor designam a etnia dos habitantes pré-colombianos da América são justamente índio e ameríndio, pois indígena é que é genérico, significando apenas “nativo da terra”, do latim indi-, “dentro”, e -gena, “nascido”, portanto “nascido dentro (da terra)”. Como mostro nesse vídeo, os europeus são tão indígenas na Europa como os africanos são indígenas na África (notem que, mais acima, falei em “indígenas brasileiros e australianos”, isto é, os chamados aborígines australianos também são indígenas, assim como os índios brasileiros também são aborígines).

Não me oponho a que se busquem termos mais adequados para expressar certas realidades, e a língua evolui exatamente por causa disso, mas tenho certa reserva a mudanças impostas de cima para baixo, por reivindicação de movimentos políticos, assim como percebo nessas propostas de alteração um certo rancor, uma pitada de vingança contra aqueles que são vistos como “os inimigos”. Só que os inimigos, no caso, já morreram há muitos séculos, e quem acaba pagando a conta são seus descendentes, que nada têm a ver com isso.

Índio ou indígena?

O presidente Jair Bolsonaro recentemente vetou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que propunha alterar o nome do Dia do Índio para Dia dos Povos Indígenas. Essa atitude reacendeu uma polêmica que já dura algum tempo e que põe em xeque a palavra índio como designativa dos povos de origem asiática que já habitavam as Américas antes da chegada dos europeus, bem como de seus atuais descendentes. Nesse embalo, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz chegou a postar um vídeo no YouTube de reprimenda ao presidente com o título É indígena, sr. Presidente!.

Como todos devem saber, a palavra índio tem a ver com a Índia, e a primeira das acepções desse vocábulo nos dicionários é justamente “o mesmo que indiano” (em espanhol, até hoje, os indianos, habitantes da Índia, são chamados de indios, e em inglês Indian significa indistintamente “indiano” e “índio”). É que, segundo consta, ao chegar ao continente americano, Cristóvão Colombo acreditava ter chegado às Índias. E naquele tempo, Índias era a designação que os europeus davam não só à Índia propriamente dita, mas a todo o sudeste asiático, daí o termo no plural.

Desse modo, Colombo chamou os aborígines americanos de índios, e esse nome ficou consagrado por séculos. Como esses aborígines tinham características físicas peculiares (pele moreno-avermelhada, cabelos pretos e lisos, olhos negros ligeiramente amendoados, nariz discretamente achatado), os antropólogos do século XIX decidiram chamar de índia essa suposta raça humana por oposição aos brancos, negros e amarelos (na verdade, os orientais, que de amarelo não têm nada). Uma classificação antropológica mais moderna denomina os brancos de europoides ou caucasianos, os negros de negroides e os amarelos de mongoloides (não confundir com os portadores da síndrome de Down). Quanto aos índios, são atualmente classificados entre os mongoloides, isto é, são um subgrupo dos humanos que habitam o Extremo Oriente e que um dia, há cerca de 30 mil anos, cruzaram o estreito de Bering, entre a Sibéria e o Alasca, num tempo em que a calota polar o permitia, e povoaram a América.

Hoje em dia se questiona muito o conceito de raça, visto que, do ponto de vista genético e graças à análise do DNA, se sabe que os humanos têm entre si muito mais semelhanças do que diferenças. Mesmo assim, ainda costumamos dividir a humanidade em raças com base nas características físicas de cada povo. Isso é tão verdade que hoje, mais do que nunca, os negros procuram afirmar-se como tal em sua luta contra o racismo e pela preservação de seus valores culturais.

Quanto a indígena, esse termo que normalmente usamos para nos referir aos ameríndios (e olhe a palavra índio aí de novo, disfarçada!) nada tem a ver etimologicamente com os índios. A palavra vem do latim, portanto já existia bem antes de os europeus terem chegado à América, e significa simplesmente “natural da terra, nativo”, do latim indu-, “dentro”, e geno, “nascer”. Ou seja, indígena é quem nasceu dentro (do país). A semelhança fonética fortuita entre índio e indígena foi um prato cheio para estabelecer-se a confusão e passar-se a achar que só os habitantes originários do Novo Continente são indígenas.

Mas a polêmica, alimentada pelo famigerado movimento politicamente correto, está na crença, trajada de fake news, de que o termo índio é pejorativo e de que põe no mesmo balaio povos de etnias muito diferentes. Em primeiro lugar, ninguém ignora hoje em dia que um txucarramãe é etnicamente muito distinto de um ianomâmi; no entanto, chamá-los todos de índios não é muito diferente de chamar povos tão distintos quanto portugueses e húngaros de europeus. Em segundo lugar, qual a evidência científica de que o termo índio tem conotação pejorativa? Há alguma estatística de uso da palavra que comprove que, na maioria das vezes, é empregada em tom depreciativo? Como homem de ciência, me apego aos fatos e não a opiniões ou crenças, e fatos são comprováveis por dados observáveis. Sem eles, o que há é mera especulação, por vezes a serviço de certas agendas ideológicas. O “cancelamento” de palavras legitimamente vernáculas e sem nenhum cunho preconceituoso como gordo, cego, surdo, vesgo, paralítico, careca, etc., e sua substituição por paráfrases longas e pouco práticas de ser pronunciadas como pessoa portadora de deficiência ou pessoa não vidente (até a expressão deficiente visual vem sendo evitada ultimamente) procura criar uma espécie de novilíngua à moda daquela descrita por George Orwell em seu romance distópico 1984, na qual determinadas palavras ou acepções são banidas com o objetivo de restringir a amplitude do pensamento. Assim, se algo não pode ser dito, não pode ser pensado, logo não existe. O que o politicamente correto faz é justamente isso: em vez de procurar mudar a realidade para melhor, ele a mascara, dando nomes bonitos a coisas feias para que elas pareçam mais bonitas – ou menos feias.

A vítima mais recente da orwellização da língua portuguesa é a palavra escravo, sistematicamente substituída por escravizado – como se pessoas escravizadas não fossem escravas. Por essa lógica, não podemos mais nos referir à Abolição da Escravatura, mas devemos em vez disso aludir à Abolição da Escravização.

O pior de tudo é que essa proscrição de palavras feita pela linguagem politicamente correta não tem embasamento nas ciências da linguagem e é feita por pessoas, em geral militantes ideológicos de cultura rasa, sem nenhum cabedal de conhecimento etimológico ou de história da língua. Recentemente, uma deputada federal propôs banir o vocábulo travestido por afirmar erroneamente que seria uma alusão depreciativa aos travestis.

O fato é que muitos jornalistas, intelectuais e ativistas políticos têm evitado até referir-se aos nativos brasileiros como indígenas e empregado em seu lugar a expressão povos originários. Ou seja, já fizeram o revisionismo do próprio revisionismo linguístico.