Ainda sobre o português e o “brasileiro”

Em dezembro de 2024, lancei no meu canal do YouTube Planeta Língua o vídeo “Brasileiro é uma língua distinta do português?”, no qual falo sobre a afirmação dos linguistas Fernando Venâncio e Marcos Bagno de que o português falado no Brasil será nas próximas décadas uma língua distinta do português de Portugal — segundo Bagno, essa cisão até já aconteceu. Teríamos então (ou já temos) a “língua brasileira”.

No vídeo, explico que há critérios científicos, portanto objetivos, para decidir se duas ou mais expressões linguísticas configuram uma só ou mais de uma língua, critérios estes que os dois linguistas conhecem, mas não aplicam, apresentando no lugar suas convicções pessoais, fruto de militância política e ideológica.

É uma realidade que nas ciências humanas é muito viva a crença de que não há dados objetivos, fatos concretos observáveis e testáveis segundo o método científico, mas tudo é questão de ponto de vista. E se esse ponto de vista for o marxista, melhor ainda. Nem a linguística, a mais exata das ciências humanas, consegue escapar desse dogma, jamais provado e muitas vezes desmentido.

A questão é que choveram comentários ao meu vídeo, a maioria vinda de pessoas leigas no assunto, algumas até semialfabetizadas, mas que, graças à “democratização” promovida pelas redes sociais, acham que sua opinião vale o mesmo que o parecer abalizado de um especialista no assunto. E na medida em que supostos especialistas como Bagno e Venâncio também substituem pareceres técnicos por opiniões pessoais, qualquer um pode ser doutor em linguística, não é mesmo? E dá-lhe coisas como “eu falo brasileiro, e pronto!”, “o português é a língua mais linda do mundo”, “eu não entendo o que os portugueses falam, então é outra língua”, e por aí vai. Esse tipo de comentário não merece que eu perca meu tempo nem o dos leitores comentando. Porém também há comentários de pessoas que se dizem formadas em Letras, mas que, novamente, apresentam visões pessoais e relativistas como verdades absolutas.

O que ocorre, e que já comentei certa vez num artigo chamado “200 milhões de linguistas”, é que, diferentemente de assuntos como astronomia e medicina, que as pessoas comuns sabem que não dominam e por isso não se atrevem a debater com especialistas, todo mundo acha que entende de língua (assim como todo mundo acha que entende de futebol) só porque é falante. Some-se a isso a suposta falta de cientificidade das ciências humanas, em que a opinião vale mais do que o fato, e temos o que temos.

No vídeo, expliquei que o que define uma língua é seu sistema, isto é, quantos e quais são seus fonemas, seu modo de flexionar nomes em gênero e número, seu modo de conjugar os verbos, a ordem das palavras na frase, etc. E nesse ponto há praticamente uma total concordância entre as variedades portuguesa e brasileira do idioma, o que já não é verdade em relação ao galego, língua muito próxima do português, mas com sistema distinto em muitos aspectos.

Na verdade, as pessoas tendem a prestar muito mais atenção às diferenças do que às semelhanças. Se compararmos duas versões do mesmo texto, uma lusitana e outra brasileira, notaremos que as diferenças não chegam a 2%: uma palavra diferente aqui ou ali, um infinitivo no lugar de um gerúndio acolá, e nada mais. Mesmo assim, essas diferenças não estão em nível de sistema e sim de norma (a gramática da língua portuguesa permite tanto estou estudando quanto estou a estudar). Em outras palavras, são usos e costumes diferentes dentro de uma mesma gramática, do mesmo modo como em São Paulo se usa você foi e no Pará se diz tu foste. Paulistas e paraenses falam línguas diferentes?

Portanto, sobretudo em nível formal, as diferenças entre português e “brasileiro” são meramente de uso, não de essência. O que chama a atenção de muita gente é a diferença entre o português brasileiro falado informal, especialmente o dos falantes menos escolarizados, e o português lusitano falado informal. Mas a língua portuguesa é muito mais do que apenas o registro informal em sua modalidade oral na boca dos menos letrados: a língua é uma construção histórica que, no caso do português, existe sem solução de continuidade do século XII até o presente e que, ao longo de todo esse tempo, passou por muitas mudanças, tendo tido, portanto, alguns sistemas diferentes. A cada uma dessas fases históricas da língua, com seu sistema particular, dá-se o nome de língua funcional. Logo, o português tem sido uma grande sucessão de línguas funcionais dentro da mesma língua histórica. Até o século XIV, o galego constituiu com o português um único sistema — em outras palavras, eram a mesma língua. Desde então, o português foi-se afastando do galego, que, por sua vez, foi-se aproximando do castelhano. Hoje, português e galego são línguas mutuamente intercompreensíveis, mas distintas, com sistemas fonológico, morfológico, sintático e léxico diferentes.

Aliás, o critério da inteligibilidade recíproca não é válido para distinguir idiomas. Muitos brasileiros têm dificuldade de entender a pronúncia lusitana, mas os portugueses entendem os brasileiros perfeitamente bem. Do mesmo modo, brasileiros e bolivianos se entendem bem, mesmo falando idiomas distintos. Já eu nem sempre entendo bem certos sulistas ou nordestinos, especialmente os da zona rural.

Vou contar um caso anedótico. Certa época, na minha sala na Universidade de São Paulo, todo dia duas senhoras nordestinas entravam para fazer a faxina. Elas conversavam entre si o tempo todo, mas eu não entendia bulhufas do que elas falavam. A única expressão que eu compreendia (ou pelo menos achava que compreendia) era “marrapai”, que eu deduzia ser “mas, rapaz!”. Será que essas senhoras não falavam a mesma língua que eu?

Se tomarmos a língua falada em Paris por imigrantes congoleses ou senegaleses e mesmo por seus filhos já nascidos e criados na capital francesa, diremos que aquilo não é francês. Se compararmos as normas orais informais das mais diversas línguas com suas normas-padrão, encontraremos abismos em quase todas. Se compararmos as normas orais informais dos vários países em que uma mesma língua (português, espanhol, francês, inglês) é falada, igualmente encontraremos diferenças chocantes.

Por exemplo, no espanhol platino usa-se o pronome pessoal reto vos, que inexiste na Espanha e no restante da América, e misturado ao oblíquo te; os canadenses usam vous no lugar de tu e constroem suas frases de modo bem diferente dos franceses; um americano de classe baixa diz coisas como I ain’t got no money em vez de I don’t have any money; em compensação, ingleses de classe baixa têm uma pronúncia chamada cockney que nem os próprios ingleses de outras classes sociais entendem. Seríamos então levados a concluir que nos Estados Unidos ou na Jamaica não se fala inglês, que no Quebec ou no Senegal não se fala francês, que na Argentina não se fala espanhol. Isso faz algum sentido?

É óbvio que o modo de falar dos brasileiros, especialmente os menos cultos, com seus anacolutos e topicalizações, orações clivadas, próclises generalizadas, mistura de pessoas verbais, etc., é gritantemente diferente do modo como os portugueses, mesmo os menos cultos, falam. Mas ao ouvirmos um professor brasileiro, um português e um angolano falando numa mesa-redonda sobre linguística (posso testemunhar porque já participei de muitas assim), temos clareza de estar ouvindo a mesma língua. O mesmo quando lemos textos escritos por esses professores. Um português ou um angolano que me leia neste momento — ou que assista aos meus vídeos — não terá dúvida de que estou usando a mesma língua que eles.

Senão vejamos. Leiam o trecho abaixo, escrito pelo meu colega, o Prof. Marco Neves, da Universidade de Lisboa:

Já recebi esta pergunta várias vezes. A resposta é esta: os portugueses não traduzem, em geral, os nomes das pessoas. Traduzimos os nomes de algumas personagens históricas, os nomes dos papas, os nomes da Bíblia, os nomes de alguns reis. É verdade que até o século XIX era muito habitual traduzirmos outros nomes, mas agora é algo excepcional.

Que lhes parece? É uma língua distinta da que vocês, meus leitores, falam ou escrevem? A versão oral do texto acima, disponível no canal de vídeos do Prof. Neves, tampouco difere do modo como um brasileiro falaria, exceto, é claro, pela pronúncia.

Leiam agora o seguinte trecho:

No fondo, o reintegracionismo non é máis que unha das dúas opcións normalizadoras que existen hoxe en día dentro do galego. Para comprender en que consiste esta opción e os fundamentos nos que se sustenta, cremos imprescindible coñecer primeiro en que consiste un proceso de normalización lingüística e as razóns polas que se levan a cabo estes procesos nas distintas sociedades. Para iso propoñémosche que vaias á páxina seguinte, onde ofrecemos, de forma resumida e sen complicacións, unha breve explicación destas realidades.

Isto é galego. É a mesma língua que o português? É bem parecida, sim, mas é a mesma língua?

Bagno e alguns colegas seus de universidades brasileiras defendem a construção de uma gramática normativa cem por cento brasileira, que abone coisas como “aconteceu dois acidentes” e “a mulher que o marido é médico”, sem falar da próclise em início de período e outros brasileirismos. Ao mesmo tempo, acusam SEM PROVAS a gramática atual de ser baseada no português lusitano do século XIX, de escolher arbitrariamente só os exemplos que comprovem as idiossincrasias dos gramáticos, e uma série de outras calúnias apresentadas como verdades científicas.

A questão é que eles forçam a barra ao tentar introduzir na norma-padrão do idioma usos que são exclusivos do português brasileiro informal oral — e a norma-padrão serve para guiar o registro formal escrito. No âmbito do português escrito formal (literário, acadêmico, jurídico, jornalístico, técnico, burocrático), o que os brasileiros usam correntemente é a gramática normativa que está em vigor tanto no Brasil quanto em Portugal — exceto por alguns deslizes resultantes de má escolarização. Portanto, não é possível comparar alhos com bugalhos. Uma coisa é constatar que a fala dos brasileiros, sobretudo dos menos letrados, que é a maioria da população, é diferente da portuguesa; mesmo assim, em nível de norma e não de sistema. Outra coisa é comparar a fala e a escrita das pessoas verdadeiramente cultas de todas as nações lusófonas.

É claro que falas informais são diferentes não só entre países, mas também entre regiões de um mesmo país. É claro que o português do século XXI é diferente do galaico-português do século XII. É claro sobretudo que diferentes regiões (incluindo diferentes países) têm pronúncias diferentes, às vezes difíceis de compreender, mas a língua não é sua fonética, é sua fonologia, sua morfologia, sua sintaxe e seu léxico. E nesse ponto diferenças, se há, são tão mínimas que qualquer pessoa de bom senso, que não esteja agindo de má-fé para sustentar uma ideologia política ou para “lacrar” nas redes sociais, reconhece que a afirmação de que no Brasil se fala ou se falará em breve um idioma distinto do português, uma nova língua românica, talvez uma língua crioula descendente do português, é tão absurda quanto afirmar que português e espanhol são a mesma língua.

Um último ponto: toda a argumentação de Bagno, Venâncio e dos comentaristas do meu vídeo se dão na mesma língua em que estou escrevendo agora. E que, salvo melhor juízo, é o português.

Brasileiro fala errado?

Já ouvi diversas vezes a afirmação, feita em tom de reprovação e mesmo de desprezo, principalmente por nossos irmãos lusitanos (mas também por muitos brasileiros), de que “brasileiro não sabe falar português” ou então de que “brasileiro fala português errado”. Ao que os linguistas contestam afirmando que nenhum povo fala errado a própria língua, já que é falante nativo dela. O que essas críticas querem dizer é que o modo como falamos no dia a dia se afasta muito do que prescreve a gramática normativa. Portanto, se falar certo uma língua é afastar-se o menos possível do padrão culto, então de fato falamos errado. Mas por que falamos assim? Para compreender, é preciso visitar a história do português falado no Brasil.

Como se sabe, nosso país surgiu de alguns colonos portugueses que aqui vieram a partir do século XVI, muitos não com a intenção de fincar raízes, mas sim de “fazer a América”, isto é, ganhar o máximo possível de dinheiro e então retornar a Portugal. Aqueles que aqui ficaram tornaram-se proprietários de terras e escravizaram índios e posteriormente negros. Portanto, durante o período colonial, havia uma minoria de brancos (portugueses ou seus descendentes) e uma maioria de indígenas e africanos que, obviamente, não eram falantes nativos de português. Tanto que, até meados do século XVIII, a principal língua falada em nosso território foi a chamada língua geral, uma espécie de tupi modificado: o português só se consolidou como língua oficial do país a partir da proibição do uso da língua geral pelo Marquês de Pombal.

Como consequência, o português foi, até poucos séculos atrás, uma língua “estrangeira” no Brasil, e os negros e índios só falavam português quando tinham de comunicar-se com os brancos. Não sendo falantes nativos, é natural que falassem com uma pronúncia estranha ao português; por exemplo, o r “caipira”, especialmente em substituição ao l (pranta, arface, etc.) viria da pronúncia dos índios, que não tinham o fonema l em sua língua. Mas também é natural que falassem com uma gramática simplificada, como ocorre em geral com as chamadas línguas crioulas (cruzamento da língua dos colonizadores com as línguas dos colonizados). É daí que surge o “nós foi”, “a gente somos”, “eu ponhei”, etc. O mesmo fenômeno se registra em todos os lugares em que um idioma estrangeiro se impôs a uma população que já tinha sua própria língua, especialmente se essa população não era escolarizada, como foi o caso dos nossos negros e índios.

Portanto, o português brasileiro que falamos hoje é o resultado da disseminação a toda a população, inclusive a mais culta, de uma língua que nasceu crioula, resultado da tentativa de estrangeiros não alfabetizados, bem como sujeitos a condições precaríssimas de vida, de falar português. Quando nos estabelecemos como nação, no século XIX, o português padrão era a língua de cultura das elites, mas mesmo estas, quando se dirigiam aos subalternos (escravos, serviçais, comerciantes, ambulantes, mendigos), usavam o linguajar popular, e foi esse o que se generalizou. Com a decadência progressiva da nossa educação, hoje até as elites altamente escolarizadas falam um português que os mais críticos poderiam chamar de “estropiado”.

Vejam um exemplo. Transcrevo abaixo a fala de uma nutricionista e professora universitária (portanto, uma pessoa com formação superior) a um programa de TV. Trata-se evidentemente de um exemplo isolado, mas creio que não difira muito do modo como a maioria dos brasileiros, inclusive os mais escolarizados, fala.

Então, nós precisamos ter em mente que a gente, pra ter saúde, precisa se alimentar direito. […] Você precisa comer aquilo que te faz bem e não só o que é gostoso. […] As pessoas deveriam se alimentar de três em três horas e não só comerem no café da manhã, almoço e jantar. […] O nosso organismo ele é uma máquina muito complexa e precisa ser bem cuidada pra funcionar bem. […] A pessoa que ela se alimenta mal vai ter uma má qualidade de vida, já as pessoas melhores nutridas vão viver muito mais. […] A gente também precisa ter em mente de que quantidade não é qualidade. […] Se eu pôr no prato muito carboidrato e pouca proteína, vou gerar muita massa gorda e pouca massa magra. […] Nós podemos comer tudo que a gente quiser, desde que com bom senso. […] Nós deveríamos ingerir mais alimentos naturais e não só se alimentar de comida processada. […] Olha, eu vou falar pra vocês uma coisa muito importante: não acreditem nessas dietas milagrosas. […] A comida, a gente tem que ter muito respeito por ela. […] A finalidade da nutrição não é proibir as pessoas de comerem, mas orientar elas a comerem corretamente. […] Não adianta perder muito peso com uma dieta muito restritiva se, depois de alguns meses, esse peso não se manter. […]

Nesse pequeno excerto, podemos constatar uma série de características (não vou dizer “erros” para não cometer o famigerado “preconceito linguístico”) típicas da fala brasileira, que vou enumerar a seguir.

  1. nós precisamos ter em mente que a gente…” — mistura de nós e a gente no mesmo período;
  2. você precisa comer aquilo que te faz bem” — mistura de você e tu no mesmo período;
  3. “as pessoas deveriam se alimentar […] e não só comerem” — deveriam se alimentar x deveriam comerem (mau uso do infinitivo pessoal);
  4. “o nosso organismo ele é…” — o organismo ele (duplicação do sujeito);
  5. “precisa ser bem cuidada” — verbo transitivo indireto na voz passiva;
  6. “a pessoa que ela se alimenta” — novamente duplicação do sujeito, desta vez com a redundância do pronome relativo que;
  7. “as pessoas melhores nutridas” — flexão indevida do advérbio melhor; aliás, o mais adequado aí seria “as pessoas mais bem nutridas”;
  8. “…precisa ter em mente de que…” — o famoso dequeísmo, ou uso de de que com verbos ou nomes que não demandam a preposição de;
  9. “se eu pôr…” — o uso comuníssimo do infinitivo como futuro do subjuntivo (o certo é “se eu puser…”);
  10. nós podemos comer tudo que a gente quiser” — novamente mistura de nós com a gente;
  11. nós deveríamos ingerir […] e não só se alimentar…” — uso do pronome reflexivo se em lugar de nos: “nós deveríamos ingerir mais alimentos naturais e não só nos alimentar…”;
  12. “eu vou falar pra vocês uma coisa muito importante” — além de usar o verbo falar no sentido de dizer, temos a preposição para (pra) no lugar de a: “eu vou dizer a vocês”, ou, o que seria melhor ainda, “eu vou lhes dizer”;
  13. a comida, a gente tem que ter muito respeito por ela” — aqui temos a chamada topicalização: em vez de uma oração com sujeito e predicado, apresenta-se um tópico isolado (a comida) e a seguir se faz uma declaração sobre ela cujo sujeito é outro (no caso, a gente); essa construção sintática é típica de idiomas como o chinês e o japonês, não de línguas europeias;
  14. “a finalidade da nutrição não é proibir as pessoas de comerem, mas orientar elas a comerem corretamente” — aqui temos dois problemas: primeiro, orientar elas em vez de orientá-las; segundo, proibir de comerem, orientar a comerem (mau emprego do infinitivo pessoal);
  15. “se […] esse peso não se manter” — mais uma vez o uso do infinitivo pelo futuro do subjuntivo; o correto seria “se esse peso não se mantiver”.

Falo vários idiomas e tenho facilidade em entender o que os falantes desses idiomas dizem. Como passatempo e também para treinar meu ouvido, costumo assistir a canais de TV estrangeiros e percebo que o modo como as pessoas entrevistadas, mesmo as não tão letradas, falam seus idiomas se distancia relativamente pouco da norma-padrão. É claro que em nenhuma língua as pessoas falam informalmente do mesmo modo como escrevem formalmente. Um falante do inglês, por exemplo, dirá descontraidamente I ain’t got no money, mas redigirá I do not have any money. Isso é natural e não tem nada de errado. No entanto, quando estudamos inglês numa escola de idiomas e aprendemos a gramática “oficial” da língua de Shakespeare e depois ouvimos um falante nativo do inglês, não percebemos tanta diferença entre o que estudamos e o que estamos ouvindo: a flexão dos verbos e nomes, a colocação pronominal, a ordem das palavras na frase, tudo parece bater. Mesmo os portugueses parecem falar de forma mais próxima à gramática normativa. Alguns dirão que é porque a gramática normativa é elaborada com base no português lusitano, o que é pura bobagem. O que se espera de qualquer língua de cultura é que ela tenha uma única gramática e que seja seguida em todos os países que a falam. Quando estudo inglês, a gramática que aprendo na escola se aplica igualmente aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha, à Irlanda, à Austrália, e assim por diante. O mesmo vale para o espanhol, o francês, o alemão…

Quando se pensa na língua portuguesa, é no português padrão ou em algo bem próximo dele que se pensa, não em coisas como essas misturas de tu e você, nós e a gente, duplicação de sujeito, falta de concordância, etc. Das línguas que conheço, fenômenos sintáticos como os que assinalei na transcrição acima só tenho encontrado em português brasileiro.

No entanto, aqui no Brasil temos linguistas que defendem a chamada “língua brasileira”, algo distinto do português, a qual teria sua própria gramática. Por sinal, esses linguistas lutam para tornar oficial essa gramática em contraposição àquela que até hoje temos estudado nas escolas. Tenho falado muito sobre isso aqui neste espaço e apontado a insensatez dessa proposta. Entretanto, não há como negar que o modo como falamos é muito peculiar até aos falantes de português de outros países lusófonos — e não se trata apenas de falarmos de modo diferente: falamos com uma gramática cheia de fenômenos estranhos às demais línguas europeias, como pudemos ver na transcrição da fala mais acima.

O fenômeno da crioulização linguística não é exclusivo do Brasil, pois ocorreu em praticamente todos os países que foram colonizados pelos europeus. Assim, também há nos Estados Unidos o chamado Black English, um inglês fortemente influenciado pelas línguas africanas dos escravos para lá levados, mas esse dialeto (sim, trata-se de um dialeto) até o momento está restrito aos falantes negros de classe baixa; só pouco a pouco ele começa a penetrar algumas letras de canções feitas por brancos ou a fala de alguns jovens brancos que querem “se enturmar” com os negros.

Do mesmo modo, o espanhol platino tem algumas peculiaridades, como o pronome vos no lugar de ou usted, bem como o uso de uma segunda pessoa do plural terminada em ‑ás ou ‑és em lugar do canônico ‑áis ou ‑éis (por exemplo, hablás e hacés por habláis e hacéis). Mas as divergências em relação ao espanhol padrão não vão muito além disso.

Acima de tudo, o que percebo (mas posso estar equivocado, é claro) é que, enquanto em outros idiomas esses desvios, que chegam em alguns casos a configurar dialetos ou etnoletos (falares de grupos étnicos específicos), estão restritos a certos grupos, especialmente de raça ou classe social, no Brasil estão generalizados por toda a população, inclusive a mais escolarizada.

Certamente, o modo como falamos decorre da própria história do português brasileiro e do modo como a língua portuguesa foi implantada no Brasil, mas, sem dúvida, tem a ver também com nossa escolarização cada vez mais indigente, somada a uma certa ideologia de que esse modo de falar é um patrimônio cultural imaterial que deveríamos preservar, pois revela o “jeitinho brasileiro” de falar, espelho de nosso “jeitinho” de ser (sobre esse “jeitinho”, já falei em outra postagem). De fato, o modo como falamos revela, sim, muito do que somos. Resta saber se o que somos é realmente motivo de orgulho.

Será que falamos todos a mesma língua?

Outro dia comprei um mouse novo para o meu computador. Produzido por uma conhecida marca americana, veio acompanhado de um manual de instruções nas seguintes línguas, e nesta ordem: inglês, português brasileiro, francês, grego, italiano, português lusitano, espanhol e hebraico. Achei curioso que o manual trouxesse duas versões das instruções em português, uma para cada variedade do idioma – e separadas entre si por três outros idiomas. Mais curiosamente ainda, não há nesse manual versões distintas para as variedades do inglês (britânico e americano), francês (europeu e canadense) e espanhol (ibérico, mexicano, argentino, etc.). Mas há duas versões, por sinal diferentes, para a nossa língua.

Lendo mais detidamente as instruções, fica claro por que não foi preciso acrescentar redações alternativas em inglês, francês ou espanhol. É que nessas línguas, os dizeres seriam os mesmos qualquer que fosse a variedade considerada (europeia ou ultramarina).

A empresa fabricante do mouse, que, como disse, é americana, certamente não desconhece as diferenças de seu inglês para o dos britânicos, mas o fato é que uma segunda redação não seria absolutamente necessária, já que coisas como “Insert the AA alkaline battery. For safety information, see the Product Guide” se dizem exatamente da mesma maneira dos dois lados do Atlântico. Já em português a coisa não é bem assim. Senão vejamos (nos exemplos a seguir, a versão brasileira está indicada com PB e a lusitana, com PP):

PB: Insira a pilha alcalina do tipo AA. Para obter informações sobre segurança, consulte o Guia do Produto.
PP: Insira a pilha alcalina AA. Para obter informações de segurança, consulte o Manual do Produto.

PB: Insira o transceptor em uma porta USB do computador.
PP: Insira o transceptor numa porta USB do computador.

PB: Baixe e instale o software … (necessário para usar o botão Lupa).
PP: Transfira e instale o software … (necessário para o botão Lupa).

PB: Quando não estiver em uso, desligue o mouse para prolongar a vida útil da pilha.
PP: Quando não estiver a ser utilizado, desligue o rato para prolongar a vida útil da pilha.

PB: Se o transceptor estiver armazenado no mouse, pressione o botão para soltá-lo.
PP: Se guarda o transceptor no rato, prima o botão para o libertar.

PB: Para obter informações importantes sobre segurança e meio ambiente, consulte o Guia do Produto. Para obter as informações e atualizações mais recentes vá para www…
PP: Para obter informações de segurança e ambientais importantes, consulte o Manual do Produto. Para obter as informações e actualizações mais recentes vá para www…

Bem, acho que os exemplos acima dispensam comentários. E depois dizem que a internacionalização do idioma depende da unificação ortográfica…

Quantas línguas portuguesas existem?

De todas as línguas transcontinentais, isto é, faladas em mais de um continente, o português me parece a mais problemática em termos de difusão mundial. Em que pese o grande número de falantes (273 milhões), que a torna a quinta língua nativa mais falada do mundo, o português é pouco conhecido e frequentemente confundido com seu irmão mais famoso, o espanhol. Aliás, a importância que este último assumiu nas décadas mais recentes como língua internacional, somada à semelhança entre ambos os idiomas, explica em parte porque o português acaba ofuscado. Mas não é só isso. Nossa língua também padece de problemas intrínsecos que embaraçam os estrangeiros que queiram aprendê-la. A acentuada diferença entre as variedades lusitana e brasileira em termos não só de pronúncia e léxico, mas principalmente de sintaxe, têm obrigado até mesmo sites internacionais, softwares e aplicativos a disponibilizar textos redigidos em ambas as variedades. Nada semelhante ocorre em relação ao inglês, francês e espanhol, as outras grandes línguas internacionais e intercontinentais.

A distância entre as variedades europeia e brasileira do português fez o linguista Marcos Bagno, da Universidade de Brasília, chegar a propor que o português brasileiro seja considerado um idioma distinto do lusitano. Claro que ainda não chegamos a esse ponto, e tal separação teria hoje um caráter mais político do que linguístico, mas o fato é que, de certa forma, caminhamos a passos largos para essa cisão se não houver esforços de ambos os lados para uma reaproximação das variedades.

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Outro dia, recebi por e-mail o anúncio de um determinado serviço de armazenamento de dados em nuvem com o seguinte título: “Está a procurar mais espaço para a partilha de ficheiros? Temos a melhor solução para si”. Em português brasileiro, teríamos “Você está procurando mais espaço para o compartilhamento de arquivos? Temos a melhor solução para você”. O estranhamento que a frase em português luso me provoca é quase tão grande quanto seria se eu estivesse lendo um anúncio em outro idioma. Essa mesma chamada publicitária não precisaria de duas versões caso fosse escrita em espanhol, francês ou inglês. Bastaria redigir “¿Está buscando más espacio para compartir archivos? Tenemos la mejor solución para usted” que na Espanha e em toda a América espanhola todos entenderiam sem dificuldade e sem estranheza. Bastaria dizer “Cherchez-vous plus d’espace pour partager des fichiers? Nous avons la meilleure solution pour vous” que todos os falantes do francês se identificariam imediatamente com a mensagem. Bastaria escrever “Are you looking for more space for sharing files? We have the best solution for you” e todo o mundo anglofalante reconheceria ali seu idioma. E vejam que todas essas línguas também têm variedades nacionais distintas.

Em inglês, há duas grandes vertentes, a britânica e a americana, com vocabulários em pequena parte diferentes e mesmo grafias distintas aqui e ali. Em espanhol, há pequenas diferenças vocabulares de país a país e, na região platina (Argentina, Uruguai, Chile), ocorre também o uso de um pronome pessoal vos que não se usa na Espanha e restante da América; em compensação, os espanhóis utilizam o pronome vosotros, que na América Latina já caiu há muito em desuso. Fora isso, o castelhano é uma língua bastante homogênea. Entre o francês europeu, o americano (Canadá, Haiti, Antilhas Francesas, Guiana Francesa) e o africano há umas poucas diferenças lexicais e só.

Embora o aspecto que mais salte à vista – ou melhor, ao ouvido – na distinção das variedades lusa e brasileira seja a pronúncia, o fato é que fortes diferenças de pronúncia existem em todas as línguas, especialmente nas transnacionais, isto é, as faladas em vários países. Diferenças de vocabulário também são frequentes, embora no caso do português tais diferenças atinjam não só palavras de uso muito corrente como até nomes próprios de cidades e nações.

Quanto às divergências gráficas, só o português e o inglês as têm, com a ressalva de que em inglês a diferença de grafia não implica diferença de pronúncia; já em português palavras como “fato” e “facto”, “gênio” e “génio” efetivamente soam de modo distinto lá e cá, o que dificulta a unificação ortográfica.

Mas, já que o português lusitano e o brasileiro estão mais distantes entre si do que o espanhol ibérico e o latino-americano, o inglês britânico e o norte-americano, ou ainda o francês europeu e o ultramarino, é necessário não só que haja uma reaproximação cultural entre Brasil e Portugal, com efetivo intercâmbio de bens de cultura (hoje o fluxo de produtos culturais parece unidirecional, do Brasil para Portugal, vide telenovelas, filmes, música popular, Rock’n’Rio, etc.), como também que haja uma unificação da norma culta, vale dizer, que, pelo menos no registro formal, portugueses e brasileiros se expressem da mesma maneira. É claro que a língua falada continuará com suas peculiaridades regionais, mas ao menos os manuais de instruções e outros documentos de circulação internacional seriam redigidos de modo uniforme.

Evidentemente, para que isso ocorra é preciso que se façam algumas escolhas. “Trem” ou “comboio”? “Ônibus” ou “autocarro”? “Guarda-roupas” ou “guarda-fatos”? “Moscou” ou “Moscovo”? “Bagdá” ou “Bagdade”? “Estou fazendo” ou “estou a fazer”? “Tem trabalhado” ou “tem vindo a trabalhar”? Eu particularmente penso que deveríamos preferir as formas mais consoantes às demais línguas europeias. Alguns regionalismos seriam mantidos, como ocorre em todas as línguas. É o caso, por exemplo, de chamar “filão de pão” de “cacete” ou “chope” de “imperial”. Mas nomes próprios e palavras de alta frequência deveriam ser uniformizados, e essa norma padrão única, ensinada em todas as escolas de todos os países lusófonos.

É claro que para isso precisaríamos vencer o bairrismo dos portugueses e a péssima escolarização dos brasileiros.