Balneabilidade?

Para se comunicar num idioma de cultura, não são necessárias mais do que 5 mil a 10 mil palavras. Contudo, o léxico de qualquer língua escrita (portanto, isso não vale para as línguas ágrafas de pequenas comunidades ou tribos) costuma ter mais de 200 mil vocábulos. Por que isso acontece? Porque a maioria desses vocábulos é de uso ultraespecializado e não de domínio público.

Durante este feriadão prolongado de Natal e Réveillon, ouvi no rádio que as praias do litoral paulista apresentavam boas condições de balneabilidade. Balneabilidade? Num primeiro momento, fiquei surpreso com o suposto neologismo. Mas imediatamente compreendi que se trata da condição que uma praia oferece de alguém banhar-se nela. O curioso é que esse termo deriva de um suposto adjetivo balneável, que não consta nos dicionários, proveniente, por sua vez, do verbo balnear, este sim constante no “pai dos burros”, mas com o significado de “dar banho a”. Ora, balneabilidade não é a condição de poder dar banho, mas sim a de poder tomar banho numa praia (ou rio, ou lago, ou…). Portanto, o inexistente adjetivo balneável deriva, na verdade, de banhar-se e não de balnear, empréstimo do latim balneare – por sinal, verbo culto de baixíssima frequência e forte candidato à obsolescência.

Temos muitos casos na língua portuguesa de palavras cultas ou semicultas derivadas de termos vulgares, isto é, herdados diretamente do latim. Por exemplo, entonação vem de entoar e não de um inexistente entonar; frenagem vem de frear e não de frenar; laticínio deriva de leite, embora a palavra tenha sido formada a partir do latim lacte; e assim por diante. É claro que a influência de outras línguas românicas sobre o português não pode ser ignorada, e é possível – aliás, bem provável – que entonação tenha sofrido a influência do espanhol entonación (de entonar) ou do francês intonation. Da mesma forma, é mais provável que o étimo de nossa frenagem esteja no francês freinage (de freiner) e não no latim frenum, “freio”.

Com certeza, personalidade provém, via francês ou espanhol, do latim tardio personalitas e não diretamente do português pessoa ou pessoal. Aliás, existe em nosso idioma o substantivo pessoalidade, que nada tem a ver com personalidade: pessoalidade é a característica da função profissional que deve ser exercida rotineiramente pela mesma pessoa, sendo vedada a sua terceirização. Por exemplo, espera-se que o professor responsável por determinada sala de aula seja o mesmo ao longo de todo o ano letivo e não que, a cada semana, um docente diferente venha dar aula a essa turma. Já a função de faxineiro não exige, em tese, a mesma pessoalidade.

Seria, por sinal, muito estranho se determinados termos cultos ou semicultos do português fossem totalmente aportuguesados, ou seja, tivessem seus radicais latinos substituídos pelos correspondentes vernáculos. Teríamos, então, artigoação no lugar de articulação, mulhericídio em vez de feminicídio, centelhante por cintilante, orelhal por auricular, desjanelar em vez de defenestrar, porquino por suíno, povoacional em lugar de populacional, sessenteiro por sexagenário, funçoeiro em vez de funcionário, obração por operação, ensementear por inseminar, beiçal por labial, mijadouro no lugar de mictório, e por aí vai.

E se, ao contrário, resolvêssemos relatinizar nosso vocabulário vernáculo? Provavelmente galinheiro viraria galinário, abelha seria apícula, devolver se tornaria devoluir, engarrafamento seria imbuticulamento, cabeça daria capícia, escorregar seria excorricar, caderno passaria a quaterno, criança viraria creância, arrepio seria horripílio, coelho se tornaria cunículo, sujo daria súcido, geladeira glaciário, vassoura versória, deitar dejectar e, o que é pior, empregada seria implicada.

Bom ano a todos!

Palavra da semana: raivosidade

Na semana que passou, a língua portuguesa viu surgir uma nova palavra. É que, quarta-feira passada, o presidente Michel Temer disse em discurso que é preciso pacificar o país, já que os brasileiros vivem ultimamente um clima de certa “raivosidade”. Com certeza, o Presidente estava referindo-se à atmosfera de raiva (eu diria melhor, de ódio) que divide o nosso povo em petistas e antipetistas. E pediu licença para empregar o termo, já que ele próprio deve ter a consciência de que esse vocábulo não está dicionarizado.

Até aí, nenhum problema. Afinal, usamos todos os dias palavras que ainda não chegaram ao “estado de dicionário”, como diria Drummond. O problema é que parte da imprensa, fazendo coro aos defensores do purismo em questões de língua, se insurgiu contra o inusitado neologismo. Muitos disseram categoricamente que essa palavra não existe. Para estes, uma palavra só existe quando consta nos dicionários, esquecendo-se de que o dicionário é uma fotografia do passado: a língua do dia a dia, tanto a oral quanto a escrita, está sempre inovando, e somente algum tempo depois que o uso de determinado termo se generaliza é que os dicionários vão lavrar sua certidão de nascimento. Logo, dicionários e gramáticas são sempre mais conservadores que a língua viva.

Se fôssemos obrigados a utilizar somente as palavras de que já dispomos, a língua não evoluiria. Consequentemente, o léxico da língua portuguesa ainda seria o mesmo do século XII, época dos primeiros registros escritos da última flor do Lácio, inculta e bela.

Foram até veiculadas na imprensa sugestões de como o Presidente deveria ter-se expressado. Um professor de português assinalou que Temer poderia ter simplesmente empregado “raiva” em lugar de “raivosidade”, visto que esta última forma é um substantivo abstrato que indica qualidade de raivoso; e que raivoso é aquele que sente raiva. Portanto, raiva e raivosidade seriam sinônimos; logo, por que inventar uma palavra se já temos outra de mesmo significado?

Outro professor de português (é interessante como certos professores de português se sentem os guardiões da pureza do vernáculo) argumentou que existe na língua a palavra “nervosidade” e que, portanto, o Presidente poderia ter optado por falar em combater a nervosidade que divide o povo brasileiro.

Quanto a “nervosidade”, além de ser palavra de raríssimo uso, desconhecida pois da maioria dos falantes (talvez não do Sr. Michel Temer, homem de alta e vasta cultura), é substantivo abstrato que designa o estado de quem é ou está nervoso. Seria, então, equivalente ao bem mais difundido “nervosismo”.

Só que o sentimento que permeia os cidadãos envolvidos nesse Fla-Flu político não é de nervoso, é de raiva mesmo, de ódio sanguinolento. Partidários e detratores do PT e demais partidos de esquerda estão verdadeiramente raivosos uns com os outros. Raivosos não de raiva, sentimento humano de desapreço menos intenso que o ódio, mas da raiva canina, que faz espumar a boca ao ouvir ou ler qualquer referência ao inimigo.

Nesse sentido, “raivosidade” tem conotações que nem “raiva” nem “nervosidade” ou “nervosismo” expressam. Do contrário, por que nosso Presidente, erudito que é, faria uso de um termo heterodoxo se, supostamente, dispunha de vários outros já canônicos?

Aí está uma das grandes qualidades da língua, o poder de se reinventar, isto é, de criar novos recursos na medida da necessidade de expressar novas ideias, novos sentimentos, novos insights. Assim se deu com o “imexível” do então ministro do governo Collor, Antônio Rogério Magri, que é diferente do “inalterável”, “insubstituível”, “inamovível”, etc., dos dicionários. Assim se deu com o “indeletável” de José Alencar, vice-presidente do primeiro mandato de Lula, que é totalmente distinto do dicionarizado “indelével”. Assim se deu com o “inconvivível” de Fernando Henrique. Assim se deu e se dá com todas as novas palavras, às quais os puristas torcem o nariz, mas que, mais cedo ou mais tarde, acabam usando.

E por que essas palavras “bárbaras”, “ameaçadoras da integridade do idioma”, acabam se consolidando no uso cotidiano, inclusive no uso culto da língua? É justamente porque elas exprimem conceitos e nuances semânticas que nenhuma palavra já registrada consegue exprimir. É porque elas representam o frescor da língua, o doce perfume da manhã contra o cheiro de mofo das velhas e batidas expressões. É, finalmente, porque a língua muda o tempo todo, ainda que sob os protestos de certos professores de português, jornalistas e leitores conservadores. E é por mudar o tempo todo que a língua continua sendo o melhor sistema de comunicação de que dispomos.