Todo meio é ambiente?

Prezado doutor Aldo Bizzocchi, bom dia!
Afinal, meio ambiente é um pleonasmo? A meu ver, as duas palavras são análogas, visto que um livro jamais poderia ser titulado Direito do meio. Os leitores se perguntariam meio do quê? Numa passagem do livro do eminente Evanildo Bechara diz que os pleonasmos (aceitáveis) são para fins de clareza, reforço ou ênfase. Seria este o caso supracitado? O meio ambiente em vez dum pleonasmo seria um sintagma ou locução substantiva?
Grande abraço,
Edilson Zafira de Sousa
São Paulo – SP

Caro Edilson, nestes tempos em que o meio ambiente tem sofrido como nunca por ação de fazendeiros e garimpeiros inescrupulosos e por inação de um governo conivente com os crimes ambientais, sua pergunta é muito oportuna.

Vamos à resposta: “meio ambiente” é de fato uma locução substantiva e, portanto, um sintagma nominal. Para quem não se lembra, sintagma é uma sequência de palavras das quais uma é a base ou núcleo e as demais são seus adjuntos. Sintagma nominal é aquele que tem um substantivo como base. No exemplo em questão, “meio” é o substantivo-núcleo e “ambiente”, o adjetivo adjunto (nominal, no caso, já que se liga a um substantivo, ou nome).

Mas será que “meio ambiente” é um pleonasmo, mesmo que enfático e, portanto, perdoável? Em primeiro lugar, você tem razão ao dizer que a palavra “meio”, sozinha, é muito vaga; afinal, além de ambiente, “meio” também significa “metade” e “recurso, instrumento” (por exemplo, “ele partiu o galho ao meio usando um machado como meio”).

Em segundo lugar, nem todo contexto em que se emprega “meio” admite “ambiente” como sinônimo (por exemplo, meio sólido, meio líquido, meio alcalino, etc.). Nesse sentido, “ambiente” é um adjetivo que especifica o tipo de meio a que nos referimos, assim como “sólido”, “líquido” e “alcalino”.

O que ocorre é que “ambiente”, outrora apenas adjetivo, oriundo do latim ambiens, particípio presente do verbo ambire, “andar em volta, rodear”, passou a ser usado como substantivo; daí falarmos no ambiente da festa, na decoração de ambientes, e assim por diante. Se pensarmos em ambiente como substantivo com esse significado, então “meio ambiente” seria efetivamente um pleonasmo. Mas a expressão “meio ambiente”, por sinal um termo técnico do jargão da biologia e da ecologia, tem um sentido específico, diferente de “meio” simplesmente, que também é termo técnico nessas áreas (e em outras, como em sociologia: “as más influências do meio”).

Quanto a ambiente, é até possível empregar essa palavra em seu sentido ecológico, como uma redução de “meio ambiente”, o que, de modo algum, invalida a forma extensa da locução.

Em resumo, trata-se de uma construção legítima, e a ideia de que seria redundante não procede.

Feliz Ano Novo! Feliz?!

“Eu voltei, agora pra ficar…”. Pois é, amigos, brincadeiras à parte, andei sumido nos últimos meses. Na verdade, tirei um semestre sabático, seguido de férias e Carnaval, para resolver problemas particulares inadiáveis e também para preparar um superprojeto que vem por aí. (Aguardem, vocês vão se surpreender!)

E como no Brasil o ano só começa após o Carnaval (e o ano legislativo acaba mais cedo quando há eleições, isto é, ano sim, ano não), desejo a todos um feliz Ano Novo, embora eu tenha cá minhas dúvidas se este ano será realmente feliz. Desculpem-me o pessimismo, mas nestes meses em que andei ausente das mídias sociais observei e ponderei muita coisa que me deixou cético a respeito do futuro do Brasil e da humanidade.

Estamos vivendo uma era de extremos: no clima, na política, na economia, nas relações sociais, em tudo impera o extremismo. E tudo isso reforça minha convicção de que a virtude, mais do que nunca, está no centro. Ou, “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”. Virtus in medio, como diriam os romanos.

Se os eventos climáticos deste século estão se mostrando cada vez mais extremos (chuvas torrenciais, calor e frio fora de hora, derretimento das calotas polares, morte de rios e oceanos, espécies sendo extintas, ar irrespirável em certas cidades), também são extremas as posições políticas em relação ao meio ambiente: de um lado, os ecoterroristas, que exigem a suspensão imediata de todas as emissões de carbono na atmosfera como se isso fosse possível a curtíssimo prazo sem causar uma catástrofe econômica e social no planeta de proporções jamais vistas; de outro, os negacionistas, para quem o aquecimento global é uma ficção criada pelos chineses ou pela esquerda anticapitalista.

Na política, tem-se o tempo todo que escolher entre uma extrema esquerda simpática às ditaduras socialistas e uma extrema direita reacionária e com pendores fascistas, saudosa dos Anos de Chumbo. Fomos jogados na pior crise econômica de nossa história por governos de esquerda corruptos, irresponsáveis e incompetentes. Mas o pior legado desses governos foi pavimentar o caminho para a eleição de um presidente da república ultraconservador, voluntarioso, inexperiente e de tendência autoritária.

Nesse cenário, quem pensa com ponderação, defende a liberdade com responsabilidade e acha que o equilíbrio está sempre no meio-termo é tachado por um e outro lado de “isentão”, alguém que não toma posição, que está sempre em cima do muro. Nesses meses todos, cheguei à conclusão de que em cima do muro é o melhor lugar para estar, pois de lá se veem os dois lados, ao passo que quem está de um dos lados do muro só vê seu próprio lado. Hoje, amigos de anos rompem a amizade e famílias se dividem por questões ideológicas. As redes sociais se tornaram antissociais, um mar de impropérios e insultos pessoais acobertados por um suposto anonimato. Hoje, mais do que nunca, os jovens são rebeldes sem causa, culpando a tudo e a todos por seu vazio existencial. Para a geração do mimimi, que meu amigo Eduardo Affonso lucidamente chamou de geração raudério, todos são vítimas, todos querem muitos direitos e nenhum dever, e tudo, absolutamente tudo, é ofensivo ou opressor.

Hoje, as pessoas ditas “normais” – isto é, as que representam a maioria esmagadora da sociedade – têm seu sexo biológico questionado, seus padrões morais e de comportamento estigmatizados e suas escolhas estéticas e de vida repreendidas. Em resumo, hoje ser normal é que é aberrante.

Também vi a pátria língua portuguesa, esse território que me é tão caro e em que há tantos anos milito, sofrer as mais absurdas intervenções, ser acusada de machista e opressora, como se mudar a língua mudasse a realidade.

Nesses tempos de petralhas, feminazis e bolsominions, vi a ascensão do terraplanismo, o triunfo da superstição sobre a ciência, o Carnaval politicamente correto, a China e seu principal produto de exportação, as epidemias. Mas, verdade seja dita, também vi o crescimento de causas que nos dão alguma esperança, como a da defesa dos animais e a do veganismo.

O fato é que, com tantos conflitos sem sentido e ódios exalando por todos os poros, o mundo simplesmente ficou chato. Como dizia meu pai, em mesa em que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Bom Ano Novo e até a próxima semana.