O maior país do mundo

Até sexta-feira passada, a imprensa nacional se referia ao jovem norueguês Lucas Braathen, filho de brasileira e que fala mal português, como a grande esperança do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano. Sábado, dia 14 de fevereiro, o rapaz de 24 anos ganhou a medalha de ouro no slalom gigante. A imprensa logo estampou: “Lucas Pinheiro é ouro para o Brasil!”. O até então norueguês Lucas Braathen é agora o brasileiríssimo Lucas Pinheiro!

Acontece que o medalhista nasceu e passou quase a vida toda na Noruega. Sobretudo treinou a vida toda na Noruega, apoiado pela forte infraestrutura esportiva norueguesa. Só passou a defender as cores verde-amarelo no ano passado e por desentendimento com a federação norueguesa de esqui.

No pódio, Braathen chorou de emoção, decerto por sua conquista pessoal, pelo esforço que dedicou durante anos ao esporte e pelo apoio que recebeu do país nórdico para sua conquista, não pelo Brasil. Mas o protocolo manda demonstrar patriotismo ao ouvir o hino nacional e ver o hasteamento da bandeira, mesmo que seja de sua pátria de conveniência. De todo modo, a vitória de Braathen acalenta o chauvinismo de um país tão carente de heróis.

Apenas a título de informação, a outra grande esperança do Brasil nesses jogos é o italiano Giovanni Ongaro, igualmente treinado a vida toda nas neves da Itália e da Europa.

Mas a vitória do brasilo-norueguês Pinheiro Braathen reforça o mito muito cultivado por estas plagas de que o Brasil é o maior país do mundo em tudo. Na verdade, o Brasil já foi o maior país do mundo no futebol; foi, não é mais. Temos o maior rio e a maior floresta, mas o mérito não é nosso e sim da natureza. Temos o maior Carnaval, sem dúvida. E temos talvez a maior desigualdade social, a maior corrupção e a maior impunidade do mundo, e isso sim é mérito cem por cento nosso. Ou demérito.