Intriga intrincada e intrigante

O título desta postagem parece um trava-língua, não é? Mas é que tanto intrigar (e daí intriga e intrigante) quanto intrincado (ou intricado) provêm do latim intricare, que significa “embaraçar”, derivado de tricae, “trama, embaraço”. Logo, intricare é enredar numa trama, meter em embaraço, embaraçar, donde algo intricado ou intrincado é algo embaraçoso, muito complexo, de difícil solução. E já no latim tricae significava também “intrigas, mexericos”, no sentido de embaraçar alguém por meio de fofocas ou maledicências.

Daí que intrigar quer dizer para nós tanto “aguçar ou despertar a curiosidade” — portanto, algo complexo, que nos intriga, isto é, nos deixa curiosos, é intrigante — quanto “falar mal de alguém” — e, neste caso, quem fala mal dos outros é intrigante no sentido de “fofoqueiro, mexeriqueiro”.

Desse sentido original de “trama” (de uma linha, um tecido) resultou que a trama, o enredo de uma novela, romance ou peça teatral também se chama intriga. Mas atenção: a famosa futrica, que igualmente é uma fofoca ou maledicência, não tem nada a ver etimologicamente com as tricae latinas; futrica deriva de futre, “maltrapilho”, do francês foutre, este de um latim vulgar não documentado *futtere, que em latim literário era futuere, “copular, ter relações sexuais”, o qual deu em português uma palavra de baixo calão que eu não preciso mencionar aqui e é fácil de deduzir pela evolução fonética, não?