A quem pertence realmente a Seleção Brasileira?

Daqui a dez dias começa a Copa do Mundo de Futebol, cercada mais uma vez de grande expectativa e da esperança do sonhado hexa. A cada quatro anos, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico, afinal Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, uma vitória da seleção brasileira no Mundial é sempre vista como uma vitória da nacionalidade, assim como a derrota, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de 2014, é a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos — e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol já não cria uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados — talvez pela própria falta de entusiasmo que nossa atual seleção ancelótica produza. Quem está desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torço pela Seleção. Mas em nenhum momento deixo que esses sentimentos se misturem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desvio minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.

Time ou equipe?

Já faz um bom tempo que o futebol brasileiro deixou de ser o melhor do mundo. Em primeiro lugar, a maior parte dos atuais craques desse esporte é estrangeira. Em segundo, os jogos da atual seleção brasileira são um verdadeiro sonífero: eu deveria gravá-los para assistir nas noites de insônia. Vão longe os tempos em que qualquer criança sabia de cor a escalação do escrete canarinho.

Mas, como eu não entendo lá muito de futebol, minha observação sobre o tema é, como sempre, de ordem linguística.

Tenho ouvido muitas pessoas, incluindo comentaristas de futebol, se referirem às seleções como times. Em inglês, team (que é a origem do nosso time) quer dizer simplesmente “equipe” (não só esportiva, mas qualquer grupo de pessoas que atuem juntas, cooperativamente), portanto não há nada de errado em chamar uma seleção de time. Acontece, porém, que o uso transformou essa palavra em sinônimo de agremiação esportiva — e, mais especificamente ainda, clube de futebol, que chamamos simplificadamente de clube.

Assim, a seleção tem esse nome porque seleciona os melhores jogadores de cada clube de um país (ou, no caso brasileiro atual, de clubes estrangeiros) para formar uma equipe temporária.

O português não é a única língua a fazer distinção entre o time (com sentido esportivo) e a equipe (com sentido neutro e geral). Em primeiro lugar, o anglicismo team está em quase todas as línguas, resultado da influência do inglês como idioma dos inventores do futebol e também como língua hegemônica da atualidade. Curiosamente, o português é das poucas que adaptaram a grafia do termo ao seu sistema ortográfico (em espanhol, francês, italiano, alemão, continua-se a grafar team).

Paralelamente, são também empregadas palavras genéricas como o português equipe (ou equipa, na variedade lusitana), o espanhol equipo, o francês équipe, o italiano squadra, o alemão Mannschaft

De todo modo, a palavra time (ou team) tem sempre uma conotação esportiva. Por isso, aplicada ao mundo corporativo (por exemplo, quando um novo executivo vem integrar o “time” da companhia), fica a impressão subliminar de que o mundo dos negócios é um jogo, no qual as empresas competem pela vitória e pretendem derrotar seus adversários (isto é, as empresas concorrentes).

Enquanto isso, o inglês, criador da palavra, usa apenas team em todos os casos. É, pois — e ironicamente —, a única língua em que o vocábulo não tem uma aura marcadamente desportiva.

Enquanto falantes do português, espanhol, francês e inglês se referem à equipe de futebol que representa seus países em campeonatos internacionais como “seleção” (esp. Selección, fr. Sélection, ingl. Selection), o italiano e o alemão usam a perífrase “Equipe Nacional”, ou mais simplesmente “Nacional”: it. (Squadra) Nazionale, al. National(mannschaft).

De todo modo, seja o time, a equipe ou a Seleção, o que importa é a conquista da taça.

A quem pertence a Seleção Brasileira?

A cada quatro anos, em época de Copa do Mundo de Futebol, a publicidade apela ao nosso sentimento patriótico. Afinal, Nelson Rodrigues já havia dito muito tempo atrás que o futebol é a pátria em chuteiras. Por isso, a derrota da seleção brasileira no Mundial é vista como uma derrota da nacionalidade, uma mácula em nossa história.

De fato, o futebol nunca deixou de ser uma representação simbólica da guerra. Uniformes, hinos, bandeiras, campo, capitão, ataque, defesa, tática, estratégia, todos esses elementos da prática futebolística remetem à esfera militar. Um time de futebol é um pequeno exército defendendo uma nação, seja a nação corintiana, a nação flamenguista ou qualquer outra. E o sentido de nação é tão presente que não só os times pelejam simbolicamente como as torcidas guerreiam de verdade. Dentro do campo há adversários, mas fora há inimigos.

Se isso vale para times, tanto mais vale para seleções. A execução dos hinos nacionais antes das partidas, as camisas com as cores da bandeira pátria, tudo nos faz crer que é a nossa nação que está em campo lutando contra outras nações. Nesse contexto, a desclassificação representa uma humilhação perante o mundo. E uma derrota por goleada, como o fatídico 7 a 1 de quatro anos atrás, a humilhação suprema, equivalente à aniquilação do Estado, à perda da independência, subjugados que fomos pelas tropas estrangeiras.

Mas será tudo isso mesmo verdade? A seleção canarinho é de fato nosso exército defendendo a pátria ou é isso o que a mídia nos induz a acreditar?

Até onde sei, os clubes de futebol e também a CBF são sociedades de direito privado com fins lucrativos – e bota lucrativo nisso! Afinal, as verbas de publicidade dos patrocinadores da Seleção vão para os cofres da confederação e não para o erário público. A vitória da Seleção não se traduz em mais saúde, educação e segurança para o povo brasileiro. Os jogadores da nossa seleção não estão lá por um dever patriótico e sim por um salário milionário.

Em outros tempos, quando jogar futebol era uma atividade marginal que nenhum pai ou mãe gostaria que seu filho exercesse, jogava-se por vocação e por amor à camisa. Naqueles tempos, um jogador começava e terminava sua carreira num mesmo time, sempre em seu próprio país.

Hoje, quando garotos vão jogar no Exterior antes mesmo de chegar à idade adulta e, portanto, jamais jogaram profissionalmente em seu país, faz algum sentido apelar ao seu sentimento patriótico? Que patriotismo se pode esperar de uma seleção como a suíça, cuja metade do elenco não nasceu na Suíça? Nesse nosso futebol globalizado, em que temos franceses com nome de Mbappé e Pogba, belgas chamados Chadli e Fellaini, e russos com sobrenome Fernandes, e em que um jogador de futebol troca de nacionalidade como troca de camisa, ao sabor de seus interesses financeiros, que sentido tem falar em pátria de chuteiras, pintar a rua com as cores da bandeira, pôr a mão no peito na hora de cantar o hino?

É claro que é legal torcer pela Seleção, é legal ver o Brasil vencer, embora eu ache um exagero suspender as atividades profissionais na hora do jogo, mas a vitória ou a derrota do nosso escrete não muda nada em nossa vida diária, não resolve nossos problemas, nem os pessoais nem os nacionais. E parece que o nosso povo está se conscientizando disso, tanto que hoje o futebol não cria mais uma cortina de fumaça sobre a nossa política nem é mais o ópio do povo como em tempos passados. Quem está desempregado e desesperançado com os destinos da nação não gasta mais dinheiro com pincel e tinta verde e amarela nem perde de vista a crise econômica e sobretudo moral em que vivemos. Hoje a imagem de um Neymar rolando no gramado combalido de dor já não nos comove mais, pois sentir dor ganhando milhões é bem diferente de sentir dor na fila do SUS.

Faz tempo que eu deixei de ver a Seleção Brasileira de Futebol como o exército do meu país me defendendo no campo de batalha. Se nem os exércitos de verdade representam nações, mas antes governos, como poderia um grupo de esportistas muito bem remunerados e recrutados por uma entidade privada para competir num evento promovido por outra entidade privada representar nosso povo? Claro que eu torci pela Seleção. E claro que eu fiquei chateado com a desclassificação. Mas em nenhum momento deixei que esses sentimentos se misturassem com o que sinto pelo Brasil como país. E jamais desviei minha atenção daquilo que realmente importa em minha vida, em nossas vidas.