Impostura científica lá e aqui

A psicóloga social italiana Francesca Gino, professora da Harvard Business School, especialista em ética, criatividade e honestidade no ambiente corporativo, é (ou, pelo menos, era) uma autoridade em sua área, tendo artigos largamente citados e dando consultoria a grandes instituições, como o Banco Mundial, por exemplo. Acontece que desde 2021 vem sendo alvo de denúncias públicas de manipulação de dados em trabalhos assinados por ela em coautoria, sendo que um deles já havia sido retratado (retratação de um trabalho científico é a retirada desse trabalho do periódico em que havia sido publicado e a emissão de um alerta à comunidade científica de que ele não deve mais ser utilizado como fonte bibliográfica).

Em decorrência das denúncias, a Universidade de Harvard realizou uma investigação interna que concluiu que Gino havia adulterado dados em pelo menos quatro artigos. A partir daí, ela foi afastada, impedida de ter acesso ao campus, perdeu seu cargo de professora e ao final foi demitida. Ironicamente, uma especialista em honestidade foi punida por ser desonesta.

Esse caso revela que, em instituições sérias, mesmo um indivíduo de grande prestígio acadêmico pode ser punido se cometer fraude científica. Mas levanta também a questão sobre a eficácia da revisão por pares, que nem sempre é capaz de flagrar inconsistências, erros ou fraudes em artigos submetidos à publicação, e sobre a postura dúbia das universidades em relação a punir seus pesquisadores de maior prestígio mesmo quando suas pesquisas são postas em dúvida.

O caso em questão é emblemático porque mostra a diferença entre a conduta de uma instituição respeitável como Harvard, que não tem medo de cortar na própria carne, e as universidades brasileiras, que fazem vista grossa de fraudes metodológicas cometidas por seus docentes, especialmente na área de Humanas, ou até mesmo as endossam se tais fraudes servirem para confirmar certo viés ideológico com o qual essas universidades compactuam.

Digo isso porque na minha área, a linguística, há inúmeros casos de trabalhos, alguns que até já se tornaram referência entre alunos e pesquisadores, realizados por nomes celebrados no meio acadêmico nacional trazendo afirmações categóricas que são desmentidas pelos dados empíricos, o que revela, no mínimo, a desonestidade intelectual de seus autores.

Seus artigos e livros afirmam, por exemplo, que certas construções sintáticas ou recomendações gramaticais não se usam mais quando as estatísticas mostram que estão em pleno vigor, que no Brasil já se fala uma língua distinta do português quando não há nenhuma evidência material disso, além do que criticam gramáticos normativos com pouco ou nenhum fundamento. A falta de seriedade dessas obras e a tendenciosidade de seus autores é patente. Mesmo assim, eles continuam gozando de prestígio, posando de autoridades no assunto, dando consultorias e entrevistas na televisão e até exercendo cargos no governo. E quem os denuncia é tachado de fascista — aliás, dependendo de quem for o alvo da crítica ou denúncia, pode até mesmo ser acusado de racista ou misógino.

Mas talvez o problema não seja só brasileiro. Há bastante tempo, as ciências humanas perderam sua credibilidade tanto no Norte quanto no Sul Global. Em 1996, o físico Alan Sokal submeteu um artigo propositalmente falso e absurdo chamado “Transgredindo as fronteiras: rumo a uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica” a um prestigioso periódico de ciências sociais chamado Social Text. No artigo, Sokal defendia dentre outras coisas que a gravidade quântica é uma construção social e linguística. O artigo foi aprovado e publicado; três semanas depois, Sokal revelou que o artigo era uma farsa e que fazia parte de um experimento em que ele pretendia provar que “alguns periódicos de humanidades publicarão qualquer coisa, desde que tenha o pensamento esquerdista adequado e seja citado ou escrito por pensadores esquerdistas bem conhecidos” (Paul R. Gross e Norman Levitt, Higher Superstition). Sokal partiu do princípio de que “o que importa é a subserviência ideológica, as referências bajuladoras a escritores desconstrucionistas e a quantidade suficiente do jargão apropriado”. Ele diz:

Os resultados do meu pequeno experimento demonstram, no mínimo, que alguns setores da moda da esquerda acadêmica americana têm se tornado intelectualmente preguiçosos. Os editores da Social Text gostaram do meu artigo porque gostaram da sua conclusão: que “o conteúdo e a metodologia da ciência pós-moderna fornecem um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista”. Aparentemente, eles não sentiram necessidade de analisar a qualidade das evidências, a coerência dos argumentos ou mesmo a relevância dos argumentos para a conclusão pretendida. 

Segundo a Wikipédia:

Após se referir com ceticismo ao “chamado método científico”, o artigo declarou que “está se tornando cada vez mais evidente que a ‘realidade física’ é fundamentalmente uma construção social e linguística”. Prosseguiu afirmando que, como a pesquisa científica é “inerentemente carregada de teorias e autorreferencial”, ela “não pode afirmar um status epistemológico privilegiado em relação a narrativas contra-hegemônicas emanadas de comunidades dissidentes ou marginalizadas” e que, portanto, uma “ciência libertadora” e uma “matemática emancipatória”, desprezando “o cânone da casta de elite da ‘alta ciência’”, precisavam ser estabelecidas para uma “ciência pós-moderna [que] forneça um poderoso suporte intelectual para o projeto político progressista”.

Mais recentemente, os autores Peter Boghosian, James Lindsay e Helen Pluckrose fizeram um experimento semelhante, enviando artigos falsos a periódicos acadêmicos sobre tópicos da teoria social crítica, como estudos culturais, queer, raciais, de gênero, de gordofobia e de sexualidade para ver se eles passariam pela revisão por pares e seriam aceitos para publicação. Quatro desses artigos foram publicados. Segundo os autores, “desenvolveu-se uma cultura na qual apenas certas conclusões são permitidas e que coloca queixas sociais à frente da verdade objetiva”.

O fato é que a chamada filosofia pós-moderna tem feito um grande estrago nas ciências humanas, substituindo a cientificidade pela ideologia a partir do postulado (falso) de que tudo, absolutamente tudo, até as leis da física, é uma construção social — e mais, uma construção branca, judaico-cristã, ocidental, capitalista, colonialista, heteronormativa e cisgênero. Ideias como a de que a nossa gramática normativa é opressora por ser produto de uma elite burguesa e de que, portanto, ela deve ser substituída pelo uso supostamente culto das classes mais favorecidas, embora os dados (ver INAF 2024) desmintam seu “alto” grau de letramento e cultura, são o produto desse caldo de cultura que se baseia não em fatos, por mais desconfortáveis que eles pareçam, e sim em dogmas ideológicos sempre mais reconfortantes. Mas, como disse Bertrand Russell:

Ao estudar qualquer assunto ou considerar qualquer filosofia, pergunte-se apenas quais são os fatos e qual é a verdade que eles comprovam. Nunca se deixe desviar pelo que você gostaria de acreditar ou pelo que você acha que teria efeitos sociais benéficos se se acreditasse. Olhe apenas, e unicamente, para os fatos.