O gramático Evanildo Bechara diz que os encontros consonantais devem ser sempre pronunciados sem epêntese (acréscimo de uma vogal), mas ela é tão natural que é difícil não fazê-la: /adivôgádu/, /áfita/, /rítimu/, /pissicôlogia/, /pineu/, etc. Então:
1. A epêntese, em casos como esses, é adequada ou permitida na linguagem formal?
2. Por que a epêntese é mais comum no Brasil que em Portugal?
David Gamer
Caro David,
Para responder às suas perguntas, vou fazer um pequeno retrocesso histórico. Até aproximadamente o século XVII ou XVIII, o português lusitano pronunciava claramente todas as vogais. Assim, a pronúncia de captar era perfeitamente distinta da de apetite, isto é, pronunciava-se distintamente pt e pet. Sobretudo a partir do século XIX, os portugueses passaram a “comer” as vogais átonas, principalmente o e. Com isso, apetite passou a pronunciar-se aptit, Ferreira passou a Frraira, pessoa a psoa e socialista já soa cialista na fala de Lisboa.
Com esse apagamento das vogais átonas no meio (síncope) e no fim das palavras (apócope), passou-se a fazer confusão entre encontros consonantais legítimos, ou seja, aqueles que têm justificativa etimológica e são grafados como tais, e os falsos encontros, aqueles que surgem pela simples omissão da vogal intermediária. Consequentemente, hoje muitos portugueses pronunciam mar como mare e marcar como marecar (esse e lusitano soa como [ɨ]). Em compensação, pronunciam telefone como tlfón.
Essa confusão entre encontros consonantais legítimos e ilegítimos chegou ao Brasil, só que nós não temos a tendência de engolir as vogais; por isso, em vez de sincopá-las, passamos a inserir vogais no meio (epêntese) e no fim das palavras (paragoge), inclusive em palavras estrangeiras: club > clube, team > time, stress > estresse, Tibet > Tibete.
Outro fator que estimulou a epêntese e a paragoge são os substratos linguísticos indígena e africano presentes no Brasil, pois muitas dessas línguas não admitem encontros consonantais, o que forçava os falantes a introduzir uma vogal de apoio entre as consoantes.
Quanto a evitar a epêntese na fala formal, há pessoas que fazem isso e pronunciam advogado e objeção em vez de adivogado e obijeção, mas isso soa bastante afetado e pedante. A norma-padrão, objeto dos estudos de Bechara, se aplica à modalidade escrita e sobretudo à gramática, não à fonética. Senão, poderíamos também postular que o r caipira ou o sotaque nordestino devem ser evitados na fala formal, o que seria absurdo.
Por falar em sotaque nordestino, alguns falantes do Nordeste realizam a epêntese em palavras em que os brasileiros do centro-sul não o fazem. Por exemplo, enquanto um paulista ou mineiro pronunciam psicologia, muitos nordestinos pronunciam pissicòlugia.