O maior país do mundo, parte 2: o retorno

Algumas semanas atrás, em outra postagem, comentei o chauvinismo brasileiro de achar que o nosso país é o maior do mundo em tudo e que por isso merecemos particular deferência por parte das outras nações. O fiasco do filme O agente secreto na cerimônia do Oscar deste ano e as subsequentes reações furiosas dos brasileiros comprovaram minha tese. Não que o filme e os atores não tenham lá os seus méritos: o simples fato de terem recebido várias indicações ao prêmio já é louvável por si só. Mas a realidade é que o clima de já ganhou, que também antecede as participações brasileiras em copas do mundo de futebol, mais uma vez impediu que a competição fosse encarada com serenidade e, sobretudo, humildade. O Brasil entrou na disputa de salto alto, como se o troféu já fosse seu por direito e, tal qual na Copa do Mundo, caiu antes do término. Sim, o filme, pelo que dizem (eu não o assisti), é muito bom, e a atuação de Wagner Moura estava impecável, mas havia outros tantos bons concorrentes, e o Brasil já havia ganhado o prêmio no ano passado, o que tornaria uma dobradinha pouco provável.

Mas o mais revelador de nosso bairrismo inveterado foram os comentários indignados na internet após a perda do Oscar. Comentários que foram desde a descredibilização do júri (a velha insinuação de que houve roubo) até o menosprezo pelos vencedores, como se eles não tivessem merecimento. Sobre o ganhador do Oscar de melhor ator, Michael B. Jordan, houve até comentários desprovidos de senso de ridículo como um que dizia: “Michael B. Jordan não é bem-vindo aqui em Xique-Xique, Bahia” (como se esse ator tivesse alguma intenção de um dia visitar Xique-Xique, coisa que nem os brasileiros têm). Outros tantos comentários enalteciam o “molho” do nosso povo como se isso fosse justificativa suficiente e indiscutível para fazer jus o prêmio.

Enfim, há muitos países no mundo que jamais ganharam um Oscar ou um campeonato mundial de futebol e têm, no entanto, muito mais razões para se orgulhar do que nós: educação de altíssima qualidade, baixíssima corrupção, alto desenvolvimento científico e tecnológico, grande importância geopolítica, e assim por diante. Enquanto isso, tal como Donald Trump, nos comportamos igual criança de quinta série despeitada quando contrariada: “Não ganhamos o Oscar? Bela porcaria, nós nem queríamos mesmo!”.

O maior país do mundo

Até sexta-feira passada, a imprensa nacional se referia ao jovem norueguês Lucas Braathen, filho de brasileira e que fala mal português, como a grande esperança do Brasil nos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano. Sábado, dia 14 de fevereiro, o rapaz de 24 anos ganhou a medalha de ouro no slalom gigante. A imprensa logo estampou: “Lucas Pinheiro é ouro para o Brasil!”. O até então norueguês Lucas Braathen é agora o brasileiríssimo Lucas Pinheiro!

Acontece que o medalhista nasceu e passou quase a vida toda na Noruega. Sobretudo treinou a vida toda na Noruega, apoiado pela forte infraestrutura esportiva norueguesa. Só passou a defender as cores verde-amarelo no ano passado e por desentendimento com a federação norueguesa de esqui.

No pódio, Braathen chorou de emoção, decerto por sua conquista pessoal, pelo esforço que dedicou durante anos ao esporte e pelo apoio que recebeu do país nórdico para sua conquista, não pelo Brasil. Mas o protocolo manda demonstrar patriotismo ao ouvir o hino nacional e ver o hasteamento da bandeira, mesmo que seja de sua pátria de conveniência. De todo modo, a vitória de Braathen acalenta o chauvinismo de um país tão carente de heróis.

Apenas a título de informação, a outra grande esperança do Brasil nesses jogos é o italiano Giovanni Ongaro, igualmente treinado a vida toda nas neves da Itália e da Europa.

Mas a vitória do brasilo-norueguês Pinheiro Braathen reforça o mito muito cultivado por estas plagas de que o Brasil é o maior país do mundo em tudo. Na verdade, o Brasil já foi o maior país do mundo no futebol; foi, não é mais. Temos o maior rio e a maior floresta, mas o mérito não é nosso e sim da natureza. Temos o maior Carnaval, sem dúvida. E temos talvez a maior desigualdade social, a maior corrupção e a maior impunidade do mundo, e isso sim é mérito cem por cento nosso. Ou demérito.

O chauvinismo linguístico

Chauvinismo é o sentimento patriótico exagerado e fanático, que leva o indivíduo a supervalorizar as qualidades de seu país, ao mesmo tempo em que despreza ou abomina tudo que é estrangeiro. Logo, o chauvinista é também um xenófobo, quando não um racista. De modo mais geral, o termo se aplica igualmente a qualquer defensor radical de um conceito, ideia ou ideologia, que tem atitude agressiva contra todos que sejam contrários ao objeto de sua defesa.

Embora apenas uns poucos tenham esse sentimento exacerbado ou sejam capazes de atitudes virulentas, é muito comum que as pessoas nutram um sentimento de amor ao próprio país pelo simples fato de terem nascido nele. Nesse sentido, o chauvinismo nacional decorre do desconhecimento de outras nações e outras culturas.

Da mesma forma, é muito comum o chauvinismo linguístico, o amor que o falante tem pela própria língua, independente de qual seja, apenas pelo fato de que é a língua que ele fala, a primeira – e, na maioria das vezes, a única – que aprendeu.

Gostar ou não gostar de alguma coisa, seja um país, uma cultura, uma língua ou o que quer que seja, é algo bem subjetivo: em geral, não temos motivos racionais para essa ou aquela preferência, mas somos movidos apenas por sentimentos. E estes, muitas vezes, nos são inculcados desde a infância pelos pais, professores, sacerdotes, governantes, meios de comunicação, etc.

No entanto, para a pessoa que crê, sua crença tem valor de verdade. A maioria dos brasileiros, inclusive os que passam as maiores privações neste país, acha o Brasil a melhor nação do mundo. Obviamente, americanos, franceses, japoneses, costa-riquenhos e ugandenses pensam o mesmo de seus países.

De igual maneira, o chauvinismo também aflora quando o assunto é a língua. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi brasileiros dizerem que o português é um idioma belíssimo, que nenhum outro consegue expressar tão bem e de forma tão poética os sentimentos humanos, que nossa língua é a mais linda e perfeita do mundo, e por aí vai. Chauvinismo puro!

Em primeiro lugar, de um ponto de vista estritamente objetivo, não há línguas melhores ou piores: toda língua é igualmente eficiente em sua função de comunicação. Todos os povos usam diariamente seus idiomas nas mais diversas situações de modo fluente e eficaz. Todo idioma dá conta das necessidades de pensamento e expressão dos seus falantes dentro de sua cultura específica.

Em segundo lugar, se quisermos medir de alguma forma e segundo algum critério a “qualidade” das línguas em termos de sua simplicidade, facilidade de aprendizado, praticidade de criar novas palavras, etc., devemos recorrer a uma área da ciência chamada linguística comparada ou comparativa, que faz o cotejo e a análise das semelhanças e diferenças estruturais entre as línguas de todos os seus pontos de vista: fonético, fonológico, morfológico, sintático, lexicológico, semântico e até ortográfico.

Em outro artigo, falei sobre essa especialidade linguística, à qual me dedico formalmente há pelo menos 30 anos e informalmente desde a adolescência. Por meio dela, é possível dizer que o português não é das línguas mais complexas do mundo, mas é mais complexa gramaticalmente do que a maioria de suas irmãs românicas, tendo uma série de irregularidades estruturais que outras línguas não têm ou têm em menor grau, ou, ainda, já tiveram, mas eliminaram. Por exemplo, o português é a única língua-padrão europeia a ter mesóclise, futuro do subjuntivo, pretérito mais-que-perfeito sintético e infinitivo pessoal. É também a língua com a colocação pronominal mais cheia de regras. Do meu ponto de vista particular, embora nenhuma língua seja perfeita (nem o esperanto, idioma artificial extremamente simples em todos os aspectos), há várias línguas próximas ao português com gramática mais simples, pronúncia mais suave e grafia mais lógica do que ele. Quanto a questões subjetivas, como a expressividade ou a beleza poética do idioma, posso garantir que, nas mãos do bom poeta e do bom escritor, qualquer língua é um instrumento perfeito para criar beleza e eloquência.

Mas o chauvinismo linguístico, alheio a todas essas considerações de cunho técnico-científico, endeusa a língua pátria e a cultura que ela expressa sem se dar conta da real importância que essa língua e cultura têm no concerto mundial.

Assim, os falantes ufanistas do português ignoram que nosso idioma, embora seja o quinto mais falado no mundo, só detém essa posição por causa da grande população do Brasil. E que, mesmo sendo muito falada, é muito pouco difundida internacionalmente. Como resultado, também a literatura e a cultura veiculadas por ela são pouco conhecidas, com exceção talvez de Paulo Coelho, das telenovelas brasileiras, do nosso futebol e de alguns artistas da MPB. Em termos de relevância ou interesse dentro da própria Europa, o português ocupa mais ou menos a mesma posição que o norueguês ou o polonês.

No aspecto político, econômico, científico e tecnológico, nenhum país lusófono tem destaque mundial. Portugal foi um grande império colonial no século XVI, mas, mesmo assim, jamais foi uma potência política ou militar na Europa, capaz de influir nos destinos da história do continente, que sempre girou em torno de players mais centrais, como a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Áustria e a Itália. Mesmo países periféricos como a Espanha, a Suécia e a Rússia tiveram papel maior que Portugal na história europeia e ocidental. O Brasil é, sem dúvida, a nação lusofalante mais destacada no plano econômico, mas ainda uma economia secundária e pouco confiável. No terreno político, nem Brasil nem Portugal têm peso em termos globais. (Que dirá os demais países de língua portuguesa, como Angola, Cabo Verde ou Timor Leste!) Na verdade, grande parte do noticiário sobre nós que chega ao mundo desenvolvido trata de mazelas como fome e doenças ou acontecimentos folclóricos, como o mau comportamento de nossos dirigentes.

Por tudo isso, vejo com perplexidade e certo desalento as manifestações chauvinistas com relação ao nosso país e à nossa língua. Falta-nos um certo senso de realidade. Mas fazer o quê? A maioria dos povos do mundo não têm nenhuma razão objetiva para se orgulhar de si mesmos, mas se orgulham. O chauvinismo é próprio da natureza humana.