Nesse verão dos infernos, que ainda nem começou, todo mundo sonha em estar numa praia, afinal o calor excessivo provocado pelas mudanças climáticas é uma praga, né? Mas o que praga tem a ver com praia, além da semelhança fonética? Na verdade, nada, a não ser uma proximidade etimológica fortuita. É que praga, assim como chaga, veio do latim plāga (com a longo), que quer dizer “golpe, pancada” e, por metonímia, “ferida causada por um golpe”. Já praia, bem como plaga, vem de plaga (com a breve), que significava originalmente uma extensão de terra ou mesmo qualquer superfície estendida, como uma rede de pesca (aliás, esta era uma das acepções de plaga em latim).
Uma plaga é um lugar, que pode ser desde um terreno até um país (quem já não ouviu a expressão “estas plagas” para referir-se ao nosso Brasil?). Mas a linguagem poética destinou esse termo sobretudo aos lugares aprazíveis, tanto que, na língua occitana ou provençal, falada no sul da França, o cognato plaia passou a designar especificamente a extensão de areia junto ao mar, isto é, a praia. Nossa palavra, por sinal, veio diretamente do provençal, assim como o francês plage e o espanhol playa.
Enquanto a praga destrói as plantações e a chaga é uma ferida aberta e dolorosa, a praia é uma plaga deveras agradável, especialmente em dias de calor. E tanto a palavra praga quanto chaga podem ser usadas em linguagem figurada, para denotar um infortúnio, como fiz com a primeira na frase inicial deste artigo. Por sinal, eu poderia ter dito que esse calor anormal é uma chaga, infelizmente produzida por nós mesmos, seres humanos.
Então, já que o estrago está feito e parece não haver vontade política de consertá-lo, o jeito é fazer o que diz o refrão daquela velha canção: “Vamos a la playa, oh oh oh oh oh”.