O cancelamento de pessoas que prestaram grandes serviços à humanidade

Desde 2013, a síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo, foi renomeada para suprimir o sobrenome de seu descobridor, o médico austríaco Hans Asperger. Os motivos seriam dois: primeiro, a incorporação da síndrome ao espectro autista; segundo, a atuação do médico no regime nazista. De fato, Asperger colaborou com os nazistas, e muitas das crianças autistas que ele estudou foram depois mandadas para a câmara de gás. Mas alguns historiadores e biógrafos têm revisto sua atuação na medida em que, nas palavras do médico e historiador norueguês Ketil Slagstrad, “é muito fácil julgar um homem quando não é sua cabeça que está sob a mira de uma arma”.

O ponto em questão é que a vida e as convicções políticas de Asperger não invalidam sua inestimável contribuição à medicina. Mas a cultura do cancelamento, essa patrulha ideológica que muito se assemelha à antiga Inquisição, não perdoa. Tempos atrás, questionou-se o batismo do novo telescópio espacial com o nome do americano James Webb, diretor da NASA durante o icônico projeto Apollo, porque, segundo consta, ele era machista e racista.

Essa caça às bruxas promovida pela intolerância também vitimou o físico alemão Werner Heisenberg, fundador da mecânica quântica, que, apesar de opor-se ao nazismo, decidiu permanecer na Alemanha durante o governo de Hitler como forma de resistência, atitude que nunca lhe foi perdoada. Assim eu pergunto: deveríamos jogar fora toda a física quântica e os avanços tecnológicos que ela tem proporcionado porque seu fundador trabalhou para o governo nazista? Seguindo essa lógica, deveríamos lançar ao lixo a obra e a memória de Jorge Amado, Oscar Niemeyer ou Vladimir Herzog porque pertenceram ao Partido Comunista? Ou a de Nelson Rodrigues porque simpatizava com a ditadura militar? Será que devemos cancelar Chico Buarque, sua música e sua poesia porque ele apoia o regime cubano (embora goste de passar as férias em Paris e não em Havana)? Ou quem sabe Gilberto Gil por ter sido deputado pelo fisiológico MDB e ministro do “comunista” Lula? Deveríamos cancelar Aristóteles, base de todo o pensamento ocidental, porque ele tinha escravos — ou melhor, escravizados — e lecionou para o sanguinário Alexandre o Grande? Devemos ignorar o grande ator Tarcísio Meira porque ele criava gado de corte em sua fazenda?

Como disse Jesus, quem for livre de pecado que atire a primeira pedra. (Aliás, só estou citando Jesus aqui enquanto ele ainda não é cancelado.)

A nova ditadura

Nos anos 1960 e ’70, vivíamos sob a ditadura militar, com seu autoritarismo arbitrário e sua censura, que decidiam o que podíamos ou não podíamos dizer, que palavras podíamos ou não podíamos empregar, de que assuntos podíamos ou não podíamos tratar. O regime militar acabou, mas hoje vivemos uma nova ditadura, em que não são os militares e sim as mídias sociais e seus algoritmos que decidem o que podemos ou não dizer. Assim como nos tempos dos milicos tínhamos de exercer a autocensura para não ter problemas com a polícia e usar de metáforas para falar de temas proibidos, hoje precisamos mascarar palavras como M0RT3 ou 35TUPR0, ou então chamar manifestações contra o governo Trump de “festival de música”, como fizeram muitos manifestantes em Los Angeles em meados do ano passado. Criticar governos, apoiar palestinos, postar conteúdo pró-LGBT (e também anti-LGBT) é certeza de perder monetização ou mesmo ter seu conteúdo tirado do ar. E, bem nos moldes d’O processo de Kafka, não adianta recorrer: as redes nunca revelam a razão de sua censura, limitando-se a um lacônico comunicado “você infringiu as normas de conduta da plataforma”, normas estas que nunca estão suficientemente claras ao usuário.

O absurdo é que, por exemplo, vídeos de denúncia que expõem maus-tratos a animais são derrubados sob a alegação de que as plataformas não permitem a exibição de tortura. Ora, o algoritmo, burro que é como toda máquina, não sabe distinguir entre a apologia e a denúncia aos maus-tratos. E situações semelhantes se repetem em relação a outros temas sensíveis.

A diferença entre a ditadura tradicional e a algorítmica é que os inquisidores humanos podem ser sensibilizados por seus interrogados se perceberem que estes não são terroristas ou subversivos e que agiram de boa-fé — ou mesmo nem agiram, foram presos por engano —, ao passo que as plataformas digitais não permitem questionamento (como questionar um robô?), e os funcionários humanos das redes focam exclusivamente no lucro, não na justiça.

Mas há também outro tipo de censura: a ideológica. Hoje, sob o pretexto de serem preconceituosas ou contrárias à democracia, muitas postagens são retiradas do ar por ordem judicial, mesmo que as falas, ainda que moralmente indefensáveis, não configurem nenhum crime. Não só as big techs e seus algoritmos como também a própria opinião pública dominante nas redes lincha moralmente quem pensa diferente, transformando o que deveria ser debate em pensamento único, característica típica das autocracias. Viva o admirável mundo novo!

Justiçamento de palavras

Logo após o golpe de Estado de 1964, que implantou no Brasil o regime militar — na verdade uma ditadura de militares com massiva colaboração de políticos e empresários de direita e extrema-direita —, muitos grupos de esquerda e sobretudo de extrema-esquerda, que já vinham planejando impor ao país uma outra ditadura, a “do proletariado”, aproveitaram a ocasião para lançar-se à luta armada contra o novo regime sob a alegação de que estavam defendendo a democracia. Na guerra suja em que se transformou o combate entre as forças do governo militar e seus opositores, classificados como subversivos e guerrilheiros, valia de tudo. Do lado governista, houve a implantação do Ato Institucional n.º 5, o famoso AI-5, que dava às autoridades militares e policiais o poder de censurar órgãos de imprensa e manifestações artísticas, bem como de prender, torturar e matar qualquer cidadão sob a suspeita de colaborar ou simplesmente simpatizar com grupos ou movimentos revolucionários, sem direito ao devido processo legal — na verdade, sem direito até a um sepultamento digno, visto que os corpos dos executados desapareciam sem deixar vestígios.

Do lado dos guerrilheiros esquerdistas, havia assaltos a bancos para financiar os “aparelhos”, nome dado aos grupos subversivos, havia sequestros de figuras públicas, inclusive estrangeiras (o sequestro do embaixador americano ficou particularmente famoso), ataques a bomba a prédios públicos e atentados à vida de pessoas supostamente ligadas ao governo militar ou simpáticas a ele. E havia também os chamados “justiçamentos”, execuções sumárias de membros das próprias falanges de esquerda acusados de traição à causa revolucionária mediante a mera suspeita de que fossem agentes duplos, igualmente sem direito à defesa, sem provas concretas e sem nenhum drama de consciência.

É claro que as condições em que operavam tanto os militares quanto seus opositores eram de guerra (uma guerra secreta, não noticiada pela imprensa, amordaçada pela censura), portanto não havia como promover um julgamento justo dos suspeitos de colaborar seja com o regime seja com a guerrilha. Logo, a execução sumária era uma medida extrema, porém justificada: era preferível matar um inocente a permitir que o inimigo continuasse conspirando.

Portanto, justiçamento é a justiça feita com as próprias mãos, à margem do sistema institucional e, por óbvio, sem cumprir os requisitos do devido processo legal, consubstanciados em três princípios básicos:

  1. todo acusado tem direito à ampla defesa e ao contraditório;
  2. todo réu é inocente até que se prove a sua culpa (é a chamada presunção de inocência); e
  3. o ônus da prova cabe à acusação e não à defesa.

Por que estou aludindo a esses fatos? É que, de algum tempo para cá, os movimentos identitários, de negros, gays, trans, mulheres e outras “minorias”, herdeiros e sucedâneos dos esquerdistas que, nas décadas de 1960 e 70 sonharam transformar o Brasil numa república popular, eufemismo para ditadura comunista, passaram a praticar o justiçamento de palavras, acusando-as de racismo, machismo, homofobia, etc., julgando-as, condenando-as e executando-as na forma de censura e banimento do léxico da língua portuguesa com base única e exclusivamente em sua própria percepção subjetiva, isto é, na mera suspeita de que tais vocábulos sejam de fato criminosos.

Palavras e expressões como denegrir, criado-mudo, travestido, mulato, hombridade, meia tigela, nas coxas não têm tido direito à ampla defesa e ao contraditório; seus advogados, no caso, os etimólogos e os lexicólogos, têm sustentado em vão que algumas dessas palavras e expressões jamais tiveram origem em preconceitos de raça, gênero ou orientação sexual, assim como outras, que até podem ter tido tal origem, não carregam mais o significado ou a conotação discriminatória original há séculos e que, portanto, ninguém mais as emprega em sentido pejorativo ou ofensivo. Os especialistas na história e na semântica das palavras simplesmente não são ouvidos; por vezes, são até alvo de acusações vazias e desprovidas de fundamento, como a de que estariam a serviço da burguesia opressora e da “zelite dominante”.

Em segundo lugar, não tem sido concedido a tais vocábulos e locuções o direito à presunção de inocência, o benefício da dúvida, o in dubio, pro reo do Direito romano. Uma vez acusadas pelo tribunal identitário, são imediatamente declaradas culpadas, mesmo sem provas conclusivas. E é preciso dizer que, na pesquisa etimológica, em que os vestígios da história de uma palavra não raro são apagados pelo tempo, em muitos casos não há como provar nem que um certo termo tenha origem discriminatória nem que não tenha. E é aí que entra o benefício da dúvida, a presunção de inocência. Parece que em julgamentos justiceiros e não justos, é preferível condenar o inocente a absolver um possível culpado: in dubio, contra reo.

Por fim, a acusação, a quem deveria caber o ônus da prova, neste caso nada precisa provar: se eu sou negro, ou homossexual, ou transexual, ou não binário, ou mulher, ou nordestino, ou deficiente, ou…, e me sinto incomodado com tal ou qual expressão, minha palavra basta. Na corte de justiça(mento) identitária, a opinião vale mais do que o fato, a emoção conta mais do que a razão, o entendimento do leigo pertencente a uma minoria (ou demagogicamente apoiador dela) tem mais peso que o parecer do especialista, e a turba ignara que vibra diante de linchamentos, sejam eles físicos ou morais, entusiasticamente noticiados pela mídia policial ou celebrados pelas patrulhas culturais e ideológicas, sente-se recompensada, pois esses movimentos policialescos da linguagem estão seguramente contribuindo para construir uma sociedade mais justa. Ou talvez mais justiceira.

A censura ideológica

Estamos vivendo tempos estranhos e perigosos. Na era da pós-verdade, opiniões valem mais do que fatos, e posições divergentes da ideologia dominante, isto é, ditada por certos grupos de influência, são prontamente criminalizadas. Hoje, a democracia  nos permite pensar e dizer o que quisermos, desde que pensemos e falemos “dentro de certas caixinhas”, a mais famosa das quais atende pelo nome de “politicamente correto”.

Atualmente, a ciência está desacreditada. A opinião arrogante de políticos populistas vale mais do que o parecer de dezenas, centenas de especialistas. Basta ver o modo como Donald Trump trata a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas – que para ele não passam de invenção dos chineses para arruinar a economia americana.

A formatação das ideias é promovida hoje em dia tanto pela esquerda quanto pela direita, e tanto em regimes de força como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte quanto em sociedades supostamente democráticas, como os Estados Unidos e o Brasil.

Discutir temas polêmicos ou delicados, como os que envolvem drogas, aborto, religião, homossexualidade, racismo ou diversidade cultural, longe de ser algo salutar para o convívio social e o aperfeiçoamento democrático, como já foi no passado, tornou-se algo extremamente perigoso: basta ferir a suscetibilidade de algum grupo de pressão – as chamadas “minorias” – para ser colocado na berlinda e exposto à execração pública, além de sofrer consequências mais graves, como demissão, processo judicial, etc.

Não há como negar que o acesso à voz e à visibilidade por parte de grupos que anteriormente não eram sequer levados em conta representou um grande progresso social, assim como a luta por direitos iguais, uma questão indiscutível de justiça, só pode ser digna de aplauso. O problema é quando os papéis se invertem, e o grupo oprimido se torna opressor. Toda vez que se rompe o equilíbrio dos contrários, e um dos lados subjuga o outro, o resultado é violência, seja ela física ou simbólica.

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Terça-feira passada, dia 8, o engenheiro de software americano James Damore acabou demitido do Google por ter publicado em seu blog pessoal um artigo em que justifica a ausência de diversidade de gênero (leia-se “reduzido número de mulheres”) no Vale do Silício por diferenças biológicas entre os dois sexos. Sua publicação foi considerada “uma asneira sexista”, que dissemina “estereótipos de gênero”, dentre outras tantas críticas.

Em seu artigo, Damore afirmou que “as opções e as capacidades de homens e mulheres divergem, em grande parte devido a causas biológicas, e essas diferenças podem explicar por que não existe uma representação igual de mulheres (em posições) de liderança”.

Segundo o engenheiro, aptidões naturais levam os homens a ser programadores de informática enquanto as mulheres tendem mais “aos sentimentos e à estética do que às ideias”, o que as levaria a escolher carreiras nas áreas “social e artística”.

A argumentação de Damore, considerada sexista pela imprensa americana, reacendeu a polêmica sobre a existência de uma certa cultura machista no universo da tecnologia, majoritariamente composto por homens. No próprio Google, 69% dos funcionários são homens, proporção que chega a 80% na área tecnológica; no Facebook, 73% dos cargos de chefia eram ocupados por homens em 2016. Na Apple, o percentual chega a 63%.

A questão é que a diversidade de aptidões entre homens e mulheres é objeto de discussão até no meio acadêmico, em que, de um lado, especialistas das ciências biológicas, como neurocientistas, apresentam dados concretos, obtidos em experimentos controlados e com a utilização de alta tecnologia, mostrando as diferenças entre o cérebro masculino e o feminino e suas repercussões na realização das mais diversas atividades, e, de outro, estudiosos das ciências sociais argumentam que a histórica preferência das mulheres por carreiras humanísticas é fruto de condicionamento social e não de pendor genético.

Pelo menos, já está provado cientificamente que homens e mulheres têm habilidades distintas, o que, teoricamente, impactaria na escolha da profissão. Qualquer um sabe que as mulheres são em geral mais habilidosas que os homens na realização de tarefas que exijam coordenação motora fina (além, é claro, de terem mãos mais delicadas), o que faz com que as indústrias prefiram ter mulheres na linha de montagem de equipamentos minúsculos, por exemplo. A mesma ciência demonstra que os homens têm geralmente mais facilidade para lidar mentalmente com sistemas tridimensionais, que envolvam as noções de espaço e profundidade, como a concepção de estruturas arquitetônicas ou a operação de veículos. (Um amigo meu costuma comentar maldosamente que é fácil descobrir num estacionamento quais carros pertencem a mulheres.) Portanto, não se pode excluir por princípio a hipótese de que a aptidão lógica e matemática também esteja ligada a fatores sexuais.

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Todos sabemos que bilhões de anos de evolução biológica moldaram diferentemente os cérebros do homem e da mulher em função das próprias necessidades de sobrevivência da espécie. Foi a tarefa de caçar o que fez no macho desenvolverem-se os músculos, assim como a delicadeza da fêmea era essencial no cuidado da prole. Essa divisão primitiva de tarefas, que partilhamos com muitas outras espécies animais, certamente moldou também nossas capacidades cerebrais.

A ideia de que os homens são mais agressivos, decididos, pragmáticos, lógicos, materialistas, enquanto as mulheres são mais sensíveis, carinhosas, atenciosas, delicadas, místicas, é, sem dúvida, um estereótipo. Mas os estereótipos, assim como os preconceitos, nascem da observação de certas tendências que se repetem. Dito de outro modo, todo estereótipo tem um fundo de verdade. O erro está na generalização. Há homens sensíveis e mulheres com instinto de liderança. Há decoradores e engenheiras, bailarinos e jogadoras de futebol. Mas que há um predomínio masculino nas profissões “tecnológicas”, assim como uma maior presença feminina em áreas como Letras, Pedagogia, Psicologia e Fonoaudiologia, é um fato inegável. Se é produto de nossa biologia ou de nossa cultura patriarcal, trata-se de um ponto ainda em aberto, mas as pesquisas nesse campo avançam sem parar, e em breve deveremos ter uma resposta definitiva.

De todo modo, defender qualquer das duas correntes é legítimo, já que a própria ciência ainda não bateu o martelo. O problema é que, nos dias de hoje, a ciência, mesmo com seu método lógico, sistemático e abundantemente provido de evidências concretas, nada pode contra a ideologia, essa tapa que se tenta pôr nos olhos das pessoas para que vejam apenas a parte da realidade que interessa a certos grupos que elas vejam. Pouco importa que as geleiras estejam derretendo, o nível dos oceanos subindo e ilhas paradisíacas já estejam desaparecendo do mapa; tudo não passa de invenção dos chineses!

As razões da desigualdade entre ricos e pobres, entre a Europa e a África, entre homens e mulheres, entre gays e héteros, nada disso pode ser livre e democraticamente discutido, mesmo que à luz da ciência, quando o debate é sombreado pelo medo da represália, pela censura ideológica, pela ameaça da excomunhão moral, versão moderna da Inquisição. Não importa quantas evidências você tenha em favor de um argumento; se ele consta no index das opiniões não autorizadas pela patrulha do politicamente correto, é melhor calar-se para preservar sua paz de espírito – e seu pescoço!