Um país às avessas

Às vezes penso que o Brasil é um país que nasceu do avesso. E digo isso comparando-o não só aos países desenvolvidos, mas até aos nossos vizinhos latino-americanos. Senão vejamos.

Graças à abundância de rios, o Brasil tem a maior produção de energia hidrelétrica do mundo, uma energia limpa, renovável e praticamente infinita. No entanto, todo o transporte e escoamento da nossa produção, bem como todo o deslocamento de nossa população de uma cidade para outra, se dá por meio rodoviário, queimando petróleo e produzindo os famigerados gases do efeito estufa, causadores do aquecimento global. O Brasil praticamente não tem ferrovias, um meio de transporte de cargas e de passageiros muito mais rápido e seguro que o rodoviário, e sobretudo um meio de transporte limpo, já que os trens são movidos a eletricidade. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, é possível ir de trem de qualquer lugar a qualquer outro de forma barata, veloz, confortável e sem riscos de assaltos no meio do caminho. Aqui, as mercadorias têm de ser transportadas por rodovias esburacadas e inseguras em caminhões conduzidos por motoristas insones, movidos a cocaína ou “rebite”, pondo em risco sua própria segurança e a dos outros motoristas. Caminhoneiros dopados, que viram a noite sem dormir para poder fazer mais viagens, cumprir prazos e compensar a pobreza do valor do frete que recebem. E todos nós ficamos nas mãos desses profissionais, que param o país quando fazem greve para reivindicar um aumento nesse valor ou para apoiar algum governo de extrema-direita.

Mas não é só isso. O Brasil também é o único país de que tenho notícia em que há duas polícias, uma civil e uma militar, e que não se conversam, não se entendem, não se entrosam, não compartilham informações — isso quando não entram em conflito entre elas. E o político que tentar unificá-las corre risco de vida. Enfim, temos duas polícias que não valem por uma, haja vista o assustador crescimento da violência e do crime organizado. Duas polícias desaparelhadas, sucateadas, com policiais despreparados, mal treinados, mal remunerados, estressados, assediados e hostilizados pela população e pela imprensa.

Além disso, devemos ser o único país cujo sistema prisional admite visita íntima (imagino até que haja um quarto dentro dos presídios com cama redonda, espelho no teto e banheira de hidro, não?), saidinha de Dia dos Pais (mesmo para quem cumpre pena por ter matado os pais), progressão de regime após cumprir-se um mísero sexto da pena, uma coisa inexplicável chamada “regime aberto”, em que o criminoso é condenado a cumprir pena em liberdade, outra coisa inexplicável que é o investimento de dinheiro público na ressocialização de quem tem uma ficha criminal quilométrica e está condenado a centenas de anos de prisão, inclusive por crimes hediondos e de alta crueldade, além do limite máximo de encarceramento de 40 anos (antes eram 30), não importa o tamanho da pena do meliante. Mas o mais legal de tudo é que os presos podem usar telefone celular dentro dos presídios para poder continuar cometendo crimes. A penitenciária permite aos criminosos acesso à internet (acho até que lhes fornece login e senha) e mais, as celas dispõem de tomadas para que os detentos possam recarregar seus aparelhos. Além disso, visitantes podem levar qualquer coisa para dentro dos presídios, até armas (revista vexatória é proibida), e membros de quadrilhas podem atirar celulares e drogas por cima dos muros da prisão, que por sinal são feitos de blocos ocos de cimento, fáceis de quebrar com uma marreta, explosivos ou até a colisão de um veículo.

Em países sérios, as prisões têm parlatório, de modo que os presos e suas visitas, inclusive advogados, só podem falar por meio de um interfone, sem nenhum contato físico e sempre sob a vigilância de um agente penitenciário. Em países como o Japão, o presidiário não pode sequer olhar nos olhos do agente, e todos se alimentam no refeitório em absoluto silêncio. Em muitos países, os condenados são obrigados a trabalhar, e na imensa maioria deles o prisioneiro cumpre a pena integralmente — se for condenado a mais de 50 anos, provavelmente morrerá na cadeia. Nesses países, há inclusive prisão perpétua e até pena de morte. Liberdade condicional somente após o cumprimento da maior parte da pena e, mesmo assim, apenas em condições especiais.

Mas o Brasil também é um país às avessas porque aqui políticos corruptos cometem seus crimes quando jovens e só começam a cumprir a pena — isto é, quando cumprem! — quando já estão velhos, cheios de supostas doenças, e assim têm direito a prisão em regime domiciliar em suas luxuosas mansões com piscina, compradas com o dinheiro que roubaram do povo. E aqui juízes corruptos ou que não cumpriram adequadamente com suas obrigações não são exonerados a bem do serviço público, são condenados à aposentadoria compulsória, isto é, a ficar em casa recebendo seu salário integral sem trabalhar.

Neste país de cabeça para baixo servidores públicos são admitidos por concurso que não passa de uma prova de múltipla escolha, sem análise de currículo, sem entrevista, sem avaliação psicológica, sem dinâmica de grupo… E, uma vez admitidos, têm estabilidade no emprego, portanto não podem ser demitidos, não importa o quão incompetentes e improdutivos sejam. E ainda podem fazer greve durante meses, inclusive por motivos políticos, e o cidadão que precise dos serviços públicos e paga por eles que se dane! Com isso, a máquina pública só incha. (Vocês sabiam que o governo federal ainda têm datilógrafos, embora não existam mais máquinas de escrever? O governo aguarda ansiosamente que eles se aposentem porque não pode mandá-los embora.) E aí o ministro da fazenda não sabe como cumprir a meta fiscal e corta verbas da educação e da saúde. Enquanto isso, a Constituição limita o teto salarial dos servidores públicos ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal, mas há juízes e desembargadores que ganham dez vezes mais do que isso, e ninguém pode cortar os seus vencimentos, pois eles fazem os próprios vencimentos. E o que dizer de senadores, deputados (federais e estaduais) e vereadores que aumentam seus próprios salários, em geral na calada da noite e bem acima da inflação? E que legislam em causa própria ou em beneficio de seus padrinhos o tempo todo? Até emendas à Constituição eles fazem por razões casuísticas, apenas para atender aos interesses dos lobbies que os elegeram ou para safar-se da cadeia.

No Brasil às avessas, pessoas largam o emprego para viver de benefícios pagos pelo Estado e completam a renda com “bicos”, trabalhos informais que não pagam impostos, não contribuem para a combalida Previdência Social, não requerem qualificação profissional nem contribuem para a produtividade do país e para o aumento do PIB. E o governo concede tanto mais benefícios quanto mais filhos as chamadas “mães solo” puserem no mundo.

No Brasil às avessas, músicas (músicas?!) que fazem apologia ao crime e aglomerações em que essas “músicas” tocam e há farto comércio e consumo de drogas são consideradas manifestações culturais. No país virado do avesso, um terço da população é analfabeta, adolescentes chegam ao ensino médio sem saber ler, e o sonho dos jovens e orgulho dos pais é serem influenciadores digitais, jogadores de futebol ou traficantes de drogas. No país da inversão de valores, as palavras “CLT” e “professor” são ofensas pessoais; já “MC” é elogio.

Falando em professor, o Peru tem universidades desde o século XVI e os EUA desde o século XVII. Em compensação, só tivemos nossa primeira universidade (mesmo assim, só no papel) em 1920; a primeira universidade “pra valer”, só em 1934.

Outra coisa: no século XIX, o Brasil era um país cem por cento agrícola, totalmente dependente da produção e exportação de café. Hoje, no século XXI, a principal atividade econômica brasileira é o agronegócio. Portanto, enquanto outros países emergentes (ou do Sul Global, como se diz hoje em dia), como China e Índia, fabricam e exportam produtos de alta tecnologia, com grande valor agregado, nós ainda produzimos commodities agrícolas, como no século XIX.

Por fim, em países sérios o presidente da república se pronuncia a partir de um púlpito atrás do qual há uma parede de cor sóbria em que estão fixados os símbolos da nação — o brasão de armas, o logotipo da presidência —, isso porque lá o presidente (ou primeiro-ministro) representa o Estado e não o governo de plantão. Aqui, ao falar publicamente, o presidente tem ao fundo um painel multicolorido com desenhos carnavalescos e o slogan de sua gestão: “Brasil, um país de todos”, “Pátria educadora”, “Pátria amada, Brasil”, “União e reconstrução”, etc. Aqui, o presidente não representa o Estado nem a nação, representa a si mesmo, ao seu governo e ao seu partido. Como em qualquer republiqueta bananeira. E, com tudo isso, ainda acreditamos que somos um país relevante no contexto mundial.

O país que não deu certo — e, pelo jeito, nunca dará

Há muito tempo escutamos que o Brasil é o país do futuro. Esse epíteto, cunhado pelo escritor austríaco Stefan Zweig à época da Segunda Guerra Mundial, parece uma profecia: sendo o país do futuro, o Brasil só dará certo… no futuro. E a questão é que o futuro nunca chega, pois, se chegar, deixa de ser futuro e vira presente. Em suma, o brasileiro vive eternamente esperando por um futuro de prosperidade e progresso que está sempre além; ou melhor, vive uma alternância histórica interminável entre momentos de crise e momentos de esperança, em que parece que o tal futuro vai finalmente chegar, mas em que, na realidade, o país apenas retorna a seu estado anterior — ou a um estado ainda pior que o anterior. Parece que nosso país foi concebido para não dar certo. Nunca.

Nosso primeiro fio de esperança — e nossa primeira decepção — foi a frustrada revolução, posteriormente conhecida como Inconfidência Mineira, que pretendia fazer a independência da capitania de Minas Gerais como primeiro passo para a libertação de todo o Brasil. Os inconfidentes tinham um plano ambicioso: instalar um regime republicano e federalista como o dos recém-independentes Estados Unidos da América, libertar todos os escravos, fundar universidades, promover o desenvolvimento econômico, enfim, criar uma nação segundo os princípios iluministas de então. Entretanto, o Brasil só se tornaria independente três décadas depois, e por obra de um golpe de Estado dado pelo próprio filho, o príncipe regente e herdeiro do trono Dom Pedro, em seu pai, o rei de Portugal Dom João VI. Em decorrência disso, nos tornamos uma anacrônica monarquia oligárquica governada pela mesma dinastia de nossos colonizadores e rodeada de repúblicas liberais e progressistas. Nosso primeiro imperador tinha arroubos autoritários e cercou-se dos velhos senhores feudais que dominavam o Brasil desde os primeiros tempos de colônia. Seu filho, Pedro II, tinha uma mente mais aberta ao progresso, mas, mesmo assim, o país permaneceu agrícola durante todo o Império; praticamente, o único industrial do período foi o Barão e Visconde de Mauá, por sinal, um empresário com título de nobreza.

Então vieram, tardiamente, a abolição da escravatura e a proclamação da república. Quem sabe agora o Brasil entraria na modernidade? Só que não: em vez de povo nas ruas, comandando os destinos da nação, o que tivemos foi um golpe dado pelos militares contra a monarquia e a instalação de um regime que nada tinha de democrático, em que somente homens alfabetizados podiam votar (numa época em que grande parte da população era de analfabetos e mulheres), mas em que “os mortos votavam” e o poder dos latifundiários impunha o chamado voto de cabresto. Um regime em que quem governava o Brasil eram os grandes fazendeiros do café de São Paulo e os produtores de leite de Minas Gerais, na famosa política do café com leite.

Essa República Velha teve fim com mais um golpe, desta vez de Getulio Vargas, que implantou uma ditadura explícita, frustrando mais uma vez qualquer expectativa de mudança. A Revolução Constitucionalista de 1932, derrotada pelas tropas federais, tentou em vão opor-se ao regime, que recrudesceu ainda mais a partir de 1937, ano da instituição do Estado Novo.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e a queda de Vargas, o Brasil teve pela primeira vez uma experiência democrática, que infelizmente durou pouco. Nesse período, vivenciamos o boom da industrialização, a campanha do petróleo nacional, a construção em larga escala de rodovias e usinas hidrelétricas, a fundação de Brasília e o prestígio de nossa arquitetura em âmbito mundial, a (quase) Miss Universo brasileira e o sucesso internacional da Bossa Nova, até que o golpe militar de 1964 trouxe um novo período de trevas, encoberto por um falso progressismo chamado de Milagre Econômico, rapidamente arrefecido pela crise internacional do petróleo de 1973. Enquanto isso, a nação que só teve sua primeira universidade em 1920 emburrecia cada vez mais; como disse o professor Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”.

Em 1984, o povo saiu às ruas num belo movimento cívico em prol das eleições diretas para presidente da república, mais uma vez frustrado por uma classe política que pouco ou nada mudara desde o Primeiro Império. O fim do regime militar se deu por uma eleição indireta que o candidato da oposição, Tancredo Neves, só venceu com o apoio da parte dissidente e oportunista do próprio partido que sustentava o regime. E que morreu sem tomar posse, tendo assumido seu vice, José Sarney, um político que fez carreira justamente junto aos governos militares. A nova constituição, ironicamente apelidada de “cidadã”, foi elaborada não por uma Assembleia Nacional Constituinte soberana e independente, mas por um Congresso Nacional dominado por um grupo de políticos e partidos fisiológicos chamado Centrão, que, por sinal, é quem dá as cartas até hoje. E, mais uma vez, nossa esperança de nos tornarmos uma nação desenvolvida e próspera foi por água abaixo. Depois de a década de 1980 ter sido chamada de “década perdida”, perdemos também a de 1990 e continuamos a perder. Tivemos hiperinflação, planos econômicos tão mirabolantes quanto ineficazes, confisco do dinheiro dos trabalhadores, dois impeachments de presidentes, a maior crise econômica de nossa história e até uma tentativa de golpe de Estado. Quando Lula e o PT chegaram ao poder pela primeira vez, novamente se acendeu a chama da esperança, afinal parecia que a velha oligarquia estaria fora do poder. Mas o que se viu foi a aliança de um partido que tem “Trabalhadores” no nome àquela mesma oligarquia, ao alto empresariado e ao famigerado Centrão. E viu-se mais, um mar de corrupção “como nunca antes na história deste país”. Após a vergonha do Mensalão, parecia que algo enfim mudaria: o Supremo Tribunal Federal estava mandando para a cadeia corruptores e corruptos. Mas só até eles serem indultados pela primeira mulher presidente, ou melhor, presidenta, a que ficou famosa por ter inventado um novo idioma, o dilmês.

Novo escândalo, desta vez o Petrolão, e novo sopro de esperança: a Operação Lava-Jato finalmente condenava à prisão figuras até então insuspeitas e sempre impunes, como grandes empreiteiros e políticos ilustres. E mais uma vez, o povo pensou “Agora vai!”. Mas não foi. A Lava-Jato foi sendo pouco a pouco desmantelada, seu comandante, um ilibado magistrado de Curitiba, celebrado mundo afora como o artífice da nova Operação Mãos Limpas, passou de herói a vilão, de juiz parcial e tendencioso a ministro de um governo com inspiração fascista e aspirações totalitárias, de traidor desse mesmo governo a apoiador da reeleição do presidente golpista e senador aspirante a governador do Paraná. Assim como Lula um dia fora o sindicalista que ajudou a derrubar o regime militar e o presidente mais popular do Brasil, “o cara” no dizer de Barack Obama, para depois tornar-se o presidiário condenado por corrupção que foi solto não por ser inocente, mas por uma manobra jurídica de seus aliados, agora o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, que também tinham tido seus 15 minutos de heroísmo, seguiam o mesmo caminho da desonra. E de entrar para a velha política para conseguir alguma sobrevida.

Enfim, somos um país sem heróis, ou cujos únicos heróis são alguns esportistas, em que nenhum movimento político bem-sucedido foi feito pelo povo e sim por militares, em que as elites governantes têm sido sempre as mesmas há séculos e cujos donos vitalícios do poder são os tradicionais coronéis nordestinos, os barões do agronegócio e dos agrotóxicos e as grandes corporações internacionais. Enquanto ficamos aqui sonhando com um futuro que nunca chega, implantando cotas raciais e linguagem neutra de gênero nos cursos superiores e progressão automática no ensino básico, enquanto ficamos nas últimas posições no exame do PISA e rumamos rapidamente para o obscurantismo da ignorância generalizada e do fundamentalismo religioso, com o assustador crescimento das igrejas neopentecostais, países como a Rússia, a Índia e a China abrigam algumas das melhores universidades do mundo e vários ganhadores do prêmio Nobel.

Enquanto nos vangloriamos de ser, em pleno século XXI, um país eminentemente agrícola tal como éramos no século XIX, um país que exporta soja e carne bovina, nossos colegas dos BRICS exportam tecnologia, produtos com valor agregado e não meras commodities.

Enquanto eles têm suas próprias fábricas de automóveis, nós temos montadoras estrangeiras que apenas montam no Brasil automóveis americanos, alemães, italianos, franceses, japoneses e coreanos.

Enquanto eles já mandaram ao espaço foguetes, sondas e até estações espaciais, nosso programa espacial praticamente parou em 2003, quando um acidente de grandes proporções matou técnicos e destruiu o foguete e a base de lançamento. Enquanto eles têm armas nucleares, nós temos o Comando Vermelho e o PCC.

Enquanto ainda estamos tentando promover retrocessos na lei do aborto, países desenvolvidos (ou do Norte Global, como se diz hoje em dia) já superaram essa discussão há décadas. E, ironia das ironias, temos a maior produção de energia hidrelétrica do mundo, mas praticamente todo o nosso transporte de cargas e de pessoas se dá por rodovias, queimando petróleo, e não por ferrovias movidas a eletricidade — e o país literalmente para quando há greve de caminhoneiros.

Revisando nossa história e, assim, compreendendo como chegamos até aqui, tira-se a triste conclusão de que o Brasil é um país que teria tudo para ser uma potência, mas que foi pensado desde o início para não dar certo, um país em que o progresso e a justiça social sempre foram vistos como uma ameaça à elite dirigente — uma elite tosca, de mente tacanha e caráter duvidoso. Nelson Rodrigues costumava dizer que padecemos do “complexo de vira-latas”. Eu acredito que não é só complexo: somos vira-latas mesmo!

MPB, MPP e pop

Outro dia, ouvi um cantor português relatar que os intérpretes da terrinha em geral não gostam de cantar MPB por causa do uso do pronome “você” nas letras. É que em Portugal “você” é tratamento formal, de modo que um verso como “eu amo você” significa para eles algo como “eu amo o senhor” ou “eu amo a senhora”, o que parece uma declaração de amor aos avós.

Por outro lado, se cantores brasileiros cantassem canções portuguesas (o que, por sinal, não fazem), letras dizendo “tu és”, “tu foste”, “dizes” ou “fizeste” soariam para nós como aquelas valsas antigas com letras parnasianas dos tempos de Vicente Celestino, Pixinguinha e Ernesto Nazareth.

Ou seja, diferenças linguísticas acabam por atrapalhar o intercâmbio cultural entre nações irmãs. O fato é que a música popular brasileira faz algum sucesso em Portugal porque, apesar das letras, nossa música é realmente muito boa. Já a MPP (música popular portuguesa, na sigla inventada por mim) não é sequer conhecida por aqui e, pelo que sei, não faz sucesso nem entre os demais europeus.

Enquanto isso, a música pop anglo-saxônica circula livremente entre todos os países anglófonos sem obstáculos linguísticos. É que, salvo uma ou outra palavra, uma ou outra gíria, a língua inglesa é exatamente a mesma em todos os lugares. Aliás, a própria difusão internacional de filmes, séries de TV e canções de língua inglesa se encarrega de espalhar as novas gírias.

É claro que o soft power exercido pelas nações anglófonas se deve a uma série de razões, históricas, políticas, econômicas, sociais e culturais. Mas que a homogeneidade da língua contribui para isso não há dúvida.

Desinfectar é o mesmo que desinfetar?

Quando pensamos que já sabemos tudo sobre a língua, ela nos prega peças, criando nuances de expressão ou de sentido surpreendentes. É o que tem acontecido nestas últimas semanas, diante da pandemia do novo coronavírus. A imprensa tem repetidamente falado sobre as medidas de descontaminação de ambientes como hospitais, aeroportos, trens, metrô, ônibus e demais locais de circulação pública, afirmando que estão sendo devidamente desinfectados. É perfeitamente compreensível que, se o vírus infecta lugares, objetos e pessoas, o inverso desse processo se designa apondo o prefixo des- ao verbo infectar, o que produz desinfectar. O problema é que já dispomos do verbo desinfetar, antônimo de infectar (que também admite a forma infetar).

Resulta daí que desinfetar e desinfectar passaram a ser coisas diferentes: desinfetamos uma torneira, pia, ralo ou objeto (tesoura, alicate, talher) com água e sabão ou com um desinfetante desses que se compram no supermercado; já o ambiente hospitalar contaminado por vírus e bactérias de grande letalidade e alto poder de contágio é desinfectado com procedimentos que envolvem o uso de roupas, equipamentos e produtos especiais, obedecendo a normas rígidas e protocolos internacionais.

Ou seja: se o emprego de desinfectar for chancelado pelas gramáticas e abonado pelos dicionários, o verbo infectar terá dois antônimos, e estes não serão sinônimos entre si (algo como a palavra humano, que, dependendo da acepção, admite os antônimos inumano e desumano).

Só que a coisa não é tão simples assim. Tradicionalmente, o encontro consonantal ct recebe dois tratamentos em português quando se trata do empréstimo de palavras latinas por via culta: ou mantém-se intacto, como em detectar e octógono, ou simplifica-se para t, como em contato, ator e fato (do latim contactus, actor e factus). Em português brasileiro, esse grupo consonântico se grafa como se pronuncia. Por isso, dizemos e escrevemos infectar mas desinfetar. Em português lusitano, a letra c se mantinha, até o Acordo Ortográfico de 2009, mesmo quando era muda; daí que em Portugal se grafava contacto e actor e ainda se grafa facto, uma vez que neste último caso o c nunca deixou de ser pronunciado.

Em face dessa divergência ortográfica que o Acordo visou minimizar, nós brasileiros grafamos infectar mas desinfetar, ao passo que os portugueses grafavam infectar e desinfectar e hoje grafam infetar e desinfetar. Portanto, o neologismo brasileiro desinfectar não faz nenhum sentido em Portugal, isto é, provavelmente é só a imprensa brasileira que está fazendo distinção entre as ações de desinfetar e desinfectar. Somente o tempo dirá se essa nova forma vingará ou não. Afinal, para a maioria dos brasileiros e a totalidade dos portugueses, pouco importa se estamos eliminando vírus letais ou meros germes de banheiro: o verbo desinfetar já dá conta de ambos os sentidos.

A ortografia do português deve ser fonológica ou etimológica?

Todos os sistemas ortográficos já adotados em português sempre oscilaram entre duas posturas: a grafia etimológica, que procura preservar o modo como as palavras se escreviam em grego e latim clássicos, e a grafia fonológica (erradamente chamada de “fonética”, já que o sistema ortográfico deve representar os fonemas da língua, isto é, as unidades distintivas de significado, e não os infinitos e instáveis sons da fala). A primeira postura, defendida já em 1576 por Duarte Nunes de Leão na sua Orthographia da lingoa portuguesa, é evidentemente mais conservadora e exige grande poder de memorização dos falantes, bem como conhecimentos de grego e latim. Já a segunda postura é defendida por aqueles que entendem a língua como instrumento prático de comunicação, cuja escrita deve ser a mais racional e simples possível.

Como um idioma é um misto das duas coisas – instrumento de comunicação e patrimônio histórico e cultural de um povo –, tem-se procurado, na maioria das línguas europeias, um meio-termo entre as duas atitudes. Nesse sentido, substitui-se ph por f, mas mantém-se a distinção entre ss e ç, por exemplo.

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Até aí, nada de errado. O problema são as opções feitas pelos elaboradores de reformas ortográficas sobre o que deve ser mantido e o que deve ser simplificado.

Por exemplo, argumenta-se que “estender” deve ser grafado com s por ser palavra hereditária, isto é, que já fazia parte do acervo lexical dos primeiros falantes do português, ao passo que “extensão” deve ser com x porque é empréstimo erudito. Ou seja, na palavra vernácula deve prevalecer o critério fonológico, enquanto no termo culto deve ser aplicada a regra etimológica.

Esse princípio não faz muito sentido no exemplo dado, visto que “extensão” não é mais, rigorosamente, palavra culta, mas semiculta, pois sofreu metaplasmo (cujo nome técnico é metamorfismo) que igualou sua pronúncia à de “estender”. Exemplo análogo é a palavra italiana estensione, cuja grafia com s se deve exatamente a esse fenômeno, por sinal, abundante naquele idioma.

Mas a questão é: por que substituir o ph de “farmácia” por f, mas manter o x de “extensão”? Em alguns casos, as reformas ortográficas anteriores normalizaram com base na etimologia grafias oscilantes. Assim, se até 1943 “portuguez” e “embriaguez” se escreviam com z, convencionou-se que “português” deveria ser com s, já que nosso sufixo ‑ês provém do latino ‑ensis, enquanto o sufixo ‑ez de “embriaguez” vem do latim ‑ities. Da mesma forma, “quizesse” virou “quisesse” por causa do latim quaesivissem, que é com s, enquanto “fizesse” manteve o z por causa do latim fecissem, sem s.

Nesse caso, toda palavra que em latim tivesse x deveria tê-lo também em português. No entanto, se “texto” e “extensão” se escrevem com x, “misto” e “estender” são com s. E a justificativa não é o caráter culto ou hereditário dessas palavras, pois tanto “texto” quanto “misto” nos chegaram por via erudita. A regra aí é que x só se manteve em vocábulos cultos quando precedido de e (por isso “texto” e também “dextrose”), mas converteu-se em s quando em termos vernáculos (por isso, “destreza”) ou em termos cultos em que não é precedido de e (por isso, “misto”). Dá para entender uma regra dessas?

E se, por razões etimológicas, “portuguez” se tornou “português”, mas “embriaguez” se manteve intacta, então por que “hífen” (do grego hyphen) é com n, mas “devem”, “amém”, “delfim”, “jardim” e “marrom” (respectivamente, do latim debent, amen e delphinus, e do francês jardin e marron) são com m? Isso se aplica até à própria palavra “latim” (de latine)! Aliás, o português é a língua europeia com o maior número de palavras terminadas em m e o menor número em n, na contramão de todas as demais.

E por que quem nasce em Jerusalém é jerusalemita (ou hierosolimita), mas quem nasce em Belém (do hebraico Bethlehem) é Belenense? E por que “albumina” (de “álbum”) é com m, mas “mediúnico” (de “médium”) é com n?

Em resumo, mantivemos a grafia etimológica em alguns casos, mas não em outros. E o critério usado para determinar quais casos são esses permanece obscuro.

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Há ainda uma questão mais delicada do que essa: sendo o português uma língua cujas diferenças de pronúncia entre as diversas variedades (lusitana, brasileira, africana, asiática) vai além do plano puramente fonético, mas atinge o fonológico (isto é, não se trata da mera diferença de pronúncia de um fonema, mas do emprego de fonemas diferentes), a representação gráfica das palavras não deveria ser tão rigorosamente fiel à fonologia da língua quanto o é em espanhol ou italiano, por exemplo. Na verdade, deveríamos adotar um sistema a meio caminho entre os dessas duas línguas e o de idiomas como o francês e inglês, em que a distância entre o que se escreve e o que se diz é bem grande.

Um exemplo disso é a questão do timbre das vogais a, e e o e do consequente uso dos acentos agudo e circunflexo. Em Portugal, grafa-se (e pronuncia-se) parámetro, génio e económico, enquanto aqui no Brasil se diz e se escreve parâmetro, gênio e econômico. Ora, visto que não há oposição fonológica (isto é, distinção de significado) entre vogal aberta e vogal fechada diante de consoante nasal, o que equivale a dizer que as pronúncias nóme, nôme e nõme significam exatamente a mesma coisa, “nome”, seria mais lógico que se adotasse um único acento (o agudo, digamos) tanto lá quanto cá, qualquer que seja o timbre da vogal em cada uma das localidades do mundo onde se fala português. (Nesse ponto, sou até um pouco mais radical: acho que também a grafia do ditongo ão em certos casos deveria encontrar um meio-termo; afinal, o que no Brasil é islã, garçom, acordeom e elétron em Portugal é islão, garção, acordeão e elétrão.)

A conclusão que se tira de tudo isso é que nossa língua vive certos impasses, decorrentes em grande parte do distanciamento cultural e linguístico entre os diversos povos lusoparlantes, impasses esses que dificultam inclusive a difusão internacional do sexto idioma mais falado do mundo e que são dificílimos de contornar, especialmente porque uma reforma radical de nossa ortografia, como tudo o que é radical, é impensável – ou, pelo menos, deveria ter sido feita pelo menos um século atrás.

O português visto por um sueco

Henrik Brandão Jönsson é um jornalista e escritor sueco que vive no Brasil há quase 20 anos. Este mês, ele publicou na revista sueca Språktidningen (isto é, “Revista Língua”) uma matéria sobre o nosso idioma, especialmente o português brasileiro. E eu traduzi o texto para vocês. A versão original pode ser encontrada em http://spraktidningen.se/artiklar/2017/12/jorden-runt-pa-portugisiska. Aí está.

A Terra em torno do português

Como uma língua, falada por um quarto de milhão de pessoas em quatro continentes, não recebe mais atenção? Språktidningen passou por longas jornadas para descobrir o porquê.

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Vasco da Gama

Quando Vasco da Gama retornou a Lisboa em 1499, foi recebido como um herói. O fato é que ele não conseguiu encantar os governantes da Costa do Malabar. Como o primeiro europeu, ele descobriu o caminho marítimo para a Índia e quebrou o monopólio veneziano. Só as especiarias e os tecidos que os portugueses compraram em Calicute pagaram a expedição seis vezes e iniciaram o que os historiadores chamam de Carreira da Índia – uma frota de centenas de navios que navegaram entre Portugal e a Índia nos anos seguintes.

Além do comércio, Vasco da Gama deu início à expansão da língua portuguesa. Nas gerações seguintes, os portugueses conquistaram as metrópoles comerciais mais importantes do mundo e criaram a primeira superpotência global do mundo. Manuel I – que, por acaso, se tornou rei de Portugal em 1495 – governou a frota com os maiores, mais rápidos e mais modernos navios do mundo, que ligavam a Europa à África, Índia e China.

Durante uma subsequente viagem comercial para a Índia em 1500, Pedro Álvares Cabral navegou para oeste no Atlântico até avistar terra. O navegador achou que descobrira uma grande ilha, fincou uma cruz na praia e nomeou o lugar de Ilha de Vera Cruz. O que o navegador não sabia é que não foi em uma ilha que aportara. Era o continente sul-americano. Devido a um erro de navegação, os portugueses conquistaram o país onde se encontra hoje a maioria dos falantes de português do mundo: o Brasil. Também foi o prelúdio de um longo e inflamado conflito linguístico.

Embora todos os oito países que têm o português como língua oficial tenham assinado uma reforma ortográfica conjunta em 1990, Portugal e o Brasil ainda discutem como as mudanças serão implementadas.

O escritor e linguista brasileiro Sérgio Rodrigues acaricia a cabeça careca em sua sala de estar no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro.

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Sérgio Rodrigues

– Isso lembra uma discussão familiar. Nós gostamos uns dos outros e queremos o melhor para o idioma. Mas ambos querem fazer o seu caminho. Já houve prestígio no objetivo. Vários jornalistas e escritores portugueses se recusam a seguir a reforma ortográfica, diz ele.

Sérgio Rodrigues lançou no início deste ano o aclamado livro Viva a Língua Brasileira, que provoca ao chamar a língua portuguesa de brasileira. O que ele quer destacar é que 210 milhões de brasileiros desenvolveram o idioma e fizeram dele o seu próprio.

– Nós brasucas amamos as vogais e botar para fora as palavras. Passamos muito tempo ao ar livre, com o sol brilhando e somos mais abertos como pessoas do que os portugueses. Eles são o oposto – estão se fechando em si mesmos e gostam das consoantes. Eles fecham as palavras de modo que mal se consegue ouvi-las.

Outra razão para o português brasileiro ter uma expressão tão diferente, ele acredita, é que o Brasil viveu por muito tempo como um gigante isolado, cercado por vizinhos de língua espanhola.

– Portugal nos abandonou e nós tivemos que desenvolver o idioma por conta própria, diz ele.

O fato de o Brasil ser o país do mundo que mais comprou escravos africanos, acredita, também contribuiu para que a língua seja diferente. Para denominar “confusão” em português brasileiro, no sentido de “desordem”, usa-se a palavra bagunça, que tem raízes em uma língua bantu falada em Angola. No português europeu, usam-se as palavras desordem e confusão para designar a mesma coisa.

– A influência africana mudou nossa maneira de falar, diz Sérgio Rodrigues, um dos principais especialistas no idioma do Brasil.

Ele escreveu três romances, dos quais o último, O Drible, ganhou um dos melhores prêmios de literatura do mundo de língua portuguesa, o Grande Prêmio Portugal Telecom. Ele também escreveu o livro de não-ficção What língua is esta?, que descreve como os brasileiros usam sua língua. E toda quinta-feira escreve a coluna sobre língua mais lida do país no maior jornal brasileiro, a Folha de São Paulo. Sérgio Rodrigues acredita que uma das razões pelas quais o português se tornou tão marginalizado é que não há uma frente unida que possa promover o idioma.

– Olhe para a Academia Espanhola em Madri. Lá houve um acordo em torno do idioma e permite-se que ele seja falado de maneira diferente no México, Argentina, Colômbia e Espanha. Não há rivalidade. Para eles, o espanhol é a língua tanto de Jorge Luis Borges como de Miguel de Cervantes e Gabriel García Márquez. Os autores de língua espanhola também têm uma conexão mais forte com Madri. Os autores brasileiros não têm uma ligação correspondente com Lisboa. Durante a ditadura militar, os intelectuais do Brasil foram para o exílio em Roma, Paris e Londres. Ninguém escolheu Lisboa. Os autores de língua espanhola, no entanto, se instalaram em Madri ou Barcelona.

A língua portuguesa não tem um instituto cultural forte que realize ações linguísticas no exterior. Enquanto o inglês, francês, espanhol e alemão são promovidos com êxito pelo British Council, Alliance Française, Instituto Cervantes e Goethe-Institut, o português possui apenas o modesto Instituto Camões, que se encontra no ministério português das relações exteriores. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil de 2003 a 2010, tentou mudar isso e formou o Instituto Machado de Assis. Esse instituto recebeu a tarefa de difundir a cultura brasileira e a língua portuguesa no mundo. Mas depois de apenas alguns anos de operação, o projeto foi descartado por falta de dinheiro.

– É uma grande pena que não promovamos melhor a nossa língua e a nossa cultura, afirma Sérgio Rodrigues.

A principal razão pela qual o português tem tido um papel tão marginalizado, embora seja significativamente maior do que o alemão, o francês e o italiano, acredita ele, consiste na ruptura entre Brasil e Portugal.

– O Brasil é o quinto maior país do mundo, engolindo Portugal numa só mordida. Os portugueses escutam música brasileira, assistem aos nossos programas de TV e amam nossas praias. No entanto, eles têm um orgulho que os faz não querer nos levar a sério. Eu acho que isso tem a ver com o Brasil ter-se tornado muito maior do que Portugal. Nossa economia nos permite comprar seu país todos os dias. Sua reação ao nosso domínio é não deixar o controle sobre a língua. Essa é a última coisa que eles têm.

Embora a reforma ortográfica comum seja obrigatória na escola primária de Portugal, muitos portugueses se recusam a aplicar as mudanças pelas quais o Brasil passou. Isso significa que, em Portugal, às vezes se escreve contacto em vez de contato e óptimo em vez de ótimo. Quando o conflito chegou ao auge, Portugal obrigou as Nações Unidas a traduzir seus documentos em uma versão portuguesa e uma brasileira, porque em Portugal “cúpula” é chamada de cimeira enquanto no Brasil se chama cúpula. Do contrário, a diferença não é tão grande entre as formas de escrever.

No último andar de um belo edifício colonial na capital de Goa, Panjim, Inês Figueira trabalha para difundir a língua portuguesa na Índia. Ela é diretora da portuguesa Fundação Oriente, que recebe dinheiro da antiga colônia de Macau, na China, para fortalecer a língua portuguesa em todo o mundo. Sua principal tarefa é coordenar os professores que ensinam em português nas escolas privadas católicas em Goa. As escolas entram com as instalações, e a fundação fornece materiais de curso e professores.

Embora o nacionalismo hindu esteja se espalhando fortemente na Índia, o número de alunos aumenta a cada ano. Este ano, mais de mil alunos se inscreveram nos cursos de português em Goa.

– O meu maior desafio agora é encontrar bons professores. Mesmo o meu melhor professor às vezes conjuga os verbos errado, ri Inês Figueira.

O fato de o número de alunos aumentar em 11 por cento ao ano não é apenas porque os goenses querem aprender português para tornar-se mais atraentes ao mercado de trabalho global. O principal motivo é que os jovens querem vencer o festival de música anual Vem Cantar, que a Fundação Oriente organiza em Goa. Todos os anos, 200 meninas e meninos participam de várias competições. Uma seleção se classifica para a final, que é o evento do ano entre os jovens de Goa. Os artistas não são julgados pela indumentária, dança ou canto, mas o que o júri está mais interessado é no quão bem os textos são escritos em português.

Um dos alunos que passaram depois de ganhar o festival de música é a cantora de fado Sónia Shirsat. Após a vitória, ela recebeu uma bolsa para estudar a origem do fado em Lisboa.

– Ela é a embaixadora mais importante da língua portuguesa em Goa. Muitos querem ser como ela, diz Inês Figueira.

O problema da fundação é que nem todos veem com a mesma alegria o estilo liberal que os colonizadores portugueses deixaram na Índia. Dentro do partido nacionalista hindu BJP, que governa a Índia, encontra-se a ala de extrema direita RSS. Dela fazia parte o membro que assassinou o Mahatma Gandhi em 1948 depois que soube que Gandhi havia perdoado os muçulmanos da Índia.

Desde que Narendra Modi se tornou primeiro-ministro da Índia em 2014, a RSS vai de vento em popa e conseguiu atacar impunemente vários edifícios coloniais em Panjim. Os membros derrubaram placas de rua em português e riscaram nomes portugueses escritos em fachadas.

– É tão ridículo. A língua portuguesa não é uma ameaça à Índia hoje, diz Inês Figueira.

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Macau, China

A apenas 45 minutos de avião de Hong Kong fica a península de Macau, na chinesa Macau. É uma região administrativa especial na China, que se tornou o maior antro do jogo no mundo. Todos os dias, cerca de 400 mil chineses ansiosos por jogar invadem a região, cujos cassinos faturam sete vezes mais que os de Las Vegas. Na parte antiga da cidade, em um prédio colonial pintado de ocre que anteriormente abrigava um hospital português, funciona o Instituto Português do Oriente. O Instituto Cultural está subordinado ao Instituto Camões, mas recebe metade dos recursos da Fundação Oriente. Todos os anos, o Instituto Português do Oriente tem até 5 mil estudantes chineses que estudam português.

– A China é o país em que o português mais cresce atualmente, diz João Neves, diretor do Instituto Português do Oriente.

A razão se encontra na troca comercial da China com o Brasil. Embora o Brasil esteja atualmente passando por uma crise política, social e econômica, ainda é a sétima maior economia do mundo e o país da América do Sul onde a China mais investe. Há muitos anos, a China ultrapassa os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil.

– Muitos chineses querem aprender português para poder comerciar com o Brasil, afirma João Neves.

Quando as aulas noturnas começam às seis da tarde, os corredores do ex-hospital enchem-se de estudantes chineses a caminho das salas de aula. Estou com uma classe composta por alunos que atingiram o nível mais alto, C1. Todos sabem escrever e falar português, embora não saibam falar com fluência. Nenhum deles escolheu estudar português para trabalhar com o Brasil. Sua principal motivação é usar o português para fazer carreira em Macau. Como a região é bilíngue – com cantonês e português – os funcionários do estado que lidam com ambos os idiomas podem se tornar altos gerentes. Outros que frequentam o curso são advogados chineses que precisam do português para interpretar a legislação de Macau, que ainda está ancorada no português.

– Temos feito todos os esforços para aprender português, diz Maggie Lu, que estudou português por quatro anos.

Além da gramática, a pronúncia é um desafio. Os estudantes chineses, entre outras coisas, têm problemas para pronunciar a letra r, que é extremamente rolante no português europeu. A palavra prato vira facilmente pato.

– Eles lutam muito com a pronúncia e têm dificuldade com o gênero. Mas eles estão ficando cada vez melhores. Eles são meus melhores alunos, diz o professor João Paulo Pereira.

Macau não assinou a reforma da língua de 1990, mas João Paulo Pereira de toda maneira a usa em seus ensinamentos.

– Não entendo por que se discute sobre a reforma da língua. Já está implementada e é para segui-la, diz ele.

Fatos portugueses

Propagação

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Países onde o português é língua oficial: Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Regiões onde se fala português: Goa, na Índia, e Macau, na China. Até em Caracas, na Venezuela, e em Toronto e Montreal, no Canadá, o português é amplamente falado, devido à extensa migração proveniente dos Açores e da Madeira.

CPLP

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Os países de língua portuguesa formaram a união CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para fortalecer o comércio entre os países. Até a petrolífera Guiné Equatorial é membro, embora o país tenha sido colônia portuguesa somente até 1778.

Reforma ortográfica

A reforma de 1990 teve como objetivo a criação de um padrão internacional de ortografia portuguesa. A reforma foi ratificada por todos os países onde o português é língua oficial.

A reforma visa a tornar unificada a língua portuguesa escrita. No acordo, aboliu-se a maioria dos c iniciais nos encontros cc, e ct, e os p iniciais em pc, e pt em português europeu e africano, bem como o trema e o acento em palavras que terminam em éia no português brasileiro. Algumas novas regras de ortografia também foram adicionadas.

No entanto, Portugal e o Brasil ainda têm dificuldade em entrar em acordo. As duas variantes ainda apresentam diferenças.

Português europeu: acção, direcção, facto, ideia, eléctrico

Português brasileiro: ação, direção, fato, idéia, elétrico

Fonte: Wikipédia

Exploradores

Vasco da Gama empreendeu em 1497 uma viagem de navio para encontrar uma via marítima para a Índia. Suas bem-sucedidas viagens deram logo a Portugal o monopólio do lucrativo comércio com a Índia. Três anos depois, Pedro Álvares Cabral descobriu o continente sul-americano por pura sorte. Ele também navegava para a Índia. Os bens cobiçados no comércio com a Ásia incluíam, dentre outros, especiarias, pedras preciosas e seda. Os negócios contribuíram para tornar Portugal uma grande potência com colônias em vários continentes.

O mundo lusófono

Os países de língua portuguesa fazem parte do chamado mundo lusófono. Luso- remete ao deus romano Lusus, e -fono vem da palavra grega para “som, voz”. A parte ocidental da península ibérica é chamada Lusitânia.

As 10 línguas mais faladas no mundo

  1. chinês
  2. espanhol
  3. inglês
  4. hindi
  5. árabe
  6. português
  7. bengali
  8. russo
  9. japonês
  10. punjabi

3 perguntas para Henrik Brandão Jönsson

Você é de Malmö, como você foi parar no Brasil?

No verão de 1998, morei em Lisboa e trabalhei na exposição mundial Expo ’98. Aprendi português e no ano seguinte fui para Cabo Verde. Uma noite, quando estava na praia e olhei para o Atlântico, eu disse ao meu colega fotógrafo: “Em algum lugar por aí fica o Brasil. A gente tem que ir para lá”. No ano seguinte, nós voamos para lá e mais ou menos depois disso eu não voltei mais para casa.

O português tem algo em comum com o dialeto de Malmö?

Os ditongos são os mesmos. Para um nativo da Escânia, é bem mais fácil aprender português do que para qualquer outra pessoa na Suécia.

Como os brasileiros fazem frente ao espanhol?

O Brasil sempre se viu culturalmente mais perto dos Estados Unidos, Europa e África do que de seus vizinhos. Há 15 anos, quando Lula da Silva se tornou presidente, isso mudou. O número de brasileiros conhecedores da língua espanhola tem aumentado desde então.