“O homem é a medida de todas as coisas.” A famosa frase do filósofo grego Protágoras (c. 490 a.C. – c. 415 a.C.) foi completada à época do Renascimento: “O homem é a medida de todas as coisas; é a medida do bom, do belo e do justo”. A ideia de que o bom e o belo andam juntos é bem antiga (na língua grega, kalós significa tanto “bom” quanto “belo”). E em latim também há essa relação. Nossa palavra bom veio do latim bonus, cuja forma arcaica era duenos; já belo vem de bellus, cuja forma primitiva era duenolos, diminutivo de duenos, do mesmo modo como bonito provém do espanhol, em que é um diminutivo de bueno. Portanto, o belo é o “bonzinho”, forma carinhosa de descrever algo bom.
De fato, como se sabe desde o advento da estética, ramo da filosofia que tem por objeto de estudo o fenômeno da beleza, belo é aquilo que é bom para os sentidos, especialmente a visão e a audição (o que é bom para o olfato é cheiroso, o bom para o paladar é saboroso, e para o tato é macio).
Portanto, há muito tempo o homem se pergunta o que torna belo um objeto, especialmente uma obra de arte. Mas não só ela: por que algumas pessoas são belas, outras são feias, outras não cheiram nem fedem? E por que achamos belos certos lugares e não outros? Por que até uma simples pedra pode ter uma forma bela, ainda que produzida casualmente pela natureza? Em outros termos, por que achamos belo algo que não foi criado para esse propósito?
Se o belo é o bom para os sentidos, aquilo que nos dá prazer, a noção de beleza se reduz à de qualidade. E qualidade não tem nada a ver com gosto, como pensam muitos. A qualidade é objetiva: qualquer um sabe distinguir perfeitamente um produto ou serviço de qualidade de um ruim. Nesse sentido, Beethoven, Tom Jobim ou Beatles são objetivamente melhores que Tati Quebra-Barraco ou Ana Castela. Já o gosto é subjetivo e decorre sobretudo da influência do meio: uma pessoa nascida e criada num ambiente pobre e exposta desde a infância ao funk e ao forró certamente gosta desses gêneros, até porque não conhece ou não compreende outros. A pressão social faz com que cada um molde seu gosto ao ambiente a que pertence e ao qual procura adequar-se. Isso significa que uma coisa é não gostar da música de Chico Buarque, outra é afirmar que sua música é ruim.
No artigo A ciência do gosto, ilustrei como experimentos científicos demonstraram que o senso estético tem uma natureza biológica; ainda que certas preferências sejam condicionadas por fatores culturais, há uma tendência convergente em todos os seres humanos de reconhecer o belo de modo objetivo. E a beleza normalmente obedece a certos padrões que têm a ver com simetria, harmonia e originalidade.