Alguns linguistas têm criticado a gramática normativa por eleger prioritariamente textos literários como modelo a nortear o que deve ou não ser abonado em termos de norma. Em contraposição, sugerem que se adotem como parâmetro os discursos jornalístico e acadêmico, mais próximos, segundo eles, do que a maioria dos usuários cultos do idioma demanda como exemplo de redação a ser seguido, o chamado “grau zero da escrita” de Roland Barthes.
Esse argumento parece até razoável se considerarmos, como disse no artigo do mês passado, que os grandes literatos não consultam gramáticas para elaborar suas obras e que os cidadãos comuns, especialmente os estudantes e os profissionais de nível superior, buscam produzir textos profissionais com feição mais próxima ao jornalístico ou ao acadêmico do que à alta literatura.
O problema é que os escritores de ficção de hoje em dia escrevem muito mais como jornalistas do que como artífices da palavra, ao contrário do que faziam os escritores do passado. E os jornalistas e acadêmicos de hoje em dia escrevem muitas vezes como estudantes de ensino básico.
Como pesquisador na área da linguística, sou constantemente requisitado a dar pareceres em artigos científicos submetidos para publicação em periódicos especializados, assim como, na qualidade de docente, sou frequentemente convidado a integrar bancas de mestrado e doutorado e, portanto, obrigado a ler dissertações e teses. Em ambos os casos, constato horrorizado as barbaridades gramaticais e lexicais que nossos acadêmicos e/ou candidatos a acadêmicos perpetram.
Quanto ao jornalismo, fica a impressão de que quem redige as matérias atualmente, em especial na mídia eletrônica (a impressa já deixou de existir há muito tempo), não são jornalistas formados e sim estagiários, provavelmente cursando as inúmeras faculdades xiriricas que existem por aí. Seguem algumas “pérolas” que pesquei em sites jornalísticos (grifos meus):
1) “Tom Jobim promoveu a ‘fundição’ do samba com o jazz”;
2) “Os alimentos estocados estavam em ‘inconformismo’ com as normas sanitárias”;
3) “É preciso haver um ‘equilibramento’ entre oferta e demanda”;
4) “Com o ‘restauramento’ da monarquia na França…”.
Fico imaginando Tom Jobim fundindo o samba ao jazz numa serralheria ou num forno siderúrgico, assim como visualizo mentalmente alimentos inconformados e indignados por terem sido estocados em desacordo com a lei.
E temos ainda as traduções malfeitas do inglês, como realizar no sentido de perceber e inauguração em lugar de posse.
Pois é, amigos, fundição por fusão, incorformismo por desconformidade, equilibramento por equilíbrio, restauramento por restauração… É esse o padrão de exemplaridade idiomática que meus colegas linguistas propugnam? Ou eles também pretendem estabelecer um “cânone” jornalístico assim como existe o cânone literário? E o cânone acadêmico, seria integrado por quem? Por eles mesmos? Os textos de Marcos Bagno, eivados de erros de português (propositais) fariam parte desse cânone?
O fato é que temos hoje no Brasil uma grande quantidade de textos acadêmicos com erros decorrentes da má escolarização dos atuais mestres, doutores, mestrandos e doutorandos. Quanto aos textos jornalísticos (especialmente os de internet), são escritos às pressas, por estagiários analfabetos funcionais, com erros de digitação, ortografia, pontuação, palavras invertidas, frases truncadas, fruto de uma edição apressada e não revisada feita em editores de texto como o Word®. É isso que devemos tomar como guia para escrever bem?
Diante de todos esses descalabros que dublês de jornalistas e de docentes universitários cometem, só me resta dizer duas palavras: para bens!