O planeta tem esse nome porque é plano?

Parece incrível, mas em pleno século XXI ainda tem gente acreditando que a Terra é plana: são os terraplanistas, que, juntamente com os antivacinistas, formam a maior parte dos chamados negacionistas (o sufixo ‑ista de todos eles evidencia que são seguidores de ideologias ou doutrinas e constituem verdadeiros movimentos – ou seitas).

Existem negacionistas menos populares que esses dois tipos acima, como os que negam a morte de Elvis Presley e os que negam a morte de Hitler (claro, o Führer está vivo e forte aos 133 anos de idade!). Ao contrário, há aqueles que acreditam que Paul McCartney morreu em 1967 e quem está até hoje gravando discos e fazendo shows em seu lugar é um impostor.

Mas um dos comentários mais hilários que li de um terraplanista é que o planeta Terra se chama planeta justamente porque é plano. Tudo bem que nossos antepassados da Antiguidade ou da Pré-História pensassem que a Terra é chata, afinal a extensão de território que eles conseguiam percorrer era pequena demais para perceber a curvatura do nosso corpo celeste. Mesmo o horizonte marítimo visto da praia parece retilíneo, mas Aristóteles sabiamente já argumentava que, se a Terra fosse de fato plana, os navios não desapareceriam no horizonte. E os eclipses mostravam sobre a Lua a sombra circular da Terra, o que os gregos também já haviam percebido. Aliás, foi na Grécia antiga que, pela primeira vez, se mediu a circunferência da Terra. O autor do brilhante feito foi o matemático e astrônomo Eratóstenes de Cirene, e seu erro em relação à medida atual foi de apenas 300 quilômetros!

Mas, se os gregos já sabiam que nosso planeta é esférico, porque lhe deram justamente o nome de planeta? A resposta é simples, pelo menos para quem estuda etimologia e sabe um pouco de grego: é que a palavra grega planétes, que deu nosso planeta, não tem nenhum parentesco com o latim planus, que deu o português plano. Na verdade, planétes quer dizer “viajante”, do verbo plánasthai, “vagar, viajar”. Ou seja, os gregos não só sabiam que os planetas são esféricos como também que se movem no espaço. É verdade que o modelo geocêntrico de Ptolomeu colocava a Terra no centro do mundo, portanto numa posição imóvel em torno da qual os outros planetas giravam. Logo, a denominação planeta inicialmente não se aplicava à Terra. Foram os astrônomos renascentistas, a partir de Copérnico, que compreenderam que o centro era o Sol e que a Terra também se movia (eppur si muove, “e no entanto se move”, teria dito Galileu após ter abjurado do sistema heliocêntrico perante a Santa Inquisição a fim de preservar a própria vida). Portanto, agora a Terra também era um planeta, isto é, um viajante, um corpo errante no Universo.

Infelizmente, 400 anos depois disso e malgrado os esforços empreendidos e os riscos corridos pelos cientistas, ainda tem gente acreditando que a Terra é plana. E usando da falsa etimologia, ou etimologia de botequim, para sustentar sua esdrúxula teoria.

8 comentários sobre “O planeta tem esse nome porque é plano?

  1. No fundo, terraplanistas, antivacinistas e sebastianistas de alto e baixo coturno são ingênuos e ignorantes que têm em grupos de zap-zap a única fonte de informação.

    A baboseira circula e todos mergulham de cabeça. Ainda está pra ser explicado como é possível descabeçados se jogarem de cabeça. Mas essa já é uma outra história.

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  2. No texto, esta relação entre terraplanistas e antivacinistas e outros dados é de duvidosa legitimidade.
    O terraplanismo é mais um discurso de passatempo, diversionista, apesar de se ter de compreender que existe uma perspectiva, inclusive, de longe, a mais utilizada pela humanidade, que parte da premissa de que a Terra é plana; o conceito de redondez é basicamente científico, fora da alçada do senso comum em seus afazeres cotidianos.
    A propósito não é – como diz o texto – a possibilidade de locomoção em maior escala que aciona a ideia de que a Terra é redonda, e não plana. O conceito de esfericidade é, como sugeri, plenamente científico, fora das possibilidades do senso comum. Porque a Ciência diz, então, é verdade!
    Pode acontecer em casos esporádicos, mas o antivacinismo, no geral – e aplicado especificamente ao caso do Covid – não decorre do negacionismo, mas de outros postulados, como, por exemplo, o de que, pela nossa Constituição, o cidadão não deve ser obrigado a fazer ou deixar de fazer, senão o que está previsto em Lei.
    O que se alegava era a impossibilidade de o Estado obrigar, e não que a vacinação seria algo que devesse ser negado, pelo simples fato de ser negado.

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    1. Sobre o terraplanismo, é preciso esclarecer que a ideia de que a Terra é plana só faz parte do senso comum de pessoas iletradas e totalmente alienadas. Qualquer um que tenha ido à escola ou assista televisão sabe que a Terra é redonda. Nesse sentido, os terraplanistas não são pessoas ignorantes; muitas delas têm até curso superior! Elas são, sim, pessoas negacionistas por razões ideológicas – ou psicanalíticas!
      Quanto ao antivacinismo, há duas considerações a fazer. Primeiro, há muitas pessoas bem informadas que duvidam da eficácia das vacinas e acreditam mesmo em sua nocividade, e por isso propagam informações mentirosas (fake news) sobre elas a fim de desencorajar que outras pessoas se vacinem. Mais do que negacionistas, essas pessoas são criminosas.
      Segundo, todo cidadão tem, além dos deveres legais (votar, prestar serviço militar, pagar impostos, etc.), deveres morais. Vacinar-se, não tanto para proteger a própria saúde, o que é uma decisão individual, mas para proteger a saúde dos outros, é um dever moral. Quem se recusa a tomar vacina invocando sua liberdade individual é, na verdade, um individualista egoísta, que pouco se importa com o próximo. Se a liberdade individual estivesse acima do bem coletivo, não seríamos obrigados a usar cinto de segurança no trânsito. Só que o cinto, ao proteger nossa vida, desafoga o serviço público de saúde. O mesmo raciocínio vale para o combate ao tabagismo. O que está em jogo é a garantia de que os hospitais públicos não fiquem superlotados por causa de doenças ou acidentes que poderiam ser evitados. É tudo uma questão de cidadania: ou se tem ou não se tem!

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      1. Falo por mim. Não sou terraplanista, nem não-terraplanista, porque não tenho condições técnicas de me posicionar a respeito. Mas sou um incentivador do confronto com a Ciência, porque a Ciência não é a dona do pedaço. No fundo, a teoria do terraplanismo serve para alertar as pessoas de que não se deve confiar cegamente nos achados científicos.
        A Ciência não pode se basear no consenso. Se um estudioso duvida da eficácia da vacina, baseado em dados, não está sendo criminoso, nem a Ciência está aí pra criminalizar os que discordam de suas teorias. Quem faz isto, criminalizar o posicionamento de cientistas alheios ao establishment, é, em nosso tempo, um Ideólogo, via de regra um esquerdista. (A Igreja Católica já fez esse papel, e recuou., inclusive pedindo perdão.).
        O dever moral do cidadão está inscrito num texto chamado de Constituição. Se há outros deveres morais, isto fica por conta do indivíduo em particular, segundo sua maneira de ver a vida. A vacina da Covid não está na Constituição e, portanto, a decisão moral, vacinar-se ou não se vacinar, fica a cargo de cada um., segundo a sua consciência.

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  3. A ideia de que o cidadão deve satisfações ao corpo social é uma incrustação do Socialismo (e, portanto, do Esquerdismo). Mas o cidadão consciente não está alheio à Sociedade. O cidadão deve respeitar os membros de sua comunidade, tanto quanto prestar favores à sociedade menos favorecida. Se o cidadão não respeita os demais membros da sociedade, é um canalha; se o cidadão não presta socorro aos menos favorecidos, é um insensível. Mas isto não deve ser uma imposição do Estado Socialista, senão que uma deliberação individual. Não é o Estado que define minha bondade, mas eu, em particular, que sei como fazer isto. É diferente.

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    1. Lamento dizer que você está bem mal informado – ou agindo de má-fé. O que você chama de establishment científico é na verdade o conjunto dos pesquisadores que se baseiam em dados concretos, obtidos por metodologias rigorosamente testadas, e em teorias fartamente comprovadas. O que você chama de cientistas fora do establishment são em geral pseudocientistas que se baseiam em dados frágeis ou mesmo fraudulentos e que, por isso, não têm o respeito da comunidade científica, como, por exemplo, os que negam a mudança climática ou põem em dúvida a eficácia de vacinas.
      Para seu governo, não sou esquerdista e, mesmo assim, deploro esses pseudocientistas, logo, a sua premissa é falsa e fortemente contaminada por viés ideológico antiesquerdista (bolsonarista, eu diria).
      Para você, a ideia de que o indivíduo deve satisfações ao corpo social se chama esquerdismo (como se ser de esquerda fosse algum defeito moral); para mim, se chama ética. Ou seja, você se vale da Constituição, um documento feito por políticos e que só define de maneira genérica os deveres dos cidadãos, para justificar o seu individualismo. Então me faça um grande favor: pare de seguir o meu blog e pare de me importunar com seus comentários desfaçados.

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