O politicamente correto, a ideologia da neutralização de gênero e a Constituição alemã

O politicamente correto e seu mais novo rebento, a ideologia da neutralização de gênero, têm dado muito o que falar – mal, principalmente. Não à toa, tal a bizarrice dessa proposta, que, apesar de bem-intencionada, promete não chegar a lugar algum, pois suas bases lógicas, científicas e políticas são frágeis como bolha de sabão em espinheiro.

O problema é que a vida imita a arte, e vice-versa, e aquilo que achamos absurdo a ponto de virar motivo de piada de repente é levado a sério por gente insuspeita. Pois ontem o humorista português Ricardo Araújo Pereira publicou uma crônica satírica cuja leitura recomendo vivamente às minhas leitoras e aos meus leitores e que deveria fazer corarem as defensoras e os defensores do tal gênero neutro. Só que elas e eles não coram. Pelo contrário, elas e eles levam muito a sério uma ideia que não tem a menor possibilidade de prosperar. Tanto que elas e eles chegam a redigir documentos oficiais como a Carta Magna de um país de respeito nessa linguagem que nenhum ser humano ou ser humana em estado normal consegue falar.

Para verem que não estou mentindo, transcrevo abaixo a tradução para o português de um pequeno trecho da Constituição da República Federal da Alemanha, em sua redação mais recente, após a reunificação.

  • O Governo Federal: O Governo Federal é composto pela Chanceler Federal ou Chanceler Federal e pelas Ministras Federais ou Ministros Federais. Juntos, elas ou eles compõem o Gabinete.
  • O papel da Chanceler Federal ou do Chanceler Federal: A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tem uma posição de destaque no governo. A Chanceler Federal ou  o Chanceler decide quem se torna membro do governo, pois só ela ou ele tem o direito de formar um Gabinete. A Chefe do Governo ou o Chefe do Governo escolhe as Ministras ou os Ministros e faz uma proposta vinculativa para a sua nomeação ou exoneração do Presidente Federal. Ela ou ele também decide sobre o número de Ministras ou de Ministros e define suas áreas de responsabilidade. A Chanceler Federal ou o Chanceler Federal determina os pilares da política governamental (Princípio do Chanceler).
  • O papel da Ministra ou do Ministro: Embora a Chanceler Federal ou o Chanceler Federal tenha o direito de emitir instruções às Ministras ou aos Ministros, a Constituição também enfatiza que as Ministras Federais ou os Ministros Federais administram sua área de responsabilidade de forma independente e sob sua própria responsabilidade dentro do quadro político definido (Princípio Departamental).

Pois é, minhas amigas, meus amigos e mees amigues, cabe a todas, todos e todes vocês julgar se esse negócio de linguagem neutra de gênero faz algum sentido ou não – ou, como se diz lá em Minas: Tem base esse trem?

Qual a pronúncia correta de sintaxe?

Prof. Aldo, gostaria de saber qual é a pronúncia correta da palavra “sintaxe”: “sintasse” ou “sintacse”? Muito obrigado.
Fábio Luiz Cerqueira

Essa é uma questão interessante de ortoépia. Trata-se de uma dessas palavras que, por serem escritas com “x”, letra de inúmeros valores fonológicos em português, acabam por confundir até os falantes mais cultos. Há uma crença disseminada na sociedade de que palavras de origem grega ou latina pertencentes à esfera da cultura devem ser pronunciadas tal como o eram naquelas línguas. E assim acaba ocorrendo o fenômeno da hipercorreção, em que o falante articula “x” como /ks/ e “qu” como /kw/ mesmo onde essa pronúncia não existe. Exemplos clássicos disso são “mácsimo” e “inqüérito”.

Todos os dicionários que consultei recomendam a pronúncia “sintasse”. E a razão é simples: o todo-poderoso uso. Isso porque “sintaxe”, “máximo” e “próximo” são empréstimos latinos antigos, em que a pronúncia /ss/, embora inicialmente errada, acabou se consagrando pelo uso repetido, tornando arcaica, pedante ou simplesmente errada a pronúncia latinizante /ks/.

Só que a coisa não é tão simples assim. “Sintaxe” é um termo técnico da linguística e da gramática cujo sentido é “ordenação”. A sintaxe se divide em dois processos: parataxe (isto é, coordenação) e hipotaxe (subordinação). Nestes dois últimos termos, a pronúncia do “x” é /ks/, o que tornaria lógica a pronúncia de “sintaxe” da mesma forma. No meu entender, articular “sintacse” não é um erro do mesmo nível de “mácsimo”, “inqüérito” ou “tóchico”. Por sinal, uma reforma ortográfica que venha a substituir “x” por “ss” terá de levar em conta essas variações.

Falo mais sobre esse assunto no meu vídeo “Palavras com duas pronúncias” do meu canal do YouTube Planeta Língua.

A língua muda por conta da moda

Alguém disse certa vez que a língua é um vírus mutante. A ideia da linguagem como vírus não é nova: ainda no século XX, o escritor norte-americano William S. Burroughs defendia essa tese, só que de maneira literal, isto é, para ele a aptidão linguística do ser humano era o resultado da contaminação de nossos antepassados hominídeos por uma infecção viral, talvez vinda do espaço.

Mais recentemente, a também norte-americana cantora Laurie Anderson disse – ou melhor, cantou – que a linguagem é um vírus, só que agora de maneira metafórica.

Essa metáfora é bastante útil na linguística, já que os fenômenos da mutação e do contágio, correntes na microbiologia, também estão presentes em nossa ciência.

Um exemplo recente de mutação de significado e consequente disseminação do significado mutante é a locução prepositiva por conta de. Essa expressão, que originalmente significava apenas “em nome de, por incumbência ou responsabilidade de”, ultimamente vem sendo cada vez mais empregada no sentido de “por causa de, em consequência de, graças a”. Antes, o entregador batia à porta do destinatário da mercadoria e dizia: “vim entregar estes pães por conta do padeiro Sr. Manuel”; ou seja, o padeiro Manuel era o remetente da entrega e não a sua causa. Hoje se diz que “o atraso na divulgação dos resultados da eleição ocorreu por conta de uma falha técnica no supercomputador do TSE”.

Como a evolução linguística é um caminho sem volta, e como quase toda mutação começa como um erro que, com o tempo e o uso disseminado, acaba se tornando um acerto, por conta de foi usado como sinônimo de por causa de por algum burocrata desinformado que desejava escrever de forma elegante e fugir do lugar-comum, da mesmice das palavras de largo uso. E os que leram o que ele escreveu acharam tão belo e original o emprego dessa locução que logo tal uso se espalharia por contágio, isto é, eu falo, você gosta, você repete, ele ouve, ele gosta, ele repete, eles ouvem, eles adoram, eles repetem…

Toda vez que ocorre uma inovação linguística, duas forças contrárias passam a agir sobre ela: de um lado, a força do contágio, que dissemina a inovação entre os falantes; de outro, a força dos professores e gramáticos, que tentam, quase sempre em vão, combater a inovação alegando que ela está errada, não está prevista nas gramáticas nem nos dicionários, que é um modismo tolo e passageiro e que a língua já dispõe de outras formas consagradas com a mesma função. É exatamente isso que está acontecendo agora mesmo. Só que o modismo tolo muitas vezes se consolida no uso, começa a ser usado generalizadamente pelas classes mais escolarizadas e, dali a algum tempo, os grandes literatos passam a usá-las correntemente em suas obras.

Portanto, alguém aí dúvida de que por conta de já conquistou seu espaço como alternativa “elegante” do desgastado por causa de?

É claro que o inverso também pode ocorrer. De tão usada, essa expressão pode tornar-se um clichê sem graça, e daqui a pouco por causa de poderá surgir como a nova maneira elegante de indicar causa, motivo, razão, mais ou menos como uma fênix que renasce das cinzas.

É esperar para ver o que acontece.

A origem da palavra “maricas”

Prof. Aldo, boa tarde. Qual é a origem da palavra “maricas”, que o Presidente Bolsonaro empregou? Obrigado.
Wanderson Simões dos Santos, Cuiabá, MT

Caro Wanderson, a palavra maricas, que significa “homem efeminado”, “homossexual masculino”, “fofoqueiro” e também “indivíduo medroso”, é um diminutivo de Maria, portanto é o mesmo que Mariazinha. Aliás, no passado era comum que mulheres jovens chamadas Maria tivessem como apelido Maricas, Maricota ou Mariquinhas. Esse xingamento, muito popular décadas atrás, hoje em dia anda meio fora de moda, substituído por termos mais fortes, como bicha, veado, etc. A ideia é comparar um homem a uma menininha e, assim, pôr em dúvida ao mesmo tempo a sua masculinidade e a sua maturidade.

Entre as crianças, é – ou era, sei lá – atributo geralmente aplicado ao garoto tido pelo grupo como muito medroso, não necessariamente efeminado ou homossexual. Em tempos de politicamente correto, esse insulto tem carga fortemente homofóbica.

Curiosamente, tal ofensa também existe em espanhol, de onde provavelmente importamos a palavra. Na língua de Cervantes, temos Marica e maricón, o primeiro datando de 1599, e o segundo, de 1517, o que parece estranho se pensarmos que maricón é aumentativo, e portanto derivado, de Marica. Mas é que a data do primeiro registro escrito de uma palavra (a que nós etimologistas damos o nome de terminus a quo) não corresponde necessariamente ao próprio nascimento da palavra. Por isso, é provável que Marica tenha nascido antes de maricón. Este último ainda se usa aqui na América espanhola com o significado original de “maricas, homossexual”; já na Espanha o sentido evoluiu para “sodomita”.

Uma advertência: existe em português o substantivo marica com o significado de “fina faixa de carne sob a pele do ventre”, que, nos mais gordinhos (ou melhor, nas pessoas portadoras de excesso de tecido adiposo), é popularmente conhecido como “pneuzinho”. No entanto, esse substantivo não tem nenhuma relação com o injurioso maricas, de que estamos tratando aqui.

As nuances da verdade

Algumas línguas apresentam mais nuances semânticas a respeito de certos conceitos do que outras. Já se disse que a língua inuíte, dos esquimós do Alasca, tem mais palavras para neve do que o português porque, para um povo que vive no gelo, essa distinção é fundamental; já para quem vive nos trópicos como nós, é irrelevante.

Se em português há uma diferença sutil entre ter razão e dizer a verdade, e uma diferença gritante entre estar errado e mentir, em algumas línguas da Polinésia se usam as mesmas expressões para ambos os sentidos.

Para nós, razão ou equívoco são julgamentos a respeito de uma opinião (portanto de uma crença sobre a realidade). Já verdade e mentira são julgamentos sobre a postura de alguém perante um fato. No primeiro caso, o erro ou acerto decorre do grau de conhecimento (ou de ignorância) do sujeito sobre a realidade; no segundo, verdade e falsidade decorrem de uma intencionalidade (sinceridade ou malícia) do falante. Por isso, dizer a uma pessoa que ela está equivocada é menos ofensivo do que acusá-la de estar mentindo. Ao mesmo tempo, dar razão a alguém é solidarizar-se com sua convicção, não necessariamente legitimá-la como quem prova uma tese.

Ao transformar os esquemas mentais em sentenças lógicas, a semiótica cognitiva tem contribuído para aclarar questões como essa. Se digo que o sujeito S1 está dizendo a verdade (ou mentindo) sobre um fato F, pressuponho primeiro que existe uma verdade objetiva a respeito de F e que S1 conhece essa verdade. Então se S1 diz F a um sujeito S2 (isto é, faz S2 saber F), ele diz a verdade; se diz o contrário, está mentindo.

Em termos lógicos:

  • F é um fato real objetivo: F(+real);
  • S1 sabe disso: S1 saber F(+real);
  • S1 afirma F(+real) a S2 (portanto diz a verdade): S1 fazer S2 saber F(+real);
  • S1 afirma F(–real) a S2 (portanto mente): S1 fazer S2 saber F(–real).

Por outro lado, se F é verdade e S1 não tem certeza disso, mas apenas uma convicção, então o esquema lógico é o seguinte:

  • S1 é de opinião que F(+real): S1 crer F(+real);
  • S2 sabe ou acredita que F(+real): S2 saber/crer F(+real);
  • S1 afirma F(+real) a S2 (portanto S2 lhe dá razão): S1 fazer S2 saber F(+real);

ou:

  • S1 é de opinião que F(–real): S1 crer F(–real);
  • S2 sabe ou acredita que F(+real): S2 saber/crer F(+real);
  • S1 afirma F(–real) a S2 (portanto S2 o julga equivocado): S1 fazer S2 saber F(–real).

Muito complexo? Deu nó na cabeça? De fato, não vou dizer que é totalmente simples. Mas esse tipo de álgebra cognitiva, embora pareça complicada aos não iniciados, descortina o que, em seu nível mais profundo, um enunciado significa. A questão é que cada língua, ao transformar essa descrição lógica hiperprofunda (isto é, em nível de raciocínio) da realidade em enunciados linguísticos de superfície (em nível de discurso), filtra uma série de informações. No exemplo aqui citado, as línguas polinésias se atêm mais à congruência entre o que é dito e o que é real do que à intencionalidade do falante. Para nós, talvez a intenção de quem fala seja mais relevante do que a veracidade ou não do conteúdo de sua fala. Essas diferentes nuances de significado revelam muito da cultura de cada povo, de seus valores e do modo como as pessoas se relacionam. Nos tempos atuais, em que a opinião vale mais do que a verdade, seria bom que todos entendessem a lógica por trás dos discursos.

O estupro culposo e a polêmica da semana

A língua portuguesa ganhou esta semana uma nova expressão: estupro culposo. Para quem não tem acompanhado o noticiário, trata-se do caso da jovem promoter catarinense Mariana Ferrer, que alega ter sido violada sexualmente por um empresário após ter sido drogada por ele. Exames comprovaram que, até então, ela era virgem.

A divulgação do vídeo da audiência on line de julgamento do empresário, de que participaram o juiz do caso, o promotor de justiça, o advogado de defesa do réu e a vítima, causou enorme indignação na sociedade pelo modo desrespeitoso como o advogado tratou a jovem e pela omissão tanto do juiz quanto do promotor perante tamanho acinte.

Mas o que mais surpreendeu a opinião pública foi o parecer do promotor e o consequente veredicto do magistrado absolvendo o empresário da acusação de estupro de vulnerável, já que, segundo o entendimento destes, não houve dolo na ação do réu, que não tinha como saber que a vítima estava em condição de vulnerabilidade.

Diante dessa alegada ausência de dolo, o site jornalístico The Intercept, que divulgara o vídeo, chamou jocosa e inteligentemente o ato do empresário de “estupro culposo”.

Cabe ressaltar que essa expressão jamais foi empregada durante o processo e o julgamento, até porque tal tipo penal não existe na legislação brasileira, tendo sido, portanto, uma criação poético-humorístico-mercadológica do site jornalístico. No entanto, a desinformação logo se alastrou na rede, e a turma da “lacração” passou a contestar de forma indignada o tal estupro culposo, viralizando hashtags como #nãoexisteestuproculposo, dentre outras.

Lacrações e desinformações à parte, o fato é que a expressão pegou e, a meu ver, veio a calhar, já que expressa bem o que foi o entendimento da corte. Afinal, venhamos e convenhamos, como é possível acreditar que um homem que realiza intercurso sexual com uma mulher não tenha condições de saber se ela está acordada ou dormindo, se está sóbria ou bêbada, lúcida ou drogada?

Ou seja, a aceitação da absurda tese da defesa pela acusação e pelo juiz, somada ao comportamento totalmente antiético e desumano dispensado pelo advogado à vítima, reforçaram ainda mais o aspecto viral da supracitada hashtag e do neologismo pseudojurídico veiculado por ela.

Portanto, galera, que fique claro: “estupro culposo” não é um tipo penal existente e, portanto, jamais foi invocado no processo, mas sim uma chamada espirituosa de um veículo de imprensa. Porém lembro aqui que o estupro doloso existe, ocorre no Brasil a cada oito minutos e, na opinião deste humilde cronista que pouco entende de Direito, foi o que aconteceu no caso Mari Ferrer.

A origem da palavra “luto”

Hoje, dia de Finados, vou responder à pergunta do leitor Paulo Sérgio Rezende Santos, que vem a calhar:

Bom dia. Ouvi dizer que a palavra “luto” veio do latim “lutus” porque o amarelo era a cor do luto na Roma antiga. Isso é verdade? Obrigado.

Meu caro Paulo, quem lhe disse isso fez uma pequena confusão entre duas palavras latinas, que são lūteus (e não lutus), adjetivo que significa “amarelo”, e lūctus, substantivo derivado do verbo lūgēre, que quer dizer exatamente “luto”.

Ou seja, a palavra portuguesa “luto” é empréstimo do latim lūctus, de mesmo significado. Quanto à ideia incorreta de que “luto” teria algo a ver com lūteus, isto é, com a cor amarela, justifica-se o equívoco: é que, na Roma antiga, as pessoas em estado de luto se vestiam de amarelo. Aliás, no Oriente, a cor do luto é o branco; a cor preta é uma adoção do Cristianismo. Esse hábito de vestir-se de negro após a morte de um ente querido surge na Idade Média e provavelmente tem origem na associação da morte com a escuridão e, consequentemente, com o desconhecido e também o sono eterno.

O fato é que muitos povos têm o costume de demonstrar pesar através da roupa. Mesmo os índios brasileiros, que geralmente não usam roupas, têm uma pintura corporal específica para celebrar os mortos.

Mas quem lhe disse que “luto” vem de lutus também deve ter confundido lūteus, “amarelo”, com lutum, “lodo”, já que a inexistente palavra lutus parece resultar do cruzamento de lutum com lūteus, talvez motivado pela impressão de que a lama às vezes tem cor amarelada. Mas trata-se de mera etimologia popular, isto é, sem base científica, pois em latim há o adjetivo lūteus (com u longo), que, como vimos, significa “amarelo” e luteus (com u breve), derivado de lutum, “lama”, que significa “feito de lama, feito de argila” e também conotativamente “negro, sujo”. Portanto, para os romanos a lama era negra e não amarela.

Uma última curiosidade: a palavra latina lūteus, “amarelo”, deriva de lūtum, nome de uma planta (a gauda, ou lírio-dos-tintureiros) que era justamente usada para tingir os tecidos de amarelo. E a origem remota de lūtum é a raiz indo-europeia *gl̥tom, que também deu em inglês gold, “ouro” (pois o ouro é amarelo).

Bom feriado a todos!

Nenhum ou nem um?

Bom dia.
Quando usamos “nenhum” e “nem um”? Se possível aplicação em frases.
Muito obrigado.
Atenciosamente,
Rodrigo da Silva Gonçalves

O emprego de “nenhum” e “nem um” pode, de fato, causar confusão, já que as duas expressões têm significados próximos e pronúncia idêntica. Aliás, etimologicamente, “nenhum” provém de “nem” + “um”, embora essa combinação se tenha dado ainda na fase latina vulgar: nec (ou neque) unum, “nem mesmo um, nem um sequer”.

O fato é que “nenhum” é pronome indefinido que se opõe a “algum” (assim como “ninguém” se opõe a “alguém” e “nada” se opõe a “algo”), ao passo que “nem um” é a combinação da conjunção “nem” com o numeral “um”. Portanto, se “nenhum” indica inexistência em sentido mais geral, “nem um” se aplica somente a substantivos contáveis (isto é, aos quais se pode antepor numerais cardinais, como um, dois, três…). Por sinal, esse é um bom critério para distinguir quando usar – ou não – um ou outro. Por exemplo, “dinheiro” é um substantivo incontável (também chamado de contínuo), pois não posso quantificá-lo por numerais (dizer “um dinheiro”, “dois dinheiros”, etc., seria absurdo). Já “moeda” é contável (ou descontínuo): é perfeitamente possível dizer “uma moeda”, “duas moedas”, e assim por diante.

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Aqui cabe um adendo: narra a Bíblia que Judas delatou Jesus por 30 dinheiros, o que tornaria o substantivo “dinheiro” contável. Errado: nas Escrituras, dinheiro não é empregado com o significado de “capital, verba, numerário”, como fazemos hoje em dia, mas trata-se da tradução incorreta da unidade monetária romana, o denarius. Ou seja, Judas corrompeu-se por 30 denários, valor, por sinal, muito baixo em comparação com o dinheiro encontrado na cueca de certo senador.

Mais um adendo: o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, costuma falar em “dinheiros públicos”; nesse caso “dinheiros” quer dizer “verbas” e só por isso admite o plural.

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Pois bem, se “nenhum” se correlaciona a “algum” e “um” se correlaciona a “dois”, “três”, etc., um teste simples para saber se devemos empregar “nenhum” ou “nem um” é fazer a substituição dessas expressões por suas correlativas.

Não tenho nenhum dinheiro na carteira. = Não tenho dinheiro algum.

Você tem algum dinheiro? Não tenho nenhum.

Não tenho nenhuma moeda na carteira. = Não tenho moeda alguma.

Você tem algumas moedas? Não tenho nenhuma.

Como vemos, “nenhum” funcionou tanto com “dinheiro” quanto com “moeda”. Testemos agora “nem um”, lembrando que essa expressão equivale a “nem um só, nem um sequer, nem mesmo um”:

Você tem algumas moedas aí com você? Não tenho nem uma moeda. (Isto é, não tenho uma só moeda, uma moeda sequer, não tenho nem uma, nem duas, nem três.)

Tentemos agora com “dinheiro”:

Você tem algum dinheiro aí? *Não tenho nem um dinheiro. (O asterisco indica que essa construção é inaceitável em português.)

Ora, “dinheiro” é incontável, logo não faz sentido falar em “um dinheiro”, “um só dinheiro”, “nem um dinheiro sequer”. Como resultado, “nem um” jamais pode ser aplicado ao substantivo “dinheiro”.

Portanto, se o termo em questão puder ser substituído por “algum”, trata-se de “nenhum”; se puder ser substituído por “nem mesmo um” ou “nem um só”, trata-se de “nem um”.

Outra dica: embora “nenhum” e “nem um” tenham a mesma pronúncia, não têm a mesma entonação. Como vimos, “nem um” significa “nem mesmo um”, “nem unzinho sequer”, logo sua entonação é mais enfática, com elevação do tom e aumento do volume da voz no “nem”. Repita em voz alta e perceba a diferença: “Não tenho nenhuma moeda, só notas de papel” x “Não tenho nem uma moeda, que dirá duas!”.

Mitos e verdades sobre a linguística – e os linguistas

A linguística já tem 200 anos de existência, mas ainda é uma ciência pouco conhecida da maioria das pessoas. De fato, muitas delas acreditam que a única disciplina que se ocupa da língua é a gramática, já que é a única que se estuda no ensino básico.

Consequentemente, nós linguistas somos muitas vezes confundidos com gramáticos ou professores de português. Não raro, quando digo que sou linguista, a pessoa fica imediatamente constrangida e diz: “Puxa, então a partir de agora eu preciso me policiar para não falar errado na sua frente”. Na coluna Pergunte ao Linguista deste blog, a maioria das perguntas que recebo diz respeito à famosa dicotomia certo x errado ou traz dúvidas de gramática normativa. Até aí, tudo bem: se sei a resposta, respondo; se não sei, pesquiso; se está totalmente fora da minha área de atuação profissional, me desculpo, e pronto.

Mas, mesmo aqueles que têm alguma noção do que venha a ser a linguística revelam por vezes certas crenças equivocadas que lhes foram inculcadas ou por professores de português mal (in)formados ou por divulgadores da linguística pouco preparados (e, sim, há muitos divulgadores científicos na área da linguística, mas a maioria são estudantes de graduação ou pós-graduação, portanto profissionais ainda não totalmente formados, com pouca experiência profissional e sobretudo com pouca maturidade).

Decorrência disso é que há muitos mitos cercando a nossa profissão. Por isso, resolvi aqui discutir alguns deles e tentar esclarecer o que há de verdade e o que há de fantasia em cada um.

Primeiro mito: a linguística só estuda a língua falada, especialmente no registro coloquial; a língua escrita formal é território exclusivo da gramática normativa. Na verdade, durante todo o século XIX, em que a pesquisa linguística foi basicamente histórica, os linguistas se debruçaram sobre os únicos registros existentes de estados passados das línguas, e estes eram todos documentos escritos. Foi só no início do século XX, a partir da obra de Ferdinand de Saussure, que a linguística se voltou mais à língua falada, até porque 96% das línguas do mundo não têm expressão escrita (são as chamadas línguas ágrafas). Em outros dois artigos (A importância da escrita na pesquisa linguística e Língua oral ou língua escrita: qual é melhor?), no entanto, já expliquei que a modalidade escrita da língua é objeto legítimo da linguística tanto quanto a língua oral. Isso continua valendo para os estudos históricos, mas também para a análise do modo como as pessoas escrevem hoje em dia. E isso tem implicações no ensino da língua. Aliás, a linguística pode contribuir muito com os gramáticos normativos, ortógrafos e educadores, fornecendo-lhes subsídios científicos para guiar suas tarefas técnicas.

Segundo mito: a linguística é contra a gramática normativa e defende que cada um deve se expressar como quiser, qualquer que seja a situação de discurso. Nada mais falso! É bem verdade que há alguns colegas falsamente progressistas, inclusive professores de prestigiosas universidades públicas, que, influenciados por uma leitura enviesada da sociolinguística, defendem que a inclusão social passa pela legitimação em todas as esferas da sociedade do modo de falar dos menos escolarizados. Mas o que a própria sociolinguística ajudou a demonstrar é que a língua varia não só de uma classe social a outra como também de uma situação de comunicação a outra. Isso significa que há situações, principalmente profissionais, em que é legítimo exigir o uso da norma-padrão, aquela regulamentada pela gramática normativa. O que linguistas verdadeiramente progressistas entendem como inclusão social é o ensino dessa norma-padrão a todos os cidadãos, para que todos tenham acesso a melhores posições sociais e profissionais e, por conseguinte, acedam a uma vida melhor. Tanto não é verdade que a linguística defenda o vale-tudo na língua ou que deseje demolir a norma-padrão que os próprios linguistas pseudoprogressistas se expressam nessa norma nos artigos em que advogam a abolição da dita-cuja. Ou seja, esse combate à norma é posição absolutamente minoritária entre os linguistas e não passa de hipocrisia com viés ideológico e político-partidário.

Terceiro mito: todo linguista é poliglota. Não, não necessariamente. Aliás, a maioria dos linguistas que conheço fala no máximo duas línguas: português e inglês. No entanto, é natural que as pessoas vocacionadas a trabalhar com o objeto língua amem as línguas e se interessem por várias delas. Ou seja, muitos linguistas (inclusive este cronista) são, de fato, poliglotas. Eu particularmente acredito que um linguista poliglota seja melhor profissional do que um monoglota. E explico: quando só falamos a nossa própria língua, ou no máximo mais uma muito próxima da nossa, como é o caso do inglês ou do espanhol, tendemos a não perceber certos fenômenos e certas relações que transcendem o nosso idioma; corremos, além disso, o risco de tomar por gerais fatos que são particulares da língua que falamos/estudamos ou, ao contrário, de considerar como particularidades da nossa língua fatos que são gerais ou, pelo menos, comuns a muitos idiomas.

O que ocorre é que grande parte dos nossos linguistas se formou em Letras com especialização em um único idioma, geralmente o próprio português, e só foi trabalhar efetivamente com a ciência da linguagem na pós-graduação, acabando por dedicar-se ao estudo da língua em que se especializou. Contudo, enquanto no Brasil a maior parte dos linguistas se dedica ao estudo da língua portuguesa, e mais especificamente ao português brasileiro, em países do Primeiro Mundo estuda-se de tudo, desde a própria língua pátria até idiomas muito exóticos e mesmo línguas mortas. O que sabemos sobre a antiga língua egípcia, por exemplo, se deve muito mais a linguistas franceses, britânicos e norte-americanos do que aos próprios egípcios.

Daqui decorre o quarto mito, o de que o linguista deve necessariamente estudar sua própria língua e, mais, o ensino dessa língua. Como disse, se esta é a tendência no Brasil, não é uma regra geral. Aliás, as grandes teorias linguísticas nasceram de pesquisadores que não só estudaram muitas línguas diferentes como também analisaram a linguagem humana de maneira abstrata, como sistema universal ligado aos processos cognitivos da mente. Nesse sentido, fazemos aqui no Brasil, com raras e louváveis exceções, o que chamo de a pequena ciência, enquanto nos países mais desenvolvidos se faz a grande ciência.

Quanto a dedicar-se a pesquisas sobre o ensino de língua, trata-se de tarefa da chamada linguística aplicada. É evidentemente uma tarefa muito digna e muito importante, sobremaneira num país com um déficit educacional tão grande como o nosso. Mas trata-se apenas de uma dentre dezenas, talvez centenas, de aplicações possíveis dessa ciência. Logo, nem todo linguista entende de ensino de línguas; tudo depende da área em que ele é especialista.

Bem, acho que por ora é suficiente. Meu conselho aos leitores é que não acreditem em tudo o que se diz sobre a linguística: há muita fake news e muita manipulação ideológica a respeito.

O preconceito linguístico é um problema dos linguistas?

Um dos temas mais frequentes nos círculos linguísticos atualmente é a questão do chamado preconceito linguístico. O conceito, instituído por Marcos Bagno no livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz, é definido como qualquer forma de discriminação a uma pessoa ou grupo pelo modo como fala. No entanto, o próprio Bagno reconhece que o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social, pois o que se discrimina não é propriamente o linguajar de certas pessoas e sim as próprias pessoas. Quando, por exemplo, censuramos os erros gramaticais (do ponto de vista normativo, bem entendido) de um falante de pouco estudo, o problema não é a fala desse indivíduo em si, mas o fato de que essa fala “rústica” é indício de uma origem pobre. Portanto, o problema não é a fala, mas a posição social do sujeito falante.

Não à toa, o preconceito linguístico se dirige as mais das vezes aos membros das classes mais baixas e aos cidadãos procedentes das regiões mais atrasadas economicamente. No caso brasileiro, seu alvo preferencial são os pobres em geral e os moradores da periferia em particular, os “caipiras” (isto é, habitantes do meio rural) e os nordestinos, em especial os migrantes para os grandes centros urbanos.

Nota-se isso mesmo em situações inocentes como um programa humorístico em que o caipira e o nordestino são sempre figuras cômicas, cuja fala é caricatural. De modo mais geral, todos temos a tendência a rechaçar aquilo que de nós é muito diferente, o que significa que os próprios interioranos e nordestinos podem ter preconceito contra os falantes urbanos do Centro-Sul do país.

Além disso, tendemos a estranhar e, no limite, rejeitar falas que se afastem muito do padrão gramatical, vocabular ou fonético da língua. (Sobre este último padrão já falei no artigo Qual o sotaque mais bonito? E o mais feio?.)

Mas, se o preconceito linguístico é, na verdade, preconceito social, quem deve se ocupar dele: os linguistas ou os sociólogos?

Existem muitos tipos de preconceito: o preconceito racial, ou racismo, o preconceito étnico ou de origem geográfica, que também é uma forma de racismo, o preconceito religioso, o preconceito sexual/de gênero, ou sexismo, e muitos outros.

Bem, o racismo como fenômeno social é objeto das chamadas ciências sociais (história, sociologia e antropologia, principalmente) e não da biologia, a quem o conceito de raça está mais intimamente ligado. Igualmente, o preconceito de origem geográfica não é objeto de estudo dos geógrafos, nem o sexismo é estudado pelos sexólogos, e menos ainda o preconceito religioso faz parte da teologia ou da ciência da religião. Essa constatação suscita a pergunta: por que os linguistas deveriam estudar o preconceito linguístico? A meu ver (e esta é uma posição estritamente particular minha), todo preconceito social, seja ele de raça, origem, sexo, religião, origem ou posição política, é um fenômeno a ser estudado pela sociologia, e o preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social do qual a língua é só um índice.

Na verdade, há muito pouco de linguístico a ser estudado no preconceito linguístico: quando estudamos a fala dos menos favorecidos e dos grupos discriminados, nosso foco é a sintaxe, a morfologia, o léxico, a semântica e a fonética desses falantes – ou seja, a questão social propriamente dita não entra em linha de conta. Ao mesmo tempo, vemos que a maioria, se não a totalidade, dos trabalhos acadêmicos sobre preconceito linguístico pouco fala da língua em si e muito da condição social dos falantes e de seu sofrimento diante da discriminação.

O fato é que muitos linguistas não analisam simplesmente o fenômeno sob o ponto de vista científico (isto é, utilizando o chamado método científico), mas fazem militância político-ideológica, o que não tem nada a ver com o fazer científico. De fato, a ciência faz juízos de verdade, não juízos de valor. É claro que todo cientista é, antes de mais nada, um cidadão e, como tal, tem todo o direito de manifestar suas posições político-ideológicas e até partidárias, mas um trabalho acadêmico não é o melhor lugar para fazer isso.

Todos sabemos que há muito preconceito e mesmo violência fatal contra os integrantes do grupo LGBT, mas, se estes são reconhecidos por seus perseguidores pelo modo como se vestem ou gesticulam, seguramente não compete aos estudiosos da moda ou da gestualidade (no caso, os semioticistas) analisar esse triste fenômeno.

Evidentemente, o preconceito é fruto da ignorância. Mas, como também mostrei no artigo anterior, o preconceito, no sentido de prejulgamento, é um mecanismo de origem biológica que em muitos casos pode salvar nossas vidas. O exercício do preconceito no meio social é um resquício de nossa ancestralidade animal, que só a educação e a cultura podem ajudar a domesticar.

Por isso mesmo, todo ser humano tem o direito a ter seus preconceitos e a ser ignorante. O preconceito só se transforma em crime quando passa do simples sentimento de repulsa a alguém à violência física, psicológica, moral ou verbal, ou quando se traduz em cerceamento do direito alheio. É digno de nota que o preconceito linguístico nunca se traduz em crime. Pelo menos, eu nunca tive notícia de que alguém tenha sido espancado ou morto por falar português “errado”.

Mesmo em casos famosos, como o do linchamento moral do polêmico ex-ministro da educação Abraham Weintraub após este ter grafado “imprecionante” e “paralizar”, é preciso levar em conta que a crítica da mídia e de parte da população não se dirigiu ao nível cultural do ministro em si, mas sim à inadequação desse nível ao cargo que ele ocupava.

O preconceito linguístico pode ser de três tipos: gramatical, lexical e fonético. O preconceito gramatical é voltado contra os que falam “errado”, ou seja, aos que não se expressam segundo a norma culta. Só que, se quem fala errado não teve a chance de estudar, esse preconceito é injusto. Mas, mais uma vez, identifica-se a falta de estudo com a pobreza. Logo, o verdadeiro alvo do preconceito é a classe social e não a gramática do indivíduo.

Já o preconceito fonético e o vocabular se direcionam preferencialmente contra os que são de outra região ou estrato social e, por isso, têm vocabulário e pronúncia peculiares. Nesse caso, como afirmei no início, o preconceito não é contra a fala e sim contra a origem do falante.

A melhor forma de acabar com todos esses preconceitos ligados à linguagem é disseminar entre todos educação de qualidade: quando todos forem bem educados, o “erro gramatical”, especialmente o erro crasso, praticamente desaparecerá. Quando todas as regiões do país forem igualmente desenvolvidas, o preconceito contra o modo de falar desta ou daquela região também será bastante mitigado – a não ser, é claro, naquelas brincadeiras saudáveis e desprovidas de maldade em que paulistas gozam a cara de cariocas e vice-versa.