Motociata ou motosseata?

Neste Sete de Setembro, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez promoveu uma motociata – e mais uma vez sem usar capacete –, o que, por sinal, se tornou marca registrada de seu governo. Tanto que essa prática até plasmou a própria palavra motociata, uma passeata de motocicleta. Mas quem consolidou a grafia do termo foi a imprensa escrita. E de maneira errada.

Em primeiro lugar, voltemos à palavra passeata, a primeira da família que surgiu em nosso idioma, como empréstimo do italiano passeggiata, “passeio”, derivada do verbo passeggiare, que, como o nosso passear, remete ao primitivo vocábulo passo. Ou seja, trata-se de um percurso cumprido a pé, dando passos. O que o português fez foi aclimatar o termo italiano ao nosso idioma, substituindo o radical original do verbo passeggiare pelo do verbo vernáculo passear. Em ambas as línguas, a palavra passou em certo momento a designar um deslocamento coletivo, especialmente para protestar ou comemorar.

Quando essas passeatas de celebração ou protesto passaram a ser feitas de carro, cunhou-se o termo carreata utilizando o mesmo sufixo ‑ata de passeata. Agora que Bolsonaro introduziu o hábito de fazer passeatas de motocicleta, o lógico é que se fizesse um mix (chamado de palavra-valise) de moto e passeata, que resultaria na grafia motosseata e não motociata, como trazem a mídia impressa e a eletrônica.

Será que quem cunhou essa grafia motociata estava pensando em negociata, por exemplo? Não seria estranho em se tratando do governo Bolsonaro e seus aliados do Centrão ou da quantidade de imóveis que sua família comprou com dinheiro vivo. Mas não deve ter sido esse o caso. Acho mais provável creditar essa grafia esquisita à ignorância do jornalista que deu à luz o termo, seguida da ignorância dos jornalistas que o replicaram. O problema é que, uma vez consolidada uma grafia errada, leva tempo para consertá-la. Haja vista o tempo que demorou para que as pessoas entendessem que grafar mussarela com ss era errado e começassem a escrever muçarela corretamente com ç.

*-*-*

Em tempo: como brasileiro, me sinto envergonhado pelo papel ridículo que fizemos mais uma vez perante o mundo na comemoração dos 200 anos da independência. “Imbrochável”, comparação machista entre primeiras-damas, uso da cerimônia para fazer campanha política em vez de saudar a importância da data, menosprezo ao convidado de honra da solenidade, o presidente de Portugal, posto no palanque em posição secundária enquanto a lateral do presidente Bolsonaro era ocupada por um Luciano Hang fantasiado de Zé Carioca… Enfim, nenhum respeito à liturgia e às responsabilidades do cargo de Presidente da República, ainda mais em data tão importante e que só se repetirá daqui a 100 anos. Que lástima!

13 comentários sobre “Motociata ou motosseata?

  1. Caro professor Aldo, concordo plenamente com as colocações relativas ao nosso ‘Bossal’ , mas acho que a grafia errônea de motociata foi relacionada à motocicleta. Um abraço. Flávia.

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  2. O que dizer de palavras como shampoo, que conseguiram sobreviver e tornar relicto xampu.

    Temos uma sociedade que desvaloriza muito o seu idioma e dentrimento de anglicismos e outrora galicismos.

    E.g.:
    Berço ao invés de cuna;
    Show face a espetáculo, já dizia Suassuna;
    Briefing, quando temos resumo;
    Crumble, no lugar de migas ou migalhas;
    Garçom, ao invés de rapaz ou menino;
    Menu, por cardápio (grande Castro Lopes);

    Talvez seja uma herança cultural portuguesa, afinal o R gutural franquico e, posteriormente, francês fora adotado pela corte portuguesa em troca do R latino vibrante palatoalveolar. Este pois que foi trazido ao Brasil e é presente hoje no Rio de Janeiro, antes Capital do Brasil, e em estados do norte onde as correntes marítimas deixavam o comércio e o contato direto e intercâmbio cultural com portugal mais rápido que com o restante da costa brasileira em época colonial.

    Bom. Eu como nortista só não consigo mesmo superar a falta da conjugação verbal de segunda pessoa do singular. Replicado por jornalistas, artistas e “intelectuais” com os seus vários tu vai e tu foi. As pessoas reproduzem profusamente e os estudados não relializam esforço algum. Matam o seu idioma e ainda o substituem por semas de línguas alheias.

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    1. Minha esposa estava fazendo um “escore” aqui da geriatria da chance de óbito do pai dela nos próximos 10 e 14 anos.

      Contagem e pontuação não… escore.

      Eu confesso que prefiro ser um careta de geração y por volição de usar palavras vetustas e insólitas ao defender minha nolição de usar termos que empobrecem o meu vocabulário e a minha língua materna.

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  3. Parei de te ler quando senti o cheiro de mortadela. Sabes tanto português quê se referes ao Presidente eleito (e será reeleito), para maioria dos brasileiros pelo mome , porque não Presidente Bolsonaro?? E o maior ladrão do mundo é tratado como Ex Presidente???

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    1. Como todo bolsonarista, você é um tosco. Em primeiro lugar, não tenho nada de mortadela, sou de centro e vou votar na terceira via, pois não voto em ladrões nem de esquerda nem de direita. Em segundo lugar, não podendo defender o indefensável, você opta por me atacar: é o famoso recurso retórico do “argumentum ad hominem”. Em terceiro lugar, eu trato com respeito a quem merece o meu respeito, e esse não é o caso do Bozo. Por último, seu presidente fez um governo tão ruim que será derrotado justamente por aquele a quem tanto combateu. Ironia do destino!

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  4. Peço desculpas por ressuscitar este ponto crucial para a língua portuguesa, mormente para a sua morfologia. Sobre ele, há considerar ainda o seguinte: 1) Palavras como a que é objeto deste post são idiotismos – o desvairo não é meu –, não do português, mas da imprensa nacional, por si só ou por acolher maternalmente qualquer artefato linguístico que adquira repercussão. 2) Peço licença ao professor Aldo para afirmar que não é somente lógico lançar mão do conceito de palavra-valise para justificar a formação, seja de motociata, seja de motosseata; é o único conceito aplicável; tautologia pura, admito. 2a) A despeito disso, o conceito é absolutamente arbitrário, voluntarioso. Em outros termos, trata-se de um caso de palavra-sabonete – basta a menção, para não ofender as senhoras e as crianças. Nosso exemplo emérito é o de motocicleta, cujo étimo é o inglês ou o francês, e não palavra-valise. 2b) O princípio acabou por dar origem a palavras que perderam a marca de informal, jocoso ou outras afins. Por exemplo, Belíndia (criação do economista e membro da Academia Brasileira de Letras Edmar Bacha). O vocábulo, para dizer verdade, condensa e “harmoniza” de modo genial realidades díspares, e demonstrou à larga, na prática, a sua utilidade expressiva. 3) A etimologia de passeata – falamos entre especialistas e curiosos, como eu – não pode ser outra senão o calco puro e simples do italiano passeggiata. 4) Por outro lado, verificar nos nossos dicionários a formação de palavras como carreata, negociata, mamata é uma experiência lisérgica. No Houaiss, por exemplo, a etimologia de motocicleta revela um estado mental próximo a uma sobredose de alucinógenos. 5) Por um ou outro (des)caminho – o comentário já está muito extenso –, toma-se em consideração o radical da palavra “primitiva”. 6) Lancemo-nos à aventura: motocicleta > motocicletar/motociclear > motocicletado/motocicleado > motocicletada/motocicleada/motocicleata.

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    1. Prezado Arnaldo, a sua hipótese de “motociata” = “motoci(cleta)” + “-ata” faz algum sentido, mas ainda acredito que a palavra-molde para “motociata” foi “passeata”. Embora nenhum de nós dois possa provar sua tese, pois isso requereria perguntar ao criador do termo qual foi sua inspiração, e isso, a meu ver, é impossível, ainda acho, com o devido respeito, que a minha suposição seja um pouco mais provável. Mas quem é que sabe, né?

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      1. Caro professor Aldo, eu não “defendi” a forma motociata. O raciocínio se baseia no particípio do verbo hipotético. Os sufixos -ada e -ata são equivalentes, ambos provêm do latim, um no português, outro no italiano. Inexplicavelmente – para mim –, passeata entrou no vernáculo já no dicionário de Morais (10.ª edição pelo menos), em vez de passeada. […] Pausa para a estupefação. O que tentei sugerir, da maneira mais breve possível, foi justamente o que o senhor havia dito em outro comentário sobre a teoria dos constituintes imediatos. Ora, como o sufixo -ata acabou entrando na nossa família, a lógica pedia um verbo e, por conseguinte, um particípio. Como está no meu comentário, o que sugiro, embora seja duro recalcitrar contra o aguilhão (São Paulo Apóstolo), é a forma motocicleata, por analogia pura e simples com passeata. Poderia ir mais longe se fosse um Napoleão M. de Almeida, e “impor” a forma motocicleteata. É ridículo, mas, com a imprensa que temos… vida que segue.

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  5. Em época de copa do mundo memorei dessa postagem. O motivo é causado pelo gentílico insólito Qatari pras pessoas que são do Catar.

    Seguindo as regras de aplicação de gentílico o correto não seria utilizar o dicionarizado ‘Catariano’ ou, até mesmo, valermos-nos da desinência gentílica -ense para chamar aqueles natos no catar de catarinenses (hahaha) ou catarenses?

    Em suma, o fato que mais uma vez temos os meios de comunicação errantes e anuentes com relação a termos populares de internet.

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  6. Caro AmazonDruid, não sou gramático nem lexicógrafo e confesso que não consultei nenhum dicionário para ver como é o gentílico de quem nasce no Catar – ou Qatar. Mas, desde que quem nasce na Somália é somali, não vejo nada de errado em chamar quem nasce no Catar de catari – ou qatari.

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